Reciclando idéias (Atualizado!)





Assim como devemos limpar nossas moradas interiores de nossos pecados - os quais corroem nossas almas - que possamos realmente nos envolver nos cuidados com nossa casa comum, cuja desorganização de suas cadeias sistêmicas são fruto, majoritariamente, destes mesmos pecados individuais e também dos coletivos, sejam estes conscientes ou não. Entretanto, sou contra à mudança litúrgica para inclusão de um período específico para a Criação, pois seria confessar o desconhecimento da própria fé e a já existente abordagem.  E antes que me entendam mal, falo de liturgia, missal e não de termos um período no ano para celebrarmos a criação de Deus.

Temos que ter um cuidado extremo com os modos nos quais professamos nossa fé, sem adotarmos uma visão pasteurizada, ou perderemos o rumo...

(01.09.2016)

                                                       
Precisas de um bom exame de consciência

Observa a tua conduta com vagar. Verás que estás cheio de erros, que te prejudicam a ti e talvez também aos que te rodeiam. Lembra-te, filho, de que não são menos importantes os micróbios do que as feras. E tu cultivas esses erros, esses desacertos - como se cultivam os micróbios no laboratório - com a tua falta de humildade, com a tua falta de oração, com a tua falta de cumprimento do dever, com a tua falta de conhecimento próprio...
E, depois, esses focos infectam o ambiente. Precisas de um bom exame de consciência diário, que te leve a propósitos concretos de melhora, por sentires verdadeira dor das tuas faltas, das tuas omissões e pecados. (Forja, 481)

A conversão é obra de um instante; a santificação é tarefa de toda a vida. A semente divina da caridade, que Deus depositou em nossas almas, aspira a crescer, a manifestar-se em obras, a dar frutos que correspondam em cada momento ao que é agradável ao Senhor. Por isso é indispensável que estejamos dispostos a recomeçar, a reencontrar - nas novas situações da nossa vida - a luz e o impulso da primeira conversão. Esta é a razão pela qual nos devemos preparar com um exame profundo, pedindo ajuda ao Senhor, para que possamos conhecê-lo melhor e conhecer-nos melhor. Não existe outro caminho, se queremos converter-nos de novo. (É Cristo que passa, 58)

Por São Josemaría Escrivá

(15.08.2016)




Pira Olímpica 2016


Não sei se só eu tive esta leitura das piras olímpicas da Candelária e do Maracanã, mas além de fantásticas com o conceito do aquecimento do ar e a diferença da temperatura movimentar as pás extra-finas, tive um insight "espiritual". Está bem, sei que soa boboca, mas o movimento das pás se parece com o movimento do sol para quem já viu um vídeo da NASA e o Sol é vida... 

Meu Senhor é retratado como o sol e a segunda pira tanto pode ser vista como este, ou como um ostensório gigante diante da Candelária - cujo nome possui como origem do prefixo a espanhola: "candela" que significam vela ou tocha. E atualmente, candela é usada em nosso idioma como unidade técnica de medida de intensidade luminosa.

Mesmo que o artista não tenha desejado esta intenção, o local dá margem para que possamos enxergá-la assim. Será que concorda comigo?

Fonte: O Globo

Fonte: O Globo
(06.08.2016)





Dá para escrever um livro inteiro sobre a nossa fé, a criação e o livre-arbítrio só com esta foto

Fonte: Rádio Vaticana

(29.07.2016)




Papo entre amigos...

Lendo a Laudato Si' (113, 107) encontrei palavras que se alinham com o juramento que fiz na colação de grau e estas expressam muito bem algumas das coisas que acredito e que são indivisíveis. Também fiquei a me perguntar sobre o exercício de minha profissão para o benefício do Reino...

"Se a arquitetura reflete o espírito duma época, as mega-estruturas e as casas em série expressam o espírito da técnica globalizada, onde a permanente novidade dos produtos se une a um tédio enfadonho. Não nos resignemos a isto nem renunciemos a perguntar-nos pelos fins e o sentido de tudo. Caso contrário, apenas legitimaremos o estado de fato e precisaremos de mais sucedâneos para suportar o vazio".

"Assim podemos afirmar que, na origem de muitas dificuldades do mundo atual, está principalmente a tendência, nem sempre consciente, de elaborar a metodologia e os objetivos da tecnociência segundo um paradigma de compreensão que condiciona a vida das pessoas e o funcionamento da sociedade. Os efeitos da aplicação deste modelo a toda a realidade, humana e social, constatam-se na degradação do meio ambiente, mas isto é apenas um sinal do reducionismo que afeta a vida humana e a sociedade em todas as suas dimensões. É preciso reconhecer que os produtos da técnica não são neutros, porque criam uma trama que acaba por condicionar os estilos de vida e orientam as possibilidades sociais na linha dos interesses de determinados grupos de poder. Certas opções, que parecem puramente instrumentais, na realidade são opções sobre o tipo de vida social que se pretende desenvolver".

* * *

"Juro que no exercício das profissões de Arquiteto e Urbanista, respeitando a ética profissional, lutarei para que a arte e a técnica do meu tempo, orientadas no sentido criador, possam melhor servir ao bem estar material e espiritual do homem".




. O que devem ter pensado os projetistas do conjunto arquitetônico do Vaticano? E os dos demais templos?

. O que pensam os arquitetos que projetam habitações sociais de baixa renda? 

. E os que projetam para aqueles que controlam as maiores riquezas? 

. Será que quem projeta um hospital, um asilo, uma creche ou um orfanato pensa no bem estar emocional e espiritual do paciente/morador, ou apenas maximiza áreas como os que projetam a maioria dos edifícios habitacionais atuais?

. E os presídios? Você já viu como é a planta-baixa de um? Como deve ser projetar ambientes onde a negação de tudo em que acreditamos condiciona o "estilo de vida"?

. Como deve ser projetar uma praça ou parque e ter imposições políticas para incluir os equipamentos necessários ao lazer de perfil social da população em detrimento de outros?

. Será que um arquiteto que se dedica ao paisagismo se realiza apenas em atender a quem pode pagar e manter um projeto seu? Ou será que ele também se realiza em ajudar comunidades a incorporar porções de paisagismo em seus entornos, aumentando assim o reconhecimento de pertencença e transformação àqueles ambientes?

. Será que um arquiteto que gerencie obras se preocupa com desperdícios além do viés econômico? Será que ele busca assegurar que tudo seja construído com as melhores técnicas para o que foi especificado em projeto, garantindo a durabilidade e qualidade do mesmo? Será que ele se preocupa em sensibilizar os colaboradores com valores mais profundos para com o manuseio de materiais, recursos e também com os próprios valores individuais do trabalho de cada artífice?

. Será que um arquiteto que atua na Segurança do Trabalho se preocupa realmente com a ergonomia e conforto ambiental dos espaços? Será que ele se esforça para fazer om que os colaboradores de uma organização estejam protegidos realmente de acidentes ou só cumpre uma função legal para manter a organização dentro do simples atendimento legal?

. Será que os urbanistas projetam os deslocamentos com foco na mobilidade urbana orientada para o acesso de todos ou prioriza algum setor? Será que as escalas dos equipamentos projetados realmente são adequados à uma população média? Será que sofrem ao querer projetar bairros mais inclusivos e são limitados por imposições políticas?

. Será que um urbanista ao participar da elaboração de um plano diretor, consegue eliminar variáveis até encontrar as melhores opções de zoneamento e inclusão de equipamentos urbanos como um aterro sanitário, uma ETE, uma ETA, pontos de coleta de resíduos, dentre tantos outros? (Te peguei! Achou que era atribuição exclusiva de engenheiros ambientais ou sanitaristas, hein?) 

. Será que um arquiteto que trabalhe com a certificação de edificações sustentáveis vai além do ato de projetar e certificar para quem pode bancar um SGA e sua consultoria? Ou será que ele busca distribuir melhor seus saberes por outros que não têm acesso a um serviço formal?

Será...? Será...? Será...? 

São tantas as possibilidades, tantos os talentos e áreas de atuação, tantos profissionais com os saberes desperdiçados ou sub-utilizados nesta profissão (como em qualquer outra, não é mesmo?), que normalmente nem paramos para pensar nestas coisas: apenas deixamos a vida nos levar. Talvez todos nós, na ânsia da sobrevivência diária, esqueçamos as maravilhas que existem em nossos atos de trabalho. Talvez tenhamos endurecido corações e visões, mas precisamos lutar contra isto como cristãos e co-partícipes da criação. 


Não serei hipócrita em dizer que sempre me sinto otimista ou vivencio sempre e plenamente a fé que professo. Não sou como uma Pollyanna, mas também não sou como uma Hardy Har Har ... Não, mesmo. Acredito que uma das maiores graças que tempos em nosso tempo é a possibilidade de acesso à informação e ao aprendizado. E que talentos também incluem responsabilidades BEM sérias. 

Se você só se preocupava com os seus pecados veniais e mortais, acrescente aí a qualidade do uso de seus talentos. Busque se aprofundar na fé que professamos; eu ando bem preocupada com isto.

Me diga aí... Sua profissão contribui de qual forma para o Reino? ;-)




(28.07.2016)







Os "6Rs" do zelo espiritual pelo Circa Creationis...
(Porque a Laudato Si' diz que você tem que ir além da coleta seletiva...)



Recuse as tentações - de consumo ou não - vãs.

Reduza a quantidade daquilo que consome, evitando o desperdício. A moderação sempre foi uma virtude. E não se esqueça que pessoas não estão aqui para serem consumidas por você.

Reutilize aquilo que você sabe ser bom em você. Não prive as pessoas de boas ações gratuitas. Gaste-se por Cristo!

Redefina (prioridades, atitudes): Concentre-se no que é realmente importante... Faça, mas não espere receber em troca. O amor só cresce quando se dá e saber doar-se é uma benção.

Reinvente (as formas de se doar): presencialmente ou virtualmente, há muito o que fazer na evangelização para o Reino. Dê "outra leitura" aos seus talentos e os compartilhe.

Recicle os maus sentimentos e ações: CONFISSÃO JÁ!!!


(Em 09.06.2016)





Uma das melhores leituras que fiz sobre a Laudato Si' sem o foco do "ambientalismo" tão comum em todas as resenhas e sim do Catolicismo... Boa leitura!


O Papa nos mostra o caminho

A maior contribuição do Papa Francisco é à D.S.I., por Carlos Ramalhete



Como já escrevi anteriormente, acredito firmemente que o Papa Francisco é uma enorme bênção de Deus à Sua Igreja. Quando ele foi eleito, eu não gostei. Mais tarde, lendo com devoção e atenção filial os seus escritos, percebi claramente que ele é exatamente a pessoa certa para dirigir a Barca de Pedro nestes nossos tempos tão tumultuosos.



Em termos históricos, estamos em uma virada civilizacional. Não é a primeira por que a Igreja passa, e não há de ser a última. Quando da queda de Roma, por exemplo, Deus suscitou São Gregório Magno Papa para guiar a Igreja na transição ao grandioso Medievo que surgiria. São Gregório, mais que qualquer outro seu contemporâneo, entendeu o que se ganhava e o que se perdia, e indicou meios de manter e guiar a Igreja viva e forte; ao longo dos séculos seguintes, toda a sociedade ocidental se forjou a partir de seus ensinamentos.



O momento em que vivemos não é menos dramático que o do fim de Roma. A sociedade moderna, fruto das Luzes do Século XVIII, está se esboroando. As suas experiências sociais mais características  —  Estados nacionais, pensamento ideológico, laicismo, Estado de Direito…  —  estão se transformando em caricaturas deformadas delas mesmas, fazendo com que os mecanismos sociais modernos se voltem contra a própria população.



Quis o bom Deus que justamente no entorno do período em que a sociedade moderna vivesse o seu auge, sucessivos papas, percebendo os horrores que vinham sendo perpetrados por ela e que tiveram seu apogeu nos genocídios de meados do Século XX, codificassem e expusessem aspectos da Doutrina Social da Igreja (doravante DSI).



A DSI, de uma certa forma, pode ser considerada uma resposta não-ideológica, não-moderna, ao pensamento ideológico moderno. Em vez de uma “receita de bolo”, ela apresenta princípios e valores pelos quais podemos saber o que funciona, o que está de acordo com a dignidade e com a natureza humanas. Como praticamente tudo na Revelação e nos seus corolários, foi  —  ou antes é ainda  —  uma percepção gradual: cada nova manifestação magisterial nos iluminou um ponto. Para pensadores atentos ao magistério imemorial, tudo o que era dito era já sabido, pois não há nada de novo na Sã Doutrina. A aplicação daquelas sabenças aos problemas de cada momento  —  o tratamento das coisas novas, das “rerum novarum” –, todavia, foi a cada passo explicitada pela Igreja para que não nos fosse necessário fazer a cada vez o trabalho de parto daquelas verdades imersas em uma Verdade maior, da qual fazem parte inseparável, tal como inseparáveis eram as partes da túnica inconsútil de Nosso Senhor.



Faltava à DSI, no entanto, uma unidade epistemológica. Tínhamos direções aonde ir  —  os princípios  —  e donde sair  —  os valores –, mas não tínhamos, ao menos não de forma explícita, a visão de conjunto que nos permitiria entender e aplicar a DSI nas décadas e séculos que se seguirão ao momento em que escrevo, aos 2016 anos da Encarnação do Verbo.



O Santo Padre São João Paulo II mandou fazer o Compêndio de Doutrina Social da Igreja; não funcionou. Os funcionários e estudiosos que o elaboraram não conseguiram livrar-se dos antolhos modernos, que os impediram de perceber que os problemas com que em breve seria necessário lidar eram muito maiores e mais graves e mais profundos que as questiúnculas da política européia com que preencheram páginas e mais páginas de túrgida prosa. O que produziram vale tanto ou mais como aplicação dos mesmos princípios e valores da DSI, perfunctoriamente apresentados, àquelas circunstâncias históricas extremamente efêmeras que como apresentação da reta Doutrina para auxiliar a construção de sociedades que ainda estão por vir.



Foi então que a Divina Providência fez sair “do fim do mundo”, de fora daquela sociedade ocidental moderna decadente, o Papa Francisco. Em sua magnífica encíclica Laudato Sí, ele nos proporcionou a visão de conjunto que faltava às definições magisteriais da DSI. E em sua exortação Evangelii Gaudium, ele nos presenteou quatro princípios de ação, corolários inspirados do corpus doutrinário da DSI, que podem nos levar adiante ricamente nas reformulações sociais por que o mundo, queiramos ou não, está a passar.



Eu já os havia encontrado quando li pela primeira vez a Evangelii Gaudium. Foi apenas agora, todavia, que tive a atenção mais perfeitamente despertada para eles, ao ler um artigo de Pe. Giovanni Scalese. O mais curioso é que o Pe. Scalese não percebeu que a maior riqueza deles é justamente o que ele considera ser neles problemático. Explico.



Como disse acima, estamos num momento histórico em que as experiências sociais modernas vêm se transformando em caricaturas deformadas delas mesmas:



- Os Estados nacionais, presos num cabo-de-guerra entre forças dissolutivas que tornam em focos de anomia ou de direitos alternativos vastos espaços em seu interior e tentativas hipermodernas de união transnacional que eliminam na prática a soberania absoluta que caracterizava esta forma de organização social, perdem visivelmente a capacidade de ação, transformação e “organização” social;



- O pensamento ideológico, que coloca o dever-ser à frente do ser, fazendo da obra política a adequação da coisa ao intelecto, sendo o acerto da ideologia o pressuposto pelo qual se mede a realidade, em aberta oposição à verdade, que é a adequação do intelecto à coisa, chegou a tal ponto de absurdidade que se pôs a subitamente a negar, revirar e perverter elementos tão básicos e essenciais da realidade quanto o masculino e o feminino, o humano e o bestial, etc.;



- O laicismo, que mesmo em suas formas mais selvagens (Khmer Vermelho, nazismo, etc.) pressupunha a existência objetiva de uma verdade maior, encarnada pelo Estado totalitário como “Igreja” verdadeira em oposição à Igreja de Cristo e a qualquer manifestação natural do fenômeno religioso, transformou-se em defesa encarniçada do relativismo mais absoluto, “temperado” pela folclorização do fenômeno religioso;



- O Estado de Direito, que colocava acima dos detentores de cargos públicos uma lei emanada de um povo do qual viria toda autoridade, transformou-se num mecanismo pelo qual esses mesmos detentores de cargos públicos, munidos de um cheque em branco, dedicam-se à construção de utopias impopulares, que no mais das vezes acabam por revelar-se distópicas.



Dentro da Igreja, esta passagem da modernidade à pós-modernidade (ou hiper-modernidade, ou modernidade tardia, como preferirem) fez-se na forma que costumo chamar de modernismo de direita e modernismo de esquerda. O pensamento ideológico moderno, com todos os seus problemas, infiltrou-se na Igreja e retirou de muitos dentre nós a capacidade de perceber a realidade tal como ela é. Para o modernista, seja ele de direita ou de esquerda, a realidade não interessa; o que interessa é o joguinho jogado exclusivamente entre a “elite” gnóstica moderna, na nacele de um balão que cada vez mais afasta-se da realidade dos fatos no solo. Interessam apenas os “issues”, os pontos-de-discordância que epitomam as diferenças ideológicas entre a direita e a esquerda da modernidade. A Sã Doutrina é reduzida por ambos os grupos, de esquerda e de direita, a pontos focais arrancados do todo; o que deveria ser a túnica inconsútil transforma-se, na melhor das hipóteses, numa constelação de pontos luminosos em meio a um intenso e negro vazio.



Este é um comportamento que se percebe facilmente nas “leituras”, se é que se as pode assim chamar, que os modernistas fazem dos documentos magisteriais. O documento não interessa; ele é lido (ou, antes, faz-se nele uma busca informática de palavras-chave!) apenas para verificar se o “issue” X ou Y foi tratado de um modo que possa ser interpretado como adequando-se ao discurso daquela facção da modernidade. Se não houver sido, ele é percebido como fazendo parte do arsenal da facção oposta. O resultado desse empobrecimento é o que vemos: documentos maravilhosos, como a exortação Amoris Laetitia, veem-se ignorados em prol de um debate acirrado acerca de se a nota-de-pé-de-página número 351(!) foi devidamente explícita ao condenar ou permitir algo que parece politicamente importante a uma determinada facção moderna.



Na modernidade ideológica, e portanto na hipermodernidade, a realidade que interessa é a elaboração conceitual. O sucedâneo de santidade que interessa é o pertencimento gnóstico ao grupo dos iluminados que agem corretamente, vestem-se corretamente e aderem às elaborações conceituais corretas, o que faz as vezes de doutrina e prática cristãs. A diferença entre o modernismo de esquerda e o de direita é ínfima; ambos são reduções drásticas da realidade a construtos em última instância gnósticos, a eticismos neopelagianos desprovidos de bondade.



Para nos ajudar a sair desta enrascada intra e extra-eclesial, quis a Divina Providência oferecer pelo Papa Francisco quatro princípios de ação (não de juízo!) que “orientam especificamente o desenvolvimento da convivência social” necessária para que tanto a sociedade como um todo seja pacífica, mas para que todos nós sejamos um, conforme a vontade do Pai. São princípios que ele nos dá para a DSI, mas que servem  —  e como servem!  —  para a prática pastoral (e “ovelhal”, claro) intraeclesial. Pudera que sua explicação mais ampla nos tenha vindo em seu documento sobre o anúncio do Evangelho no mundo atual: é no anúncio do Evangelho (que se faz primeiramente pela nossa vida e, quando necessário, por palavras) que as dimensões ad intra e ad extra da eclesialidade necessariamente se devem combinar.



O primeiro dos princípios é que o tempo é superior ao espaço.



A realidade é temporal. Vivemos no tempo, e é no tempo que o próprio Deus Se introduziu pela Encarnação do Verbo. Ouvimos a cada domingo que “in illo tempore”, “naquele tempo”, agiu e ensinou Nosso Senhor. A obra redentora cristã é, antes de qualquer outra coisa, extraordinária pela entrada do Eterno no tempo, do Infinito na finitude, do Criador na criação.



Todos nós somos filhos de alguém, e muitos de nós somos pais de alguém e um dia seremos avós e bisavós. Temos uma longa árvore genealógica, que se estende em ato numa direção e em potência na outra. Do mesmo modo, a própria História que vivemos e em que estamos inseridos estende-se em duas direções: a.C., “antes de Cristo”, antes da Encarnação do Verbo, e d.C., “depois de Cristo”, depois da mesma Encarnação.



A religião cristã, destarte, é perfeita e completamente inserida na história. Ela ocorre no tempo, e no tempo ocorreu cada etapa da revelação divina. O cristão de hoje tem a mesmíssima Fé (esta, sim, eterna e atemporal) do cristão de qualquer momento nos últimos vinte séculos, e partilha com ele a mesma natureza humana. As circunstâncias históricas são outras, contudo: o Norte da África, terra de Santo Agostinho, foi perdido há séculos para a Fé; já a América do Sul, cuja existência ele ignorou até vê-la do Céu, foi ganhada.



O pensamento moderno é incapaz de perceber isto, por não conseguir ater-se ao mundo real. O que lhe importa é apenas a elaboração conceitual à qual o modernista julga ser seu dever adequar a realidade que falha em perceber claramente. O resultado disso é que para ele o espaço é o que existe; o tempo não faz sentido.



Todo modernista tem enorme dificuldade em lidar com a afirmação de Nosso Senhor de que devemos deixar o joio e o trigo crescer juntos, para que não se arranque o trigo quando se queria apenas arrancar o joio. Para o modernista, de direita ou de esquerda, o trabalho a fazer é justamente o de arrancar o que não se encaixa naquela ideia, naquela elaboração conceitual, naquela ideologia. Nas formas mais selvagens da modernidade, no século passado, o que era tido por “joio” foi jogado aos fornos de Auschwitz, às vastidões gélidas da Sibéria ou aos campos de morte de Pol Pot. Nas suas formas decadentes de hoje, ele é jogado fora da Igreja.



É por isso que os modernistas de esquerda gostam tanto de falar de um tal “projeto de jesus”: tratar-se-ia do rascunho dessa sociedade nova, desse trigal desprovido de joio. O custo seria “apenas” de algumas espigas de trigo arrancadas e jogadas ao fogo junto com ele. Ensina-nos Nosso Senhor que não só não vale a pena, como que o que devemos fazer é o oposto: nosso dever é ir atrás daquela centésima ovelha, que se perdeu.



Os modernistas de direita, por sua vez, costumam ser ainda mais evidentes no seu afã de arrancar, arrancar sempre, tudo o que não se encaixe no plano. Raro é o modernista de direita que não veja na excomunhão, por alguma razão que Freud sem dúvida se divertiria muito em explicar, uma espécie de superpoder que faria com que a Igreja se tornasse magicamente em paraíso na terra se pelo menos fosse aplicada com freqüência suficiente. “Ah, se o Papa arrancasse todo esse joio de ‘ladrões, injustos, adúlteros, […] como este publicano’ e desse assim espaço aos bons que fazem como eu que ‘jejuo duas vezes na semana e pago o dízimo de tudo o que possuo’!” (Lc 18,9–14).



Já o Santo Padre Francisco nos explica que nossas ações não devem visar uma perfeita adequação instantânea da realidade a uma ideia  —  o que seria impossível –, mas sim guiar adequadamente os processos pelos quais ocorre a santificação de cada um e da sociedade. Nós nos santificamos pela vida de oração, penitência e caridade e pelo recurso aos Sacramentos, na graça de Deus, com o auxílio dos Seus Santos. Não é um processo instantâneo, pelo qual a pessoa num momento era um tremendo pecador e no instante seguinte tão santo quanto São João Batista. A santificação do cristão é um processo, não um passe de mágica, e o mesmo ocorre com a santificação da sociedade. Cabe inclusive lembrar que muitas vezes trata-se de um processo com idas e vindas, nada linear. É sempre um processo, nem um evento nem uma transformação. Um processo que ocorre no tempo, no tempo em que o Verbo Se encarnou, no tempo que é superior ao espaço.



O segundo princípio é que a unidade prevalece sobre o conflito.



Mais uma vez, voltamos à túnica inconsútil, que é figura da unidade. Se perguntarmos ao mundo moderno o que é a Igreja, ele nos indicará uma série de conflitos, de “issues” em que a Sã Doutrina coloca-se em oposição aos delírios mundanos: aborto, matrimônio, guerra, etc. Para o moderno não cristão, o que a Igreja faz, sua razão de ser, é a proibição da camisinha e do aborto. O modernista intraeclesial de direita frequentemente concordará com aquele: para este, ser cristão é ser contra isto ou aquilo e a favor daquiloutro. É o conflito que lhes dá identidade, mais uma vez na substituição da túnica inconsútil por uma constelação no céu negro e frio de inverno.



O Santo Padre nos ensina que não podemos cair nesta armadilha: temos que ter em mente a integralidade da Igreja, da Sã Doutrina, da realidade (que também é uma só, dentro da mesma ordem criada por Deus; “não matarás” e “dois corpos se atraem na razão direta de suas massas e inversa do quadrado de suas distâncias” são dois aspectos de uma mesma única realidade).



A Fé cristã, afinal, lembra-nos ele, é a Fé numa unificação suprema, em que o Céu se une à terra, o Infinito ao finito, o eterno ao temporal, Deus ao homem, a carne ao espírito, a pessoa à sociedade. A Fé não espalha, ajunta. Ele nos aponta duas maneiras errôneas e uma maneira correta de lidar com o aparente conflito:



A primeira maneira errônea é ignorá-lo; lavar as mãos. Foi a escolha de Pilatos (Mt 27,24), que no conflito (verdadeiro!) entre o Cristo e os judeus retirou-se, fazendo por sua inação com que ocorresse a maior injustiça possível. Ao ignorar o conflito, ele não pôde retirar nada, construir nada, unir nada. De sua omissão veio a morte. O conflito é real.



A segunda maneira errônea é a de tomar partido de modo absoluto. Isto faz, aponta-nos Sua Santidade, com que percamos os horizontes. É novamente a substituição da túnica pela constelação, a redução da Verdade una (que é o Cristo!) a uma série de contenciosos acidentais.



Notemos que ambas as formas errôneas acima descritas são encontradiças na modernidade; ao reduzir a Verdade a uma pequena série de contenciosos, a presença de outros elementos  —  contenciosos que estão na listinha de outros, mas não na nossa  —  é simplesmente ignorada. Assim, para o modernista de direita ou de esquerda, quando o ponto contencioso em questão não pertence ao seu rol, ele é ignorado; quando pertence, perde-se o horizonte em função do calor com que se o propugna.



Finalmente, aponta-nos nosso bom Papa a maneira correta: “aceitar suportar o conflito, resolvê-lo e transformá-lo no elo de ligação de um novo processo. ‘Felizes os pacificadores’ (Mt5,9)”.



O que significa isto? Significa que é a unidade, não o conflito, o nosso norte. Em outras palavras, não podemos nem fazer do conflito nossa razão de ser nem, por outro lado, fingir que ele não existe; devemos, sim, buscar a unidade a partir do conflito. Não há, nem poderia haver na natureza criada, mal absoluto. O conflito é sempre entre lados que buscam algo que percebem, correta ou incorretamente, como um bem. Até mesmo no caso mais drástico que se possa imaginar, o conflito de que fugiu Pôncio Pilatos, os judeus achavam que estavam combatendo a blasfêmia. Nenhuma blasfêmia havia sido feita, mas eles não o entendiam.



“Resolver” o conflito significa justamente entender o que é buscado por ambos os lados, perceber o bem que cada um deles visa, e a partir daí procurar uma paz que não seja nem “negociada”, nem “sincretismo”, nem “absorção de um pelo outro”. Não se trata, como a mentalidade moderna poderia distorcidamente pintar, de uma síntese hegeliana em que tese e antítese se fazem síntese, para daí recomeçar todo o processo. Não; o que propõe o Papa é a busca da unidade do Espírito, não da paz negociada, em que cada lado cede um pouco e ambos ganham e perdem ao mesmo tempo. É por isso que ele nos lembra que a paz que buscamos deve ser buscada primeiro dentro de nós mesmos, no reconhecimento de nossos conflitos interiores e na busca da reconstrução de nosso coração em Deus. Buscamos o homem conatural de Deus em ambos os lados, ao invés de negar liminarmente a humanidade do lado oposto ou a relevância (logo realidade) do conflito.



Daí, deste encontro com o que é de Deus em cada homem, em cada cultura, em cada pensamento, vem a catolicidade da Igreja. Lavar as mãos do conflito ou, ao contrário, mergulhar nele são maneiras de negar o que é humano e o que é divino, a Verdade e a salvação. São modos de fechar-se em uma seita, o que é o oposto do que nos manda fazer Nosso Senhor.



O terceiro princípio reza que a realidade é mais importante que a ideia.



Trata-se do tiro final na nuca da modernidade, diria eu.



Já vimos fartamente acima como a modernidade é a inversão da apreensão verdadeira: é a colocação da ideia como superior à realidade. Posso ir mais longe, e afirmar com o Papa que “[a] ideia  —  as elaborações conceituais  —  está ao serviço da captação, compreensão e condução da realidade. […] Caso contrário, manipula-se a verdade, do mesmo modo que se substitui a ginástica pela cosmética”.



O uso da ideia como pedra de toque da realidade, mesmo quando esta ideia se pretende doutrina cristã, é a substituição da ginástica pela cosmética; é apertar-se numa cinta e dizer-se magro, levantar halteres de isopor e dizer-se forte.



A realidade deve ser percebida verdadeiramente; precisamos adequar o nosso intelecto à realidade, não o contrário. Quando a nossa percepção da realidade é verdadeira, podemos lidar com ela corretamente. É por isso que o nosso processo de conversão só pode ocorrer pela percepção de nossos pecados: eles são reais. São gigantescos vazios no nosso ser, que percebemos com os olhos da Fé e entendemos com o prisma da razão que a Fé ilumina. Se, ao invés disto, tivermos uma percepção ideológica e falseada da realidade, não serão os nossos pecados, sim os supostos pecados alheios que perceberemos. Digo ainda “supostos” porque é extremamente provável que o que apontemos na verdade não seja sequer pecado real, apenas inadequação à ideologia (de esquerda ou de direita) à qual estamos tentando reduzir o mundo. O modernista de direita vai ver blasfêmia e irreverência por toda parte, e o de esquerda ganância e violência. Ambos estão muito mais errados que certos, na medida em que o que eles veem não passa de reflexo do que eles deixam de perceber neles mesmos. O modernista de esquerda é sumamente violento e ganancioso, e o de direita é blasfemamente pelagiano e irreverentemente gnóstico; por isso eles identificam nos demais o que falta a eles mesmos, sem conseguirem, todavia, identificar neles mesmos o que pensam estar apontando.



O Santo Padre apontou com clareza meridiana, finalmente, a perigosa tentação de fazer da nossa Fé uma ideologia: “Se o cristão for um restauracionista, um legalista, se ele quiser tudo claro e seguro, então ele não encontrará nada. A Tradição e a memória do passado devem nos ajudar a ter a coragem de abrir a Deus novas áreas. Os que sempre procuram soluções disciplinárias, os que anseiam por uma ‘segurança’ doutrinal exagerada, os que teimosamente tentam recobrar um passado que já não existe — estes têm uma visão estática e autocentrada das coisas. Desta forma, a Fé se torna uma ideologia entre as demais ideologias”. O contexto aponta para o modernismo de direita, mas o modernismo de esquerda cai exatamente no mesmo erro.



Não podemos olvidar que a nossa Fé é na Encarnação do Verbo, não na verborragia da carne. A realidade  —  a que sua, caminha, come e chora de dor e de saudades do Paraíso  —  é mais importante, muitíssimo mais importante, que a ideia.



Finalmente, o quarto e derradeiro princípio de ação que nos propõe Sua Santidade é que o todo é superior à parte.



Mais uma vez, na tradição homilética jesuíta, o Santo Padre nos dá um trio de soluções, das quais duas são falsas  —  as armadilhas que o Inimigo coloca, uma de cada lado do reto caminho  —  e uma só é verdadeira.



A primeira falsa solução ao conflito entre o global e o local, entre o coletivo ou social e o individual, é mais uma vez o lavar-se as mãos e fugir da refrega. É o que fazem, diz-nos ele, os que assistem como que de fora todas as culturas ou espiritualidades, sem viver nenhuma, como perpétuos passageiros de um trenzinho de parque de diversões, a tudo percebendo com espetáculo.



A segunda, e oposta àquela primeira, é o mergulho exagerado no específico, a fuga do diferente. É o erro de quem se recusa a perceber o valor de qualquer coisa que não lhe seja extremamente familiar.



Ambas, mais uma vez, são semelhantes, mais semelhantes que díspares. Ambas perdem de vista aquela unidade e unicidade da realidade criada, sobre a qual já discorri acima, percebendo erroneamente seus componentes como ou bem um mero espetáculo que se assiste e civilizadamente se aplaude ou bem um forte, um bunker, um nicho do qual nos defendemos de uma realidade apavorante do mundo lá fora.



A realidade do mundo é outra: vivemos numa sociedade familiar, que vive na sociedade do bairro, que vive numa sociedade maior, e noutra, e noutra, até chegarmos à Igreja e a toda a humanidade (que, não esqueçamos, tem seu reto lugar dentro da Igreja; Deus não chama ninguém a ficar de fora dela!). Tudo é parte de uma mesma criação, de uma mesma ordem, de uma única realidade de que  —  como já escrevi mais acima  —  “não matarás” e “dois corpos se atraem na razão direta de suas massas e inversa do quadrado de suas distâncias” são dois aspectos.



Assim, a forma correta de lidar com este conflito é lembrar que o indivíduo não pode se perder numa identidade grupal, nem a sociedade pode se fragmentar em mera associação contratual de indivíduos. Estas, aliás, são as duas vertentes mais comuns da modernidade que ora acaba, dando-nos todavia ainda tanto trabalho.



Do mesmo modo, dentro da Igreja, um aspecto definido da Sã Doutrina não pode ser usado como porrete para bater nos demais: mais uma vez, é a túnica inconsútil, não a constelação. A Igreja é católica, e sua catolicidade é infinitamente maior que a soma das espiritualidades e das culturas que a integram. Quanto maior a dimensão da unidade (e a maior dimensão possível é a da Igreja, que é Corpo Místico de Cristo), mais superior à soma das partes ela é. Na sociedade civil, a sociedade como um todo também tem um valor maior que o das partes que a compõem. Isto não significa que ela deva sufocar as instâncias inferiores, como nos sistemas modernos totalitários. Ao contrário; este valor maior mostra a que vêm as instâncias inferiores. Algumas famílias reunidas criam uma aldeia, que é muito mais que a mera justaposição de famílias e ao mesmo tempo fortalece a todas e a cada uma delas; um casal que se une e se abre à vida cria uma família, que é muito mais que a convivência de indivíduos, mas que é ao mesmo tempo o lugar onde eles podem ser mais plenamente a pessoa que Deus os criou para ser.



Mas para que haja família, para que haja aldeia, é necessário que haja os indivíduos, que haja a família. Não é possível casar todos os rapazes com todas as moças: é sempre um indivíduo de cada sexo que se casa com o outro, e só com aquele outro a quem ele deseja unir-se.



Mas a união, seja ela dos casaizinhos de noivos, das famílias, das cidades, dos povos, etc., é um bem. Ela gera algo maior e mais valioso que a mera soma das partes, desde que ela se opere de maneira orgânica, de acordo com os princípios enunciados pela DSI. É na união que cresce a catolicidade; é nela que encontramos como aceder às riquezas verdadeiras de nossos irmãos, sem nem fazer delas mera curiosidade antropológica nem bunker de onde atirar no diferente. O que é diverso nos enriquece, desde que haja esta união maior, que devemos sempre buscar pelo fato de o todo ser superior à parte.



Com escrevi no começo deste artigo, Pe. Scalese não entendeu um ponto crucial para a reta compreensão do pensamento do Papa Francisco: o Santo Padre não é moderno. Ponto. Mais ainda: para ele, a modernidade é lastimável, abaixo da crítica e indigna de atenção. É por isso que ele está basicamente se lixando para se os modernistas de direita ou de esquerda (que basicamente habitam apenas Europa e América do Norte, com filiais nas classes médias urbanas moderninhas do Terceiro Mundo) vão perceber o que ele diz como se encaixando em algum de seus “issues” de estimação. Não é para eles que ele fala, mas para as velhinhas do Apostolado da Oração da Bolívia e para os seminaristas congoleses.



As críticas do Pe. Scalese podem ser, todas eles, resumidas numa só: “isto se presta a uma leitura errônea quando se usam pressupostos modernos”. Sejam os pressupostos sistemas de pensamento modernos (dialética hegeliana para distorcer a visão do Papa de solução de conflitos, por exemplo) ou simples enganos modernistas (ele afirma que o Santo Padre “combate a Doutrina”  —  “Francis’ continual arguments against doctrine” –, sem perceber que o que o Santo Padre justamente combate é a ideologização da Doutrina.



Vale a pena, como sempre, sentar e prestar atenção no que nos ensina o Vigário de Cristo. Que seu pontificado seja tão longo quanto o de São Pedro!


Fonte: https://medium.com/@carlosramalhete/o-papa-nos-mostra-o-caminho-e0aee51c907f#.oefhyhrfz







CF 2011: Quarta-feira de Cinzas...



Inicia-se hoje a Campanha da Fraternidade que oficialmente perdurará pelo período da Quaresma. Não seria interessante que esta perdurasse o ano inteiro e não terminasse na coleta do Domingo de Ramos? Pode-se trabalhar o tema, por exemplo:

- em festividades de padroeiros e padroeiras, através da montagem de barraquinhas feitas de madeira reutilizada ou madeira de origem plantada ('madeira plástica' seria interessante, mas ainda é muito cara...), com a utilização de decoração feita com peças de artesanato em material reciclado, etc.; 

- elaboração de tapetes em Corpus Christi com a utilização de materiais recicláveis ou reciclados (Utilizando o bom gosto, sempre! Lembre-se que muitos são realizados nas naves de igrejas e se deve ter bom senso com o que é permitido a ser realizado. Nada de "reavivamentos da fé" que não caibam dentro da liturgia diária); 

- programação de palestras para a comunidade paroquial com profissionais relacionados à área ambiental (Quem não deseja saber sobre as condições físicas de seus bairros, sobre seu saneamento básico e drenagem pluvial, sobre como a legislação urbana auxilia a termos melhores condições de vida?); 

- realização de ações efetivas para melhorar o desempenho ambiental dos conjuntos arquitetônicos de cada paróquia - envolvendo pastorais e movimentos - e das residências dos paroquianos, através da substituição de materiais e equipamentos que visem uma melhor eficiência energética; 

- realização de mutirões para reacender o desejo de se doar algo a mais que uma determinada quantia, para auxílio aos assistidos por serviços sociais ou pelo movimento vicentino (quando este existente);

- etc. 



Não falta imaginação, falta ação...




Alguns católicos não aprovam a campanha da fraternidade por esta muitas vezes abordar temas que são tratados por um viés político que tende ao esquerdismo ou por entenderem que os temas não deveriam ser abordados no período da Quaresma, pois este deveria ser estritamente espiritual. Como não consigo dissociar a realidade corpórea da espiritual, discordo destes, pois cada tema em si trata de como nos posicionamos como Igreja perante o mundo transformado por nós, possivelmente cada vez mais distante do sentido primevo da Criação.

Entretanto, todos estamos juntos - geograficamente e espiritualmente irmanados - e ainda que desejemos morrer buscando a santidade, é aqui que perduramos anunciando o Evangelho e diariamente nos convertendo (Qual o verdadeiro católico que não deseja morrer e ficar junto com Deus? Nem pais, nem esposos, nem filhos, nem amigos são mais importantes que Deus... Será isso mesmo verdade?). Como buscar o Criador sem reconhecer na Criação condições para a sua sobrevivência? Não se iludam, fazer jejum ou promover abstinências somente são mortificações para quem tem vida abundante, a qual muitos ainda, limitadamente, confundem com riquezas materiais. E só a imensa Misericórdia e Graça de Deus para tocar um coração faminto ou sem condições de sobrevivência para as realidades anunciadas pelo Evangelho. 

Não serão apenas as nossas palavras que o trarão para perto e o ajudarão a trilhar o tortuoso caminho da fé, mas também as nossas obras diante deste e da Criação, quando realizadas através de uma caridade que se impõe além dos conceitos materiais relacionados à esmola (argh!), mas também em nosso agir como elementos de uma cidadania que deve reconhecer o direito do outro viver dignamente. Não nos deve importar se uns serão ricos, outros pobres... importa que não produzamos miseráveis por uma conduta pseudocristã nesta realidade temporal em que agora vivemos.

Sendo assim, o tema é muitíssimo pertinente, ainda que eu discorde do uso do termo 'Aquecimento Global', por este não ser um consenso científico e prefira utilizar o termo 'Mudanças Climáticas' por este se associar a zonas geográficas. Entretanto, algumas destas zonas estão realmente se aquecendo em detrimento de outras e acredito que o homem não é o responsável por sua ocorrência, mas o é pela sua aceleração e contínua degradação da qualidade ambiental associada aos fenômenos meteorológicos, climatológicos e ecológicos advindos do mau uso da tecnologia. Como os papas João Paulo II e Bento XVI já afirmaram tantas vezes, é uma questão moral... 

E qual é a sua? A de sanguessuga ou a de zelador?







Sobre valores...

Lendo Amor Líquido de Zigmunt Bauman, percebi que há diversas passagens que se aproximam muitíssimo do conceito de ecologia humana, vide o capítulo "Sobre a dificuldade de amar o próximo". Neste, uma frase 'saltou aos olhos' num determinado momento e tem tudo a ver com os assuntos que trata este blog:


"O planeta inteiro não pode sofrer tormento maior do que uma única alma"


Para refletir...









Amar o mundo apaixonadamente...

Homilia do Fundador: 'Amar o mundo apaixonadamente' ('Questões Atuais do Cristianismo', São Paulo, Quadrante, 3ª ed., 1986; n. 113). No texto São Josemaria faz um resumo do espírito que difundiu a partir de 1928. Homilia pronunciada no campus da Universidade de Navarra em 8 de outubro de 1967.


Acabam de escutar a leitura solene dos dois textos da Sagrada Escritura correspondentes à Missa do XXI domingo depois de Pentecostes. Tendo ouvido a Palavra de Deus, ficam já situados no âmbito em que querem mover-se as palavras que agora vou dizer: palavras de sacerdote, pronunciadas perante uma grande família de filhos de Deus em sua Igreja Santa. Palavras, portanto, que desejam ser sobrenaturais, pregoeiras da grandeza de Deus e de suas misericórdias para com os homens: palavras que a todos preparam para a impressionante Eucaristia, que hoje celebramos no campus da Universidade de Navarra. 


Considerem por alguns instantes o fato que acabo de mencionar. Celebramos a Sagrada Eucaristia, o sacrifício sacramental do Corpo e Sangue do Senhor, esse mistério de fé que reúne em si todos os mistérios do Cristianismo. Celebramos, portanto, a ação mais sagrada e transcendente que os homens, pela graça de Deus, podem realizar nesta vida. Comungar no Corpo e no Sangue do Senhor vem a ser, em certo sentido, como que desligar-nos de nossos liames de terra e de tempo, para estarmos já com Deus no Céu, onde o próprio Cristo nos enxugará as lágrimas dos olhos e onde não haverá morte, nem pranto, nem gritos de fadiga, porque o mundo velho já terá terminado (Cfr. Apocalipse, I, 4).

Esta verdade tão consoladora e profunda, este significado escatológico da Eucaristia, como os teólogos costumam denominá-lo, poderia, no entanto, ser mal entendido: e assim aconteceu sempre que se quis apresentar a existência cristã como algo unicamente espiritual - isto é, espiritualista -, próprio de pessoas puras, extraordinárias, que não se misturam com as coisas desprezíveis deste mundo ou que, quando muito, as toleram como algo necessariamente justaposto ao espírito, enquanto aqui vivemos.

Quando se vêem as coisas deste modo, o templo se converte, por antonomásia. no lugar da vida cristã; e, nessa altura, ser cristão é ir ao templo, participar em cerimônias sagradas, incrustar-se numa sociologia eclesiástica, numa espécie de mundo segregado, que se apresenta a si mesmo como ante-câmara do céu, enquanto o mundo comum vai percorrendo o seu caminho. Assim, a doutrina do Cristianismo, a vida da graça, andariam como que roçando o buliçoso avançar da história humana, mas sem se encontrarem com ele.

Nesta manhã de Outubro, enquanto nos preparamos para adentrarmos no memorial da Páscoa do Senhor, respondemos simplesmente não! a essa visão deformada do Cristianismo. Reparem, por um momento, em como está em emoldurada a nossa Eucaristia, a nossa Ação de Graças: encontramo-nos num templo singular; poderia dizer-se que a nave é o campus universitário; o retábulo, a Biblioteca da Universidade; além, as máquinas que levantam novos edifícios; e, por cima, o céu de Navarra... Será que esta enumeração não está confirmando, de uma forma plástica e inesquecível, que é a vida corrente o verdadeiro lugar da existência cristã? Meus filhos: aí onde estão nossos irmãos os homens, aí onde estão as nossas aspirações, nosso trabalho, nossos amores - aí está o lugar do nosso encontro cotidiano com Cristo. Em meio das coisas mais materiais da terra é que nós devemos santificar-nos, servindo a Deus e a todos os homens.

Tenho-o ensinado constantemente com palavras da Escritura Santa: o mundo não é ruim, porque saiu das mãos de Deus, porque é criatura d'Ele, porque Javé olhou para ele e viu que era bom (Cfr. Gen I, 7 e ss.). Nós, os homens, é que o fazemos ruim e feio, com nossos pecados e nossas infidelidades. Não duvidem, meus filhos; qualquer modo de evasão das honestas realidades diárias é para os homens e mulheres do mundo coisa oposta à vontade de Deus. 

Pelo contrário, devem compreende agora - com uma nova clareza - que Deus os chama a servi-Lo em e a partir das tarefas civis, materiais, seculares da vida humana. Deus nos espera cada dia: no laboratório, na sala de operações de um hospital, no quartel, na cátedra universitária, na fábrica, na oficina, no campo, no seio do lar e em todo o imenso panorama do trabalho. Não esqueçamos nunca: há algo de santo, de divino, escondido nas situações mais comuns, algo que a cada um de nós compete descobrir.

Eu costumava dizer àqueles universitários e àqueles operários que me procuravam lá pela década de 30, que tinham de saber materializara vida espiritual. Queria afastá-los, assim, da tentação, tão freqüente nessa época e agora, de levar uma vida dupla: a vida interior, a vida de relação com Deus, por um lado; e por outro, diferente e separada, a vida familiar, profissional e social, cheia de pequenas realidades terrenas.

Não, meus filhos! Não pode haver uma vida dupla, não podemos ser como esquizofrênicos, se queremos ser cristãos. Há uma única vida, feita de carne e espírito, e essa é que tem de ser - na alma e no corpo - santa e plena de Deus, desse Deus invisível, que nós encontraremos nas coisas mais visíveis e materiais. 

Não há outro caminho, meus filhos: ou sabemos encontrar o Senhor em nossa vida de todos os dias, ou não O encontraremos nunca. Por isso, posso afirmar que nossa época precisa devolver à matéria e às situações aparentemente mais vulgares seu nobre e original sentido: pondo-as ao serviço do Reino de Deus, espiritualizando-as, fazendo delas meio e ocasião para o nosso encontro contínuo com Jesus Cristo.

O autêntico sentido cristão que professa a ressurreição de toda a carne - sempre combateu, como é lógico, a desencarnação , sem medo de ser tachado de materialista. É lícito, portanto, falar de um materialismo cristão, que se opõe audazmente aos materialismos cerrados ao espírito.

O que são os sacramentos - vestígios da Encarnação do Verbo, como afirmaram os antigos - senão a mais clara manifestação deste caminho escolhido por Deus para nos santificar e levar ao Céu? Não vêem que cada sacramento é o amor de Deus, com toda a sua força criadora e redentora, dando-se a nós através de meios materiais? O que é a Eucaristia - já iminente - senão o Corpo e Sangue adoráveis do nosso Redentor, que se oferece a nós através da humilde matéria deste mundo - vinho e pão -, através dos elementos da natureza, cultivados pelo homem, como o quis recordar o último Concílio Ecumênico? (Cfr. Gaudium et Spes, 38).

Assim se compreende, meus filhos, que o Apóstolo chegasse a escrever: "Todas as coisas são vossas, vós sois de Cristo e Cristo é de Deus" (1Cor.III, 22-23). Trata-se de um movimento ascendente que o Espírito Santo, difundido em nossos corações, quer provocar no mundo; da terra até à glória do Senhor. E para ficar bem claro que - nesse movimento - se incluía também o que parece mais prosaico, São Paulo escreveu ainda: "Quer comais, quer bebais, fazei tudo para a glória de Deus" (1Cor.X, 31).

Esta doutrina da Sagrada Escritura, que se encontra - como sabem - no próprio cerne do espírito do Opus Dei, deve levar-nos a realizar o trabalho com perfeição, a amar a Deus e aos homens pondo amor nas pequenas coisas da jornada habitual, descobrindo esse algo divino que se encerra nos detalhes. Que bem ficam aqui aqueles versos do poeta de Castela!: "Despacito, y buena letra: el hacer las cosas bien importa más que el hacerlas" ("Devagarinho, e boa letra; que fazer as coisas bem, importa mais que fazê-las". A. Machado, Poesias Completas, CLXI. - Proverbios y cantares, XXIV. Espasa Calpe, Madrid, 1940.).

Eu lhes asseguro, meus filhos, que quando um cristão desempenha com amor a mais intranscendente das ações diárias, está desempenhando algo donde transborda a transcendência de Deus. Por isso tenho repetido, com insistente martelar, que a vocação cristã consiste em transformar em poesia heróica a prosa de cada dia. Na linha do horizonte, meus filhos, parecem unir-se o céu e a terra. Mas não: onde de verdade se juntam é no coração, quando se vive santamente a vida diária...

Viver santamente a vida diária, como acabo de dizer. E com estas palavras me refiro a todo o programa dos afazeres cristãos. Portanto, deixem-se de sonhos, de falsos idealismos, de fantasias, disso que costumo chamar de mística do oxalá: oxalá não me tivesse casado, oxalá não tivesse esta profissão, oxalá tivesse mais saúde, oxalá fosse jovem, oxalá fosse velho...; e atenham-se, pelo contrário, sobriamente, à realidade mais material e imediata, que é onde o Senhor está: olhai minhas mãos e meus pés - disse Jesus ressuscitado -, sou eu mesmo. "Apalpai e vede que um espírito não tem carne e ossos, como vedes que eu tenho" (Luc XXIV, 39).

São muitos os aspectos do ambiente secular que se iluminam a partir destas verdades. Pensem, por exemplo, na atuação que têm como cidadãos na vida civil. Um homem ciente de que o mundo - e não só o templo - é o lugar do seu encontro com Cristo, ama este mundo, procura adquirir um bom preparo intelectual e profissional, vai formando - com plena liberdade - seus próprios critérios sobre os problemas do meio em que se desenvolve; e, por conseqüência, toma suas próprias decisões, as quais, por serem decisões de um cristão, procedem além disso de uma reflexão pessoal, que tenta humildemente captar a vontade de Deus nesses detalhes pequenos e grandes da vida.

Mas jamais esse cristão se lembra de pensar ou dizer que desce do templo ao mundo para representar a Igreja, e que suas soluções são as soluções católicas para aqueles problemas. Isso não pode ser, meus filhos! Isso seria clericalismo, catolicismo oficial, ou como queiram chamá-lo. Em qualquer caso, é violentar a natureza das coisas. Há que difundir por toda a parte uma verdadeira mentalidade laical, que deve levar a três conclusões:

— temos que ser suficientemente honrados, para arcar com a nossa própria responsabilidade pessoal;

— temos que ser suficientemente cristãos, para respeitar os irmãos na fé, que propõem - em matérias de livre opinião - soluções diversas da que cada um sustenta;

— e temos que ser suficientemente católicos, para não nos servirmos de nossa Mãe, a Igreja, misturando-a em partidarismos humanos.

Já se vê claramente que, neste terreno como em todos, não poderíamos realizar esse programa de viver santamente a vida diária, se não gozássemos de toda a liberdade que nos reconhecem simultaneamente, a Igreja e a nossa dignidade de homens e mulheres criados à imagem de Deus. Contudo, não esqueçam, meus filhos, que falo sempre de uma liberdade responsável.

Interpretem, portanto, minhas palavras, como elas são realmente: um chamado para que exerçam - diariamente!, não apenas em situações de emergência - os direitos que têm; e para que cumpram nobremente as obrigações que têm como cidadãos - na vida pública, na vida econômica, na vida universitária, na vida profissional - assumindo com valentia todas as conseqüências das suas livres decisões, e arcando com o peso da correspondente independência pessoal. E essa cristã mentalidade laical permitirá fugir de toda e qualquer intolerância, de todo fanatismo; vou dizê-lo de um modo positivo: fará que todos convivam em paz com todos os concidadãos, e fomentará também a convivência nas diversas ordens da vida social.

Sei que não tenho necessidade de recordar o que, ao longo de tantos anos, venho repetindo. Esta doutrina de liberdade de cidadãos, de convivência e de compreensão, constitui parte importante da mensagem que o Opus Dei difunde. Será que ainda tenho de voltar a afirmar que os homens e mulheres que querem servir a Jesus Cristo na Obra de Deus são simplesmente cidadãos iguais aos outros, que se esforçam por viver com séria responsabilidade - até as últimas conclusões - sua vocação cristã?

Nada distingue meus filhos de seus concidadãos. Em contrapartida, além da fé, nada têm de comum com os membros das congregações religiosas. Amo os religiosos, e venero e admito suas clausuras, seus apostolados, seu afastamento do mundo - seu contemptus mundi -, que são outros sinais de santidade na igreja. Mas o Senhor não me deu vocação religiosa, e desejá-la para mim seria uma desordem. Nenhuma autoridade na terra poderá me obrigar a ser religioso, assim como nenhuma autoridade pode forçar-me a contrair matrimônio. Sou sacerdote secular: sacerdote de Jesus Cristo, que ama o mundo apaixonadamente.

Os que seguiram a Jesus Cristo comigo, pobre pecador, são: uma pequena percentagem de sacerdotes, que anteriormente exerciam uma profissão ou um ofício laical; um grande número de sacerdotes seculares de muitas dioceses do mundo - que assim confirmaram sua obediência aos respectivos Bispos e seu amor à diocese e a eficácia de seu trabalho diocesano -, sempre com os braços abertos em cruz para todas as almas lhes caberem no coração, e que estão como eu no meio da rua, no mundo, e o amam; e a grande multidão formada por homens e por mulheres - de diversas nações, de diversas línguas, de diversas raças - que vivem de seu trabalho profissional, casados a maior parte deles, solteiros muitos outros, e que, ao lado de seus concidadãos , tomam parte na grave tarefa de tornar mais humana e mais justa a sociedade temporal: na nobre lide dos afãs diários, com responsabilidade pessoal - repito -, experimentando com os outros homens, lado a lado, êxitos e malogros, tratando de cumprir seus deveres e de exercer seus direitos sociais e cívicos. E tudo com naturalidade, como qualquer cristão consciente, sem mentalidade de gente seleta, fundidos na massa de seus colegas, enquanto procuram descobrir os fulgores divinos que reverberam nas realidades mais vulgares.

Também as obras promovidas pelo Opus Dei, como associação, têm essas características eminentemente seculares: não são obras eclesiásticas. Não gozam de nenhuma representação oficial da Sagrada Hierarquia da Igreja. São obras de promoção humana, cultural, social, realizadas por cidadãos, que procuram iluminá-las com as luzes do Evangelho e caldeá-las com o amor de Cristo. Um dado que pode exprimir isto com mais clareza: O Opus Dei, por exemplo, não tem nem terá jamais como missão dirigir Seminários diocesanos, onde os Bispos, instituídos pelo Espírito Santo (At. XX, 28), preparam seus futuros sacerdotes.

Em contrapartida, o Opus Dei fomenta centros de formação operária, de habilitação agrícola, de educação primária, secundária e universitária, e tantas e tão variadas atividades mais, no mundo inteiro, porque seus anseios apostólicos - como escrevi faz muitos anos - são um mar sem fundo. 

Mas, para que me hei de alongar nesta matéria, se a presença dos que me escutam é de per si mais eloqüente do que um longo discurso? Os Amigos da Universidade de Navarra que me escutam, são parte de um povo que sabe estar comprometido no progresso da sociedade a que pertence. Seu alento cordial, sua oração, seu sacrifício e suas contribuições não se inserem nos quadros de um confessionalismo católico: prestando a sua colaboração, eles são claro testemunho de uma reta consciência de cidadãos, preocupada com o bem-comum temporal; testemunham que uma Universidade pode nascer das energias do povo e ser sustentada pelo povo.

Quero aproveitar a ocasião para agradecer uma vez mais a colaboração prestada à nossa universidade por esta minha nobilíssima cidade de Pamplona, a grande e forte região Navarra; e pelos amigos procedentes de toda a geografia espanhola e - digo-o com especial emoção - pelos não espanhóis, e ainda pelos não católicos e os não cristãos, que compreenderam, mostrando-o com fatos, aliás, a intenção e o espírito deste empreendimento.

A todos se deve que a Universidade seja um foco, cada vez mais vivo, de liberdade cívica, de preparação intelectual, de emulação profissional, e um estimulo para o ensino universitário. O sacrifício generoso de todos está na base do labor universal que visa o incremento das ciências humanas, a promoção social, a pedagogia da fé. O que acabo de enunciar foi visto com clareza pelo povo navarro, que reconhece também em sua Universidade um fator de promoção econômica da região, e especialmente de promoção social, havendo possibilitado a tantos de seus filhos um acesso às profissões intelectuais que - de outro modo - seria árduo e, em certos casos, impossível conseguir. O discernimento do papel que a Universidade haveria de desempenhar em sua vida, decerto motivou o apoio a ela dispensado por Navarra desde o início: apoio que, sem dúvida, terá de ser de dia para dia mais amplo e entusiasta.

Continuo mantendo a esperança - porque corresponde a um critério justo e à realidade vigente em muitos países - de que um dia o Estado Espanhol contribua, por sua parte, para aliviar os ônus de uma tarefa que não tem em vista proveito privado algum, pois - muito pelo contrário -, por estar totalmente votada ao serviço da sociedade, procura trabalhar com eficácia em prol da prosperidade presente e futura da nação.

E agora, filhos e filhas, permitam que me detenha em outro aspecto - particularmente entranhável - da vida ordinária. Refiro-me ao amor humano, ao amor limpo entre um homem e uma mulher, ao noivado, ao matrimônio. Devo dizer uma vez mais que esse santo amor humano não é algo permitido, tolerado, ao lado das verdadeiras atividades do espírito, como poderiam insinuar os falsos espiritualismos a que antes aludia. Faz quarenta anos que venho pregando, de palavra e por escrito, exatamente o contrário; e já o vão entendendo os que não o compreendiam.

O amor que conduz ao matrimônio e à família pode ser também um caminho divino, vocacional, maravilhoso, por onde corra, como um rio em seu leito, uma completa dedicação ao nosso Deus. Já o lembrei: realizem as coisas com perfeição, ponham amor nas pequenas atividades da jornada. Descubram - insisto - esse algo divino que nos detalhes se encerra: toda esta doutrina encontra lugar especial no espaço vital em que se enquadra o amor humano.

Já o sabem os professores, os alunos e todos os que dedicam seu trabalho à Universidade de Navarra: eu encomendei os amores de todos a Santa Maria, Mãe do Amor Formoso. E ai está a ermida que construímos com devoção, no campus universitário, para receber de todos as orações e a oblação desse maravilhoso e limpo amor, que Ela abençoa. "Não sabeis que vosso corpo é templo do Espírito Santo, recebido de Deus e que não vos pertenceis?" (1Cor VI, 19) Quantas vezes responderão, diante da imagem da Virgem Maria, da mãe do Amor Formoso, com uma afirmação cheia de júbilo à pergunta do Apóstolo: "Sim, nós o sabemos e queremos vivê-lo com tua ajuda poderosa, ó Virgem Mãe de Deus!"

A oração contemplativa surgirá em todos sempre que meditarem nesta realidade impressionante: alago tão material como meu corpo foi escolhido pelo Espírito Santo para estabelecer sua morada..., não pertenço mais a mim..., meu corpo e minha alma - todo o meu ser - são de Deus... E essa oração será rica em resultados práticos, derivados da grande conseqüência que o próprio Apóstolo propõe: "Glorificai a Deus em vosso corpo" (1 Cor. VI, 20).

Por outro lado, como não podem deixar de reconhecer, só entre os que compreendem e avaliam em toda a sua profundidade o que acabamos de considerar acerca do amor humano, pode surgir essa outra compreensão inefável de que falou Jesus (Cfr. Mat. XIX, 11), que é puro dom de Deus e que impele a entregar o corpo e a alma ao Senhor, a oferecer-Lhe o coração indiviso, sem a mediação do amor terreno.

Tenho que terminar, meus filhos. Disse no começo que minhas palavras pretendiam anunciar alguma coisa da grandeza e da misericórdia de Deus. Penso tê-lo feito, falando de viver santamente a vida ordinária: porque uma vida santa em meio da realidade secular - sem ruído, com simplicidade, com veracidade -, não será, porventura a manifestação mais comovente das magnalia Dei (Eclesi. XVIII, 4), dessas portentosas misericórdias que Deus sempre exerceu, e não deixa de exercer, para salvar o mundo?

Agora peço que se unam com o salmista à minha oração e ao meu louvor: "Magnificate Dominum mecum, et extollamus nomen eius simul" (Salmo XXXIII, 4); "Engrandecei o Senhor comigo, e enalteçamos seu nome todos juntos". Quer dizer, meus filhos: vivamos de fé. Tomemos o escudo da fé, o elmo da salvação e a espada do espírito, que é a Palavra de Deus. Assim nos anima o Apóstolo São Paulo na Epístola aos de Éfeso (Ef VI, 11 e ss.), que faz um instante se proclamava liturgicamente.

Fé, virtude que nós, os cristãos, tanto necessitamos, de modo especial neste ano da Fé promulgado por nosso amadíssimo Santo Padre o Papa Paulo VI: porque, sem a fé, falta o próprio fundamento para a santificação da vida ordinária. Fé viva neste momento, porque nos abeiramos do mysterium fidei (1Tim III, 9), da Sagrada Eucaristia; porque vamos tomar parte nesta Páscoa do Senhor, que resume e realiza as misericórdias de Deus para com os homens.

Fé. meus filhos, para confessar que, dentro de uns instantes, sobre esta ara, vai-se renovar a obra de nossa Redenção (Secreta do domingo IX depois de Pentecostes). Fé para saborear o Credo e experimentar, em torno deste altar e desta Assembléia, a presença de Cristo, que nos faz cor unum et anima una (At. IV, 32), um só coração e uma só alma; e nos converte em família, em igreja, una, santa, católica, apostólica e romana, que para nós é o mesmo que universal.

Fé, finalmente, filhas e filhos queridíssimos, para demonstrar ao mundo que tudo isso não são cerimônias e palavras, mas uma realidade divina, apresentando aos homens o testemunho de uma vida ordinária santificada, em Nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo e de Santa Maria.








Sobre o dia 05 de junho...


Não postei nada deliberadamente, pois estava muito ocupada em praticar uma das facetas da 'ecologia humana': visitando alguns locais onde a caridade é praticada com o coração e não apenas para satisfação de vãs consciências... Doe seu tempo e não apenas o que sobra em seu bolso. Seja voluntário!



P.S.: Caridade não é assistencialismo puro e simples.

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