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27 de julho de 2016

JMJ 2016 - Jovens exortam governos a investir em energias limpas

Durante a Jornada Mundial da Juventude, duas organizações internacionais que representam cerca de 10 milhões jovens estudantes católicos divulgaram segunda-feira (26/07) um comunicado apelando aos governos para investir agora nos postos de trabalho sustentáveis ​​e éticos que esta e as futuras gerações de estudantes e jovens virão a ocupar nos anos vindouros.

Movimento Internacional de Estudantes Católicos (IMCS-MIEC Pax Romana) e os Jovens Estudantes Católicos Internacionais (IYCS / JECI), que representam movimentos estudantis nacionais católicos em mais de 100 países, disseram que o comunicado era sua aceitação do convite feito pelo Papa Francisco em junho de 2015 na Encíclica Laudato Si' se unir para, nas palavras de IMCS e IYCS, “discutir, debater e celebrar a nossa relação com o ambiente, com o outro, com a economia, com o trabalho e com muitos outros aspectos interligados da vida”.

Dado os níveis extremamente elevados de desemprego entre os jovens em muitos países e as referências da encíclica ao "valor do trabalho", as duas organizações sugerem que a substituição de empregos insustentáveis, ​​como os da indústria de combustíveis fósseis, pelos postos de trabalho éticos do futuro, tais como os do setor de energia limpa, deveria ser uma prioridade para os governos. 
[Nota da autora: Os combustíveis fósseis possuem um valor imenso - apesar dos impactos socioambientais - que permitiram a humanidade evoluir até as novas tecnologias "limpas" (com menores impactos ambientais de instalação e operação, pois não se costuma abordar os outros custos socioambientais, incluindo a aquisição de matérias-primas, transformação, transporte, processamento, distribuição, logística reversa e descomissionamentos). A transição tem que ser séria com a transmissão de tecnologias, incluindo os países e populações mais carentes, até ao ponto em que haja realmente condições que permitam substituí-la completamente no atendimento às necessidades físicas das populações humanas] [UTOPIA]

"Se os governos são sérios sobre a redução do desemprego juvenil de forma ética, sem ameaçar a qualidade de vida das gerações futuras, eles simplesmente têm de investir agora em encontrar alternativas para aqueles empregos que poluem o ambiente e contribuem para as alterações climáticas – os quais todos os países já concordam em não podem existir no longo prazo", disse Richard Apeh, Secretário Geral da organização Jovens Estudantes Católicos Internacionais.

A declaração também apela a outros jovens a "trabalhar e ser agentes de mudança em suas comunidades", a fim de "criar um novo mundo marcado pela solidariedade, estilos de vida ecologicamente responsáveis, justiça e paz".

Ecovila em Cracóvia

A declaração é apenas um dos muitos esforços globais para espalhar a mensagem da encíclica durante o Dia Mundial da Juventude. Como parte da campanha #LiveLaudatoSio Movimento Católico Climático Global  criará uma Ecovila em Cracóvia, onde realizará oficinas interativas com jovens católicos sobre como eles podem colocar a Encíclica em prática e viver de forma mais sustentável.

Segunda-feira, 25 de julho, a Universidade Jagellonian sediou uma conferência intitulada 'Ecologia Integral de Laudato Si': a juventude como protagonista da mudança', com o arcebispo de Cracóvia, o Presidente da Comissão Organizadora do Dia Mundial da Juventude, o Ministro do Ambiente da Polônia e um dos conselheiros mais próximos do Papa sobre a Encíclica, Cardeal Peter Turkson. O Movimento Católico Global pelo Clima (GCCM) é uma rede internacional de mais de 250 organizações católicas e indivíduos dedicados a cuidar da criação de Deus, dos pobres e das gerações futuras.


#WYD2016 #JMJ2016


Fonte:
 http://br.radiovaticana.va/news/2016/07/27/jmj_jovens_exortam_governos_a_investir_em_energias_limpas/1246870

1 de abril de 2015

Desenvolvimento dos povos, direitos e deveres, ambiente (Excerto da Carta Encíclica do Santo Padre Bento XVI, "Caritas in Veritate")

"[...]
 
Capítulo III
Fraternidade, desenvolvimento econômico e sociedade civil
 
48. O tema do desenvolvimento aparece, hoje, estreitamente associado também com os deveres que nascem do relacionamento do homem com o ambiente natural. Este foi dado por Deus a todos, constituindo o seu uso uma responsabilidade que temos para com os pobres, as gerações futuras e a humanidade inteira. Quando a natureza, a começar pelo ser humano, é considerada como fruto do acaso ou do determinismo evolutivo, a noção da referida responsabilidade debilita-se nas consciências.
 
Na natureza, o crente reconhece o resultado maravilhoso da intervenção criadora de Deus, de que o homem se pode responsavelmente servir para satisfazer as suas legítimas exigências — materiais e imateriais — no respeito dos equilíbrios intrínsecos da própria criação. Se falta esta perspectiva, o homem acaba por considerar a natureza um tabu intocável ou, ao contrário, por abusar dela. Nem uma nem outra destas atitudes corresponde à visão cristã da natureza, fruto da criação de Deus.
 
A natureza é expressão de um desígnio de amor e de verdade. Precede-nos, tendo-nos sido dada por Deus como ambiente de vida. Fala-nos do Criador (cf. Rm 1, 20) e do seu amor pela humanidade. Está destinada, no fim dos tempos, a ser «instaurada» em Cristo (cf. Ef 1, 9-10; Col 1, 19-20). Por conseguinte, também ela é uma «vocação». A natureza está à nossa disposição, não como «um monte de lixo espalhado ao acaso», mas como um dom do Criador que traçou os seus ordenamentos intrínsecos dos quais o homem há-de tirar as devidas orientações para a «guardar e cultivar» (Gn 2, 15). Mas é preciso sublinhar também que é contrário ao verdadeiro desenvolvimento considerar a natureza mais importante do que a própria pessoa humana.
 
Esta posição induz a comportamentos neopagãos ou a um novo panteísmo: só da natureza, entendida em sentido puramente naturalista, não pode derivar a salvação para o homem. Por outro lado, há que rejeitar também a posição oposta, que visa a sua completa tecnicização, porque o ambiente natural não é apenas matéria de que dispor a nosso bel-prazer, mas obra admirável do Criador, contendo nela uma «gramática» que indica finalidades e critérios para uma utilização sapiente, não instrumental nem arbitrária.
 
Advêm, hoje, muitos danos ao desenvolvimento precisamente destas concepções deformadas. Reduzir completamente a natureza a um conjunto de simples dados reais acaba por ser fonte de violência contra o ambiente e até por motivar ações desrespeitadoras da própria natureza do homem. Esta, constituída não só de matéria mas também de espírito e, como tal, rica de significados e de fins transcendentes a alcançar, tem um caráter normativo também para a cultura.
 
O homem interpreta e modela o ambiente natural através da cultura, a qual, por sua vez, é orientada por meio da liberdade responsável, atenta aos ditames da lei moral. Por isso, os projetos para um desenvolvimento humano integral não podem ignorar os vindouros, mas devem ser animados pela solidariedade e a justiça entre as gerações, tendo em conta os diversos âmbitos: ecológico, jurídico, econômico, político, cultural.
 
49. Hoje, as questões relacionadas com o cuidado e a preservação do ambiente devem ter na devida consideração as problemáticas energéticas. De fato, o açambarcamento dos recursos energéticos não renováveis por parte de alguns Estados, grupos de poder e empresas constitui um grave impedimento para o desenvolvimento dos países pobres. Estes não têm os meios econômicos para chegar às fontes energéticas não renováveis que existem, nem para financiar a pesquisa de fontes novas e alternativas.
 
A monopolização dos recursos naturais, que em muitos casos se encontram precisamente nos países pobres, gera exploração e frequentes conflitos entre as nações e dentro das mesmas. E muitas vezes estes conflitos são travados precisamente no território de tais países, com um pesado balanço em termos de mortes, destruições e maior degradação. A comunidade internacional tem o imperioso dever de encontrar as vias institucionais para regular a exploração dos recursos não renováveis, com a participação também dos países pobres, de modo a planificar em conjunto o futuro.
 
Também sobre este aspecto, há urgente necessidade moral de uma renovada solidariedade, especialmente nas relações entre os países em vias de desenvolvimento e os países altamente industrializados. As sociedades tecnicamente avançadas podem e devem diminuir o consumo energético seja porque as atividades manufatureiras evoluem, seja porque entre os seus cidadãos reina maior sensibilidade ecológica.
 
Além disso há que acrescentar que, atualmente, é possível melhorar a eficiência energética e fazer avançar a pesquisa de energias alternativas; mas é necessária também uma redistribuição mundial dos recursos energéticos, de modo que os próprios países desprovidos possam ter acesso aos mesmos. O seu destino não pode ser deixado nas mãos do primeiro a chegar nem estar sujeito à lógica do mais forte.
 
Trata-se de problemas relevantes que, para ser enfrentados de modo adequado, requerem da parte de todos uma responsável tomada de consciência das consequências que recairão sobre as novas gerações, principalmente sobre a imensidade de jovens presentes nos povos pobres, que «reclamam a sua parte ativa na construção de um mundo melhor».
 
50. Esta responsabilidade é global, porque não diz respeito somente à energia, mas a toda a criação, que não devemos deixar às novas gerações depauperada dos seus recursos. É lícito ao homem exercer um governo responsável sobre a natureza para a guardar, fazer frutificar e cultivar inclusive com formas novas e tecnologias avançadas, para que possa acolher e alimentar condignamente a população que a habita. Há espaço para todos nesta nossa terra: aqui a família humana inteira deve encontrar os recursos necessários para viver decorosamente, com a ajuda da própria natureza, dom de Deus aos seus filhos, e com o empenho do seu próprio trabalho e inventiva.
 
Devemos, porém, sentir como gravíssimo o dever de entregar a terra às novas gerações num estado tal que também elas possam dignamente habitá-la e continuar a cultivá-la. Isto implica «o empenho de decidir juntos depois de ter ponderado responsavelmente qual a estrada a percorrer, com o objetivo de reforçar aquela aliança entre ser humano e ambiente que deve ser espelho do amor criador de Deus, de Quem provimos e para Quem estamos a caminho». É desejável que a comunidade internacional e os diversos governos saibam contrastar, de maneira eficaz, as modalidades de utilização do ambiente que sejam danosas para o mesmo.
 
É igualmente forçoso que se empreendam, por parte das autoridades competentes, todos os esforços necessários para que os custos econômicos e sociais derivados do uso dos recursos ambientais comuns sejam reconhecidos de maneira transparente e plenamente suportados por quem deles usufrui e não por outras populações nem pelas gerações futuras: a proteção do ambiente, dos recursos e do clima requer que todos os responsáveis internacionais atuem conjuntamente e se demonstrem prontos a agir de boa fé, no respeito da lei e da solidariedade para com as regiões mais débeis da terra. Uma das maiores tarefas da economia é precisamente um uso mais eficiente dos recursos, não o abuso, tendo sempre presente que a noção de eficiência não é axiologicamente neutra.
 
51. As modalidades com que o homem trata o ambiente influem sobre as modalidades com que se trata a si mesmo, e vice-versa. Isto chama a sociedade atual a uma séria revisão do seu estilo de vida que, em muitas partes do mundo, pende para o hedonismo e o consumismo, sem olhar aos danos que daí derivam. É necessária uma real mudança de mentalidade que nos induza a adotar novos estilos de vida, «nos quais a busca do verdadeiro, do belo e do bom e a comunhão com os outros homens para um crescimento comum sejam os elementos que determinam as opções dos consumos, das poupanças e dos investimentos».
 
Toda a lesão da solidariedade e da amizade cívica provoca danos ambientais, assim como a degradação ambiental por sua vez gera insatisfação nas relações sociais. A natureza, especialmente no nosso tempo, está tão integrada nas dinâmicas sociais e culturais que quase já não constitui uma variável independente. A desertificação e a penúria produtiva de algumas áreas agrícolas são fruto também do empobrecimento das populações que as habitam e do seu atraso. Incentivando o desenvolvimento econômico e cultural daquelas populações, tutela-se também a natureza.
 
Além disso, quantos recursos naturais são devastados pela guerra! A paz dos povos e entre os povos permitiria também uma maior preservação da natureza. O açambarcamento dos recursos, especialmente da água, pode provocar graves conflitos entre as populações envolvidas. Um acordo pacífico sobre o uso dos recursos pode salvaguardar a natureza e, simultaneamente, o bem-estar das sociedades interessadas.
 
A Igreja sente o seu peso de responsabilidade pela criação e deve fazer valer esta responsabilidade também em público. Ao fazê-lo, não tem apenas de defender a terra, a água e o ar como dons da criação que pertencem a todos, mas deve sobretudo proteger o homem da destruição de si mesmo. Requer-se uma espécie de ecologia do homem, entendida no justo sentido.
 
De fato, a degradação da natureza está estreitamente ligada à cultura que molda a convivência humana: quando a «ecologia humana» é respeitada dentro da sociedade, beneficia também a ecologia ambiental. Tal como as virtudes humanas são intercomunicantes, de modo que o enfraquecimento de uma põe em risco também as outras, assim também o sistema ecológico se rege sobre o respeito de um projeto que se refere tanto à sã convivência em sociedade como ao bom relacionamento com a natureza.
 
Para preservar a natureza não basta intervir com incentivos ou penalizações econômicas, nem é suficiente uma instrução adequada. Trata-se de instrumentos importantes, mas o problema decisivo é a solidez moral da sociedade em geral. Se não é respeitado o direito à vida e à morte natural, se se tornam artificiais a concepção, a gestação e o nascimento do homem, se são sacrificados embriões humanos na pesquisa, a consciência comum acaba por perder o conceito de ecologia humana e, com ele, o de ecologia ambiental.
 
É uma contradição pedir às novas gerações o respeito do ambiente natural, quando a educação e as leis não as ajudam a respeitar-se a si mesmas. O livro da natureza é uno e indivisível, tanto sobre a vertente do ambiente como sobre a vertente da vida, da sexualidade, do matrimônio, da família, das relações sociais, numa palavra, do desenvolvimento humano integral.
 
Os deveres que temos para com o ambiente estão ligados com os deveres que temos para com a pessoa considerada em si mesma e em relação com os outros; não se podem exigir uns e espezinhar os outros. Esta é uma grave antinomia da mentalidade e do costume atual, que avilta a pessoa, transtorna o ambiente e prejudica a sociedade.
 
52. A verdade e o amor que a mesma desvenda não se podem produzir, mas apenas acolher. A sua fonte última não é — nem pode ser — o homem, mas Deus, ou seja, Aquele que é Verdade e Amor.
 
Este princípio é muito importante para a sociedade e para o desenvolvimento, enquanto nem uma nem outro podem ser somente produtos humanos; a própria vocação ao desenvolvimento das pessoas e dos povos não se funda sobre a simples deliberação humana, mas está inscrita num plano que nos precede e constitui para todos nós um dever que há-de ser livremente assumido.
 
Aquilo que nos precede e constitui — o Amor e a Verdade subsistentes — indica-nos o que é o bem e em que consiste a nossa felicidade. E, por conseguinte, aponta-nos o caminho para o verdadeiro desenvolvimento.
 
[...]"
 

27 de fevereiro de 2015

Ecologia: É necessário ir além das discussões politizadas

Entrevista com o Padre Robert Gahl - professor de ética na Universidade Pontifícia da Santa Cruz em Roma - sobre a futura encíclica papal, publicada no portal ZENIT em 24.02.2015.

Boa leitura!

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O Santo Padre Francisco anunciou repetidamente que este ano publicará sua segunda Encíclica e o tema abordado será a ecologia. Uma questão até agora não muito discutida na Igreja, mas é cada vez mais evidente que deve nos preocupar, como cidadãos, mas também como cristãos, porque o meio ambiente é um dom que Deus deu ao homem para que fosse cuidado.

Zenit: Por que agora a Igreja está mais preocupada com a ecologia?
 
É um ano particularmente importante por ocasião da Conferência das Nações Unidas Sobre as Mudanças Climáticas que acontecerá em Paris de 30 de novembro a 11 de dezembro de 2015. Muitos acham que a Encíclica ajudará a reflexão neste encontro. Mas esta é uma razão circunstancial, pontual. 
 
Será a primeira encíclica papal sobre o tema da ecologia e por que o Papa quer isso? Quer ensinar a todos - e não apenas os católicos - a cuidar mais do meio ambiente. Temos que lembrar que abordará questões mais recentes e aparentemente exóticas tais como lixo espacial, satélites em órbita... 
 
É importante entender porque o Papa quer abordar todas estas preocupações. Principalmente, porque Deus colocou toda a Criação nas mãos dos seres humanos e temos essa responsabilidade recebida por Deus. Nós exercemos o domínio de Deus sobre a Criação. Desta forma, especialmente os batizados podem viver esta tarefa de governar pelo "sacerdócio real".
 
Há uma outra razão. O Papa está muito preocupado com a periferia e a pobreza e percebe que estes sofrem especialmente por desastres ecológicos. No entanto, o progresso tecnológico está nas mãos das pessoas mais ricas.
 
Ao mesmo tempo, o Papa está preocupado porque viu na América Latina, a exploração da natureza por parte de grandes empresas multinacionais com objetivo de maximizar os lucros a qualquer custo.
 
É preciso prestar atenção porque muitos tentaram politizar esta questão e outros tentaram minimizar o teor da Encíclica. Por isso, é importante ir além das discussões politizadas. O Santo Padre, com sua autoridade moral, quer convidar a todos a serem criativos na forma de gerenciar isso e a avançarem em novos projetos.
 
Zenit: Recentemente, o Papa disse em uma homilia que se preocupar com o meio ambiente não é apenas uma questão de "verde". Por que é importante que os católicos também se preocupem com a ecologia?
 
Estou lembrando do discurso de Bento XVI no Bundestag, quando também falou do "verde". Ele disse que não havia mais "verde" como tal, porque todos os partidos estavam conscientes e comprometidos com o meio ambiente. E o Papa Francisco quer estar em continuidade com seu antecessor, também nisso.
 
Em alguns países, o “verde” foi associado ao anticlericalismo e é interessante o porquê disso. A Igreja é naturalmente favorável à ecologia, mas há correntes de neo-paganismo que estão ligadas ao movimento ecológico. Mas não quer dizer que os católicos não estão comprometidos com a defesa do meio ambiente
 
Temos mais motivos para defender o meio ambiente, não porque "adoramos" o ambiente como se a Mãe Terra fosse uma deusa, mas porque é um dom de Deus e devemos deixa-la para os outros e temos a responsabilidade diante de Deus de cuidar deste lugar que Ele criou.
 
Um problema do movimento ecologista é quando se coloca o ambiente acima do homem, o homem deve servir a natureza. Mas de acordo com o cristianismo, o homem se preocupa com o meio ambiente. Devemos ver o meio ambiente como um jardim para cuidar, cultivar, semear e fazer frutificar.
 
Zenit: Um tema complexo e muito discutido relacionado ao cuidado do meio ambiente é o aquecimento global. Por que falta formação a este respeito?
 
Em parte, porque é altamente politizado. Na maioria das vezes é usado como slogan político para punir as nações, para conter a inovação. Também porque há muito dinheiro que depende das decisões políticas que são tomadas. Outra razão é a política populacional que pretende limitar os nascimentos nos países em desenvolvimento, que continuam com projetos neo-malthusianos, condenados pelo Papa.
 
Não se trata de acreditar ou não nas mudanças climáticas e no aquecimento global, é um fato científico. O que nos diz o magistério é que devemos cuidar do meio ambiente e temos de ser cautelosos, também diante das ideologias políticas anti pessoas humanas que aproveitam desses perigos para promover programas contra a família e a vida humana.
 
Zenit: Este ano teremos a Encíclica do Papa Francisco sobre a ecologia, mas o que os outros documentos do Magistério falam sobre esta problemática?
 
Dos documentos sobre a Doutrina Social da Igreja me parece importante a Caritas in Veritate. Também a Centesimus Annus faz referência. Há também um documento do Pontifício Conselho para a Cultura e do Pontifício Conselho para o Diálogo Inter-religioso, que trata sobre interpretações espiritualistas neo-pagãs e da Nova Era e aborda especificamente a questão da água. Mas este será o primeiro documento pontifício dedicado inteiramente ao meio ambiente.
 
Zenit: Por que você acha que a ecologia não foi uma questão de grande preocupação para a Igreja?
 
Do ponto de vista filosófico e científico, apenas após a Segunda Guerra Mundial se começou a refletir sobre a relação entre o homem e o ambiente. 

Há um pensador muito importante chamado Hans Jonas, que escreveu um livro sobre o princípio da responsabilidade. Esta obra foi usada por muitos ambientalistas como linha guia metodológica, mas para a Igreja o foco é visto como um pouco exagerado, embora tenha ideias interessantes e profundas. 
 
O princípio da responsabilidade diz que não devemos fazer se não podemos provar que o que fazemos não terá um impacto muito negativo sobre o mundo. Este tipo de ‘prudência’ é muito conservadora e retarda a iniciativa, o empreendedorismo e a criatividade. Sem dúvidas, a Igreja tende a ver o homem de uma forma mais positiva, é verdade que existe o pecado, os riscos da tecnologia; mas a tecnologia também é uma fonte de iniciativas criativas e bem-estar para os homens. O progresso é positivo, mas deve ser bem utilizado. É importante pensar sobre questões como a reciclagem... 
 
A Igreja deve se preocupar com a formação da consciência moral das pessoas. Maltratar o meio ambiente é uma ofensa a Deus, porque Ele criou tudo isso, e também uma ofensa ao próximo.



 
Fonte: http://www.zenit.org/pt/articles/ecologia-e-necessario-ir-alem-das-discussoes-politizadas

17 de fevereiro de 2015

Sobre a nova encíclica papal a ser publicada em 2015

A nova encíclica papal abordará os cuidados com a criação e, possivelmente, estará disponível em meados de 2015, conforme podemos ler no trecho da entrevista publicada abaixo.
 
Não tenho cuidado muito do blog, mas as visitas continuam e agradeço a curiosidade dos que aqui "migram". Uma das maiores doenças espirituais me pegou "em cheio" - uma preguiça triste de quase quatro anos. Essa condição também reflete um pouco o posicionamento de muitos católicos que adoram postergar ações de conversão e resiliência às coisas do mundo, focando em Deus e no que nos solicita. Sem a Sua armadura (Ef 6, 11) ninguém resiste...

Minhas sinceras desculpas pelo hiato. E boas leituras!
 
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VIAGEM APOSTÓLICA DO PAPA FRANCISCO
AO SRI LANKA E ÀS FILIPINAS

(12-19 DE JANEIRO DE 2015)
ENCONTRO DO SANTO PADRE COM OS JORNALISTAS
DURANTE O VOO PARA MANILA
Quinta-feira, 15 de Janeiro de 2015

"[...] 
(Padre Lombardi)
 
"Obrigado. Então agora passemos às perguntas, para as quais se inscreveram os nossos colegas. O primeiro é Jerry O'Connell de America Magazine, que o Santo Padre conhece bem. A ele, a palavra".
 
(Jerry O'Connell)
 
"Antes de mais nada, concordo com o Padre Lombardi e dou-lhe os parabéns, Santo Padre, pelo sucesso da visita ao Sri Lanka. Apresento uma pergunta em nome do grupo inglês; pusemo-nos de acordo para lhe pôr uma questão-ponte, que ligue a visita ao Sri Lanka e a visita às Filipinas. No Sri Lanka, vimos a beleza da natureza, mas também a vulnerabilidade daquela ilha: desde as alterações climáticas até ao mar, etc. Estamos voando para as Filipinas e o Santo Padre visitará a área já atingida. Há mais de um ano que está a estudar a questão da ecologia e do cuidado da criação. Por isso, a minha pergunta prevê três aspectos. Primeiro: a alteração climática deve-se, principalmente, à obra do homem, à sua falta de cuidado pela natureza? Segundo: a sua Encíclica, quando sairá? Terceiro: o Santo Padre insiste muito, como vimos no Sri Lanka, sobre a cooperação entre religiões; porventura tem intenção de convidar as outras religiões a unirem-se para enfrentar este problema? Obrigado".

(Papa Francisco)
 
"Quanto à primeira pergunta, o senhor disse uma palavra – «principalmente» – que me poupa de fazer um esclarecimento. Totalmente, não sei; mas principalmente, em grande medida, é o homem que maltrata a natureza, continuamente. De certo modo assenhoreamo-nos da natureza, da irmã terra, da mãe terra. Lembro-me – já ouvistes isto – daquilo que um velho agricultor me disse uma vez: «Deus perdoa sempre, nós – os homens – algumas vezes, a natureza nunca». Se a maltratas, ela faz-to pagar. Creio que explorámos demasiadamente a natureza; as desflorestações, por exemplo. 
 
Recordo a Conferência da Aparecida: naquele tempo, eu não compreendia bem este problema e, quando ouvia os bispos brasileiros falar da desflorestação da Amazônia, não os conseguia entender bem. A Amazônia é um pulmão do mundo. Depois, há cinco anos, com uma comissão dos direitos humanos, fiz um recurso para o Supremo Tribunal da Argentina a fim de se suspender, no norte do país – na área norte de Salta, Tartagal –, pelo menos temporariamente, uma terrível desflorestação. 
 
Este é um aspecto; outro são as monoculturas. Por exemplo, os agricultores sabem que se pode cultivar o milho durante três anos, depois tem-se que parar e fazer outra cultura um ou dois anos para nitrogenizar a terra, senão a terra não faz crescer. Na Argentina, por exemplo, cultiva-se apenas soja e mais soja até a terra se esgotar. Nem todos fazem isto, mas é um exemplo entre muitos outros. 
 
Creio que o homem foi longe demais. Hoje, graças a Deus, levantam-se vozes, tantas, tantas que falam disto; neste momento, quero recordar o meu amado irmão Bartolomeu, que há anos prega sobre isto. Li muitas coisas dele para preparar esta Encíclica. Podia falar mais sobre isto, mas não quero alongar-me. 
 
Digo só isto! Guardini tem uma frase bastante esclarecedora. Diz ele: «a segunda forma de incultura, é a má. A primeira é a incultura em que recebemos a criação com a ordem de a tornar cultura; mas, quando o homem se assenhoreia em demasia e exorbita, esta cultura vira-se contra o homem». Pensemos em Hiroshima. Cria-se uma incultura, ou seja, a segunda.
 
Quanto à Encíclica: o primeiro projeto fê-lo o Cardeal Turkson com a sua equipe. Depois eu, com a ajuda de alguns, peguei e trabalhei nele. Em seguida, com alguns teólogos, fiz um terceiro projeto, enviando cópia à Congregação para a Doutrina da Fé, à Segunda Seção da Secretaria de Estado e ao Teólogo da Casa Pontifícia, pedindo que o estudassem bem para eu não dizer «tolices». Há três semanas, recebi as respostas, algumas muito longas, mas todas construtivas. E agora vou reservar uma semana inteira de março para a concluir. Creio que, no final de março, estará concluída, passando-se às traduções. 
 
Penso que, se o trabalho de tradução correr bem – Mons. Becciu está a ouvir-me; ele tem que contribuir para isso –, se tudo correr bem, em junho/julho poderá sair. Importante é que transcorra um pouco de tempo entre a saída da Encíclica e o encontro de Paris, para que lhe sirva de contribuição. O encontro do Peru não foi de grande valor. Fiquei desiludido com a falta de coragem: chegados a determinado ponto, pararam. Esperemos que em Paris os representantes sejam mais corajosos para avançar sobre este assunto.
 
Quanto à terceira pergunta, creio que o diálogo entre as religiões é importante a propósito disto. As outras religiões têm uma boa perspectiva. Inclusive sobre este ponto, há um acordo para se ter o mesmo ponto de vista. Ainda não aparece na Encíclica. Na realidade, falei com algumas pessoas doutras religiões sobre o tema e sei que o Cardeal Turkson também o fez, e o mesmo fizeram pelo menos dois teólogos: este é o caminho feito. A Encíclica não será uma declaração conjunta. Os encontros virão depois".
 
(Padre Lombardi)
 

2 de janeiro de 2011

Transgênicos: entre técnica e bem comum

A Agência ZENIT entrevistou Piero Morandini, pesquisador e professor de Biotecnologias vegetais e Fisiologia vegetal da Università degli Studi de Milão, além de um dos italianos que participaram no congresso da PAS e na redação do documento. 

O documento assinado por 40 cientistas intitulado “As plantas transgênicas para a segurança alimentar no contexto do desenvolvimento” suscitou um enorme interesse e um debate acalorado. Fruto do congresso da Academia Pontifícia das Ciências (PAS), o documento foi alvo de especulação da imprensa, interessada em saber se o texto refletia ou não a postura da Igreja católica sobre o tema. 

O documento, que apresenta pontos de vista originais nas áreas científica e econômica, é também inovador no campo da justiça e da defesa do bem comum.

Boa leitura!

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Entrevista com o Piero Morandini, professor de Biotecnologias vegetais e Fisiologia vegetal
Por Antonio Gaspari


ZENIT: Quais são os conteúdos mais importantes do documento publicado após o congresso organizado pela Academia Pontifícia das Ciências?

Morandini: Primeiro um esclarecimento: não é um documento da PAS, mas um grupo de trabalho convocado por esta para uma semana de estudo. É oportuno também acrescentar que estavam presentes o presidente, o chanceler, o cardeal Georges Cottier e vários membros da PAS, particularmente os que têm mais autoridade no campo da biologia: o professor Werner Arber, um dos pais da engenharia genética e prêmio Nobel (pela descoberta das enzimas de restrição); o professor Peter Raven, botânico de fama mundial; o professor Ingo Potrykus, inventor do Golden Rice e organizador da semana de estudo; o professor Rafael Vicuña, biólogo molecular chileno e a professora Nicole M. Le Douarin, bióloga do desenvolvimento. Todos são cientistas de grande fama, cuja estatura não pode ser colocada em dúvida por ninguém.

Portanto, é justo e devido precisar que o documento assinado não pode ser considerado “uma postura da Santa Sé ou do Magistério da Igreja sobre este tema”, como esclareceu o Pe. Lombardi, diretor da sala de imprensa da Santa Sé. Ao mesmo tempo, se os membros da PAS que são especialistas no campo da biologia assinaram o documento, isto também quer dizer algo.

Os outros membros da PAS (físicos, matemáticos...) têm claramente pouca autoridade neste campo específico e, portanto, é difícil compreender como poderiam incluir ou tirar autoridade do documento; quanto aos especialistas externos encontramos pessoas como Marc van Montagu, um dos pais de toda a biotecnologia vegetal. Além disso, tudo foi feito no Vaticano, na sede da PAS e através de sua estrutura, não casualmente, mas para mostrar a atenção que o Vaticano e a PAS têm sobre este tema. Por último e mais importante, a PAS já havia publicado um documento em 2001 (que, entre outras coisas, é claramente retomado no documento atual) que era já muito claro e que esteve sempre disponível na página oficial do Vaticano.

Feita esta necessária premissa, as três mensagens principais podem resumir-se assim: primeiro, esta tecnologia, depois de 15 anos de uso no mundo real sobre milhares de hectares, já demonstrou amplos benefícios, também nos países em via de desenvolvimento. Segundo: os riscos derivados da modificação genética por transgênese são os mesmos apresentados por plantas convencionais, nas quais as modificações são casuais.

É insensato, portanto, submeter os produtos transgênicos a uma normativa tão custosa e estrita que impossibilita a aprovação para o cultivo nas universidades e centros de pesquisa públicos. Esta normativa, de fato, acaba com a possibilidade de que a pesquisa pública possa contribuir para resolver os problemas dos países em via de desenvolvimento. Estes problemas são, principalmente, os baixos rendimentos (devidos a doenças, parasitas e danos de insetos, seca, inundações), mas também carências nutricionais e alimentos contaminados por toxinas.

Resumindo, é a normativa hiper precavida (mas não científica) e custosa que impede a exploração desta tecnologia em benefício dos pobres. Todos os demais obstáculos – patentes, adaptação às condições locais, falta de fundos para pesquisa, etc. – são pouco relevantes na prática.

ZENIT: Quais são as novidades deste documento?

Morandini: A clareza em alguns pontos e a visão global. A clareza em dizer aos que se opõem, talvez pelas mais sagradas indignações que surgem diante de casos de exploração indigna que se comprovam em certos países, que não consideram a grande massa de evidências científicas e de experiências no mundo real, já que se corre o risco de eliminar esta tecnologia e de ter o maior efeito negativo precisamente sobre os pobres, em nome dos quais os que se opõem a estas técnicas parecem querer falar.

Não podemos continuar debatendo sobre riscos hipotéticos e imaginários quando estas coisas já foram objeto de estudo e de milhares de publicações. É necessário dar um passo adiante, partindo do quanto está estabelecido e tentando resolver problemas. Clareza também porque se reconhece que a ciência e a empresa têm a obrigação moral de tornar esta tecnologia acessível aos menos afortunados. Ainda se se reconhece que isto já se fez em alguns casos, está claro que é possível e deve se fazer mais. Visão global porque se reconhece que, contudo, os transgênicos (OGM) não são “a” solução dos enormes, numerosos e diversos problemas que afligem as populações que vivem para e da agricultura em nosso planeta e que são perto da metade da população mundial.

De fato, a falta de infraestrutura, de estabilidade política, de educação agrícola... são questões irrenunciáveis. Sem todas estas coisas, pretender que os OGM sejam uma varinha mágica que pode resolver tudo é errôneo. Mas é evidente que esses mesmos problemas se aplicam a qualquer tipo de agricultura que não seja a típica de subsistência, praticada há séculos em muitos países e muitas vezes associada a doenças e carestias.

Estes problemas não são, portanto, peculiares dos OGM ou uma consequência de seu uso, enquanto, pelo contrário, alguns dos problemas podem ser atenuados pelo OGM. Por exemplo, utilizando plantas que se autoprotegem dos parasitas e, portanto, não necessitam de pesticidas. O único de que se necessita são as sementes.

ZENIT: O documento sustenta que os OGM são uma grade oportunidade para os agricultores dos países em via de desenvolvimento. Pode nos explicar por quê?

Morandini: São uma oportunidade de muitas maneiras, ainda que claramente não existe nenhuma panaceia porque cada situação deve ser enfrentada por suas particularidades: o tipo de problema agrícola, as práticas locais e também a cultura local (por exemplo, as preferências alimentares). Tenho ainda diante dos olhos as imagens projetadas na apresentação de W. Parrott (Universidade da Geórgia, EUA) na qual falava da Guatemala e da alta incidência dos defeitos do tubo neural, como a espinha bífida.

Em certas zonas rurais a frequência destes defeitos é 30 vezes maior que no mundo ocidental e isto se deve, em grande parte, ao consumo de milho que contém certas toxinas produzidas por fungos que contaminam a colheita. O milho transgênico Bt poderia reduzir drasticamente estes casos porque reduz o dano dos insetos e a consequente contaminação por fungos nas espigas. Convido todos a ler esse relatório.

Ainda estou comovido diante das imagens de plantas parasitas que destroem as colheitas na África, apresentadas pelo professor Jonathan Gressel do Weizman Institute. Em muitos países africanos, e não só neles, estão presentes plantas parasitas que se aferram com suas raízes às raízes das plantas e sugam seus nutrientes. Assim, por exemplo, o milho brota, começa a crescer, mas rapidamente murcha e não produz nada porque é aniquilado pela planta parasita, quase comos e fosse um feitiço de uma bruxa; de fato, estas plantas parasitas, com flores belíssimas, se chaman witchweed (feitiço de bruxa). Também aqui a biotecnologia poderia ajudar a prevenir a infestação muito eficazmente.

Penso também na mandioca e em outras espécies parcialmente tóxicas, ou nas ameaçadas por vírus ou parasitas. Penso no golden rice e peço que todos os leitores de ZENIT vejam o nono slide da apresentação do professor Peter Beyer . O golden rice contém pró-vitamina A e foi criado para prevenir a cegueira e morte em ciranças pobres cuja dieta está baseada preferencialmente no arroz; cegueira e morte devidas à carência de vitamina A. A primeira versão da planta transgênica é de 1999, mas chegará, talvez, aos campos de agricultores de alguns países asiáticos somente em 2012.

A imagem mais impressionante para mim foi uma das apresentadas pelo professor Zeigler, diretor do IRRI (Istituto Internazionale di Ricerca sul Riso, com sede nas Filipinas). No sétimo slide, se vê um homem agachado que cava num campo de arroz depois da colheita. Quando Zeigler perguntou a um colaborador que fazia aquele homem, ele lhe respondeu que “estava cavando para chegar ao ninho de ratos para recuperar o arroz acumulado por eles”.

Se um homem deve roubar dos ratos para comer, óbvio que há problemas com a produção de alimentos. Não entro aqui no problema, ainda que relevante, do acesso “financeiro” à comida, problema que necessitaria de outro espaço grande; quero dizer é que se conseguimos aumentar a produção in loco, isto só pode ter um efeito positivo sobre a possibilidade de que os produtores tenham o suficiente e que os preços dos alimentos possam cair.

Também no caso dos rendimentos, a tecnologia pode ajudar. Para o arroz, por exemplo, o IRRI isolou um gene que confere resistência à submersão (e, portanto, às inundações que muitas vezes afetam as zonas onde o arroz cresce). Somente a presença deste gene pode criar a diferença entre uma colheita abundante e nenhuma colheita.

ZENIT: Com relação ao risco de que as multinacionais explorem os países pobres, o documento afirma que o maior problema são as oposições que estão fazendo subir os custo do patenteamento e, em particular, a pesada regulamentação. Em resumo, segundo o documento, estamos no paradoxo de que os que se dizem críticos das multinacionais na realidade as estão favorecendo, penalizando a pesquisa biotech dos países em vias de desenvolvimento. Poderia nos explicar este ponto do documento?

Morandini: Na verdade, como observava antes, as patentes não são obstáculo por diversos motivos (que valeria a pena analisar separadamente). A regulamentação é o ponto crucial porque requer, para o cultivo e a comercialização, um série muito longa de exames, caracterizações moleculares, provas de campo e alimentação, que se torna insustentável para a pesquisa pública. Penso, por exemplo, na semente de algodão feito comestível por transgênese. Esta planta transgênica, publicada em 2006, se tivesse sido introduzida e cruzada com as variedades locais, tornaria as sementes de algodão comestíveis, colocando à disposição de 500 milhões de pessoas uma dose de 50 g de proteínas por dia (10 milhões de toneladas de proteína por ano), e isso sem aumentar o cultivo, sem utilizar pesticidas ou herbicidas, sem patente alguma. Os autores o fariam disponível gratuitamente aos países pobres, se conseguissem obter o dinheiro para chegar à comercialização. Haveria muitos outros exemplos.

São, portanto, os mitos dos perigos ambientais e de saúde dos OGM, às vezes, deliberadamente criados e propagados intencionalmente, que ajudaram a moldar a legislação vigente e que contribuem para mantê-la, e muitos inclusive pedem para que ela seja ainda mais restritiva. Assim, afogaram a pesquisa pública e entregaram a tecnologia praticamente nas mãos dos grandes grupos privados. Portanto, aqueles que, por medo das multinacionais e da exploração indevida, opuseram-se aos transgênicos, realmente contribuíram para criar condições mais favoráveis para essa exploração. Vejam só a Itália: a pesquisa de campo está bloqueada há quase dez anos. Quem se beneficiou eliminando a pesquisa pública italiana? Também esta seria uma questão a indagar...

ZENIT: Certa cultura acusa a Igreja Católica a ser obscurantista, enquanto o documento mostra que a Igreja é, certamente, muito atenta, clarividente e aberta às inovações científicas e tecnológicas. Qual é a sua opinião sobre o assunto?

Morandini: É interessante dar uma volta pelos blogs que recolhem a notícia e ver o mundo dos leitores dividido em dois. Por um lado, aqueles que estão contentes porque a Igreja, segundo eles, finalmente acertou em alguma coisa; por outro, aqueles que argumentam, com raiva, que a Igreja está errada também neste caso, porque isso favoreceria as multinacionais. Minha posição, como cientista e filho da Igreja, é que a atitude que permeia a cultura judaico-cristã, ou seja, o mandato de “proteger e cultivar o jardim”, tem em si a semente da tecnologia.

Em uma visão de mundo que reconhece que a inteligência é um dom de Deus, que o mundo é inteligível, e que “não agir segundo a razão é contrário à natureza de Deus (Papa Bento XVI em Ratisbona), o uso da inteligência para mudar a natureza é completamente natural e aceitável, e a tecnologia, que deriva de este uso, não é condenável em si, mas apenas quando envolve danos à natureza ou ao homem.

Portanto, a oposição não é a priori, mas somente se há consequências negativas. Ainda mais duas citações para enfatizar a abertura da Igreja à atividade humana que explora a natureza, para compreendê-la e utilizá-la de maneira sempre nova. A primeira, mais uma vez, do discurso em Ratisbona: “Deve-se reconhecer sem reservas o que há de positivo no desenvolvimento moderno do espírito: estamos todos gratos pelas maravilhosas possibilidades que se abriram para a humanidade e pelos progressos que têm sido alcançados no campo humano. Além disso, a ética da pesquisa científica deve envolver a vontade de obedecer à verdade e, portanto, deve ser uma expressão de uma atitude que faz parte das decisões fundamentais do espírito cristão”; e outra citação da Caritas in veritate:A tecnologia – convém enfatizar – é um fato profundamente humano, ligado à autonomia e à liberdade do homem (...). Responde à própria vocação do trabalho humano: na tecnologia, vista como uma obra do próprio talento, o homem se reconhece e realiza sua própria humanidade”. Se isso não for suficiente para convencer, não sei que outras “armas” utilizar...

Em conclusão, e também em relação a esta questão, convido todos a lerem a declaração, principalmente aqueles envolvidos na mídia e na educação, incluindo cada uma das palestras apresentadas, a fim de começar a conscientizar-se do imenso corpus de evidências recolhidas que nos ratificam no potencial e nos benefícios desta tecnologia. Depois disso, tirem suas conclusões.