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5 de novembro de 2021

Homilia do Papa Francisco sobre o Sagrado Coração de Jesus e Sua presença em nossas vidas - 05.11.2021

 Traduzido por Renata P. Espíndola.


Contemplando o Coração de Jesus, podemos deixar-nos guiar por três palavras: memória, paixão e consolação. Lembrança... Lembrar [em italiano, ricordare], significa “voltar ao coração, voltar com o coração”. Ri-cordare. A que o Sagrado Coração de Jesus nos faz voltar? Ao que Ele fez por nós: o Coração de Cristo mostra-nos Jesus que se oferece, é o compêndio da sua misericórdia.

Olhando para ele - como fez João no Evangelho (19, 31-37), nos vem naturalmente lembrar sua bondade, que é dada de graça, que não pode ser comprada nem vendida; e incondicional, não depende de nossas ações, é soberana. E está se movendo. Na pressa de hoje, em meio a mil recados e preocupações contínuas, estamos perdendo a capacidade de nos emocionar e de sentir compaixão, porque estamos perdendo esse retorno ao coração, ou seja, essa memória, esse retorno ao coração.

Sem memória, perde-se as raízes e, sem raízes, não se cresce. É bom para nós alimentar a memória de quem nos amou, cuidou de nós e nos elevou. Desejo renovar hoje o meu “obrigado” pelo carinho e pelo carinho que aqui recebi. Acredito que neste tempo de pandemia é bom lembrarmos até dos momentos que mais sofremos: não para nos entristecer, mas para não esquecer e para nos guiar nas nossas escolhas à luz do um passado muito recente.

Eu me pergunto: como funciona nossa memória? Para simplificar, poderíamos dizer que nos lembramos de alguém ou de alguma coisa quando toca nosso coração, quando nos vincula a um determinado afeto ou falta de afeto. E assim o Coração de Jesus cura a nossa memória porque a traz de volta ao afeto fundamental. Ele enraíza na base mais sólida. Isso nos lembra que, aconteça o que acontecer conosco na vida, somos amados. 

Sim, somos seres amados, filhos a quem o Pai ama sempre e, em todo o caso, irmãos e irmãs por quem bate o Coração de Cristo. Cada vez que perscrutamos aquele Coração, descobrimo-nos “enraizados e alicerçados no amor”, como disse o apóstolo Paulo na primeira leitura de hoje (Ef 3, 17).

Cultivemos esta memória, que se fortalece quando estamos face a face com o Senhor, especialmente quando nos deixamos ser olhados e amados por Ele em adoração. Mas também podemos cultivar entre nós a arte de lembrar, de valorizar os rostos que encontramos. Penso nos dias cansativos no hospital, na universidade, no trabalho. Corremos o risco de que tudo passe sem deixar rasto, ou de que permaneçam apenas o cansaço e o cansaço. É bom para nós, à noite, rever os rostos que encontramos, os sorrisos que recebemos, as boas palavras.

São memórias de amor e ajudam a nossa memória a se reencontrar: que nossa memória se reencontre. Quão importantes são essas memórias nos hospitais! Eles podem dar sentido ao dia de uma pessoa doente. Uma palavra fraterna, um sorriso, uma carícia no rosto: são memórias que curam por dentro, fazem bem ao coração. Não esqueçamos a terapia da lembrança: ela faz muito bem!

Paixão é a segunda palavra. Paixão. O primeiro é memória, lembrança; o segundo é paixão. O Coração de Cristo não é uma devoção piedosa, para sentir um pouco de calor por dentro; não é uma imagem terna que desperta afeto, não, não é isso. É um coração apaixonado - basta ler o Evangelho -, um coração ferido de amor, aberto por nós na cruz. Ouvimos como o Evangelho fala disso: “Um dos soldados lhe furou o lado com uma lança, e imediatamente saiu sangue e água” (Jo 19, 34). Perfurado, Ele dá; na morte, Ele nos dá vida.

O Sagrado Coração é o ícone da Paixão: mostra-nos a ternura visceral de Deus, a sua paixão amorosa por nós e, ao mesmo tempo, encimado pela cruz e rodeado de espinhos, mostra-nos quanto sofrimento custou a nossa salvação. Em sua ternura e dor, esse Coração revela, em suma, o que é a paixão de Deus. O que é? Cara, nós. E qual é o estilo de Deus? Proximidade, compaixão e ternura. Este é o estilo de Deus: proximidade, compaixão e ternura.

O que isso sugere? Que, se realmente queremos amar a Deus, devemos ser apaixonados pela humanidade, por toda a humanidade, especialmente por aqueles que vivem a condição em que o Coração de Jesus se manifestou, ou seja, dor, abandono e rejeição; especialmente nesta cultura descartável em que vivemos hoje. Quando servimos os que sofrem, consolamos e nos regozijamos no Coração de Cristo.

Uma passagem do Evangelho é impressionante. João Evangelista, no momento em que narra o lado traspassado, de onde jorra sangue e água, dá testemunho para que acreditemos (cf. v. 35). São João escreve, ou seja, que naquele momento ocorre o testemunho. Porque o Coração perfurado de Deus é eloqüente. Fala sem palavras, porque é a misericórdia em estado puro, o amor que fere e dá vida. É Deus, com proximidade, compaixão e ternura.

Quantas palavras falamos sobre Deus sem mostrar amor! Mas o amor fala por si, não fala por si. Vamos pedir pela graça de nos apaixonarmos pelo homem que sofre, de nos apaixonarmos pelo serviço, para que a Igreja, antes de ter palavras a dizer, mantenha um coração que bate de amor. Antes de falar, que ela aprenda a salvaguardar o seu coração no amor.

A terceira palavra é conforto. A primeira foi a lembrança, a segunda paixão, a terceira é o consolo. Indica uma força que não vem de nós, mas de quem está conosco: daí vem a força. Jesus, o Deus conosco, nos dá essa força, seu Coração nos dá coragem na adversidade. Muitas incertezas nos assustam: nesta época de pandemia, descobrimos que somos menores, mais frágeis. Apesar de tantos avanços maravilhosos, isso também é evidente na área médica: tantas doenças raras e desconhecidas!

Quando encontro pessoas na plateia - especialmente crianças - e pergunto: “Você está doente?” - [respondem] “Uma doença rara”. Existem muitos deles hoje! Como é difícil acompanhar as patologias, os centros de tratamento, os cuidados de saúde que realmente deveriam ser, para todos. Podemos ficar desanimados. É por isso que precisamos de consolo - a terceira palavra.

O Coração de Jesus bate por nós, repetindo sempre aquelas palavras: “Coragem, coragem, não tenhas medo, estou aqui!”. Coragem, irmã, coragem, irmão, não desanimes, o Senhor teu Deus é maior que as tuas mazelas, Ele te pega pela mão e te acaricia, está perto de ti, é compassivo, é terno. Ele é o seu conforto.

Se olharmos a realidade desde a grandeza do seu Coração, muda a perspectiva, muda o nosso conhecimento da vida porque, como nos lembrava São Paulo, conhecemos “o amor de Cristo que ultrapassa o conhecimento” (Ef 3,19). Vamos nos encorajar com essa certeza, com o conforto de Deus. E peçamos ao Sagrado Coração a graça de poder consolar por sua vez. É uma graça que deve ser pedida, pois corajosamente nos comprometemos a nos abrir, ajudar uns aos outros, carregar os fardos uns dos outros. Também se aplica ao futuro da saúde, especialmente da saúde “católica”: compartilhar, apoiar-se, caminhar juntos.

Que Jesus abra o coração de quem cuida dos enfermos à colaboração e à coesão. Ao teu Coração, Senhor, confiamos a nossa vocação de cuidar: façamos com que cada pessoa que se aproxima de nós em necessidade se sinta querida.

Amém.
Catholic University of the Sacred Heart
05 de novembro de 2021
Papa Francisco 

Fonte: https://www.vatican.va/content/francesco/en/homilies/2021/documents/20211105-omelia-univ-cattolica.html

18 de abril de 2021

Resgatando uma homilia antiga do Papa Francisco (2020)

 

"A doença da preguiça e a água que nos regenera"

Terça-feira, 24 de março de 2020


A liturgia de hoje faz-nos refletir sobre a água, a água como símbolo de salvação, porque é um meio de salvação, mas a água é também um instrumento de destruição: pensemos no dilúvio... Mas nestas leituras, a água é para a salvação.


Na primeira leitura fala-se da água que traz a vida, que saneia as águas do mar, uma água nova que cura. E no Evangelho fala-se da piscina, daquela piscina repleta de água à qual os doentes iam para ser curados, porque se dizia que de vez em quando as águas se moviam, como se fosse um rio, porque um anjo descia do céu e as movia, e o primeiro, ou os primeiros, que se lançavam na água ficavam curados. E ali havia muitos doentes: “Um grande número de enfermos, cegos, coxos, paralíticos” ficavam ali, à espera da cura, do movimento da água.


Encontrava-se também um homem que estava doente há 38 anos. Há 38 anos ali, à espera da cura! Isto faz pensar, não é verdade? É demasiado... porque quem quer ser curado organiza-se para ter alguém que o ajude, faz algo, é um pouco ágil, inclusive um pouco astuto... mas ele, há 38 anos ali, a ponto que não se sabe se está doente ou morto... Vendo-o deitado, e conhecendo a realidade, que há muito tempo estava ali, Jesus diz-lhe: “Queres ficar curado?”. E a resposta é interessante: não diz que sim, lamenta-se. Da doença? Não. O doente responde: “Senhor, não tenho ninguém que me leve à piscina, quando a água é agitada. Quando estou para chegar – estou prestes a tomar a decisão de ir – outro desce antes de mim”. Um homem que chega sempre atrasado. Jesus diz-lhe: “Levanta-te, toma o teu leito e anda”. No mesmo instante, aquele homem ficou curado.


A atitude deste homem leva-nos a pensar. Estava doente? Sim, talvez, tinha alguma paralisia, mas parece que podia caminhar um pouco. Mas estava doente no coração, na alma, estava doente de pessimismo, de tristeza, de preguiça. Eis a doença daquele homem: “Sim, quero viver, mas...”, estava ali. A sua resposta não é: “Sim, quero ser curado!”. Não, é lamentar-se: “São os outros que chegam primeiro, sempre os outros”. A resposta à oferta de cura de Jesus é uma lamentação contra os outros. E assim, 38 anos a lamentar-se dos outros. E sem nada fazer para ser curado.





Era sábado: ouvimos o que os doutores da Lei fizeram. Mas a chave é o encontro com Jesus, mais tarde. Encontrou-o no templo e disse-lhe: “Eis que estás curado. Não voltes a pecar, para que não te aconteça algo pior”. Aquele homem vivia no pecado, mas não porque tinha feito algo grave, não. O pecado de sobreviver e de se lamentar da vida dos outros: o pecado da tristeza, que é a semente do diabo, da incapacidade de tomar uma decisão sobre a própria vida, mas de olhar para a vida dos outros a fim de se lamentar. Não para os criticar: para se queixar. “Eles chegam antes, eu sou a vítima desta vida”: queixas, estas pessoas respiram lamentações.


Se fizermos uma comparação com o cego de nascença, que ouvimos domingo passado: com quanta alegria, com quanta decisão reagiu à sua cura, e também com quanta determinação foi discutir com os doutores da Lei! Este [paralítico] somente foi ali e informou: “Sim, é ele”, Ponto. Sem compromisso com a vida... Faz-me pensar em muitos de nós, em muitos cristãos que vivem esta condição de preguiça, de incapacidade de fazer algo, lamentando-se de tudo. E a preguiça é um veneno, uma neblina que circunda a alma e não a deixa viver. E é também uma droga, porque se a experimentares com frequência, gostarás dela. E assim acabas por te tornares “dependente da tristeza”, “dependente da preguiça”... É como o ar. E este é um pecado bastante comum entre nós: a tristeza, a preguiça, não digo a melancolia, mas assemelha-se.


E far-nos-á bem reler o capítulo 5 de João, para ver como é a doença em que podemos cair. A água é para nos salvar. “Mas não posso salvar-me” – “Por que motivo?” – “Porque a culpa é dos outros”. E permaneço 38 anos ali... Jesus curou-me: não se vê a reação dos outros que são curados, que tomam o leito e dançam, cantam, agradecem e contam a todos. Não, ele vai em diante assim. Os outros dizem-lhe que não se deve fazer isto, mas ele diz: “Aquele que me curou disse-me que sim”, e vai adiante. E depois, em vez de ir ao encontro de Jesus e de lhe agradecer, informa: “Foi Ele”. Uma vida cinzenta, cinzenta com aquele mau espírito que é a preguiça, a tristeza, a melancolia.


Pensemos na água, a água que é símbolo da nossa força, da nossa vida, a água que Jesus usou para nos regenerar, o Batismo. E pensemos também em nós, se alguém de nós corre o perigo de escorregar nesta preguiça, neste pecado “neutro”: o pecado do neutro é este, nem branco nem preto, não se sabe o que é. E este é um pecado que o diabo pode usar para aniquilar a nossa vida espiritual e também a nossa vida como pessoas. Que o Senhor nos ajude a entender quão terrível e mau é este pecado.


Fonte: http://www.vatican.va/content/francesco/pt/cotidie/2020/documents/papa-francesco-cotidie_20200324_mai-lamentarsi.html

22 de março de 2021

Mensagem do Papa Francisco para o Dia Mundial da Água 2021

por Cardeal Pietro Parolin


À Sua Excelência o Dr. Qu Dongyu,

Diretor Geral da FAO

À Sua Excelência Dra. Audrey Azoulay,

Diretora Geral da UNESCO


"Excelências:


É uma honra para mim saudar-vos cordialmente, também em nome do Santo Padre, por ocasião do Dia Mundial da Água de 2021.


O tema escolhido para este ano, “Valorizando a água”, convida-nos a sermos mais responsáveis ​​na proteção e utilização deste elemento fundamental para a preservação do nosso planeta. Sem água, com efeito, não haveria vida, nem centros urbanos, nem produtividade agrícola, florestal ou pecuária. No entanto, esse recurso não tem sido cuidado com o cuidado e atenção que merece. Desperdiçá-lo, desprezá-lo ou poluí-lo tem sido um erro que continua a se repetir até hoje.


Além disso, no mesmo século 21, na era do progresso e dos avanços tecnológicos, o acesso à água potável e potável não está disponível para todos. O Santo Padre nos lembra que a água é “um direito humano básico, fundamental e universal, [...] condição para o exercício de outros direitos humanos” (Enc. Laudato Si’, n. 30); um bem ao qual todos os seres humanos, sem exceção, têm o direito de acessar de maneira adequada, para que possam levar uma vida digna. Portanto, “este mundo tem uma grave dívida social com os pobres que não têm acesso à água potável, porque isso lhes nega o direito à vida com base na sua dignidade inalienável” (Ib.).


A esta triste realidade somam-se hoje os efeitos nocivos das alterações climáticas: inundações, secas, aumento das temperaturas, variabilidade repentina e imprevisível das chuvas, degelos, diminuição das correntes dos rios ou esgotamento das águas subterrâneas. Todos esses fenômenos prejudicam e reduzem a qualidade da água e, consequentemente, impedem uma vida serena e fecunda. 


Contribuem também para este estado de coisas a difusão da cultura do descarte e a globalização da indiferença, que levam o homem a se sentir autorizado a saquear e roubar a criação. Sem esquecer a atual crise de saúde, que ampliou as desigualdades sociais e econômicas existentes, evidenciando os danos causados ​​pela ausência ou ineficiência dos serviços de água entre os mais necessitados.


Pensando em quantos hoje carecem de um bem tão substancial como a água, bem como nas gerações que nos sucederão, convido a todos a trabalharem para acabar com a poluição dos mares e rios, correntes subterrâneas e nascentes, através de um trabalho educativo que promova a mudança de nosso estilo de vida. a busca do bem, da verdade, da beleza e da comunhão com os outros homens para o bem comum. Sejam estas as abordagens que determinam as opções de consumo, poupança e investimento (cf. São João Paulo II, Enc. Centesimus annus, 36).


“Valorizar a água”, como diz o tema deste ano, significa, portanto, mudar a nossa própria linguagem. Em vez de falar do seu "consumo", devemos referir-nos ao seu "uso" sensato, com base nas nossas reais necessidades e respeitando as dos outros. Porque "se alguém tem água de sobra, mas a cuida pensando na humanidade" - nos diz o Santo Padre - "é porque atingiu uma altura moral que lhe permite transcender a si mesmo” (Enc. Fratelli Tutti, n. 117) . 



Cândido Portinari, Retirantes (1944)



Se vivermos com sobriedade e colocarmos a solidariedade no centro dos nossos critérios, usaremos a água de forma racional, sem desperdiçá-la inutilmente, e poderemos compartilhá-la com quem mais precisa. Por exemplo, se protegermos áreas úmidas, reduzirmos as emissões de gases de efeito estufa, permitirmos que pequenos agricultores irrigem e melhorarmos a resiliência em comunidades rurais de baixa renda, que são as mais vulneráveis ​​no abastecimento de água, eles seriam beneficiados e sairiam de sua prostração e esquecimento.


“Valorizar a água” também pode significar reconhecer que a segurança alimentar e a qualidade da água estão inextricavelmente ligadas. Na verdade, esse recurso desempenha um papel essencial em todos os aspectos dos sistemas alimentares: na produção, processamento, preparação, consumo e, em parte, também na distribuição de alimentos. O acesso a água potável e saneamento adequado reduz o risco de contaminação de alimentos e de disseminação de doenças infecciosas, que afetam o estado nutricional e a saúde das pessoas. Muitas, senão a maioria das patologias de origem alimentar, na verdade se originam da má qualidade da água usada em sua produção, processamento e preparação.


Para garantir um acesso justo à água, é de vital urgência agir sem demora, para acabar de vez com o seu desperdício, comercialização e contaminação. A colaboração entre os Estados, os setores público e privado, bem como a multiplicação de iniciativas de organizações intergovernamentais, é mais necessária do que nunca. Igualmente urgente é a cobertura legal vinculativa, o apoio sistemático e eficaz para que a água potável chegue a todas as áreas do planeta, em quantidade e qualidade.


Apressemo-nos, portanto, a dar de beber aos sedentos. Vamos corrigir nossos estilos de vida, para que não desperdicem ou poluam. Vamos ser protagonistas daquela bondade que levou São Francisco de Assis a qualificar a água como uma irmã “muito humilde, preciosa e casta”! (Cântico das Criaturas: FF 263). Esses são os propósitos que confio ao Todo-Poderoso para nos ajudar a cumpri-los, fazendo o nosso melhor.


Vaticano, 22 de março de 2021.




Fonte: http://www.vatican.va/content/francesco/es/messages/pont-messages/2021/documents/papa-francesco_20210322_messaggio-giornatamondacqua.html

21 de maio de 2020

Ano Especial dedicado à Encíclica "Laudato Si'" (2020-2021)

Por Isabela Piro e Mariangela Jaguraba, Cidade do Vaticano.


No próximo domingo, 24 de maio, com a “Oração Comum pela Terra e a Humanidade”, terá início o Ano Especial dedicado à Encíclica Laudato si'. Promovido pelo Dicastério para o Serviço do Desenvolvimento Humano Integral, será marcado por vários encontros para aprofundar o tema da ecologia integral.

A ecologia integral se torne um novo paradigma da justiça, porque a natureza não é uma “mera moldura” da vida humana: este é o coração da segunda Encíclica do Papa Francisco, “Laudato si’, sobre o cuidado da Casa Comum”.

Assinada pelo Pontífice em 24 de maio de 2015, Solenidade de Pentecostes, e divulgada em 18 de junho do mesmo ano, o documento está no centro, até o próximo domingo, da “Semana” especial que comemora seu quinto aniversário. 

Dividida em seis capítulos, a Encíclica, que leva o título da invocação de São Francisco de Assis no “Cântico das criaturas”, reúne, na ótica da colegialidade, várias reflexões das Conferências Episcopais do mundo e se conclui com duas orações, uma inter-religiosa e uma cristã, pela proteção da Criação.

“Laudato si’, mi’ Signore, per sora nostra matre Terra”

Francisco de Roma coloca-se na esteira de Francisco de Assis para explicar a importância de uma ecologia integral que se torna um novo paradigma de justiça, em que a preocupação com a natureza, a equidade para com os pobres, o compromisso com a sociedade, são inseparáveis. 

Nos seis capítulos da encíclica, o Papa evidencia que a nossa terra, maltratada e saqueada, requer uma “conversão ecológica”, uma “mudança de rumo”, para que o homem possa assumir a responsabilidade de “cuidar da casa comum”. Um compromisso que também inclui a erradicação da miséria, atenção aos pobres e o acesso igual para todos, aos recursos do Planeta.




Diagnóstico detalhado dos males do Planeta

Portanto, a Encíclica faz um diagnóstico detalhado dos males do Planeta: poluição; mudanças climáticas; desaparecimento da biodiversidade; dívida ecológica entre o norte e o sul do mundo, ligada a desequilíbrios comerciais; antropocentrismo; predomínio da tecnocracia e das finanças, que leva a salvar os bancos em detrimento da população; propriedade privada não subordinada ao destino universal dos bens. 

Parece prevalecer uma “cultura do descarte”, do usa e joga fora ​​que leva à exploração de crianças, ao abandono dos idosos, à redução dos outros à escravidão e à prática do comércio de diamantes ensanguentados. É a mesma lógica de muitas máfias, escreve Francisco, a lógica do descarte dos nascituros que não correspondem aos projetos dos pais.

Defesa da natureza incompatível com a justificativa do aborto

Diante de tudo isso, explica a Encíclica, é necessária uma “revolução cultural corajosa” que mantenha em primeiro plano o valor e a proteção de toda vida humana, porque a defesa da natureza “é incompatível com a justificativa do aborto” e “o abuso de qualquer criatura é contrário à dignidade humana”. 

O Papa também reitera a necessidade de tutelar o trabalho, parte do significado da vida nesta terra, e pede o diálogo entre política e economia, em nome do bem comum. No âmbito internacional, o Pontífice não poupa um julgamento severo sobre as cúpulas mundiais relativas ao ambiente que decepcionaram as expectativas por falta de decisão política. 

No âmbito nacional, no entanto, Francisco exorta a política a sair da lógica do lucro imediato e da corrupção, em nome de processos de tomada de decisão honestos e transparentes. Em essência, o que é necessário é uma nova economia, mais atenta à ética.

Formação para uma ecologia integral

Certamente, sublinha a Encíclica, é preciso investir na formação para uma ecologia integral, para compreender que o ambiente é um dom de Deus, uma herança comum a ser administrada, não para ser destruída. 

Bastam até pequenos gestos cotidianos: fazer uma coleta seletiva, não desperdiçar água e comida, apagar as luzes desnecessárias, cobrir-se um pouco mais em vez de ligar o aquecedor. Dessa forma, sentiremos que “temos uma responsabilidade para com os outros e com o mundo e que vale a pena ser bons e honestos”.

Por fim, a Encíclica nos convida a olhar os Sacramentos, em particular para a Eucaristia, que “une o céu e a terra e nos orienta a ser guardiões de toda a Criação”. E então “Laudato Si'”, conclui o Papa Francisco, porque “além do sol, no final, nos encontraremos face a face com a beleza de Deus”.

A partir de 24 de maio, começa um Ano Especial

No próximo domingo, 24 de maio, se realizará uma “oração comum pela terra e pela humanidade”. Terá início um Ano Especial dedicado à Laudato si’, promovido pelo Dicastério para o Serviço do Desenvolvimento Humano Integral, marcado por vários encontros sobre o tema da ecologia integral. 

O Ano Especial se concluirá em 2021, mas tem como objetivo propor um compromisso público comum com a “sustentabilidade total” a ser alcançada em 7 anos. Estão envolvidas as famílias, dioceses, ordens religiosas, universidades, escolas, unidades de saúde e o mundo dos negócios, com especial atenção às empresas agrícolas.


22 de abril de 2020

Papa Francisco - Audiência Geral de 22.04.2020


Hoje comemora-se o 50º Dia Mundial da Terra. Trata-se de uma oportunidade para renovar o compromisso de cuidar da nossa casa comum e dos membros mais frágeis da família humana.

À luz da fé revelada na criação, somos convidados a estabelecer uma relação harmoniosa com a terra, lembrando-nos de que, além de ser nossa casa, é também casa de Deus. Isso significa adquirir uma visão contemplativa que reconheça a sacralidade da criação. Também é preciso uma conversão ecológica começando por reconhecer que não fomos fiéis à nossa vocação de administradores e guardiães da terra, tendo-a poluído, depredado, considerando-a simplesmente como um depósito de recursos a serem usufruídos, constituindo um verdadeiro pecado contra o Criador.

Fonte: nasa.gov/earthday

Depois, impulsionados também pela atual pandemia que nos mostra que somente unidos poderemos enfrentar os desafios globais, é necessário promover iniciativas tanto a nível internacional como local que lembrem que cada pessoa pode dar a sua contribuição no esforço de amar e saber reconhecer o magnífico dom da terra.

Saúdo de coração os fiéis de língua portuguesa, fazendo votos de que este tempo de Páscoa, que lembra que a Ressurreição de Cristo é o início da nova Criação, vos impulsione a comprometer-vos ainda mais no cuidado com a casa comum, certos, como nos ensina São Paulo, que “a criação espera com impaciência a manifestação dos filhos de Deus” (Rm 8, 19). Deus vos abençoe.

Fonte: http://www.vatican.va/content/francesco/pt/audiences/2020/documents/papa-francesco_20200422_udienza-generale.html

2 de janeiro de 2011

Transgênicos: entre técnica e bem comum

A Agência ZENIT entrevistou Piero Morandini, pesquisador e professor de Biotecnologias vegetais e Fisiologia vegetal da Università degli Studi de Milão, além de um dos italianos que participaram no congresso da PAS e na redação do documento. 

O documento assinado por 40 cientistas intitulado “As plantas transgênicas para a segurança alimentar no contexto do desenvolvimento” suscitou um enorme interesse e um debate acalorado. Fruto do congresso da Academia Pontifícia das Ciências (PAS), o documento foi alvo de especulação da imprensa, interessada em saber se o texto refletia ou não a postura da Igreja católica sobre o tema. 

O documento, que apresenta pontos de vista originais nas áreas científica e econômica, é também inovador no campo da justiça e da defesa do bem comum.

Boa leitura!

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Entrevista com o Piero Morandini, professor de Biotecnologias vegetais e Fisiologia vegetal
Por Antonio Gaspari


ZENIT: Quais são os conteúdos mais importantes do documento publicado após o congresso organizado pela Academia Pontifícia das Ciências?

Morandini: Primeiro um esclarecimento: não é um documento da PAS, mas um grupo de trabalho convocado por esta para uma semana de estudo. É oportuno também acrescentar que estavam presentes o presidente, o chanceler, o cardeal Georges Cottier e vários membros da PAS, particularmente os que têm mais autoridade no campo da biologia: o professor Werner Arber, um dos pais da engenharia genética e prêmio Nobel (pela descoberta das enzimas de restrição); o professor Peter Raven, botânico de fama mundial; o professor Ingo Potrykus, inventor do Golden Rice e organizador da semana de estudo; o professor Rafael Vicuña, biólogo molecular chileno e a professora Nicole M. Le Douarin, bióloga do desenvolvimento. Todos são cientistas de grande fama, cuja estatura não pode ser colocada em dúvida por ninguém.

Portanto, é justo e devido precisar que o documento assinado não pode ser considerado “uma postura da Santa Sé ou do Magistério da Igreja sobre este tema”, como esclareceu o Pe. Lombardi, diretor da sala de imprensa da Santa Sé. Ao mesmo tempo, se os membros da PAS que são especialistas no campo da biologia assinaram o documento, isto também quer dizer algo.

Os outros membros da PAS (físicos, matemáticos...) têm claramente pouca autoridade neste campo específico e, portanto, é difícil compreender como poderiam incluir ou tirar autoridade do documento; quanto aos especialistas externos encontramos pessoas como Marc van Montagu, um dos pais de toda a biotecnologia vegetal. Além disso, tudo foi feito no Vaticano, na sede da PAS e através de sua estrutura, não casualmente, mas para mostrar a atenção que o Vaticano e a PAS têm sobre este tema. Por último e mais importante, a PAS já havia publicado um documento em 2001 (que, entre outras coisas, é claramente retomado no documento atual) que era já muito claro e que esteve sempre disponível na página oficial do Vaticano.

Feita esta necessária premissa, as três mensagens principais podem resumir-se assim: primeiro, esta tecnologia, depois de 15 anos de uso no mundo real sobre milhares de hectares, já demonstrou amplos benefícios, também nos países em via de desenvolvimento. Segundo: os riscos derivados da modificação genética por transgênese são os mesmos apresentados por plantas convencionais, nas quais as modificações são casuais.

É insensato, portanto, submeter os produtos transgênicos a uma normativa tão custosa e estrita que impossibilita a aprovação para o cultivo nas universidades e centros de pesquisa públicos. Esta normativa, de fato, acaba com a possibilidade de que a pesquisa pública possa contribuir para resolver os problemas dos países em via de desenvolvimento. Estes problemas são, principalmente, os baixos rendimentos (devidos a doenças, parasitas e danos de insetos, seca, inundações), mas também carências nutricionais e alimentos contaminados por toxinas.

Resumindo, é a normativa hiper precavida (mas não científica) e custosa que impede a exploração desta tecnologia em benefício dos pobres. Todos os demais obstáculos – patentes, adaptação às condições locais, falta de fundos para pesquisa, etc. – são pouco relevantes na prática.

ZENIT: Quais são as novidades deste documento?

Morandini: A clareza em alguns pontos e a visão global. A clareza em dizer aos que se opõem, talvez pelas mais sagradas indignações que surgem diante de casos de exploração indigna que se comprovam em certos países, que não consideram a grande massa de evidências científicas e de experiências no mundo real, já que se corre o risco de eliminar esta tecnologia e de ter o maior efeito negativo precisamente sobre os pobres, em nome dos quais os que se opõem a estas técnicas parecem querer falar.

Não podemos continuar debatendo sobre riscos hipotéticos e imaginários quando estas coisas já foram objeto de estudo e de milhares de publicações. É necessário dar um passo adiante, partindo do quanto está estabelecido e tentando resolver problemas. Clareza também porque se reconhece que a ciência e a empresa têm a obrigação moral de tornar esta tecnologia acessível aos menos afortunados. Ainda se se reconhece que isto já se fez em alguns casos, está claro que é possível e deve se fazer mais. Visão global porque se reconhece que, contudo, os transgênicos (OGM) não são “a” solução dos enormes, numerosos e diversos problemas que afligem as populações que vivem para e da agricultura em nosso planeta e que são perto da metade da população mundial.

De fato, a falta de infraestrutura, de estabilidade política, de educação agrícola... são questões irrenunciáveis. Sem todas estas coisas, pretender que os OGM sejam uma varinha mágica que pode resolver tudo é errôneo. Mas é evidente que esses mesmos problemas se aplicam a qualquer tipo de agricultura que não seja a típica de subsistência, praticada há séculos em muitos países e muitas vezes associada a doenças e carestias.

Estes problemas não são, portanto, peculiares dos OGM ou uma consequência de seu uso, enquanto, pelo contrário, alguns dos problemas podem ser atenuados pelo OGM. Por exemplo, utilizando plantas que se autoprotegem dos parasitas e, portanto, não necessitam de pesticidas. O único de que se necessita são as sementes.

ZENIT: O documento sustenta que os OGM são uma grade oportunidade para os agricultores dos países em via de desenvolvimento. Pode nos explicar por quê?

Morandini: São uma oportunidade de muitas maneiras, ainda que claramente não existe nenhuma panaceia porque cada situação deve ser enfrentada por suas particularidades: o tipo de problema agrícola, as práticas locais e também a cultura local (por exemplo, as preferências alimentares). Tenho ainda diante dos olhos as imagens projetadas na apresentação de W. Parrott (Universidade da Geórgia, EUA) na qual falava da Guatemala e da alta incidência dos defeitos do tubo neural, como a espinha bífida.

Em certas zonas rurais a frequência destes defeitos é 30 vezes maior que no mundo ocidental e isto se deve, em grande parte, ao consumo de milho que contém certas toxinas produzidas por fungos que contaminam a colheita. O milho transgênico Bt poderia reduzir drasticamente estes casos porque reduz o dano dos insetos e a consequente contaminação por fungos nas espigas. Convido todos a ler esse relatório.

Ainda estou comovido diante das imagens de plantas parasitas que destroem as colheitas na África, apresentadas pelo professor Jonathan Gressel do Weizman Institute. Em muitos países africanos, e não só neles, estão presentes plantas parasitas que se aferram com suas raízes às raízes das plantas e sugam seus nutrientes. Assim, por exemplo, o milho brota, começa a crescer, mas rapidamente murcha e não produz nada porque é aniquilado pela planta parasita, quase comos e fosse um feitiço de uma bruxa; de fato, estas plantas parasitas, com flores belíssimas, se chaman witchweed (feitiço de bruxa). Também aqui a biotecnologia poderia ajudar a prevenir a infestação muito eficazmente.

Penso também na mandioca e em outras espécies parcialmente tóxicas, ou nas ameaçadas por vírus ou parasitas. Penso no golden rice e peço que todos os leitores de ZENIT vejam o nono slide da apresentação do professor Peter Beyer . O golden rice contém pró-vitamina A e foi criado para prevenir a cegueira e morte em ciranças pobres cuja dieta está baseada preferencialmente no arroz; cegueira e morte devidas à carência de vitamina A. A primeira versão da planta transgênica é de 1999, mas chegará, talvez, aos campos de agricultores de alguns países asiáticos somente em 2012.

A imagem mais impressionante para mim foi uma das apresentadas pelo professor Zeigler, diretor do IRRI (Istituto Internazionale di Ricerca sul Riso, com sede nas Filipinas). No sétimo slide, se vê um homem agachado que cava num campo de arroz depois da colheita. Quando Zeigler perguntou a um colaborador que fazia aquele homem, ele lhe respondeu que “estava cavando para chegar ao ninho de ratos para recuperar o arroz acumulado por eles”.

Se um homem deve roubar dos ratos para comer, óbvio que há problemas com a produção de alimentos. Não entro aqui no problema, ainda que relevante, do acesso “financeiro” à comida, problema que necessitaria de outro espaço grande; quero dizer é que se conseguimos aumentar a produção in loco, isto só pode ter um efeito positivo sobre a possibilidade de que os produtores tenham o suficiente e que os preços dos alimentos possam cair.

Também no caso dos rendimentos, a tecnologia pode ajudar. Para o arroz, por exemplo, o IRRI isolou um gene que confere resistência à submersão (e, portanto, às inundações que muitas vezes afetam as zonas onde o arroz cresce). Somente a presença deste gene pode criar a diferença entre uma colheita abundante e nenhuma colheita.

ZENIT: Com relação ao risco de que as multinacionais explorem os países pobres, o documento afirma que o maior problema são as oposições que estão fazendo subir os custo do patenteamento e, em particular, a pesada regulamentação. Em resumo, segundo o documento, estamos no paradoxo de que os que se dizem críticos das multinacionais na realidade as estão favorecendo, penalizando a pesquisa biotech dos países em vias de desenvolvimento. Poderia nos explicar este ponto do documento?

Morandini: Na verdade, como observava antes, as patentes não são obstáculo por diversos motivos (que valeria a pena analisar separadamente). A regulamentação é o ponto crucial porque requer, para o cultivo e a comercialização, um série muito longa de exames, caracterizações moleculares, provas de campo e alimentação, que se torna insustentável para a pesquisa pública. Penso, por exemplo, na semente de algodão feito comestível por transgênese. Esta planta transgênica, publicada em 2006, se tivesse sido introduzida e cruzada com as variedades locais, tornaria as sementes de algodão comestíveis, colocando à disposição de 500 milhões de pessoas uma dose de 50 g de proteínas por dia (10 milhões de toneladas de proteína por ano), e isso sem aumentar o cultivo, sem utilizar pesticidas ou herbicidas, sem patente alguma. Os autores o fariam disponível gratuitamente aos países pobres, se conseguissem obter o dinheiro para chegar à comercialização. Haveria muitos outros exemplos.

São, portanto, os mitos dos perigos ambientais e de saúde dos OGM, às vezes, deliberadamente criados e propagados intencionalmente, que ajudaram a moldar a legislação vigente e que contribuem para mantê-la, e muitos inclusive pedem para que ela seja ainda mais restritiva. Assim, afogaram a pesquisa pública e entregaram a tecnologia praticamente nas mãos dos grandes grupos privados. Portanto, aqueles que, por medo das multinacionais e da exploração indevida, opuseram-se aos transgênicos, realmente contribuíram para criar condições mais favoráveis para essa exploração. Vejam só a Itália: a pesquisa de campo está bloqueada há quase dez anos. Quem se beneficiou eliminando a pesquisa pública italiana? Também esta seria uma questão a indagar...

ZENIT: Certa cultura acusa a Igreja Católica a ser obscurantista, enquanto o documento mostra que a Igreja é, certamente, muito atenta, clarividente e aberta às inovações científicas e tecnológicas. Qual é a sua opinião sobre o assunto?

Morandini: É interessante dar uma volta pelos blogs que recolhem a notícia e ver o mundo dos leitores dividido em dois. Por um lado, aqueles que estão contentes porque a Igreja, segundo eles, finalmente acertou em alguma coisa; por outro, aqueles que argumentam, com raiva, que a Igreja está errada também neste caso, porque isso favoreceria as multinacionais. Minha posição, como cientista e filho da Igreja, é que a atitude que permeia a cultura judaico-cristã, ou seja, o mandato de “proteger e cultivar o jardim”, tem em si a semente da tecnologia.

Em uma visão de mundo que reconhece que a inteligência é um dom de Deus, que o mundo é inteligível, e que “não agir segundo a razão é contrário à natureza de Deus” (Papa Bento XVI em Ratisbona), o uso da inteligência para mudar a natureza é completamente natural e aceitável, e a tecnologia, que deriva de este uso, não é condenável em si, mas apenas quando envolve danos à natureza ou ao homem.

Portanto, a oposição não é a priori, mas somente se há consequências negativas. Ainda mais duas citações para enfatizar a abertura da Igreja à atividade humana que explora a natureza, para compreendê-la e utilizá-la de maneira sempre nova. A primeira, mais uma vez, do discurso em Ratisbona: “Deve-se reconhecer sem reservas o que há de positivo no desenvolvimento moderno do espírito: estamos todos gratos pelas maravilhosas possibilidades que se abriram para a humanidade e pelos progressos que têm sido alcançados no campo humano. Além disso, a ética da pesquisa científica deve envolver a vontade de obedecer à verdade e, portanto, deve ser uma expressão de uma atitude que faz parte das decisões fundamentais do espírito cristão”; e outra citação da Caritas in veritate: “A tecnologia – convém enfatizar – é um fato profundamente humano, ligado à autonomia e à liberdade do homem (...). Responde à própria vocação do trabalho humano: na tecnologia, vista como uma obra do próprio talento, o homem se reconhece e realiza sua própria humanidade”. Se isso não for suficiente para convencer, não sei que outras “armas” utilizar...

Em conclusão, e também em relação a esta questão, convido todos a lerem a declaração, principalmente aqueles envolvidos na mídia e na educação, incluindo cada uma das palestras apresentadas, a fim de começar a conscientizar-se do imenso corpus de evidências recolhidas que nos ratificam no potencial e nos benefícios desta tecnologia. Depois disso, tirem suas conclusões.



5 de setembro de 2010

"Sim" à proteção animal, mas não às custas da vida humana...

Tradução: Nieves San Martín

Os métodos alternativos aos testes com animais poderiam incluir testes com células-tronco embrionárias humanas e após o projeto da Diretiva Europeia que está sendo preparado, os Estados membros poderiam ser obrigados a utilizar tais testes. Sobre esta questão, a Commission of the Bishops' Conferences of the European Union - COMECE (Comissão de Conferências Episcopais da Comunidade Europeia) se manifestou contra e no próximo dia 08 de setembro, a Assembleia Plenária do Parlamento Europeu se pronunciará, em segunda leitura, sobre um projeto da Diretiva sobre a proteção dos animais utilizados com fins científicos (COD/2008/0211).

São utilizados animais na pesquisa científica para o desenvolvimento de medicamentos e evolução da toxidade química, ecotoxicologia e a segurança de produtos (pesticidas, aditivos alimentares, cosméticos e outras substâncias que apresentam risco potencial para a saúde humana). Um dos objetivos da Diretiva é substituir os testes com animais por métodos alternativos e entre eles, alguns métodos poderiam incluir testes baseados na utilização de células-tronco embrionárias humanas obtidas na destruição de embriões.

A COMECE se mostra "extremamente preocupada pela disposição do projeto da Diretiva: os Estados membros poderiam ser obrigados a assegurar a implementação destes métodos alternativos, baseando-se ou não nas células-tronco embrionárias humanas". O Relatório da Etapa 2009 - "Estratégias de testes alternativos da Comissão Europeia" - aborda exemplos das estratégias de testes alternativos que estão atualmente em desenvolvimento. De um total de 21 estratégias, as cinco seguintes utilizam células-tronco humanas:

1. ReProtect: seu objetivo é desenvolver testes sobre a toxidade reprodutiva, utilizando células-tronco humanas tratadas quimicamente durante sua diferenciação neuronal e cardíaca.

2. VITROCELLOMICS: propõe desenvolver testes pré-clínicos de previsão sobre medicamentos, utilizando modelos hepáticos humanos in vitro derivados de células-tronco humanas.

3. INVITROHEART: com o objetivo de desenvolver um modelo in vitro derivado de células-tronco embrionárias humanas, representando fielmente os cardiomiócitos humanos para provar os medicamentos.

4. ESNATS: com a finalidade de desenvolver uma nova plataforma de testes de toxidade, baseada particularmente nas células-tronco embrionárias humanas, para racionalizar o processo de desenvolvimento de medicamentos e avaliar sua toxidade nos estudos clínicos.

5. CarcinoGENOMICS: pretende desenvolver um teste para avaliar as propriedades teratogênicas e carcinogênicas de compostos químicos in vitro, utilizando células hepatocyte-like derivadas de células-tronco embrionárias humanas.

Estas tecnologias receberam apoio financeiro da União Europeia por meio dos programas marco de pesquisa 6° e 7°. Ainda mostrando-se de acordo com os objetivos previstos por esta Diretiva - a proteção animal -, a COMECE recorda "a diferença fundamental que existe entre a dignidade dos animais e os seres humanos".

De acordo e com coerência com suas declarações anteriores, a COMECE lança, portanto, um apelo aos membros do Parlamento Europeu para "excluir explicitamente dos métodos de testes alternativos obrigatórios, no contexto desta Diretiva, os que implicam na utilização de células-tronco embrionárias humanas". Este enfoque, conclui, "permitiria ainda promover as outras diversas estratégias de teste alternativo que estão amplamente acordadas".

Fonte: http://www.zenit.org/article-25903?l=portuguese




29 de junho de 2010

Reunião do G8/G20 deve liderar a luta contra crise alimentar

“Décadas de políticas econômicas e agrícolas desorientadas chegaram a ser algo muito difícil de suportar para os agricultores e pessoas de todo mundo. Registra-se um recorde de milhões de pessoas que sofrem atualmente de fome crônica. Uma em cada sete pessoas não tem comida necessária para uma vida básica”, afirma Caritas Internationalis em comunicado. A Caritas Internationalis afirma que a reunião dos países do G8/G20, a ser realizada entre os dias 25 a 27 de junho no Canadá, deverá oferecer uma nova liderança para enfrentar a crescente crise alimentar no mundo.

Segundo a organização, “os grupos G8 e G20 devem mudar as políticas de alimentação global, apoiando uma agricultura em pequena escala, sustentável, nos países em vias de desenvolvimento, em lugar da agricultura industrial”. O diretor executivo de Desenvolvimento e Paz de Caritas Canada, Machael Casey, disse que “diante da fome em muitas partes do mundo, Caritas acredita que as políticas agrícolas devam promover o pequeno agricultor e a produção de alimentos local. Os países do G8 e G20 devem demonstrar a liderança necessária para mudar as desastrosas políticas alimentares do passado. Devem também assumir compromissos de ajuda. Necessitamos de mais ajuda, melhor empregada. Necessitamos também de ver uma ação efetiva a respeito da mudança climática”, acrescentou Casey.

Fonte: http://zenit.org/article-25330?l=portuguese



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(Enquanto isto...)
 
Níger: crise alimentar afeta milhões de pessoas

A Caritas Internationalis deu voz de alerta diante da grave emergência alimentar que é registrada novamente na região do Sahel Ocidental, que está à beira de uma tragédia humana devido à grave escassez de alimentos. Nesta semana, foi estimado que ao menos dez milhões de pessoas passam fome em vários países da África Subsaariana. Embora Níger seja o país mais afetado, com 8 milhões de pessoas em risco, Chade, Mali e Burkina Faso também enfrentam uma grande escassez de alimentos.

Níger dispõe neste momento da metade das reservas necessárias para alimentar a população vítima da escassez. Até agora, foram conseguidos 47 mil toneladas de ajuda alimentar, das 85 mil solicitadas pelas autoridades do país. Da mesma forma, o sistema gratuito de saúde pública de Níger está quase falido, o que teria consequências devastadoras para as crianças, já que os programas para o tratamento da desnutrição são desenvolvidos por meio de centros de saúde.

Como alertou Raymond Yoro, secretário-geral da Caritas Níger, "estamos enfrentando uma possível emergência de sobrevivência infantil, já que 378 mil crianças se encontram em grande risco de padecer de desnutrição e 1,2 milhão está em risco de desnutrição moderada". A Caritas Internationalis destacou que Níger enfrenta uma escassez de alimentos até mesmo mais grave que a vivida durante 2005. Então, recordam os responsáveis da Caritas, "a lição que aprendemos foi que os atrasos na mobilização da ajuda custam vidas".

Diante desta situação, a Caritas Internationalis redobrou sua petição de ajuda a todas as Caritas doadoras do mundo, com objetivo de cobrir as necessidades do pedido de emergência lançado no mês passado para coletar os 2,9 milhões de euros necessários para financiar uma operação humanitária urgente em Níger. Este programa de emergência, ao qual a Caritas Espanha vai apoiar com 150 mil euros, contempla a distribuição de ajuda alimentar a 1,5 milhão de pessoas especialmente vulneráveis, além do desenvolvimento de projetos de "dinheiro por trabalho" e de distribuição de sementes, assim como planos de atenção prioritária para 17 mil crianças, mulheres grávidas e mães de primeira viagem.

Este programa de emergência vai ser desenvolvido em Tillabery, Agades, Rahoua e Zinder, as regiões de Níger onde o déficit alimentício afeta 35% da população. A irregularidade das chuvas, as colheitas ruins, o aumento nos preços dos alimentos e a pobreza crônica contribuíram para o aumento da crise alimentícia em 2010. As pessoas estão enfrentando uma severa escassez de alimentos há seis meses. Agora dependem de meios extremos de adaptação, que incluem vender seu gado, comer alimentos silvestres, tirar seus filhos das escolas e abandonar suas casas em busca de alimentos.

Fonte: http://zenit.org/article-25324?l=portuguese