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29 de julho de 2022

Mensagem de Sua Santidade Papa Francisco para a celebração do Dia Mundial de Oração pelo Cuidado da Criação em 01 de setembro de 2022.

 

Queridos irmãos e irmãs!

«Escuta a voz da criação» é o tema e o convite do «Tempo da Criação» deste ano. O período ecumênico começa no dia 1 de setembro com o Dia Mundial de Oração pelo Cuidado da Criação e termina a 4 de outubro com a festa de São Francisco. É um momento especial para todos os cristãos, a fim de orarmos e cuidarmos, juntos, da nossa casa comum. Inspiração originária do Patriarcado Ecumênico de Constantinopla, este «Tempo» é uma oportunidade para aperfeiçoarmos a nossa «conversão ecológica», uma conversão encorajada por São João Paulo II como resposta à «catástrofe ecológica» pressagiada por São Paulo VI já em 1970. [1]

Se se aprende a escutá-la, notamos uma espécie de dissonância na voz da criação. Por um lado, é um canto doce que louva o nosso amado Criador; por outro, é um grito amargo que se lamenta dos nossos maus-tratos humanos.

O canto doce da criação convida-nos a praticar uma «espiritualidade ecológica» (Francisco, Carta enc. Laudato si', 216), atenta à presença de Deus no mundo natural. É um convite a fundar a nossa espiritualidade na «consciência amorosa de não estar separado das outras criaturas, mas de formar com os outros seres do universo uma estupenda comunhão universal» (ibid., 220). Particularmente para os discípulos de Cristo, esta experiência luminosa reforça a consciência de que «por Ele é que tudo começou a existir; e sem Ele nada veio à existência» (Jo 1, 3). 

Neste «Tempo da Criação», retomemos a oração na grande catedral da criação, gozando do «grandioso coro cósmico» [2] de inúmeras criaturas que cantam louvores a Deus. Unamo-nos a São Francisco de Assis cantando «Louvado sejas, meu Senhor, com todas as tuas criaturas» (cf. Cântico do Irmão Sol). Unamo-nos ao Salmista cantando «Todo o ser vivo louve o Senhor» ( Sl 150, 6).

Esta canção doce, infelizmente, é acompanhada por um grito amargo. Ou melhor, por um coro de gritos amargos. Primeiro, é a irmã Madre Terra que grita. À mercê dos nossos excessos consumistas, geme implorando para pararmos com os nossos abusos e a sua destruição. Depois gritam as diversas criaturas. 

À mercê de um «antropocentrismo despótico» (Laudato si', 68), nos antípodas da centralidade de Cristo na obra da criação, estão a extinguir-se inúmeras espécies, cessando para sempre os seus hinos de louvor a Deus. Mas gritam também os mais pobres entre nós. Expostos à crise climática, sofrem mais severamente o impacto de secas, inundações, furacões e vagas de calor que se vão tornando cada vez mais intensas e frequentes. E gritam ainda os nossos irmãos e irmãs de povos indígenas. 

Por causa de predatórios interesses econômicos, os seus territórios ancestrais são invadidos e devastados por todo o lado, lançando «um clamor que brada ao céu» (Francisco, Exortação Apóstólica Pós-sinodal Querida Amazonia, 9). Enfim gritam os nossos filhos. Ameaçados por um egoísmo míope, os adolescentes pedem-nos ansiosamente, a nós adultos, que façamos todo o possível para prevenir ou pelo menos limitar o colapso dos ecossistemas do nosso planeta.

Escutando estes gritos amargos, devemo-nos arrepender e mudar os estilos de vida e os sistemas danosos. O apelo evangélico inicial – «Convertei-vos, porque está próximo o Reino do Céu» (Mt 3, 2) –, ao convidar a uma nova relação com Deus, pede também uma relação diferente com os outros e com a criação. O estado de degrado da nossa casa comum merece a mesma atenção que outros desafios globais, como as graves crises sanitárias e os conflitos bélicos. «Viver a vocação de guardiões da obra de Deus não é algo de opcional nem um aspeto secundário da experiência cristã, mas parte essencial duma existência virtuosa» (Laudato si', 217).

Como pessoas de fé, sentimo-nos ainda mais responsáveis por adotar comportamentos diários em consonância com a referida exigência de conversão. Mas esta não é apenas individual: «a conversão ecológica, que se requer para criar um dinamismo de mudança duradoura, é também uma conversão comunitária» (ibid., 219). Nesta perspetiva, a própria comunidade das nações é chamada a empenhar-se, com espírito de máxima cooperação, especialmente nos encontros das Nações Unidas dedicados à questão ambiental.

A cimeira COP 27 sobre o clima, que se vai realizar no Egito em novembro de 2022, constitui a próxima oportunidade para promover, todos juntos, uma eficaz implementação do Acordo de Paris. Também por este motivo dispus recentemente que a Santa Sé, em nome e por conta do Estado da Cidade do Vaticano, adira à Convenção-Quadro da ONU sobre as Mudanças Climáticas e ao Acordo de Paris, com a esperança de que a humanidade do século XXI «possa ser lembrada por ter assumido com generosidade as suas graves responsabilidades» (ibid., 165). 

Alcançar o objetivo de Paris de limitar o aumento da temperatura a 1,5°C é bastante árduo e requer uma colaboração responsável entre todas as nações para apresentar planos climáticos ou Contribuições Determinadas a nível nacional mais ambiciosos, para reduzir a zero, com a maior urgência possível, as emissões globais dos gases de efeito estufa. Trata-se de «converter» os modelos de consumo e produção, bem como os estilos de vida, numa direção mais respeitadora da criação e do progresso humano integral de todos os povos presentes e futuros, um progresso fundado na responsabilidade, na prudência/precaução, na solidariedade e atenção aos pobres e às gerações futuras. 

Na base de tudo, deve estar a aliança entre o ser humano e o meio ambiente que, para nós crentes, é «espelho do amor criador de Deus, de Quem provimos e para Quem estamos a caminho». [3] A transição realizada por esta conversão não pode negligenciar as exigências da justiça, especialmente para com os trabalhadores mais afetados pelo impacto das mudanças climáticas.

Por sua vez, a cimeira COP 15 sobre a biodiversidade, que terá lugar no Canadá em dezembro, proporcionará à boa vontade dos Governos uma oportunidade importante para adotarem um novo acordo multilateral para deter a destruição dos ecossistemas e a extinção das espécies. Segundo a antiga sabedoria dos Jubileus, temos necessidade de «recordar, regressar, repousar e restaurar». [4] 

Para impedir um colapso ainda mais grave da «rede da vida» – Biodiversidade – que Deus nos concedeu, rezemos e convidemos as nações a porem-se de acordo sobre quatro princípios-chave: 

1º. ⇒ Construir uma base ética clara para a transformação que precisamos a fim de salvar a biodiversidade; 

2º. ⇒ Lutar contra a perda de biodiversidade, apoiar a sua conservação e recuperação e satisfazer de forma sustentável as necessidades das pessoas; 

3º. ⇒ Promover a solidariedade global, tendo em vista que a biodiversidade é um bem comum global que requer um empenho compartilhado; 

4º. ⇒ Colocar no centro as pessoas em situações de vulnerabilidade, incluindo as mais afetadas pela perda de biodiversidade, como as populações indígenas, os idosos e os jovens.

Repito: «Quero pedir, em nome de Deus, às grandes empresas extrativas – mineiras, petrolíferas, florestais, imobiliárias, agro-alimentares – que deixem de destruir florestas, zonas úmidas e montanhas, que deixem de poluir rios e mares, que deixem de intoxicar as pessoas e os alimentos». [5]

É impossível não reconhecer a existência duma «dívida ecológica» (Laudato si', 51) das nações economicamente mais ricas, que poluíram mais nos últimos dois séculos; isso exige que elas realizem passos mais ambiciosos tanto na COP 27 como na COP 15. Além duma decidida ação dentro das suas fronteiras, inclui cumprir as suas promessas de apoio financeiro e técnico às nações economicamente mais pobres, que já sofrem o peso maior da crise climática. 

Além disso, seria oportuno pensar urgentemente também num maior apoio financeiro para a conservação da biodiversidade. Significativas, embora «diversificadas» (cf. ibid., 52), são também as responsabilidades dos países economicamente menos ricos; os atrasos dos outros não podem jamais justificar a inação de quem quer que seja. É necessário agirem todos, com decisão. Estamos a chegar a «um ponto de ruptura» (cf. ibid., 61).

Durante este «Tempo da Criação», rezemos para que as cimeiras COP 27 e COP 15 possam unir a família humana (cf. ibid., 13) para enfrentar decididamente a dupla crise do clima e da redução da biodiversidade. Recordando a exortação de São Paulo para nos alegrar com os que se alegram e chorar com os que choram (cf. Rm 12, 15), choremos com o grito amargo da criação, escutemo-lo e respondamos com os fatos para que nós e as gerações futuras possamos ainda alegrar-nos com o canto doce de vida e de esperança das criaturas.


Roma, São João de Latrão, na Memória de Nossa Senhora do Carmo, dia 16 de julho de 2022.

FRANCISCO





[1] Cf. Discurso à FAO, 16 de novembro de 1970.

[2] São João Paulo II, Audiência Geral, 10 de julho de 2002.



[5] Vídeo-mensagem aos Movimentos Populares, 16 de outubro de 2021.

1 de setembro de 2020

Mensagem do Santo Padre para a celebração do Dia Mundial de Oração pelo Cuidado da Criação - 01.09.2020

 «Santificareis o quinquagésimo ano, proclamando na vossa terra a liberdade de todos os que a habitam. Este ano será para vós um Jubileu» (Lv 25, 10).

 
Queridos irmãos e irmãs,

Anualmente, sobretudo desde a publicação da carta encíclica Laudato si’ (24/V/2015; daqui em diante, citada com a sigla LS), o primeiro dia de setembro assinala, para a família cristã, o Dia Mundial de Oração pelo Cuidado da Criação; e com ele se abre o Tempo da Criação que conclui no dia 4 de outubro, memória de São Francisco de Assis.

Durante este período, os cristãos renovam em todo o mundo a fé em Deus criador e unem-se de maneira especial na oração e na ação pela preservação da casa comum.

Alegro-me com o tema escolhido pela família ecumênica para a celebração do Tempo da Criação 2020, ou seja, um «Jubileu pela Terra», tendo em vista que se celebra precisamente este ano o quinquagésimo aniversário do Dia da Terra.

Na Sagrada Escritura, o Jubileu é um tempo sagrado para recordar, regressar, repousar, restaurar e rejubilar.

1. Um tempo para recordar

Somos convidados a lembrar sobretudo que o destino último da criação é entrar no «sábado eterno» de Deus. É uma viagem que se realiza no tempo, abraçando o ritmo dos sete dias da semana, o ciclo dos sete anos e o grande Ano Jubilar que sobrevém ao concluírem-se os sete anos sabáticos.

Depois o Jubileu é um tempo de graça para recordar a vocação primordial da criação: ser e prosperar como comunidade de amor. Existimos apenas graças às relações com Deus criador, com os irmãos e irmãs enquanto membros duma família comum e com todas as criaturas que habitam na mesma casa que nós. 

«Tudo está relacionado, e todos nós, seres humanos, caminhamos juntos como irmãos e irmãs numa peregrinação maravilhosa, entrelaçados pelo amor que Deus tem a cada uma das suas criaturas e que nos une também, com terna afeição, ao irmão sol, à irmã lua, ao irmão rio e à mãe terra» (LS, 92).

Por isso o Jubileu é um tempo para a recordação, repassando na memória a nossa existência inter-relacional. Temos necessidade constante de nos lembrar que «tudo está interrelacionado e o cuidado autêntico da nossa própria vida e das nossas relações com a natureza é inseparável da fraternidade, da justiça e da fidelidade aos outros» (LS, 70).


2. Um tempo para regressar


O Jubileu é um tempo para voltar atrás e arrepender-se. Quebramos os laços que nos uniam ao Criador, aos outros seres humanos e ao resto da criação. Precisamos de sarar estas relações danificadas, que são essenciais para sustentáculo de nós mesmos e de toda a trama da vida.

O Jubileu é um tempo de regresso a Deus, nosso criador amoroso. Não é possível viver em harmonia com a criação, sem estar em paz com o Criador, fonte e origem de todas as coisas. Como observou o Papa Bento XVI, «o consumo brutal da criação começa lá onde Deus não está, onde a matéria já é somente material para nós, onde nós mesmos somos a última instância, onde o conjunto é simplesmente nossa propriedade» (Encontro com o Clero da diocese de Bolzano-Bressanone, 06/VIII/2008).

O Jubileu convida-nos a pensar novamente nos outros, especialmente nos pobres e nos mais vulneráveis. Somos chamados a acolher de novo o plano primordial e amoroso de Deus para a criação como uma herança comum, um banquete que deve ser partilhado com todos os irmãos e irmãs em espírito de convivialidade; não numa competição desatinada, mas numa comunhão jubilosa, onde nos apoiamos e protegemos mutuamente. O Jubileu é um tempo para dar liberdade aos oprimidos e a quantos estão acorrentados aos grilhões das várias formas de escravidão moderna, nomeadamente o tráfico de pessoas e o trabalho infantil.

Além disso precisamos de voltar a ouvir a terra, expressa na Sagrada Escritura pelo termo adamah, o lugar donde foi tirado Adam, o homem. Hoje, a voz da criação incita-nos, alarmada, a regressar ao lugar certo na ordem natural, lembrando-nos que somos parte, não patrões, da rede interligada da vida. A desintegração da biodiversidade, o aumento vertiginoso de catástrofes climáticas, o impacto desproporcionado que tem a pandemia atual sobre os mais pobres e frágeis são sinais de alarme perante a avidez desenfreada do consumo.

De modo particular durante este Tempo da Criação, ouçamos o pulsar da criação. Com efeito, esta nasceu para manifestar e comunicar a glória de Deus, para nos ajudar a encontrar na sua beleza o Senhor de todas as coisas e regressar a Ele (cf. São Boaventura, In II Sent., I, 2,2, q. 1, concl; Brevil., II, 5.11). Por isso, a terra da qual fomos tirados é lugar de oração e meditação: «despertemos o sentido estético e contemplativo que Deus colocou em nós» (Francisco, Exort. ap. Querida Amazonia, 56). 

A capacidade de contemplar e nos maravilharmos é algo que podemos aprender especialmente dos irmãos e irmãs indígenas, que vivem em harmonia com a terra e as suas variadas formas de vida.


3. Um tempo para repousar

Deus, na sua sabedoria, reservou o dia de sábado para que a terra e os seus habitantes pudessem descansar e restaurar-se. Hoje, porém, os nossos estilos de vida forçam o planeta para além dos seus limites. A procura contínua de crescimento e o ciclo incessante da produção e do consumo estão a extenuar o ambiente. As florestas dissipam-se, o solo torna-se erosivo, os campos desaparecem, os desertos avançam, os mares tornam-se ácidos e as tempestades intensificam-se: a criação geme!

Durante o Jubileu, o Povo de Deus era convidado a repousar dos seus trabalhos habituais, para deixar – graças à diminuição do consumo habitual – que a terra se regenerasse e o mundo reentrasse na ordem. Hoje precisamos de encontrar estilos de vida équos (justos) e sustentáveis, que restituam à Terra o repouso que lhe cabe, vias de subsistência suficientes para todos, sem destruir os ecossistemas que nos sustentam.

De algum modo a pandemia atual levou-nos a redescobrir estilos de vida mais simples e sustentáveis. A crise deu-nos, em certo sentido, a possibilidade de desenvolver novas maneiras de viver. Foi possível constatar como a Terra consegue recuperar, se a deixarmos descansar: o ar tornou-se mais puro, as águas mais transparentes, as espécies animais voltaram para muitos lugares donde tinham desaparecido. 

A pandemia levou-nos a uma encruzilhada. Devemos aproveitar este momento decisivo para acabar com atividades e objetivos supérfluos e destrutivos, e cultivar valores, vínculos e projetos criadores. Devemos examinar os nossos hábitos no uso da energia, no consumo, nos transportes e na alimentação. Devemos retirar, das nossas economias, aspectos não essenciais e nocivos, e criar modalidades vantajosas de comércio, produção e transporte dos bens.


4. Um tempo para restaurar

O Jubileu é um tempo para restaurar a harmonia primordial da criação e para curar relações humanas comprometidas.

Convida a restabelecer relações sociais equitativas, restituindo a cada um a sua liberdade e os bens próprios, e perdoando as dívidas dos outros. Por isso não devemos esquecer a história de exploração do Sul do planeta, que provocou um enorme deficit ecológico, devido principalmente à depredação dos recursos e ao uso excessivo do espaço ambiental comum para a eliminação dos resíduos. É o tempo duma justiça reparadora. 

A este respeito, renovo o meu apelo para se cancelar a dívida dos países mais frágeis, à luz do grave impacto das crises sanitárias, sociais e econômicas que aqueles têm de enfrentar na sequência do vírus Covid-19. 

É necessário ainda assegurar que os incentivos para a recuperação, em fase de elaboração e implementação a nível mundial, regional e nacional, se tornem realmente eficazes mediante políticas, legislações e investimentos centrados no bem comum e com a garantia de se alcançar os objetivos sociais e ambientais globais.

De igual modo é preciso restaurar a terra. O restabelecimento dum equilíbrio climático é extremamente importante, vista a urgência em que nos encontramos. Estamos a ficar sem tempo, como nos lembram os nossos filhos e os jovens. Tem-se de fazer todo o possível para manter o aumento da temperatura média global abaixo do limite de 1,5 graus centígrados, como ficou consagrado no Acordo de Paris sobre o Clima: ultrapassar tal limite revelar-se-á catastrófico, sobretudo para as comunidades mais pobres em todo o mundo. Neste momento crítico, é necessário promover uma solidariedade intra e intergeracional. Como preparação para a importante Cimeira do Clima em Glasgow, no Reino Unido (COP 26), convido cada país a adotar metas nacionais mais ambiciosas para reduzir as emissões.

O restabelecimento da biodiversidade é igualmente crucial no contexto duma extinção de espécies e uma degradação dos ecossistemas sem precedentes. É necessário apoiar o apelo das Nações Unidas para preservar 30% da Terra como habitat protegido até 2030, a fim de conter a taxa alarmante de perda da biodiversidade. Exorto a comunidade internacional a colaborar para garantir que a Cimeira sobre a Biodiversidade (COP 15) de Kunming, na China, constitua um ponto de viragem no sentido do restabelecimento da Terra como casa onde, segundo a vontade do Criador, a vida seja abundante.

Somos obrigados a reparar segundo justiça, garantindo, a quantos habitaram uma terra durante gerações, que possam recuperar plenamente a sua utilização. É preciso proteger as comunidades indígenas de empresas, particularmente multinacionais, que, com a extração perniciosa de combustíveis fósseis, minerais, madeira e produtos agroindustriais, «fazem nos países menos desenvolvidos aquilo que não podem fazer nos países que lhes dão o capital» (LS, 51). 

Esta má conduta das empresas representa um «novo tipo de colonialismo» (São João Paulo II, Discurso à Academia Pontifícia das Ciências Sociais, 27/IV/2001, citado na Exort. ap. Querida Amazonia, 14), que explora vergonhosamente comunidades e países mais pobres a braços com uma busca desesperada de desenvolvimento econômico. É necessário consolidar as legislações nacionais e internacionais, para que regulamentem as atividades das empresas extrativas e garantam o acesso à justiça aos prejudicados.

5. Um tempo para rejubilar

Na tradição bíblica, o Jubileu constitui um acontecimento festivo, inaugurado por um som de tromba que ressoa por toda a terra. Sabemos que o clamor da Terra e dos pobres se tornou, nos anos passados, ainda mais rumoroso. Simultaneamente, somos testemunhas do modo como o Espírito Santo está inspirando por todo o lado indivíduos e comunidades a unirem-se para reconstruir a casa comum e defender os mais vulneráveis. Assistimos ao surgimento gradual duma grande mobilização de pessoas que, partindo de baixo e das periferias, se estão empenhando generosamente em prol da proteção da terra e dos pobres. É uma alegria ver tantos jovens e comunidades, especialmente indígenas, na linha da frente para dar resposta à crise ecológica. Apelam por um Jubileu da Terra e um novo começo, cientes de que «as coisas podem mudar» (LS, 13).

Temos ainda motivo para nos alegrar quando constatamos como o Ano especial de aniversário da Laudato si' está a inspirar numerosas iniciativas a nível local e global em prol do cuidado da casa comum e dos pobres. Este ano deveria levar a planos operacionais de longo prazo, para chegar a haver uma ecologia integral nas famílias, paróquias, dioceses, ordens religiosas, escolas, universidades, cuidados da saúde, empresas, fazendas agrícolas e em muitas outras áreas.

Regozijamo-nos também com as comunidades de crentes que se estão dando as mãos para criar um mundo mais justo, pacífico e sustentável. É motivo de particular alegria que o Tempo da Criação se esteja a tornar uma iniciativa verdadeiramente ecumênica. Continuemos a crescer na consciência de que todos moramos numa casa comum enquanto membros da mesma família!

Alegremo-nos porque o Criador, no seu amor, sustenta os nossos humildes esforços em prol da Terra. Esta é também a casa de Deus, onde a sua Palavra «Se fez carne e veio habitar conosco» (Jo 1, 14), o lugar que a efusão do Espírito Santo renova sem cessar.

«Enviai, Senhor, o vosso Espírito e renovai a face da terra» (cf. Sal 104/103, 30).
 

Roma, em São João de Latrão, 1 de setembro de 2020.
Francisco



22 de agosto de 2016

Simpósio Vaticano irá reunir jovens de diversas nacionalidades para debater os ODS


A Pontifícia Academia de Ciências Sociais vai receber em seu simpósio para a juventude, nos dias 30 e 31 de outubro, jovens do mundo inteiro que vão partilhar experiências sobre tecnologia, política, economia e cultura. Na base dos debates estarão os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável promovidos pela ONU, em particular os itens n°. 04 - Instrução de qualidade - e n°. 08 - Trabalho digno e Crescimento econômico.

Neste último ponto, os participantes se concentrarão no item: "criar medidas imediatas e eficazes para erradicar o trabalho forçado; erradicação da escravidão moderna e tráfico de seres humanos; proibição e eliminação das piores formas de trabalho infantil, incluindo o recrutamento crianças-soldados; e até 2025 erradicar o trabalho infantil em todas as suas formas”.


Vale a pena ler a notícia em inglês no site da academia, já que o simpósio será fruto não só das ações propostas pelas encíclicas Evangelii Gaudium e pela Laudato Si', como faz parte do esforço do Vaticano em promover os ODS, dos quais é também uma nação signatária (ainda que seja membro-observador na ONU).

Os pedidos de inscrição podem ser apresentados até 30 de agosto por e-mail - vatican@sdsnyouth.org - e participarão cerca de 50 jovens de todo o mundo, entre 18 e 30 anos de idade. Se você, como eu, vai ficar na vontade por ser apenas "jovem em espírito", não deixe de apoiar o evento com suas orações.

Durante o encontro, os participantes irão apresentar projetos e iniciativas, sendo que serão escolhidos dois projetos para serem promovidos pela na
COP22. Em 2017, a iniciativa vaticana será repetida para estudar o resultado e as consequências desta primeira reunião.

30 de agosto de 2015

Valores socioambientais na Encíclica Laudato Si

O jornal "O Testemunho de Fé" da Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro traz na edição desta semana um pequeno artigo sobre os valores socioambientais presentes na encíclica Laudato Si descritos pelo Pe. Josafá Carlos de Siqueira SJ.
 
Boa leitura...

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Numa leitura mais minuciosa da nova Encíclica do Papa Francisco, vamos encontrar muitos valores ético-religiosos, explicitados dentro de uma visão sistêmica da realidade social e ambiental, sobretudo de todos nós que habitamos planetariamente nesta casa comum. Dentre os inúmeros valores, destacamos apenas sete, pois acreditamos que os mesmos têm uma força mais significativa no atual contexto socioambiental em que vivemos, contribuindo para a nossa reflexão, e motivando-nos a mudar o nosso modo de ser e proceder diante dos desafios de nosso tempo.
 
O primeiro valor consiste na importância de uma visão mais integrada do mundo, chamada no documento de ecologia integral, superando as fragmentações dos saberes e das práticas. Esta visão supõe hoje, segundo o Papa, “que a análise dos problemas ambientais é inseparável das análises dos contextos humanos; quando falamos de meio ambiente, falamos da relação entre natureza e a sociedade que a habita”. Desta forma, existe uma integração entre Deus, o ser humano e a natureza.
 
O segundo valor está relacionado à sensibilidade que devemos ter com a vulnerabilidade e a fragilidade existente na sociedade e na natureza. Isto significa ser sensível aos pobres, ser sensível às centenas de seres vivos vulneráveis que vão se extinguindo do planeta Terra. Segundo o pontífice, “a deterioração do meio ambiente e da sociedade, afeta de modo especial os mais frágeis do planeta”.
 
O terceiro valor diz respeito à necessária busca de um estilo de vida menos consumista e planetariamente mais responsável. Neste sentido, o Papa critica a racionalidade econômica e o fascínio pelo consumo exagerado, que vem esgotando os recursos da terra, fazendo dela um grande lixo. O Papa Francisco afirma: “É insustentável o comportamento daqueles que consomem e destroem cada vez mais, enquanto outros ainda não podem viver de acordo com a sua dignidade humana”. “É possível viver com menos, necessitar de pouco, viver muito e ser mais feliz”.
 
O quarto valor consiste em equilibrar as diferentes racionalidades da vida humana. O fascínio e a dependência da produção técnica vêm impedindo o ser humano de viver outros valores, como a música, a poesia, a arte, o contato com a natureza, etc. Segundo ele, “a felicidade exige saber limitar algumas necessidades que nos entorpecem, permanecendo assim disponíveis para as outras múltiplas oportunidades que a vida nos oferece”.
 
O quinto valor se reporta às hermenêuticas, ou seja, às interpretações religiosas que, a princípio, deveriam ser menos antropocêntricas e mais teocêntricas. O Papa Francisco nos alerta: “A humanidade e toda a criação vêm sendo destruídas por termos pretendido ocupar o lugar de Deus, recusando reconhecer-nos como criaturas limitadas”. Segundo ele, “se é verdade que nós cristãos algumas vezes interpretamos de forma incorreta as Escrituras, hoje devemos rejeitar que, o fato de ser criado à imagem de Deus e o mandato de dominar a terra, se deduza um domínio absoluto sobre todas as criaturas”.
 
O sexto valor é a educação ambiental, sendo necessária uma conversão ecológica, ou seja, uma reorientação da vida que leva a mudança de hábitos e costumes que hoje são insustentáveis. Testemunhar com gestos e pequenas ações ajuda a resgatar a dignidade da criação. O Papa cita alguns exemplos dessas pequenas ações, como evitar o uso de plástico e papel, reduzir o consumo de água, reciclar o lixo, tratar com cuidado os outros seres vivos etc.
 
O sétimo e último valor está relacionado com a união e o consenso na proteção da casa comum. Independente de crenças, credos, raças e etnias, os limites planetários exigem neste momento uma união de forças, buscando consenso sobre aquilo que nos une na missão de guardiões da criação. Para o Papa Fran- cisco, “é indispensável um diálogo aberto e respeitoso entre as ciências, as religiões e os diferentes movimentos sociais. A gravidade da crise ecológica obriga-nos a pensar no bem comum”.
 
 
 
 
 


13 de março de 2011

Artigos interessantes sobre fé e ecologia publicados pela Agência Zenit

. Lazer, ecologia e trabalho segundo São Josemaría Escrivá:
https://pt.zenit.org/articles/lazer-ecologia-e-trabalho-segundo-sao-josemaria-escriva/

. Jornada Mundial da Juventude 100% não poluente:
http://www.zenit.org/article-27460?l=portuguese

. Ecologia é preocupação antiga da CNBB, afirma bispo:
http://www.zenit.org/article-27457?l=portuguese

. “Caritas in veritate”, manual de sobrevivência para século 21:
http://www.zenit.org/article-27397?l=portuguese

. Debate sobre meio ambiente é componente importante da cidadania:
http://www.zenit.org/article-27412?l=portuguese

. Orientações para o Sínodo sobre a nova evangelização - Santa Sé publica os “Lineamenta” (ver Orientação nº. 21 - O objetivo de uma “ecologia da pessoa humana”):
http://www.zenit.org/article-27423?l=portuguese




Desenvolvimento sustentável: ser humano não é um obstáculo...

As pessoas humanas deveriam ser consideradas o objetivo do desenvolvimento, ao invés de um obstáculo para ele, segundo o delegado da Santa Sé nas Nações Unidas. Na segunda-feira passada, Charles Clark, professor de economia da Universidade St. John, dirigiu-se ao 2º. Comitê Preparatório da Conferência das Nações Unidas sobre o Desenvolvimento Sustentável, em nome do Arcebispo Francis Chullikatt, observador permanente da Santa Sé nas Nações Unidas. Os encontros estão sendo realizados como preparação para a Conferência de Desenvolvimento Sustentável Rio+20, que terá lugar de 4 a 6 de junho de 2012, no Rio de Janeiro, no 20º aniversário da Cúpula da Terra, de 1992.

Clark disse que, "para alcançar o objetivo ‘economia verde, desenvolvimento sustentável e erradicação da pobreza', minha delegação está confiante em que não esqueceremos que a finalidade do desenvolvimento é o desenvolvimento humano integral e que todas as nossas estratégias e práticas devem ser julgadas com base nessa norma: que o ser humano é e deve continuar sendo a nossa principal preocupação. Se os humanos, em sua plena humanidade, não são considerados como o objetivo final do desenvolvimento, conforme acordado no Rio há 20 anos, então tememos que os seres humanos sejam, para muitos, como o primeiro obstáculo para o desenvolvimento", advertiu.

O delegado acrescentou que "estamos certos de que estes seres humanos serão: os pobres, os marginalizados, aqueles que causam incômodo, aqueles que ainda não nasceram e aqueles que, devido à sua deficiência, idade ou doença, são incapazes de se defender". E observou que "muitas das estratégias de desenvolvimento e políticas que não conseguiram promover um desenvolvimento humano integral no passado, fracassaram porque os seres humanos foram reduzidos a uma sombra de sua humanidade".

"Por um lado, dizem-nos que o egoísmo e a cobiça são os únicos controladores da conduta humana, e que os ‘mercados livres' são o que é preciso para converter o vício privado em virtude pública. Por outro lado, dizem-nos que a natureza humana é o que a sociedade produz, dando-nos uma estratégia de desenvolvimento que focaliza as estruturas e instituições, esperando que as instituições de direito sejam suficientes para promover o desenvolvimento".

Toda a verdade

O gestor admitiu que "cada opinião tem uma parte da verdade: os seres humanos muitas vezes se deixam levar ​​pelos próprios interesses, e as instituições sociais formam, em grande medida, os comportamentos e ações humanos, mercados e políticas de governo, ambos com o potencial de promover o bem comum. Entretanto, a humanidade não pode ser reduzida aos egoísmos individuais ou construções sociais. Um entendimento completo do que significa o ser humano também deve incluir a solidariedade básica, que é parte necessária da nossa humanidade, coerente com a dignidade fundamental de cada pessoa e que pede justiça", afirmou.

"Uma economia não baseada em uma ética que tenha como centro as pessoas e a moralidade, certamente instrumentará as riquezas da terra para o benefício dos ricos e poderosos. Os indicadores sociais e ambientais, que podem ser ferramentas importantes para ajudar a promover um autêntico desenvolvimento humano, na hora de elaborar estatísticas e falsos objetivos, dão a aparência de progresso, mas não refletem a realidade do verdadeiro progresso. Ou pior, podem tornar-se pretextos para sacrificar os direitos humanos e agredir a dignidade humana, tudo a partir de uma visão distorcida do bem comum".

"O desenvolvimento real não pode ser produzido apenas por mudanças em estruturas de mercado ou de incentivos - disse o delegado. Igualmente importante é a mudança necessária nos nossos corações e mentes, bem como em nossos atos subsequentes".


Fonte: http://www.zenit.org/article-27464?l=portuguese

15 de novembro de 2010

Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro - Fórum Social aborda saúde, educação, geração de renda e cidadania...

Por Jornal O Testemunho de Fé

Aconteceu no último sábado, 13 de novembro, no auditório da Paróquia de Sant'Ana, no Centro, o VIII Fórum Social da Igreja Católica, promovido pelo Vicariato para a Caridade Social da Arquidiocese do Rio de Janeiro, com a participação das diversas pastorais sociais existentes nas paróquias.

O Fórum acontece anualmente, desde 2003, com os objetivos de promover uma troca de experiências entre as pastorais sociais, de agilizar a realização de uma pastoral de conjunto e de realizar a formação permanente, que é uma exigência da Igreja. Neste ano há ainda a intenção de preparar as pastorais para discutir o 11º Plano de Pastoral de Conjunto, abordando temas que facilitem a compreensão das atividades missionárias sociais, na atual realidade da cidade do Rio de Janeiro. Saúde, educação, geração de renda e cidadania ganharam uma análise especial.

Cerca de 240 pessoas participaram do Fórum, representando todos os vicariatos territoriais, além de organismos ligados à promoção social, como a Cáritas, o Banco da Providência, o IDEPS, as Pastorais do Menor, do Migrante, das Pessoas com Deficiência, e dos movimentos Católicos em Ação e Aliança Missionária.

O Vigário Episcopal para a Caridade Social, Padre Manoel Manangão, iniciou as atividades do Fórum acolhendo os presentes. Ele destacou a importância das pastorais sociais e de todas as iniciativas criadas com o objetivo de ajudar a revelar o rosto de Jesus para as pessoas. Também ressaltou que o objetivo das pastorais sociais não é falar em nome dos mais necessitados, mas sim estar ao lado deles. De acordo com o Vigário, há o desejo de que voltando às suas Paróquias e/ou pastorais, os participantes do Fórum possam dinamizar e fortalecer as ações da Caridade Social.

Conforme o programado, na parte da manhã, o coordenador arquidiocesano de pastoral, Monsenhor Joel Portella, apresentou as palestras sobre os temas “Crise de Valores” e “Necessidade da Integração das Pastorais”. Em seguida, o Padre Geraldo Marques, da Paróquia Santa Edwiges e São Pedro, de Sepetiba, falou sobre “O Agir na Oração”. O tema “Filantropia” foi relatado pelas assistentes sociais Regina Coeli, da Pastoral do Menor, e Terezinha Nascimento, do Banco da Providência. O Arcebispo do Rio, Dom Orani Tempesta, finalizou a parte da manhã do Fórum, demonstrando a preocupação e o envolvimento da Arquidiocese com as causas sociais.

O Grupo de Música Operários, da Paróquia Nossa Senhora das Graças, em Campo Grande, ficou responsável pela animação do evento. O grupo é formado por oito amigos que iniciaram a participação na Pastoral da Juventude em 1985, passando em seguida a atuarem junto à Pastoral do Trabalhador, atual Pastoral Operária. Todos autodidatas na música, eles atuam nas diversas comunidades do Vicariato Oeste e em outros eventos promovidos pela Igreja.

A parte da tarde do Fórum foi dedicada a uma oficina com cinco temas. A mesa, formada por especialistas em assuntos sociais, abordou assuntos de diversos interesses atuais, já em direção ao proposto pela Campanha da Fraternidade do ano de 2011, que terá como tema “Fraternidade e a Vida no Planeta”. O professor da UERJ, Jorge da Silva, apresentou os problemas relacionados à violência.

Em seguida, o Vigário Episcopal Leopoldina e coordenador da Pastoral das Favelas, Monsenhor Luiz Antonio, falou sobre moradia. Márcia Tharakan, advogada e professora de direito ambiental, mostrou os problemas relacionados ao Meio Ambiente. O tema “Mercado Informal” foi apresentado pelo jornalista Isaias Bezerra. E, encerrando a oficina, o professor universitário e assessor da Petrobrás, Robson Leite, conversou sobre o “Jovem na Sociedade”.

Após a oficina aconteceu a apresentação da peça Anastácia, pelo Grupo de Teatro Armazém de Ideias e Ações Comunitárias (AIACOM), da Paróquia Consolação e Correa, no Engenho Novo. Mantido pelos Freis Agostinianos, esse trabalho social funciona há 18 anos com atuação de oficinas pedagógicas e artísticas com crianças e adolescentes na faixa de 4 a 18 anos.

O Fórum foi encerrado às 18h, com a celebração da Santa Missa, presidida pelo Padre Manoel Manangão. Agora espera-se uma ação de articulação das atividades pastorais nas paróquias. E o próximo passo será a assembleia do Vicariato para a Caridade Social, que será realizada no dia 05 de fevereiro de 2011, entre 8h e 12h, também no auditório da Paróquia de Sant'Ana, no Centro, com o objetivo de responder ao documento nº 2 do 11º Plano de Pastoral de Conjunto .

Fonte: http://www.arquidiocese.org.br/cgi/cgilua.exe/sys/start.htm?infoid=4776&sid=39




Cardeal Peter Turkson: Justiça Social e Evangelização.

Por Jason Adkins

O desafio de servir como a voz de Bento XVI em questões de justiça e paz deve ser muito pesado; requer a aplicação de princípios testados pelo tempo a uma vasta quantidade de temas em muitas situações geográficas, políticas e culturais diferentes. Atento às dificuldades de comunicação, de acordo com o contexto e a cultura de cada região, o novo chefe do Conselho Pontifício Justiça e Paz afirma que temos de nos esforçar para entender os termos difíceis e as ideias desde o ponto de vista de quem fala. Em outras palavras: temos de perguntar-nos o que a pessoa que fala tenta comunicar a sua audiência particular.

Adotando este ponto de partida, é possível promover uma profunda experiência de aprendizado pessoal, acredita o cardeal Peter Kodwo Appiah Turkson, presidente do Conselho Pontifício Justiça e Paz, nomeado em outubro de 2009 por Bento XVI. O cardeal Turkson, de 62 anos, nasceu em Nsuta Wassaw (Gana) e é arcebispo emérito de Cape Coast, capital do país. Frequentou o seminário St. Anthony-on-Hudson de Nova Iorque e depois, estudou no Pontifício Instituto Bíblico de Roma, onde completou o doutorado em Sagrada Escritura. Ordenado em 1975, foi nomeado arcebispo de Cape Coast em 1992 e cardeal por João Paulo II em 2003.

O cardeal Turkson trabalhou como chanceler da Catholic University College de Gana. Participou de uma série de comissões, conselhos e comitês pontifícios. Recentemente, esteve em St. Paul (Minnesota, Estados Unidos), visitando a Universidade St. Thomas, onde deu a conferência anual Habiger, patrocinada pelo Center for Catholic Studies. A conferência era sobre Caritas in Veritate: Good News for Society (Caritas in veritate: boa notícia para a sociedade).

Durante esta viagem, o cardeal Turkson concedeu uma entrevista a ZENIT, na qual tratou, entre outros assuntos, das dificuldades na compreensão e aplicação da Doutrina Social da Igreja, da importância da solidariedade e do trabalho da Santa Sé na ONU. Citando o relato bíblico de Zaqueu, ele acredita que as verdades sobre a tradição social da Igreja supõem uma preparação para a graça e convidam ao encontro com o Senhor. Nesta entrevista, o purpurado fala sobre os primeiros frutos da Caritas in Veritate, assim como sobre a necessidade de que a Santa Sé continue sendo a "voz da consciência" na ONU.

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ZENIT: Como cabeça do Conselho Pontifício Justiça e Paz o senhor tem que estar familiarizado com várias questões diferentes, desde economia até meio ambiente. Quais são suas principais fontes de inspiração para enfrentar esta tarefa?

Cardenal Turkson: Existem, basicamente, três influências. A primeira é o próprio Papa Bento XVI. Ele é, naturalmente, a razão da minha presença em Roma. Eu mesmo perguntei ao Papa quais são seus objetivos para o Conselho porque a natureza do meu trabalho é apoiar sua visão.

A segunda fonte de inspiração é meu trabalho como pastor. Antes de vir a Roma, eu era pastor. Minhas experiências pastorais são uma referência e uma fonte particularmente rica pra meu trabalho. Cheguei aqui com muitos sentimentos de pastor. Tenho de ser criativo, inovador e mostrar iniciativa em todas as situações que possa atravessar.

A terceira é minha própria formação nas Escrituras. Afinal, tudo o que se relaciona com nossa fé em ação nasce, em última análise, na Escritura. Eu não fui um aluno muito brilhante em Doutrina Social da Igreja - não fiz nenhum estudo acadêmico sobre este tema, somente o que era necessário para meu trabalho como pastor. Por isso, um grande apoio para meu trabalho é a base bíblica de tudo o que acontece.

ZENIT: Qual é a visão de Bento XVI sobre o Conselho Justiça e Paz?

Cardenal Turkson: Minha nomeação foi depois do sínodo sobre a África. No sínodo, o Santo Padre disse que em nosso trabalho devíamos distinguir entre ação pastoral e ação política. Tudo o que fazemos deve estar alinhado com a ação pastoral. As soluções políticas possíveis, devem estar de acordo com nossa compreensão da Igreja como família de Deus.

Quem conhece alguma coisa da vida de um bispo ou sacerdote num país de missão sabe que não se trata somente de ser um pastor ou administrador; pelo contrário, é um "faz tudo": é arquiteto, economista, projetista... Isto significa que como pastores temos que desenvolver um agudo sentido de inovação, criatividade e iniciativa. Nosso trabalho no Conselho deve ser igual.

O Conselho Pontifício Justiça e Paz é um departamento entre outros muitos no Vaticano e por isso deve alinhar-se ao Papa. Temos que falar como o faria o Papa quando se representa o Papa.

ZENIT: Nos Estados Unidos existe muita confusão com o termo "justiça social". Algumas pessoas atuam como se se tratasse de uma virtude ou de um humanitarismo enquanto outros acreditam que o termo deveria ser abandonado por ter sido distorcido e utilizado por ativistas políticos de esquerda. Poderia esclarecer essa confusão e definir exatamente o que significa a justiça social?

Cardenal Turkson: No fundo, a justiça social é uma função da própria fé e da doutrina da Igreja. Um grupo de investigadores dos Estados Unidos veio recentemente a Roma visitar-nos e falar sobre a recente encíclica. Ficou evidente na discussão sobre o tema que certos termos, como solidariedade, não são valorizados pelos americanos e são de difícil tradução, mas aprendemos com a discussão. É sempre bom ter em conta o ponto de vista dos demais.

Temos de entender o ponto de vista do autor e o que o autor expõe. Certos termos ou conceitos só podem ser apreciados quando vistos desde este ponto de vista. Com o termo justiça social temos de analisá-lo dessa forma. Em primeiro lugar, examinemos o termo justiça, por separado, e só depois acrescentar o adjetivo social e ver onde nos leva. Considero útil para que possamos ter um ideia correta da própria expressão.

A justiça pode ser considerada como a necessidade de respeitar as exigências de qualquer relação. Quando respeito estas relações, posso estar seguro de ser justo. Isto é certo com respeito à relação entre Deus e eu e é certo sobre a relação marido e mulher, estudante e professor, proprietário e trabalhador.

As exigências de qualquer relação, quando se espera entre as partes, constituem a justiça. Se nos referimos a ela como social, significa somente que vemos um conjunto de relações e expectativas entre os membros da sociedade. Por tanto, isto não é conservador nem liberal.

Vamos considerar as exigências de certas relações nas quais estamos envolvidos, quer dizer, na causa da justiça. Temos de tomar cuidado de não ser demasiado teóricos. Existe uma relação entre o legislador e o cidadão, entre chefes e trabalhadores que deve ser respeitada. A justiça social não diz respeito à distribuição ou com fazer que as pessoas das classes mais altas da sociedade ajudem as de classe mais baixa.

O ponto de partida é reconhecer o sentido de justiça nas relações e guiar-se por ele. Quando nos deixamos guiar por ele, nos ajuda a eliminar algumas das dificuldades na compreensão do termo. Devemos compreender a justiça social em termos de relações.

ZENIT: Também nos Estados Unidos existe muita polarização na forma como os católicos politicamente ativos interpretam e aplicam a Doutrina Social da Igreja. Por exemplo: alguns acreditam que praticamente todos os problemas sociais devem ser resolvidos pessoalmente, por organizações ou atores não governamentais enquanto outros pensam que é dever do Estado. Assegurar que todos os cidadãos tenham acesso aos serviços básicos de saúde é só um exemplo. O que acha desta polarização?

Cardenal Turkson: Poderia existir um desencontro entre o ensinamento do Papa e a realidade da situação particular nos Estados Unidos. Não estou seguro de que o debate sobre a saúde seja uma tentativa de colocar em prática o pensamento do Papa com relação à justiça social. A situação provavelmente possa estar relacionada com os dois campos políticos dentro daquele país. Não estou seguro de que o debate sobre a saúde seja uma tentativa de por em prática o pensamento do Papa nesse sentido.

A situação provavelmente possa estar relacionada com os dois campos políticos dentro deste país. Em todo caso, teria sua própria dinâmica. Se pensamos no caráter comunitário do ensinamento do Santo Padre, este se baseia na antropologia cristã da pessoa. A pessoa é criada para ser parte de uma família. A família é o ponto de partida da compreensão do Papa sobre a pessoa humana.

As pessoas pertencem a uma família. A fraternidade é um conceito que não se entende bem aqui. Sendo membros de uma família, todos somos irmãos e irmãs no caminho. É este o ponto de partida comunitária. Podemos perseguir iniciativas individuais, mas o ponto de partida original significa que devemos ser conscientes de não deixar um irmão ou irmã para trás. A lógica do dom do Santo Padre se aplica aqui.

Não deixamos um irmão ou irmã para trás porque reconhecemos o que a pessoa é: um ser criado à imagem e semelhança de Deus. Nossa solidariedade com eles é uma expressão do amor de Deus Pai por cada um de nós. A pessoa deve imitar o amor de Deus pelos demais. Devemos converter-nos em amor ou em dom para outras pessoas.

Significa que a pessoa humana deve pertencer a uma família. A solidariedade é um ponto básico de partida: a irmandade dos homens sob a paternidade de Deus. Não estou convencido de que a discussão política na sociedade americana tenha o mesmo ponto de partida. Portanto, fazer da compreensão da pessoa humana e da necessidade da solidariedade o ponto de partida se converte numa missão. Devemos usar a Doutrina Social da Igreja como meio de evangelização. Temos de compartilhar isto com os não cristãos.

Qualquer legislação que se adote deve ser uma expressão de solidariedade, uma expressão da natureza do amor de Deus e a gratidão com que Deus nos ama e se ocupa de nós.

ZENIT: Que efeito está tendo a Doutrina Social da Igreja nos homens de negócios e na sociedade?

Cardeal Turkson: As pessoas estão interessadas na tradição da Igreja. Muitos descobriram o lugar de Deus em Cristo, mostrando que a doutrina social da Igreja é uma ferramenta da evangelização. Por exemplo, no relato evangélico de Zaqueu, ele era um cobrador de impostos. Estava se enriquecendo às custas dos outros. Mas quando conheceu Jesus, experimentou uma transformação e disse: "Se defraudei alguém, eu lhe devolverei o dinheiro".

Como é possível que, antes de conhecer Jesus, ele não percebera que o que estava fazendo era enganar as pessoas? A história de Zaqueu mostra que, quando se tem um determinado encontro com o Senhor, há uma transformação em nós. Da mesma forma, as pessoas podem precisar dessa experiência do Senhor. Devem perceber que não se pode continuar como de costume. Não se pode pisotear outro ser humano.

Ao contrário, as empresas devem levar ao desenvolvimento integral da pessoa humana. A busca do progresso humano não pode ser alheio ao caráter comunitário da pessoa humana. A encíclica Caritas in veritate afirma que o desenvolvimento humano deve ser integral e completo. Ela nos convida a redescobrir o desenvolvimento humano e o progresso humano.

ZENIT: A Igreja precisa voltar a um tomismo mais rigoroso em seu enfoque das questões sociais atuais, como foi nas primeiras encíclicas sobre o tema?

Cardeal Turkson: Permita-me expor dessa forma: a este Papa, em particular, é atribuída a formulação de uma hermenêutica da continuidade. Essa hermenêutica não se aplica somente à questão do Concílio Vaticano II e aos concílios ecumênicos anteriores, mas também à continuidade entre a doutrina social pontifícia recente e a dos papas anteriores. Naturalmente, a mudança de contexto requer que a ênfase seja dada de outra forma. Às vezes, a formulação de certas questões é enquadrada de maneira diferente, mas existe uma continuidade real.

Quando este Papa fala sobre tradição, ele se refere a tudo o que falamos no passado. Não foi o tomismo, em última instância, o que proporcionou o ponto de partida para os ensinamentos sociais da Igreja, mas a própria Escritura. O tomismo era uma maneira de articular os princípios que se encontram na Bíblia.

Não sei se devemos voltar a Tomás para uma formulação clara. É provável que certa tradição dentro da Igreja - por meio de catecismos, com suas perguntas e respostas - tenha criado uma aproximação particular sobre as questões. Às vezes, o tomismo é útil neste contexto, mas não deve excluir o desejo de ser discursivo sobre os problemas e essa nova encíclica nos conduz a isso.

As encíclicas estão escritas para todas as pessoas de boa vontade. Com este propósito em mente, necessariamente não se pode apresentar os ensinamentos como um tipo de catequese, de forma tomista. O estilo discursivo não se move longe do tomismo, mas enriquece a tradição. Está destinado a um público mais amplo, ao qual as encíclicas se dirigem. Isso representa o abandono de um formato claro e tomista.

ZENIT: Na sociedade de hoje, poderia ser útil uma redescoberta da ideia, atualmente esquecida, do reinado social de Cristo, seu senhorio sobre todas as coisas, incluindo o âmbito político e econômico?

Cardeal Turkson: O Santo Padre disse que a verdade da razão e a verdade da fé não se opõem, mas a verdade da razão é convidada à transcendência. As coisas da verdade da razão não são um ponto final, de chegada. A verdade da fé deve transcender a verdade da razão. A lei natural, em si, é uma preparação para a ordem da graça.

Temos de reconhecer a vocação da razão como ordenada à transcendência, à figura de Jesus como Deus encarnado. Quando é este o caso, podemos nos referir ao que a recente encíclica diz sobre isso. O livro único da natureza mostra Deus como o autor da sua criação, mas também de tudo o que pertence a ela. Portanto, é o Senhor de todas as coisas, incluindo as relações da pessoa humana.

Existe uma tendência no mundo a conceber a pessoa humana como autora de si mesma ou configurada pela cultura e pelas forças externas. Esta é uma tentativa de substituir Deus e acabar com Ele. Em vista disso, os Papas João Paulo II e Bento XVI nos recordam que, sem transcendência, a vida não tem sentido e não pode alcançar seus próprios objetivos. A necessidade da realeza de Jesus é precisamente porque é a revelação do Pai. É necessário apresentar a vocação da razão como uma vocação à transcendência.

Trata-se de uma verdade revelada por Cristo e em Cristo. Assim, a lei natural não é um ponto de chegada, mas cada pessoa é convidada à transcendência para descobrir-se na finalidade da verdade de Jesus, a descobrir o plano do Pai na verdade da criação. Esse convite à transcendência se converte no objeto da missão evangelizadora da Igreja. Falamos da verdade da razão, mas não nos detemos aí. É preciso descobrir a si mesma em Jesus como a revelação do Pai.

ZENIT: Quando o senhor fala a organismos como as Nações Unidas, como fez em setembro sobre os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio e os exorta a defender e construir em suas atividades uma cultura da vida, parece que esta mensagem está chegando?

Cardeal Turkson: Penso que existe um monte de coisas por descobrir sobre como as Nações Unidas trabalham. Supõe-se que as Nações Unidas em si são uma reunião dos Estados soberanos, que os chefes das nações soberanas se unem. Os especialistas da ONU facilitam estas reuniões, mas precisamente este serviço põe em perigo a reunião e permite que seja sequestrada por pessoas com uma agenda. Sempre devemos reconhecer este risco.

O financiamento da ONU vem dos chefes de Estado soberanos. Mas o financiamento pode vir também com exigências ou condições. Temos de reconhecer tudo isso. Por isso, quando os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio são debatidos, é provável que algumas pessoas que estão financiando e conduzem o debate tenham sua própria agenda de interesses.

A voz da Santa Sé tem o valor de servir como um recordatório de certos temas que em geral não são discutidos. Inclusive se a posição da Santa Sé não é aprovada, serve como uma lembrança aos países sobre estes temas e valores, a importância de proteger a vida e a dignidade humanas. Mesmo se formos a única voz na sala, é necessário.

Muitas pessoas ainda nos parabeniza por discutir certos temas. As atividades da Santa Sé também podem abrir espaço para outras discussões sobre por que alguns Estados estão debatendo sobre certos temas, ou se podem conduzir a uma perda de financiamento para os demais. Por exemplo, antes da visita do Papa a Londres, alguém perguntou sobre o desenvolvimento em outros países, se a saúde reprodutiva estaria conectada diretamente a todas as ajudas. Isso significaria que toda ajuda que sai teria isso como condição para o financiamento. Isso foi algo que pôde ser discutido graças à presença da Igreja na ONU.

Todos estes detalhes precisam ser reconhecidos quando falamos sobre a participação na ONU. Devemos fazer que a verdade da Igreja seja conhecida, independentemente do grau de adesão que possa obter.



(E ainda há católicos que acham um ABSURDO a presença da Santa Sé na ONU. Convenhamos que a ignorância não conhece limites...)