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29 de julho de 2022

Mensagem de Sua Santidade Papa Francisco para a celebração do Dia Mundial de Oração pelo Cuidado da Criação em 01 de setembro de 2022.

 

Queridos irmãos e irmãs!

«Escuta a voz da criação» é o tema e o convite do «Tempo da Criação» deste ano. O período ecumênico começa no dia 1 de setembro com o Dia Mundial de Oração pelo Cuidado da Criação e termina a 4 de outubro com a festa de São Francisco. É um momento especial para todos os cristãos, a fim de orarmos e cuidarmos, juntos, da nossa casa comum. Inspiração originária do Patriarcado Ecumênico de Constantinopla, este «Tempo» é uma oportunidade para aperfeiçoarmos a nossa «conversão ecológica», uma conversão encorajada por São João Paulo II como resposta à «catástrofe ecológica» pressagiada por São Paulo VI já em 1970. [1]

Se se aprende a escutá-la, notamos uma espécie de dissonância na voz da criação. Por um lado, é um canto doce que louva o nosso amado Criador; por outro, é um grito amargo que se lamenta dos nossos maus-tratos humanos.

O canto doce da criação convida-nos a praticar uma «espiritualidade ecológica» (Francisco, Carta enc. Laudato si', 216), atenta à presença de Deus no mundo natural. É um convite a fundar a nossa espiritualidade na «consciência amorosa de não estar separado das outras criaturas, mas de formar com os outros seres do universo uma estupenda comunhão universal» (ibid., 220). Particularmente para os discípulos de Cristo, esta experiência luminosa reforça a consciência de que «por Ele é que tudo começou a existir; e sem Ele nada veio à existência» (Jo 1, 3). 

Neste «Tempo da Criação», retomemos a oração na grande catedral da criação, gozando do «grandioso coro cósmico» [2] de inúmeras criaturas que cantam louvores a Deus. Unamo-nos a São Francisco de Assis cantando «Louvado sejas, meu Senhor, com todas as tuas criaturas» (cf. Cântico do Irmão Sol). Unamo-nos ao Salmista cantando «Todo o ser vivo louve o Senhor» ( Sl 150, 6).

Esta canção doce, infelizmente, é acompanhada por um grito amargo. Ou melhor, por um coro de gritos amargos. Primeiro, é a irmã Madre Terra que grita. À mercê dos nossos excessos consumistas, geme implorando para pararmos com os nossos abusos e a sua destruição. Depois gritam as diversas criaturas. 

À mercê de um «antropocentrismo despótico» (Laudato si', 68), nos antípodas da centralidade de Cristo na obra da criação, estão a extinguir-se inúmeras espécies, cessando para sempre os seus hinos de louvor a Deus. Mas gritam também os mais pobres entre nós. Expostos à crise climática, sofrem mais severamente o impacto de secas, inundações, furacões e vagas de calor que se vão tornando cada vez mais intensas e frequentes. E gritam ainda os nossos irmãos e irmãs de povos indígenas. 

Por causa de predatórios interesses econômicos, os seus territórios ancestrais são invadidos e devastados por todo o lado, lançando «um clamor que brada ao céu» (Francisco, Exortação Apóstólica Pós-sinodal Querida Amazonia, 9). Enfim gritam os nossos filhos. Ameaçados por um egoísmo míope, os adolescentes pedem-nos ansiosamente, a nós adultos, que façamos todo o possível para prevenir ou pelo menos limitar o colapso dos ecossistemas do nosso planeta.

Escutando estes gritos amargos, devemo-nos arrepender e mudar os estilos de vida e os sistemas danosos. O apelo evangélico inicial – «Convertei-vos, porque está próximo o Reino do Céu» (Mt 3, 2) –, ao convidar a uma nova relação com Deus, pede também uma relação diferente com os outros e com a criação. O estado de degrado da nossa casa comum merece a mesma atenção que outros desafios globais, como as graves crises sanitárias e os conflitos bélicos. «Viver a vocação de guardiões da obra de Deus não é algo de opcional nem um aspeto secundário da experiência cristã, mas parte essencial duma existência virtuosa» (Laudato si', 217).

Como pessoas de fé, sentimo-nos ainda mais responsáveis por adotar comportamentos diários em consonância com a referida exigência de conversão. Mas esta não é apenas individual: «a conversão ecológica, que se requer para criar um dinamismo de mudança duradoura, é também uma conversão comunitária» (ibid., 219). Nesta perspetiva, a própria comunidade das nações é chamada a empenhar-se, com espírito de máxima cooperação, especialmente nos encontros das Nações Unidas dedicados à questão ambiental.

A cimeira COP 27 sobre o clima, que se vai realizar no Egito em novembro de 2022, constitui a próxima oportunidade para promover, todos juntos, uma eficaz implementação do Acordo de Paris. Também por este motivo dispus recentemente que a Santa Sé, em nome e por conta do Estado da Cidade do Vaticano, adira à Convenção-Quadro da ONU sobre as Mudanças Climáticas e ao Acordo de Paris, com a esperança de que a humanidade do século XXI «possa ser lembrada por ter assumido com generosidade as suas graves responsabilidades» (ibid., 165). 

Alcançar o objetivo de Paris de limitar o aumento da temperatura a 1,5°C é bastante árduo e requer uma colaboração responsável entre todas as nações para apresentar planos climáticos ou Contribuições Determinadas a nível nacional mais ambiciosos, para reduzir a zero, com a maior urgência possível, as emissões globais dos gases de efeito estufa. Trata-se de «converter» os modelos de consumo e produção, bem como os estilos de vida, numa direção mais respeitadora da criação e do progresso humano integral de todos os povos presentes e futuros, um progresso fundado na responsabilidade, na prudência/precaução, na solidariedade e atenção aos pobres e às gerações futuras. 

Na base de tudo, deve estar a aliança entre o ser humano e o meio ambiente que, para nós crentes, é «espelho do amor criador de Deus, de Quem provimos e para Quem estamos a caminho». [3] A transição realizada por esta conversão não pode negligenciar as exigências da justiça, especialmente para com os trabalhadores mais afetados pelo impacto das mudanças climáticas.

Por sua vez, a cimeira COP 15 sobre a biodiversidade, que terá lugar no Canadá em dezembro, proporcionará à boa vontade dos Governos uma oportunidade importante para adotarem um novo acordo multilateral para deter a destruição dos ecossistemas e a extinção das espécies. Segundo a antiga sabedoria dos Jubileus, temos necessidade de «recordar, regressar, repousar e restaurar». [4] 

Para impedir um colapso ainda mais grave da «rede da vida» – Biodiversidade – que Deus nos concedeu, rezemos e convidemos as nações a porem-se de acordo sobre quatro princípios-chave: 

1º. ⇒ Construir uma base ética clara para a transformação que precisamos a fim de salvar a biodiversidade; 

2º. ⇒ Lutar contra a perda de biodiversidade, apoiar a sua conservação e recuperação e satisfazer de forma sustentável as necessidades das pessoas; 

3º. ⇒ Promover a solidariedade global, tendo em vista que a biodiversidade é um bem comum global que requer um empenho compartilhado; 

4º. ⇒ Colocar no centro as pessoas em situações de vulnerabilidade, incluindo as mais afetadas pela perda de biodiversidade, como as populações indígenas, os idosos e os jovens.

Repito: «Quero pedir, em nome de Deus, às grandes empresas extrativas – mineiras, petrolíferas, florestais, imobiliárias, agro-alimentares – que deixem de destruir florestas, zonas úmidas e montanhas, que deixem de poluir rios e mares, que deixem de intoxicar as pessoas e os alimentos». [5]

É impossível não reconhecer a existência duma «dívida ecológica» (Laudato si', 51) das nações economicamente mais ricas, que poluíram mais nos últimos dois séculos; isso exige que elas realizem passos mais ambiciosos tanto na COP 27 como na COP 15. Além duma decidida ação dentro das suas fronteiras, inclui cumprir as suas promessas de apoio financeiro e técnico às nações economicamente mais pobres, que já sofrem o peso maior da crise climática. 

Além disso, seria oportuno pensar urgentemente também num maior apoio financeiro para a conservação da biodiversidade. Significativas, embora «diversificadas» (cf. ibid., 52), são também as responsabilidades dos países economicamente menos ricos; os atrasos dos outros não podem jamais justificar a inação de quem quer que seja. É necessário agirem todos, com decisão. Estamos a chegar a «um ponto de ruptura» (cf. ibid., 61).

Durante este «Tempo da Criação», rezemos para que as cimeiras COP 27 e COP 15 possam unir a família humana (cf. ibid., 13) para enfrentar decididamente a dupla crise do clima e da redução da biodiversidade. Recordando a exortação de São Paulo para nos alegrar com os que se alegram e chorar com os que choram (cf. Rm 12, 15), choremos com o grito amargo da criação, escutemo-lo e respondamos com os fatos para que nós e as gerações futuras possamos ainda alegrar-nos com o canto doce de vida e de esperança das criaturas.


Roma, São João de Latrão, na Memória de Nossa Senhora do Carmo, dia 16 de julho de 2022.

FRANCISCO





[1] Cf. Discurso à FAO, 16 de novembro de 1970.

[2] São João Paulo II, Audiência Geral, 10 de julho de 2002.



[5] Vídeo-mensagem aos Movimentos Populares, 16 de outubro de 2021.

12 de outubro de 2021

Discurso do Papa Francisco aos participantes do encontro "Fé e Ciência: Rumo à COP26".

Líderes e Representantes religiosos,

Excelências,
Queridos amigos!

Obrigado a todos por se reunirem aqui, colocando em evidência o desejo dum diálogo profundo entre nós e com os peritos em ciência. Ouso oferecer três conceitos à vossa reflexão sobre esta colaboração: o olhar da interdependência e da partilha, o motor do amor e a vocação ao respeito.


1. Tudo está interligado; no mundo, tudo está intimamente relacionado. Não só a ciência, mas também as nossas crenças e as nossas tradições espirituais põem em evidência esta conexão que existe entre todos nós e com o resto da criação. Reconhecemos os sinais da harmonia divina presente no mundo natural: nenhuma criatura se basta a si mesma; cada uma só existe na dependência das outras, para se completarem mutuamente, ao serviço uma da outra [1]. Quase poderíamos dizer que uma é dada pelo Criador às outras, para que, na relação de amor e respeito, possam crescer e realizar-se em plenitude. Plantas, águas, seres vivos são guiados por uma lei impressa por Deus em cada um deles para benefício de toda a criação.


Reconhecer que o mundo está interligado significa não só compreender as consequências nefastas das nossas ações, mas também identificar comportamentos e soluções que devem ser adotados com olhar aberto à interdependência e à partilha. Não se pode agir sozinho; é fundamental o empenho de cada um no cuidado dos outros e do ambiente, um empenho que leve à tão urgente mudança de rumo, que deve ser alimentada também pela própria fé e espiritualidade. Para os cristãos, o olhar da interdependência brota do próprio mistério de Deus Trino: «A pessoa humana cresce, amadurece e santifica-se tanto mais, quanto mais se relaciona, sai de si mesma para viver em comunhão com Deus, com os outros e com todas as criaturas. Assim assume na própria existência aquele dinamismo trinitário que Deus imprimiu nela desde a sua criação» [2].


O encontro hodierno, que une muitas culturas e espiritualidades num espírito de fraternidade, reforça a consciência de que somos membros duma única família humana: temos, cada um de nós, a própria fé e tradição espiritual, mas não há fronteiras nem barreiras culturais, políticas ou sociais que consintam isolar-nos. Para iluminar este olhar, queremos empenhar-nos em prol dum futuro modelado pela interdependência e a corresponsabilidade.


2. Este empenho deve ser continuamente solicitado pelo motor do amor: «A partir da intimidade de cada coração, o amor cria vínculos e amplia a existência, quando arranca a pessoa de si mesma para o outro» [3]. Entretanto, a força propulsora do amor não é acionada  duma vez para sempre, mas deve ser reavivada dia a dia; esta é uma das grandes contribuições que as nossas crenças e tradições espirituais podem dar para facilitar esta mudança de rumo de que temos tanta necessidade.


O amor é espelho duma vida espiritual vivida intensamente. Um amor que se estende a todos sem olhar a fronteiras culturais, políticas e sociais; um amor que integra, mesmo e sobretudo em benefício dos últimos, que muitas vezes são quem nos ensina a superar as barreiras do egoísmo e a romper os muros do individualismo.


Trata-se de um desafio que surge perante a necessidade de contrastar aquela cultura do descarte que parece prevalecer na nossa sociedade e se apoia sobre aquilo que o nosso Apelo Conjunto chama as «sementes dos conflitos: ganância, indiferença, ignorância, medo, injustiça, insegurança e violência». São estas mesmas sementes de conflito que provocam as graves feridas que infligimos ao ambiente, como as mudanças climáticas, a desertificação, a poluição, a perda da biodiversidade, levando à rutura daquela «aliança entre ser humano e ambiente que deve ser espelho do amor criador de Deus, de Quem provimos e para Quem estamos a caminho» [4].


Semelhante desafio a favor duma cultura do cuidado da nossa casa comum e também de nós próprios tem o sabor da esperança, pois não há dúvida que a humanidade nunca, como hoje, teve tantos meios para alcançar tal objetivo. Este mesmo desafio pode enfrentar-se em vários níveis; gostaria de assinalar, em particular, dois deles: o nível do exemplo e da ação, e o da educação. 


Em ambos os níveis, nós, inspirados pelas nossas crenças e tradições espirituais, podemos oferecer contribuições importantes. Muitas são as possibilidades emergentes, como aliás coloca em evidência o Apelo Conjunto, onde se ilustram também vários percursos de educação e formação que podemos desenvolver a favor do cuidado da nossa casa comum.


3. Este cuidado é também uma vocação ao respeito: respeito pela criação, respeito pelo próximo, respeito por si mesmo e respeito perante o Criador. Mas também respeito mútuo entre fé e ciência, para «estabelecerem diálogo entre si visando o cuidado da natureza, a defesa dos pobres, a construção duma trama de respeito e de fraternidade» [5].


Um respeito que não é mero reconhecimento abstrato e passivo do outro, mas deve ser vivido de forma empática e ativa querendo conhecer o outro e dialogar com ele para caminhar juntos nesta viagem comum, bem sabendo – como se indica ainda no Apelo – que «aquilo que podemos obter depende não só das oportunidades e dos recursos, mas também da esperança, da coragem e da boa vontade».


O olhar da interdependência e da partilha, o motor do amor e a vocação ao respeito: eis três chaves de leitura que me parecem iluminar o nosso trabalho pelo cuidado da casa comum. A COP26 de Glasgow é urgentemente chamada a oferecer respostas eficazes à crise ecológica sem precedentes e à crise de valores em que vivemos e, assim, dar uma esperança concreta às gerações futuras: queremos acompanhá-la com o nosso empenho e a nossa proximidade espiritual.



[1] Cf. Francisco, Carta enc. Laudato si’ (24/V/2015), 86.

[2] Ibid., 240.

[3] Francisco, Carta enc. Fratelli tutti (03/X/2020), 88.

[4] Bento XVI, Carta enc. Caritas in veritate (29/VI/2009), 50.

[5] Francisco, Carta enc. Laudato si’ (24/V/2015), 201.


Fonte: https://www.vatican.va/content/francesco/pt/speeches/2021/october/documents/20211004-religione-scienza-cop26.html


31 de agosto de 2021

Paulo VI e um excerto de uma audiência geral em 19.01.1972.

Há quase cinquenta anos... Por curiosidade, fui procurar algo no ano em que nasci e encontrei uma mensagem curta e profunda pertinho do meu aniversário. Ah, a vaidade humana! 😄

* * *

Procure colocar sua mente, seu espírito, na verdade sua consciência de viver diante do acúmulo de questões importantes, aquelas relativas à origem do universo, o sentido da vida, a ansiedade de saber o destino da humanidade, o fenômeno religioso que pretende para responder a esses problemas, absorvendo e superando o que a ciência e a filosofia podem nos dizer sobre isso.

E tentar colocar o fato cristão no meio e acima dessas questões, que reconhecidas em suas necessidades ilimitadas chamamos de trevas, mas que em comparação com o próprio fato cristão se tornam mais claras e nos permitem vislumbrar sua profundidade misteriosa e ao mesmo tempo uma certa novidade própria, uma beleza maravilhosa, e ouvirás ecoar em ti, como se fossem pronunciadas neste preciso momento, as conhecidas palavras do Evangelho de João: "A luz brilha nas trevas" (Io. 1, 5).

O panorama do cosmos é iluminado como se o sol tivesse nascido da noite, as coisas mostram sua ordem encantadora e ainda explorável; e o homem, quase rindo e tremendo de alegria, passa a se conhecer e se descobre como o viajante privilegiado que caminha, mínimo e máximo no palco do mundo, com a consciência simultânea de ter o direito e a capacidade de dominá-lo, e de ter o dever e a possibilidade de transcendê-lo no fascínio de uma nova relação que o domina: o diálogo com Deus; um diálogo que se abre assim: “Pai nosso, que estás nos céus... "


Fonte: NASA (2014)


Não é um sonho, não é uma fantasia, não é uma alucinação. É simplesmente o efeito primário e normal do Evangelho, de sua luz na tela de uma alma, que se abriu para seus raios. Como é chamada essa projeção de luz? É chamada de Revelação. E como se chama essa abertura da alma? É chamada de fé.

24 de maio de 2021

Celebrando com atraso o Pentecostes 2021 em comemoração a Semana Laudato Si'...


Há muito nada publico devido a correria do dia a dia e gostaria de compartilhar um belo salmo sobre a Criação retirado da Bíblia de Jerusalém, mas ao final reproduzo comentários da Bíblia Pastoral online, da Ed. Paulus. 

Ontem foi Pentecostes e foi num dia de celebração como este que a Laudato Si' nos foi apresentada em 2015, complementando o ciclo iniciado com São João Paulo II, trilhado por Bento XVI e coroado por Francisco.


Clique na imagem e acesse a carta encíclica Dominum et Vivificantem de São Paulo II 
sobre o Espírito Santo na vida da Igreja e do Mundo


Salmo 104 (103)

O esplendor da criação


1 Bendize a Iahweh, ó minha alma!
Iahweh, Deus meu, como és grande:
vestido de esplendor e majestade,
2 envolto em luz como num manto,
estendendo os céus como tenda,
3 construindo sobre as águas tuas altas moradas;
tomando as nuvens como teu carro,
caminhando sobre as asas do vento;
4 fazendo dos ventos teus mensageiros,
das chamas de fogo teus ministros!

5 Assentaste a terra sobre suas bases,
inabalável para sempre e eternamente;
6 cobriste-a com o abismo, como um manto,
e as águas se postaram por cima das montanhas.

7 À tua ameaça, porém, elas fogem,
ao estrondo do teu trovão se precipitam,
8 subindo as montanhas, descendo pelos vales, 
para o lugar que lhes tinhas fixado;
9 puseste um limite que não podem transpor,
para não voltarem a cobrir a terra.

10 Fazes brotar fontes d'água pelos vales:
elas correm pelo meio das montanhas,
11 dão de beber  a todas as feras do campo,
e os asnos selvagens matam a sede;
12 junto a elas as aves do céu se abrigam,
desferindo seu canto por entre a folhagem.

13 De tuas altas moradas regas os montes,
e a terra se sacia com o fruto de tuas obras;
14 fazes brotar relva para o rebanho
e plantas úteis ao homem,
para que da terra ele tire o pão

15 e o vinho, que alegra o coração do homem;
para que ele faça o rosto brilhar com o óleo,
e o pão fortaleça o coração do homem.

16 As árvores de Iahweh se saciam,
os cedros do Líbano que ele plantou;
17 ali os pássaros se aninham,
no seu topo a cegonha tem sua casa;
18 as altas montanhas são para as cabras,
os rochedos um refúgio para os ratazanas.

19 Ele fez a lua para marcar os tempos,
o sol conhece o seu ocaso.
20 Colocas as trevas e vem a noite,
e nela rondam todas as feras da selva;
21 rugem os leõezinhos em busca da presa,
pedindo a Deus o sustento.

22 Ao nascer do sol se retiram
e se entocam nos seus covis;
23 sai o homem para a sua faina,
e para o seu trabalho até a tarde.

24 Quão numerosas são tuas obras, Iahweh,
e todas fizeste com sabedoria!
A terra está repleta das tuas criaturas.

25 Eis o vasto mar, com braços imensos,
onde se movem, inumeráveis,
animais pequenos e grandes;
26 ali circulam os navios, e o Leviatã,
que formaste para com ele brincar.

27 Eles todos esperam de ti
que a seu tempo lhes dê o alimento:
28 tu lhes dás e eles o recolhem,
abres tua mão e se saciam de bens.

29 Escondes tua face e eles se apavoram,
retiras sua respiração e eles expiram,
voltando ao seu pó.
30 Envias teu sopro e eles são criados,
e assim renovas a face da terra.

31 Que a glória de Iahweh seja para sempre,
que Iahweh se alegre com suas obras!
32 Ele olha a terra e ela estremece,
toca as montanhas e elas fumegam.

33 Cantarei a Iahweh enquanto eu viver,
louvarei o meu Deus enquanto existir.
34 Que meu poema lhe seja agradável;
quanto a mim, eu me alegro com Iahweh.
35 Que os pecadores desapareçam da terra
e os ímpios nunca mais existam.

Bendize a Iahweh, ó minha alma!



Comentários da Bíblia Pastoral:

* 1-4: Celebra a grandeza de Deus envolvido pela imensidão do universo.

* 5-9: Descreve alguns traços da criação primordial. Trata-se de uma observação simples dos principais fenômenos da natureza.

* 10-18: Celebra o ritmo harmônico da natureza, em que coexistem pacificamente plantas, animais e seres humanos.

* 19-26: Dia e noite delimitam o espaço do homem e das feras. Os vv. 24-26 contemplam a multiplicidade, beleza e imensidão das criaturas.

* 27-28: Enquanto os animais se alimentam diretamente da natureza, o homem precisa transformá-la através do trabalho.

* 29-30: O mistério da vida é visto como o mistério da respiração: sopro de Deus que cria, vivifica e renova.

* 31-34: Neste louvor, o homem reconhece o mistério da natureza, descobrindo nele o próprio mistério de Deus.

* 35: A harmonia da natureza deixa aberta uma questão: por que existem os injustos que produzem desigualdade entre os homens?





4 de abril de 2021

Mensagem "Urbe et Orbi" de Páscoa, 2021


 Caros irmãos e irmãs, uma boa, feliz e pacífica Páscoa!



Hoje, por todo o mundo, ressoa a proclamação da Igreja: “Jesus, que foi crucificado, ressuscitou como disse. Aleluia!"


A mensagem da Páscoa não nos oferece uma miragem, nem revela uma fórmula mágica. Não aponta para uma fuga da difícil situação que vivemos. A pandemia ainda está se espalhando, enquanto a crise social e econômica continua severa, especialmente para os pobres. No entanto - e isso é escandaloso - os conflitos armados não terminaram e os arsenais militares estão sendo fortalecidos. Esse é o escândalo de hoje.


Diante, ou melhor, em meio a esta complexa realidade, a mensagem pascal fala de maneira concisa sobre o acontecimento que nos dá a esperança que não desilude: “Jesus crucificado ressuscitou”. Não nos fala sobre anjos ou fantasmas, mas sobre um homem, um homem de carne e osso, com um rosto e um nome: Jesus. O Evangelho testifica que este Jesus, crucificado sob Pôncio Pilatos por afirmar que era o Cristo, o Filho de Deus, ressuscitou no terceiro dia de acordo com as Escrituras, assim como ele havia predito aos seus discípulos.


O Jesus crucificado, nenhum outro, ressuscitou dos mortos. Deus Pai ressuscitou Jesus, seu Filho, porque ele cumpriu plenamente sua vontade salvadora. Jesus tomou sobre si nossa fraqueza, nossas enfermidades, até mesmo nossa morte. Ele suportou nossos sofrimentos e carregou o peso de nossos pecados. Por causa disso, Deus Pai o exaltou e agora Jesus Cristo vive para sempre; ele é o Senhor.


As testemunhas relatam um detalhe importante: o Jesus ressuscitado traz as marcas das feridas nas mãos, pés e flanco. Essas feridas são o selo eterno de seu amor por nós. Todos aqueles que experimentam uma dolorosa prova no corpo ou no espírito podem encontrar refúgio nessas feridas e, por meio delas, receber a graça da esperança que não decepciona.


O Cristo ressuscitado é a esperança para todos os que continuam a sofrer com a pandemia, tanto os doentes quanto os que perderam um ente querido. Que o Senhor os console e apoie os valentes esforços de médicos e enfermeiras. Todos, especialmente os mais vulneráveis entre nós, requerem assistência e têm direito ao acesso aos cuidados necessários. Isso é ainda mais evidente nestes tempos em que todos nós somos chamados para combater a pandemia. As vacinas são uma ferramenta essencial nessa luta. Exorto toda a comunidade internacional, em um espírito de responsabilidade global, a se comprometer a superar os atrasos na distribuição de vacinas e a facilitar sua distribuição, especialmente nos países mais pobres.


O Senhor crucificado e ressuscitado é um conforto para aqueles que perderam seus empregos ou passam por sérias dificuldades econômicas e carecem de proteção social adequada. Que ele inspire as autoridades públicas a agirem para que a todos, especialmente as famílias mais necessitadas, seja oferecida a assistência necessária para um padrão de vida digno. Infelizmente, a pandemia aumentou dramaticamente o número de pobres e o desespero de milhares de pessoas.


“Os pobres de toda espécie devem começar uma vez mais a ter esperança”. São João Paulo II pronunciou essas palavras durante sua visita ao Haiti. É precisamente para o querido povo haitiano que meus pensamentos se voltam nestes dias. Exorto-os a não se abaterem com as dificuldades, mas a olharem para o futuro com confiança e esperança. E meus pensamentos se voltam especialmente para vocês, meus queridos irmãos e irmãs haitianos. Estou perto de você e quero uma solução definitiva para seus problemas. Estou orando por isso, queridos irmãos e irmãs haitianos.


Jesus ressuscitado é também a esperança para todos os jovens forçados a passar longos períodos sem ir à escola ou à universidade, ou de passar o tempo com os amigos. Experimentar relacionamentos humanos reais, não apenas relacionamentos virtuais, é algo que todos precisam, especialmente em uma idade em que o caráter e a personalidade de uma pessoa estão sendo formados. Percebemos isso claramente na última sexta-feira, na Via Sacra composta pelas crianças. Expresso a minha proximidade aos jovens de todo o mundo e, nestes dias, especialmente aos jovens de Mianmar empenhados em apoiar a democracia e fazer ouvir a sua voz pacificamente, sabendo que o ódio só pode ser dissipado com o amor.



Que a luz de Jesus ressuscitado seja fonte de renascimento para os migrantes que fogem da guerra e da extrema pobreza. Reconheçamos em seus rostos o rosto desfigurado e sofredor do Senhor enquanto ele percorria o caminho do Calvário. Que nunca faltem sinais concretos de solidariedade e fraternidade humana, penhor da vitória da vida sobre a morte que celebramos neste dia. Agradeço às nações que recebem generosamente pessoas que sofrem e procuram refúgio. O Líbano e a Jordânia, em particular, estão recebendo muitos refugiados que fugiram do conflito na Síria.


Que o povo libanês, que vive tempos de dificuldade e incerteza, experimente a consolação do Senhor Ressuscitado e encontre o apoio da comunidade internacional na sua vocação de ser uma terra de encontro, de convivência e de pluralismo.


Que Cristo, nossa paz, finalmente ponha fim ao conflito de armas na amada e devastada Síria, onde milhões de pessoas vivem atualmente em condições desumanas; no Iêmen, cuja situação se deparou com um silêncio ensurdecedor e escandaloso, e na Líbia, onde finalmente há esperança de que uma década de lutas e confrontos sangrentos chegue ao fim. Que todas as partes envolvidas se comprometam efetivamente a acabar com os conflitos e permitir que os povos cansados da guerra vivam em paz e comecem a reconstrução de seus respectivos países.


A ressurreição naturalmente nos leva a Jerusalém. Em Jerusalém, pedimos ao Senhor que conceda paz e segurança (cf. Sl 122), para que possa abraçar a sua vocação de ser um lugar de encontro, onde todos se possam ver como irmãos e onde israelitas e palestinianos redescubram o poder de diálogo para alcançar uma solução estável que permitirá aos dois estados viver lado a lado em paz e prosperidade.


Neste dia de festa, o meu pensamento regressa também ao Iraque, que tive a alegria de visitar no mês passado. Rezo para que continue no caminho da paz e, assim, realize o sonho de Deus para uma família humana hospitaleira e acolhedora para todos os seus filhos. [1]


Que o poder do Senhor ressuscitado sustente os povos da África que vêem seu futuro comprometido pela violência interna e pelo terrorismo internacional, especialmente no Sahel e na Nigéria, bem como em Tigray e na região de Cabo Delgado. Continuem os esforços para uma solução pacífica dos conflitos, no respeito pelos direitos humanos e pela sacralidade da vida, por meio do diálogo fraterno e construtivo, em espírito de reconciliação e de verdadeira solidariedade. 


Ainda há muitas guerras e muita violência no mundo! Que o Senhor, que é a nossa paz, nos ajude a superar a mentalidade da guerra. Que ele conceda que os prisioneiros de conflitos, especialmente no leste da Ucrânia e em Nagorno-Karabakh, possam retornar em segurança para suas famílias, e que ele inspire os líderes mundiais a conter a corrida por novos armamentos. Hoje, 4 de abril, marca o Dia Internacional da Conscientização contra as minas terrestres antipessoais, dispositivos traiçoeiros e horríveis que matam ou mutilam muitos inocentes a cada ano e impedem a humanidade de “caminhar juntos nos caminhos da vida sem temer a ameaça de destruição e morte!” [2] Quão melhor seria o nosso mundo sem esses instrumentos de morte!


Queridos irmãos e irmãs, mais uma vez este ano, em vários lugares, muitos cristãos celebraram a Páscoa sob severas restrições e, às vezes, sem poder assistir às celebrações litúrgicas. Oramos para que essas restrições, bem como todas as restrições à liberdade de culto e religião em todo o mundo, sejam levantadas e todos possam orar e louvar a Deus livremente.


Em meio às muitas provações que enfrentamos, nunca nos esqueçamos de que fomos curados pelas feridas de Cristo (cf. 1 Pe 2, 24). À luz do Senhor Ressuscitado, nossos sofrimentos agora se transfiguram. Onde havia morte, agora existe vida. Onde havia luto, agora há consolo. Ao abraçar a cruz, Jesus deu significado aos nossos sofrimentos e agora oramos para que os benefícios dessa cura se espalhem por todo o mundo. Uma boa Páscoa feliz e serena a todos!


Francisco



[1] Discurso na Reunião Inter-religiosa em Ur, 6 de março de 2021.

[2] João Paulo II, Angelus, 28 de fevereiro de 1999.

Tradução: Renata P. Espíndola.


Fonte: http://www.vatican.va/content/francesco/en/messages/urbi/documents/papa-francesco_20210404_urbi-et-orbi-pasqua.html