20 de março de 2011

Fraternidade e a vida no planeta

Cardeal Eugenio de Araujo Sales

Arcebispo Emérito da Arquidiocese do Rio de Janeiro


A Campanha da Fraternidade, um dos grandes acontecimentos vivenciados pela Igreja, foi aberta oficialmente pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, com a mensagem do Santo Padre Bento XVI na quarta-feira de cinzas. Recordando o tema deste ano, “Fraternidade e a Vida no Planeta”, e o lema, “A criação geme em dores de parto”, o Papa nos convida a refletirmos sobre a causa de tais gemidos, entre eles “o dano provocado na criação pelo egoísmo humano”. E continua, “é igualmente verdadeiro que a ‘criação espera ansiosamente a revelação dos filhos de Deus’ (Rm 8,19). Assim como o pecado destrói a criação, esta é também restaurada quando se fazem presentes ‘os filhos de Deus’, cuidando do mundo para que Deus seja tudo em todos (cf. 1Cor 15,28)”.

Para o Santo Padre, o homem deve reconhecer a sua condição de criatura e procurar tornar-se mais sensível à presença de Deus. Isto ocorrerá “na medida em que tiver no seu espírito um sentido pleno da vida” em todos os níveis. Diz o papa: “Sem uma clara defesa da vida humana, desde sua concepção até a morte natural; sem uma defesa da família baseada no matrimônio entre um homem e uma mulher; sem uma verdadeira defesa daqueles que são excluídos e marginalizados pela sociedade, sem esquecer, neste contexto, daqueles que perderam tudo, vítimas de desastres naturais, nunca se poderá falar de uma autêntica defesa do meio-ambiente”.

A exortação do Papa Bento XVI é a grande motivação para a Campanha da Fraternidade, cujas origens remontam à cidade de Nísia Floresta – Arquidiocese de Natal -, no ano de 1962. Assumida oficialmente pela CNBB em 1964, sua 47ª edição tem como objetivo criar uma consciência coletiva em torno da mensagem cristã e o meio-ambiente. Possui um sentido prevalentemente religioso, e tal não poderia deixar de ser já que o dever primordial da Igreja é anunciar o Cristo. Mas nela há também um indispensável cunho social, uma vez que, sem a necessária encarnação na realidade, o ideal cristão permaneceria estéril.

O conteúdo bíblico da Campanha da Fraternidade deste ano não dá lugar a reducionismos, nem os de cunho espiritualizante e desencarnado, nem os de matiz ideológico e político. Cristo vem trazer a verdade integral que deve animar a pessoa humana, que é chamada a demonstrar responsavelmente a sua pertença a Deus, o amor ao próximo e à criação. E deve fazê-lo, consciente da realidade em que se encontra, abrindo-se à conversão e deixando que isso repercuta de maneira positiva.

Profundamente bíblica é a relação do homem com a natureza, a ser preservada e utilizada para o bem comum. O egoísmo leva a destruí-la em favor de poucos, opondo-se, pois, aos desígnios divinos. Em outros termos, rouba quem destrói, em proveito próprio, o que é de todos. Diz o Salmista: “Os céus pertencem a Deus, mas a terra Ele a deu aos filhos de Adão” (Sl 115,16). Todo o universo pertence a Deus e deve louvá-Lo. A nós foi confiada a missão de dominá-lo: “Enchei e dominai a terra” (Gn 1,28).

Cristo, em suas pregações, amiudadas vezes, emprega imagens do campo, das flores, árvores, o meio circundante. Sublinha os liames entre o ser humano e o resto da criação, a fim de nos revelar que o meio onde vivemos é um símbolo da realidade eterna. São Paulo, do mesmo modo, assemelha a libertação material à futura. Assim, a devastação ecológica contraria os ensinamentos da Sagrada Escritura. Em consequência, o cristão não pode permanecer indiferente ao que ocorre nesta área.

Frequentemente, os meios de comunicação social nos transmitem gritos de alarme como: rios poluídos, onde a vida se tornou impossível; ar viciado por detritos, efeito de uma industrialização sem as devidas cautelas; em resumo, a falta de um compromisso que nos conduza à preservação do que pertence à comunidade.

Faz parte da consciência cristã e coletiva a ação concreta, fruto da Fé. Por isso, seria enfraquecer a Campanha da Fraternidade reduzi-la a um momento forte de pregação. Este ano, além da coleta realizada no Domingo de Ramos em todas as Dioceses, à qual devemos contribuir como gesto concreto, faz-se mister uma urgente tomada de consciência de toda a sociedade em prol da vida do planeta. É o que expressa o Santo Padre em sua Mensagem: “o dever de cuidar do meio-ambiente é um imperativo que nasce da consciência de que Deus confia a Sua criação ao homem não para que este exerça sobre ela um domínio arbitrário, mas que a conserve e cuide como um filho cuida da herança de seu pai”.

O texto-base, divulgado pela CNBB, além de apontar diversas atitudes que podem ser tomadas com o objetivo de preservar a vida no planeta, “faz uma análise da realidade procurando estabelecer as causas do aquecimento global e das mudanças climáticas. Toca na relação que há entre o aquecimento e as mudanças climáticas; alerta para a ameaça à biodiversidade e para o risco da escassez de água no planeta”.

 



13 de março de 2011

Artigos interessantes sobre fé e ecologia publicados pela Agência Zenit

. Lazer, ecologia e trabalho segundo São Josemaría Escrivá:
http://www.zenit.org/article-27456?l=portuguese

. Jornada Mundial da Juventude 100% não poluente:
http://www.zenit.org/article-27460?l=portuguese

. Ecologia é preocupação antiga da CNBB, afirma bispo:
http://www.zenit.org/article-27457?l=portuguese

. “Caritas in veritate”, manual de sobrevivência para século 21:
http://www.zenit.org/article-27397?l=portuguese

. Debate sobre meio ambiente é componente importante da cidadania:
http://www.zenit.org/article-27412?l=portuguese

. Orientações para o Sínodo sobre a nova evangelização - Santa Sé publica os “Lineamenta (ver Orientação nº. 21 - O objectivo de uma “ecologia da pessoa humana”):
http://www.zenit.org/article-27423?l=portuguese

Desenvolvimento sustentável: ser humano não é um obstáculo...

As pessoas humanas deveriam ser consideradas o objetivo do desenvolvimento, ao invés de um obstáculo para ele, segundo o delegado da Santa Sé nas Nações Unidas. Na segunda-feira passada, Charles Clark, professor de economia da Universidade St. John, dirigiu-se ao 2º. Comitê Preparatório da Conferência das Nações Unidas sobre o Desenvolvimento Sustentável, em nome do Arcebispo Francis Chullikatt, observador permanente da Santa Sé nas Nações Unidas. Os encontros estão sendo realizados como preparação para a Conferência de Desenvolvimento Sustentável Rio+20, que terá lugar de 4 a 6 de junho de 2012, no Rio de Janeiro, no 20º aniversário da Cúpula da Terra, de 1992.

Clark disse que, "para alcançar o objetivo ‘economia verde, desenvolvimento sustentável e erradicação da pobreza', minha delegação está confiante em que não esqueceremos que a finalidade do desenvolvimento é o desenvolvimento humano integral e que todas as nossas estratégias e práticas devem ser julgadas com base nessa norma: que o ser humano é e deve continuar sendo a nossa principal preocupação. Se os humanos, em sua plena humanidade, não são considerados como o objetivo final do desenvolvimento, conforme acordado no Rio há 20 anos, então tememos que os seres humanos sejam, para muitos, como o primeiro obstáculo para o desenvolvimento", advertiu.

O delegado acrescentou que "estamos certos de que estes seres humanos serão: os pobres, os marginalizados, aqueles que causam incômodo, aqueles que ainda não nasceram e aqueles que, devido à sua deficiência, idade ou doença, são incapazes de se defender". E observou que "muitas das estratégias de desenvolvimento e políticas que não conseguiram promover um desenvolvimento humano integral no passado, fracassaram porque os seres humanos foram reduzidos a uma sombra de sua humanidade".

"Por um lado, dizem-nos que o egoísmo e a cobiça são os únicos controladores da conduta humana, e que os ‘mercados livres' são o que é preciso para converter o vício privado em virtude pública. Por outro lado, dizem-nos que a natureza humana é o que a sociedade produz, dando-nos uma estratégia de desenvolvimento que focaliza as estruturas e instituições, esperando que as instituições de direito sejam suficientes para promover o desenvolvimento".

Toda a verdade

O gestor admitiu que "cada opinião tem uma parte da verdade: os seres humanos muitas vezes se deixam levar ​​pelos próprios interesses, e as instituições sociais formam, em grande medida, os comportamentos e ações humanos, mercados e políticas de governo, ambos com o potencial de promover o bem comum. Entretanto, a humanidade não pode ser reduzida aos egoísmos individuais ou construções sociais. Um entendimento completo do que significa o ser humano também deve incluir a solidariedade básica, que é parte necessária da nossa humanidade, coerente com a dignidade fundamental de cada pessoa e que pede justiça", afirmou.

"Uma economia não baseada em uma ética que tenha como centro as pessoas e a moralidade, certamente instrumentará as riquezas da terra para o benefício dos ricos e poderosos. Os indicadores sociais e ambientais, que podem ser ferramentas importantes para ajudar a promover um autêntico desenvolvimento humano, na hora de elaborar estatísticas e falsos objetivos, dão a aparência de progresso, mas não refletem a realidade do verdadeiro progresso. Ou pior, podem tornar-se pretextos para sacrificar os direitos humanos e agredir a dignidade humana, tudo a partir de uma visão distorcida do bem comum".

"O desenvolvimento real não pode ser produzido apenas por mudanças em estruturas de mercado ou de incentivos - disse o delegado. Igualmente importante é a mudança necessária nos nossos corações e mentes, bem como em nossos atos subsequentes".


Fonte: http://www.zenit.org/article-27464?l=portuguese

9 de março de 2011

Bento XVI: Respeitar a natureza implica reconhecer condição de criatura

Por Alexandre Ribeiro

O Papa enviou uma mensagem à Igreja no Brasil nesta Quarta-Feira de Cinzas, quando inicia no país a tradicional Campanha da Fraternidade, que todo ano visa a despertar a solidariedade dos católicos e da sociedade em relação a um problema concreto. Este ano discute-se durante a Quaresma o tema “Fraternidade e vida no Planeta”.

Na mensagem enviada ao presidente da CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil), Dom Geraldo Lyrio Rocha, Bento XVI expressou sua “viva satisfação” em se unir “uma vez mais, a toda Igreja no Brasil que se propõe percorrer o itinerário penitencial da quaresma, pedindo a mudança de mentalidade e atitudes para a salvaguarda da criação”.

Citando o lema da Campanha – "A criação geme em dores de parto" – o Papa afirmou que se pode “incluir entre os motivos de tais gemidos o dano provocado na criação pelo egoísmo humano. Contudo" – prosseguiu o pontífice –, "é igualmente verdadeiro que a ‘criação espera ansiosamente a revelação dos filhos de Deus. Assim como o pecado destrói a criação, esta é também restaurada quando se fazem presentes ‘os filhos de Deus’, cuidando do mundo para que Deus seja tudo em todos”.

Bento XVI indicou que o primeiro passo para “uma reta relação com o mundo que nos circunda é justamente o reconhecimento, da parte do homem, da sua condição de criatura. O homem não é Deus, mas a Sua imagem; por isso, ele deve procurar tornar-se mais sensível à presença de Deus naquilo que está ao seu redor: em todas as criaturas e, especialmente, na pessoa humana há uma certa epifania de Deus. O homem só será capaz de respeitar as criaturas na medida em que tiver no seu espírito um sentido pleno da vida; caso contrário, será levado a desprezar-se a si mesmo e àquilo que o circunda, a não ter respeito pelo ambiente em que vive, pela criação”, afirma o Papa.

Segundo Bento XVI, a primeira ecologia a ser defendida é a "ecologia humana". Também explicou que nunca se poderá falar de uma autêntica defesa do meio ambiente “sem uma clara defesa da vida humana, desde sua concepção até a morte natural; sem uma defesa da família baseada no matrimônio entre um homem e uma mulher”. Como também, “sem uma verdadeira defesa daqueles que são excluídos e marginalizados pela sociedade, sem esquecer, neste contexto, daqueles que perderam tudo, vítimas de desastres naturais”.

De acordo com o Papa, o dever de cuidar do meio-ambiente “é um imperativo que nasce da consciência de que Deus confia a Sua criação ao homem não para que este exerça sobre ela um domínio arbitrário, mas que a conserve e cuide como um filho cuida da herança de seu pai, e uma grande herança” confiada por Deus.


CF 2011: Creio em Deus, Pai Criador


Cardeal Dom Odilo Pedro Scherer
Arcebispo metropolitano de São Paulo

A Campanha da Fraternidade de 2011 (CF-2011) propõe uma questão de evidente atualidade: fraternidade e a vida no nosso Planeta. Nem é preciso argumentar muito para justificar a escolha desse tema pela CNBB: já faz tempo que estudiosos estão alertando para o fenômeno do aquecimento global e suas consequências para o clima e para o equilíbrio ecológico.

As conferências mundiais sobre o clima, que congregam as maiores autoridades científicas da área, deixam sempre mais evidente que o sistema produtivo da economia moderna e contemporânea desencadeia intervenções inadequadas do homem na natureza e se constitui numa ameaça real para o equilíbrio ecológico e até mesmo para o futuro da vida na terra. Em contraste com tais constatações, nas mesmas movimentadas conferências sobre o clima, as principais autoridades políticas e econômicas do planeta não conseguem chegar a um acordo sobre as medidas a serem adotadas para sanar o problema e prevenir os riscos.

É difícil redimensionar o desenvolvimento econômico, quando a receita é renunciar a certo padrão de consumo dos recursos naturais, que equivale à depredação e depauperamento da natureza. Exigimos da natureza mais do que ela pode oferecer, sem comprometer a sua sustentabilidade.

A CF-2011 convida a encarar seriamente a responsabilidade humana em relação ao futuro da vida no planeta Terra, o “ninho da vida” no universo, a casa comum da grande e diversificada família humana. O Texto Base, que apresenta a proposta da CF, traz argumentos e reflexões sobre o fenômeno do aquecimento global e os motivos que deveriam levar todos a pensar sobre o que é possível fazer e o que não se deveria fazer, para evitar a deterioração do ambiente da vida na Terra.

Argumentos bíblicos e teológicos deveriam motivar os cristãos e todos os crentes em Deus a uma verdadeira conversão nos modos de viver e de se relacionar com a natureza, quando ficam comprometidas a qualidade da vida e a fraternidade na família humana. Todos são convidados a se envolverem na CF-2011.

Destaco dois motivos de fundo religioso, que deveriam ser levados em conta por todas as pessoas de fé no tocante à questão ecológica. Primeiramente, tratar bem a natureza e cuidar do pedaço do planeta que ocupamos está implicado na nossa fé no Deus Criador. Professamos a fé no Deus, Criador do Céu e da Terra, não importa como, ou quando isso aconteceu. A ciência pode continuar a pesquisar sobre a origem do universo e da vida na Terra e isso não contradiz a nossa fé no Deus Criador. O certo é que não fomos nós que demos origem a toda essa beleza e grandiosidade. Dizer que tudo isso surgiu por si mesmo é um grande absurdo.

Mas também aprendemos da nossa fé que Deus fez o homem à sua imagem e semelhança, confiando-lhe o cuidado do “jardim da vida”. Embora pequeninos entre as criaturas do grande universo, somos importantes e Deus nos trata com predileção especial. O poeta do Salmo tem consciência disso, quando exclama, admirando o céu numa noite estrelada: “Que é o homem, Senhor, para que dele te ocupes?! No entanto, Tu o fizeste pouco menor que um deus... Tu o colocaste à frente da obra de tuas mãos!” (cf Sl 8). Sim, Deus colocou o mundo à disposição do homem; não para que acabe com ele, e sim, para que dele viva e usufrua, mas também para que zele por ele, qual bom administrador.

Cuidar bem da natureza é sinal de fé e de gratidão para com o Deus Criador. Avançar sobre a natureza com a vontade de possuir e dominar é cair novamente na tentação de “ser deuses”, como Adão e Eva no paraíso (cf Gn 3). Quando o homem resolve assumir o lugar de Deus, desprezando seu desígnio, a desordem e o caos entram no mundo, com seus frutos de injustiça, violência e morte.

O outro motivo, relacionado com o primeiro, é de fundo ético e moral: cuidar bem da Terra, nossa casa comum, é questão de responsabilidade e solidariedade. Os bens da criação foram colocados por Deus à disposição de todas as suas criaturas; descuidar da natureza, ou estragá-la, é falta de respeito e de justiça para com o próximo e para com as futuras gerações.

Não somos os únicos a ocupar esta casa, nem seremos os últimos; e é moralmente correto pensar nos outros, quando nos relacionamos com a natureza. Não ficará bem deixar atrás de nós um paraíso depredado, o mundo cheio de lixo, as terras desertificadas, as águas contaminadas, o ar irrespirável, o equilíbrio ecológico comprometido... A CF-2011 é um convite a refletir, para formar uma consciência comum sobre nossa responsabilidade e para tomar decisões eficazes sobre os cuidados que a Terra merece. É nossa casa comum. E ainda será a casa dos que viverão depois de nós.
Fonte: 
http://www.zenit.org/article-27439?l=portuguese




2 de janeiro de 2011

Transgênicos: entre técnica e bem comum

Entrevista com o Piero Morandini, professor de Biotecnologias vegetais e Fisiologia vegetal
Por Antonio Gaspari


A Agência ZENIT entrevistou Piero Morandini, pesquisador e professor de Biotecnologias vegetais e Fisiologia vegetal da Università degli Studi de Milão, além de um dos italianos que participaram no congresso da PAS e na redação do documento.
O documento assinado por 40 cientistas intitulado “As plantas transgênicas para a segurança alimentar no contexto do desenvolvimento” suscitou um enorme interesse e um debate acalorado. Fruto do congresso da Academia Pontifícia das Ciências (PAS), o documento foi alvo de especulação da imprensa, interessada em saber se o texto refletia ou não a postura da Igreja católica sobre o tema. O documento, que apresenta pontos de vista originais nas áreas científica e econômica, é também inovador no campo da justiça e da defesa do bem comum.

Boa leitura!

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ZENIT: Quais são os conteúdos mais importantes do documento publicado após o congresso organizado pela Academia Pontifícia das Ciências?

Morandini: Primeiro um esclarecimento: não é um documento da PAS, mas um grupo de trabalho convocado por esta para uma semana de estudo. É oportuno também acrescentar que estavam presentes o presidente, o chanceler, o cardeal Georges Cottier e vários membros da PAS, particularmente os que têm mais autoridade no campo da biologia: o professor Werner Arber, um dos pais da engenharia genética e prêmio Nobel (pela descoberta das enzimas de restrição); o professor Peter Raven, botânico de fama mundial; o professor Ingo Potrykus, inventor do Golden Rice e organizador da semana de estudo; o professor Rafael Vicuña, biólogo molecular chileno e a professora Nicole M. Le Douarin, bióloga do desenvolvimento. Todos são cientistas de grande fama, cuja estatura não pode ser colocada em dúvida por ninguém.

Portanto, é justo e devido precisar que o documento assinado não pode ser considerado “uma postura da Santa Sé ou do Magistério da Igreja sobre este tema”, como esclareceu o Pe. Lombardi, diretor da sala de imprensa da Santa Sé. Ao mesmo tempo, se os membros da PAS que são especialistas no campo da biologia assinaram o documento, isto também quer dizer algo.

Os outros membros da PAS (físicos, matemáticos...) têm claramente pouca autoridade neste campo específico e, portanto, é difícil compreender como poderiam incluir ou tirar autoridade do documento; quanto aos especialistas externos encontramos pessoas como Marc van Montagu, um dos pais de toda a biotecnologia vegetal. Além disso, tudo foi feito no Vaticano, na sede da PAS e através de sua estrutura, não casualmente, mas para mostrar a atenção que o Vaticano e a PAS têm sobre este tema. Por último e mais importante, a PAS já havia publicado um documento em 2001 (que, entre outras coisas, é claramente retomado no documento atual) que era já muito claro e que esteve sempre disponível na página oficial do Vaticano.

Feita esta necessária premissa, as três mensagens principais podem resumir-se assim: primeiro, esta tecnologia, depois de 15 anos de uso no mundo real sobre milhares de hectares, já demonstrou amplos benefícios, também nos países em via de desenvolvimento. Segundo: os riscos derivados da modificação genética por transgênese são os mesmos apresentados por plantas convencionais, nas quais as modificações são casuais.

É insensato, portanto, submeter os produtos transgênicos a uma normativa tão custosa e estrita que impossibilita a aprovação para o cultivo nas universidades e centros de pesquisa públicos. Esta normativa, de fato, acaba com a possibilidade de que a pesquisa pública possa contribuir para resolver os problemas dos países em via de desenvolvimento. Estes problemas são, principalmente, os baixos rendimientos (devidos a doenças, parasitas e danos de insetos, seca, inundações), mas também carências nutricionais e alimentos contaminados por toxinas.

Resumindo, é a normativa hiper precavida (mas não científica) e custosa que impede a exploração desta tecnologia em benefício dos pobres. Todos os demais obstáculos – patentes, adaptação às condições locais, falta de fundos para pesquisa, etc. – são pouco relevantes na prática.

ZENIT: Quais são as novidades deste documento?

Morandini: A clareza em alguns pontos e a visão global. A clareza em dizer aos que se opõem, talvez pelas mais sagradas indignações que surgem diante de casos de exploração indigna que se comprovam em certos países, que não consideram a grande massa de evidências científicas e de experiências no mundo real, já que se corre o risco de eliminar esta tecnologia e de ter o maior efeito negativo precisamente sobre os pobres, em nome dos quais os que se opõem a estas técnicas parecem querer falar.

Não podemos continuar debatendo sobre riscos hipotéticos e imaginários quando estas coisas já foram objeto de estudo e de milhares de publicações. É necessário dar um passo adiante, partindo do quanto está estabelecido e tentando resolver problemas. Clareza também porque se reconhece que a ciência e a empresa têm a obrigação moral de tornar esta tecnologia acessível aos menos afortunados. Ainda se se reconhece que isto já se fez em alguns casos, está claro que é possível e deve se fazer mais. Visão global porque se reconhece que, contudo, os transgênicos (OGM) não são “a” solução dos enormes, numerosos e diversos problemas que afligem as populações que vivem para e da agricultura em nosso planeta e que são perto da metade da população mundial.

De fato, a falta de infraestrutura, de estabilidade política, de educação agrícola... são questões irrenunciáveis. Sem todas estas coisas, pretender que os OGM sejam uma varinha mágica que pode resolver tudo é errôneo. Mas é evidente que esses mesmos problemas se aplicam a qualquer tipo de agricultura que não seja a típica de subsistência, praticada há séculos em muitos países e muitas vezes associada a doenças e carestias.

Estes problemas não são, portanto, peculiares dos OGM ou uma consequência de seu uso, enquanto, pelo contrário, alguns dos problemas podem ser atenuados pelo OGM. Por exemplo, utilizando plantas que se autoprotegem dos parasitas e, portanto, não necessitam de pesticidas. O único de que se necessita são as sementes.

ZENIT: O documento sustenta que os OGM são uma grade oportunidade para os agricultores dos países em via de desenvolvimento. Pode nos explicar por quê?

Morandini: São uma oportunidade de muitas maneiras, ainda que claramente não existe nenhuma panaceia porque cada situação deve ser enfrentada por suas particularidades: o tipo de problema agrícola, as práticas locais e também a cultura local (por exemplo, as preferências alimentares). Tenho ainda diante dos olhos as imagens projetadas na apresentação de W. Parrott (Unversidade da Geórgia, EUA) na qual falava da Guatemala e da alta incidência dos defeitos do tubo neural, como a espinha bífida.

Em certas zonas rurais a frequência destes defeitos é 30 vezes maior que no mundo ocidental e isto se deve, em grande parte, ao consumo de milho que contém certas toxinas produzidas por fungos que contaminam a colheita. O milho trangênico Bt poderia reduzir drasticamente estes casos porque reduz o dano dos insetos e a consequente contaminação por fungos nas espigas. Convido todos a ler esse relatório.

Ainda estou comovido diante das imagens de plantas parasitas que destroem as colheitas na África, apresentadas pelo professor Jonathan Gressel do Weizman Institute. Em muitos países africanos, e não só neles, estão presentes plantas parasitas que se aferram com suas raízes às raízes das plantas e sugam seus nutrientes. Assim, por exemplo, o milho brota, começa a crescer, mas rapidamente murcha e não produz nada porque é aniquilado pela planta parasita, quase comos e fosse um feitiço de uma bruxa; de fato, estas plantas parasitas, com flores belíssimas, se chaman witchweed (feitiço de bruxa). Também aqui a biotecnologia poderia ajudar a prevenir a infestação muito eficazmente.

Penso também na mandioca e em outras espécies parcialmente tóxicas, ou nas ameaçadas por vírus ou parasitas. Penso no golden rice e peço que todos os leitores de ZENIT vejam o nono slide da apresentação do professor Peter Beyer . O golden rice contém pró-vitamina A e foi criado para prevenir a cegueira e morte em ciranças pobres cuja dieta está baseada preferencialmente no arroz; cegueira e morte devidas à carência de vitamina A. A primeira versão da planta transgênica é de 1999, mas chegará, talvez, aos campos de agricultores de alguns países asiáticos somente em 2012.

A imagem mais impressionante para mim foi uma das apresentadas pelo professor Zeigler, diretor do IRRI (Istituto Internazionale di Ricerca sul Riso, com sede nas Filipinas). No sétimo slide, se vê um homem agachado que cava num campo de arroz depois da colheita. Quando Zeigler perguntou a um colaborador que fazia aquele homem, ele lhe respondeu que “estava cavando para chegar ao ninho de ratos para recuperar o arroz acumulado por eles”.

Se um homem deve roubar dos ratos para comer, óbvio que há problemas com a produção de alimentos. Não entro aqui no problema, ainda que relevante, do acesso “financeiro” à comida, problema que necessitaria de outro espaço grande; quero dizer é que se conseguimos aumentar a produção in loco, isto só pode ter um efeito positivo sobre a possibilidade de que os produtores tenham o suficiente e que os preços dos alimentos possam cair.

Também no caso dos rendimentos, a tecnologia pode ajudar. Para o arroz, por exemplo, o IRRI isolou um gene que confere resistência à submersão (e, portanto, às inundações que muitas vezes afetam as zonas onde o arroz cresce). Somente a presença deste gene pode criar a diferença entre uma colheita abundante e nenhuma colheita.

ZENIT: Com relação ao risco de que as multinacionais explorem os países pobres, o documento afirma que o maior problema são as oposições que estão fazendo subir os custo do patenteamento e, em particular, a pesada regulamentação. Em resumo, segundo o documento, estamos no paradoxo de que os que se dizem críticos das multinacionais na realidade as estão favorecendo, penalizando a pesquisa biotech dos países em vias de desenvolvimento. Poderia nos explicar este ponto do documento?

Morandini: Na verdade, como observava antes, as patentes não são obstáculo por diversos motivos (que valeria a pena analisar separadamente). A regulamentação é o ponto crucial porque requer, para o cultivo e a comercialização, um série muito longa de exames, caracterizações moleculares, provas de campo e alimentação, que se torna insustentável para a pesquisa pública. Penso, por exemplo, na semente de algodão feito comestível por transgênese. Esta planta transgênica, publicada em 2006, se tivesse sido introduzida e cruzada com as variedades locais, tornaria as sementes de algodão comestíveis, colocando à disposição de 500 mihões de pessoas uma dose de 50g de proteínas por dia (10 milhões de toneladas de proteída por ano), e isso sem aumentar o cultivo, sem utilizar pesticidas ou herbicidas, sem patente alguma. Os autores o fariam disponível gratuitamente aos países pobres, se conseguissem obter o dinheiro para chegar à comercialização. Haveria muitos outros exemplos.

São, portanto, os mitos dos perigos ambientais e de saúde dos OGM, às vezes, deliberadamente criados e propagados intencionalmente, que ajudaram a moldar a legislação vigente e que contribuem para mantê-la, e muitos inclusive pedem para que ela seja ainda mais restritiva. Assim, afogaram a pesquisa pública e entregaram a tecnologia praticamente nas mãos dos grandes grupos privados. Portanto, aqueles que, por medo das multinacionais e da exploração indevida, opuseram-se aos transgênicos, realmente contribuíram para criar condições mais favoráveis para essa exploração. Vejam só a Itália: a pesquisa de campo está bloqueada há quase dez anos. Quem se beneficiou eliminando a pesquisa pública italiana? Também esta seria uma questão a indagar...

ZENIT: Certa cultura acusa a Igreja Católica a ser obscurantista, enquanto o documento mostra que a Igreja é, certamente, muito atenta, clarividente e aberta às inovações científicas e tecnológicas. Qual é a sua opinião sobre o assunto?

Morandini: É interessante dar uma volta pelos blogs que recolhem a notícia e ver o mundo dos leitores dividido em dois. Por um lado, aqueles que estão contentes porque a Igreja, segundo eles, finalmente acertou em alguma coisa; por outro, aqueles que argumentam, com raiva, que a Igreja está errada também neste caso, porque isso favoreceria as multinacionais. Minha posição, como cientista e filho da Igreja, é que a atitude que permeia a cultura judaico-cristã, ou seja, o mandato de “proteger e cultivar o jardim”, tem em si a semente da tecnologia.

Em uma visão de mundo que reconhece que a inteligência é um dom de Deus, que o mundo é inteligível, e que “não agir segundo a razão é contrário à natureza de Deus” (Papa Bento XVI em Ratisbona), o uso da inteligência para mudar a natureza é completamente natural e aceitável, e a tecnologia, que deriva de este uso, não é condenável em si, mas apenas quando envolve danos à natureza ou ao homem.

Portanto, a oposição não é a priori, mas somente se há consequências negativas. Ainda mais duas citações para enfatizar a abertura da Igreja à atividade humana que explora a natureza, para compreendê-la e utilizá-la de maneira sempre nova. A primeira, mais uma vez, do discurso em Ratisbona: “Deve-se reconhecer sem reservas o que há de positivo no desenvolvimento moderno do espírito: estamos todos gratos pelas maravilhosas possibilidades que se abriram para a humanidade e pelos progressos que têm sido alcançados no campo humano. Além disso, a ética da pesquisa científica deve envolver a vontade de obedecer à verdade e, portanto, deve ser uma expressão de uma atitude que faz parte das decisões fundamentais do espírito cristão”; e outra citação da Caritas in veritate: “A tecnologia – convém enfatizar – é um fato profundamente humano, ligado à autonomia e à liberdade do homem (...). Responde à própria vocação do trabalho humano: na tecnologia, vista como uma obra do próprio talento, o homem se reconhece e realiza sua própria humanidade”. Se isso não for suficiente para convencer, não sei que outras “armas” utilizar...

Em conclusão, e também em relação a esta questão, convido todos a lerem a declaração, principalmente aqueles envolvidos na mídia e na educação, incluindo cada uma das palestras apresentadas, a fim de começar a conscientizar-se do imenso corpus de evidências recolhidas que nos ratificam no potencial e nos benefícios desta tecnologia. Depois disso, tirem suas conclusões.

Intenção geral do Santo Padre para o mês de janeiro: Cuidar da Criação.

Por Pe. Paiva, SJ – Apostolado da Oração no Brasil

No princípio, Nosso Senhor e Criador tudo fez como um jardim, para ser cuidado por nós (Gn 1, 26-31). Pai carinhoso, Irmão solidário e Espírito de Amor, a Santíssima Trindade é pura comunidade, por isso perfeita Unidade. Ele quer tudo fazer para que também nós vivamos em comunhão. Assim sabemos que somos vocacionados a cuidar do patrimônio de nossa família humana, esta grande espaçonave, a Terra, da qual somos todos tripulantes.

Temos a tentação de cuidar só do que é nosso! Em muitos de nós estamos tão desligados ou deprimidos que nem cuidamos de nós mesmos! Então, como vamos cuidar do que é de todos sem uma sincera conversão?

O Papa nos convida, neste começo do ano, a rezar para que estimemos o chão, o céu, as águas, as matas, os desertos e a bicharada como dons preciosos, a serem admirados, aproveitados e bem administrados. Como aconselha São Pedro, o primeiro Papa, sejamos, na criatividade do Espírito, “bons administradores dos dons de Deus” (1Pd 4,10). Também nos convida à partilha solidária, como já está dito no Antigo Testamento: “Que não haja pobres entre vós!” (Dt 15,4).


Oferecimento diário

Deus, nosso Pai

Eu te ofereço todo o dia de hoje:

Minhas orações e obras, meus pensamentos e palavras,

Minhas alegrias e sofrimentos, em reparação de nossas ofensas

Em união com o Coração de teu Filho, Jesus,

Que continua a oferecer-se a Ti, na Eucaristia, pela salvação do mundo.

Que o Espírito Santo, que guiou Jesus,

Seja meu guia e meu amparo neste dia,

Para que eu possa ser testemunha do Teu amor.

Com Maria, Mãe de Jesus e da Igreja,

Rezo especialmente pelas intenções do Santo Padre para este mês:

Que as riquezas da criação sejam conservadas,

Valorizadas e colocadas à disposição de todos,

Como dom precioso de Deus à humanidade.

E que os cristãos possam alcançar a plena unidade,

Testemunhando a todo o mundo

A paternidade universal de Deus.


Amém.