21 de novembro de 2010

Pantocrator...



"Eis a nossa alegria: participar, na Igreja, da plenitude de Cristo mediante a obediência à Cruz, "participar da sorte dos santos na luz", ter sidos "transferidos" para o reino do Filho de Deus (cfr Col 1, 12-13). Por isso nós vivemos em perene ação de graças, e também mediante as provações não faltam a alegria e a paz que Cristo nos deixou, qual antecipação do seu Reino, que já está no meio de nós, que aguardamos com fé e esperança, e pregustamos na caridade" (Bento XVI - Vaticano, 21.11.10).


"Oh! Cristo Jesus, reconheço-vos Rei Universal.
Tudo o que foi feito, para vós foi criado.
Exercei em mim vossos direitos.
Renovo minhas promessas de batismo, renunciando a Satanás,
às suas pompas e às suas obras, e prometo viver como bom cristão.
Muito particularmente comprometo-me a fazer triunfar,
por todos os meios que puder, os direitos de Deus e de vossa Igreja.
Divino Coração de Jesus, ofereço-vos minhas pobres ações,
para alcançar que todos os corações reconheçam vossa realeza
e assim se estabeleça no universo inteiro o vosso Reino.
Assim seja". 

15 de novembro de 2010

Igreja servidora

Por Dom Orani Tempesta

A ação pastoral da Igreja no Brasil se orienta pelas exigências do serviço, diálogo, anúncio e testemunho. A solidariedade se concretiza na dimensão do serviço. Amar é servir. A palavra “serviço” é a tradução da palavra grega diakonia. O “serviço” supõe o diálogo, faz acontecer o anúncio e é o testemunho concreto da vida cristã.

Serviço é presença de amor, amizade e solidariedade junto aos pobres, aos que sofrem, aos doentes, aos famintos, aos encarcerados (cf. Mt 25), aos que não têm trabalho, aos que não têm teto, aos que são privados do cultivo correto e manual da terra. Presença por meio de pequenos gestos cotidianos, mas também através de projetos de promoção humana, de defesa dos direitos humanos, de promoção da cidadania. Enfim, trata-se de defender a vida, promover a paz, alicerçar a sociedade na justiça.

A Igreja fundamenta a dimensão do “serviço” na ação de Jesus Cristo, a quem “em todos os lugares onde entrava nas aldeias, nas cidades ou nos campos, traziam-lhe os doentes, nas praças, para que os curasse” (cf. Mc 6,56). O serviço se inspira nas palavras de Jesus: “quem quiser ser grande, seja o servidor, e quem quiser ser o primeiro dentre vós, seja o servo de todos. Pois o Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por muitos” (cf. Mc 10,44-45). E ainda: “Eu estou no meio de vós como aquele que serve!” (cf. Lc 22,27).

É o serviço constante, eficaz, desinteressado e sacrificado que faz a diferença em nossa pregação. O Evangelho ensina que a medida, ou o critério do amor humano, da caridade e da solidariedade é o amor com que Cristo amou a humanidade: “Dou-vos um novo mandamento: que vos ameis uns aos outros. Como eu vos amei, amai-vos também uns aos outros. Nisso reconhecerão todos que sois meus discípulos, se tiverdes amor uns pelos outros” (cf. Jo 13,34-35).

A Igreja Católica nos dias de hoje, como desde a sua fundação sempre pautou a sua ação social e evangelizadora, deve apostar – redobradamente – na caridade, recorda-nos o Papa João Paulo II: “há na pessoa dos pobres uma presença especial de Cristo que impõe à Igreja uma opção preferencial por eles”. Diz ainda: “Nosso mundo começa o novo milênio carregado com as contradições de um crescimento econômico, cultural e tecnológico, que oferece a poucos afortunados grandes possibilidades e deixa milhões e milhões de pessoas não só à margem do progresso, mas a braços com condições de vida muito inferiores ao mínimo devido à dignidade humana. Como é possível que ainda haja, no nosso tempo, quem morra de fome, quem esteja condenado ao analfabetismo, quem viva privado dos cuidados médicos mais elementares, quem não tenha uma casa onde abrigar-se?”. Que postura deve tomar a Igreja? “Devemos procurar que os pobres se sintam, em cada comunidade cristã, como ‘em sua casa’. A caridade das obras garante uma força inequívoca à caridade das palavras”.

Os documentos do Magistério da Igreja que formam o corpo da doutrina social inspiram e legitimam a ação solidária da Igreja toda e de cada cristão em favor dos trabalhadores, dos pobres, dos refugiados, das vítimas da fome, das guerras, de todo tipo de violência, impelindo a Igreja a ser instrumento da paz no mundo. A Doutrina Social da Igreja procura exprimir concreta e atualizadamente a prática de caridade dos cristãos. Por isso, ela ajuda a nortear a nós, católicos, em nosso modo de ser e de atuar na cidade.

A Igreja conta com os fiéis leigos, tanto em seus grupos e comunidades, como também com a ação individual de cada um, para construir ou reconstruir a cidade à luz dessa caridade. Presente na sociedade, a Igreja quer indicar caminhos de solidariedade aos pobres, construção da cidadania e da justiça, a primazia da ética nas relações econômicas, sociais e políticas, a defesa da vida desde o momento da concepção.

As pastorais sociais na missão evangelizadora da Igreja representam significativa participação na construção de uma sociedade justa e solidária. Elas são presença privilegiada e despertam maior sensibilidade e atenção às contradições e aos conflitos da sociedade. Pelos seus compromissos concretos em defesa da vida e da dignidade dos pequenos, denunciam as estruturas sociais perversas que geram desigualdade e miséria e anunciam a justiça do Reino” (cf. Doc. CNBB 80, p. 94).

No âmbito de nossa Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro, somente no ano de 2009, através do balanço das atividades da Mitra Arquiepiscopal do Rio de Janeiro, teve mais de 2 milhões e 501 mil atendimentos pelas paróquias da cidade. A isso deve se acrescentar muitas outras ações que não podem ser contabilizadas devido à falta de comprovantes.

Juntem-se também os atendimentos de outras entidades ligadas à Arquidiocese, como a Cáritas, o Banco da Providência, a Pastoral da Criança e outras, além dos trabalhos das escolas católicas, comunidades religiosas e grupos de leigos organizados. Esses atendimentos não são esporádicos, mas fazem parte da tradição da Igreja desde o seu nascimento, recordando a criação do diaconato nos Atos dos Apóstolos ou ainda o martírio de São Lourenço, nos tempos da Igreja Primitiva. Mais do que oferecer condições de dignidade, queremos fazer a inclusão.

Que todos nós possamos fazer acontecer o Reino de Deus, ajudando os que mais necessitam: os refugiados, os idosos e os excluídos, para que conheçam a face misericordiosa do Cristo Redentor, na grande rede de solidariedade, que, como consequência da missão evangelizadora, constitui as comunidades e paróquias de nossa Arquidiocese.

Fonte:  http://www.arquidiocese.org.br/cgi/cgilua.exe/sys/start.htm?infoid=4771&sid=21

Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro - Fórum Social aborda saúde, educação, geração de renda e cidadania...

Por Jornal O Testemunho de Fé

Aconteceu no último sábado, 13 de novembro, no auditório da Paróquia de Sant'Ana, no Centro, o VIII Fórum Social da Igreja Católica, promovido pelo Vicariato para a Caridade Social da Arquidiocese do Rio de Janeiro, com a participação das diversas pastorais sociais existentes nas paróquias.

O Fórum acontece anualmente, desde 2003, com os objetivos de promover uma troca de experiências entre as pastorais sociais, de agilizar a realização de uma pastoral de conjunto e de realizar a formação permanente, que é uma exigência da Igreja. Neste ano há ainda a intenção de preparar as pastorais para discutir o 11º Plano de Pastoral de Conjunto, abordando temas que facilitem a compreensão das atividades missionárias sociais, na atual realidade da cidade do Rio de Janeiro. Saúde, educação, geração de renda e cidadania ganharam uma análise especial.

Cerca de 240 pessoas participaram do Fórum, representando todos os vicariatos territoriais, além de organismos ligados à promoção social, como a Cáritas, o Banco da Providência, o IDEPS, as Pastorais do Menor, do Migrante, das Pessoas com Deficiência, e dos movimentos Católicos em Ação e Aliança Missionária.

O Vigário Episcopal para a Caridade Social, Padre Manoel Manangão, iniciou as atividades do Fórum acolhendo os presentes. Ele destacou a importância das pastorais sociais e de todas as iniciativas criadas com o objetivo de ajudar a revelar o rosto de Jesus para as pessoas. Também ressaltou que o objetivo das pastorais sociais não é falar em nome dos mais necessitados, mas sim estar ao lado deles. De acordo com o Vigário, há o desejo de que voltando às suas Paróquias e/ou pastorais, os participantes do Fórum possam dinamizar e fortalecer as ações da Caridade Social.

Conforme o programado, na parte da manhã, o coordenador arquidiocesano de pastoral, Monsenhor Joel Portella, apresentou as palestras sobre os temas “Crise de Valores” e “Necessidade da Integração das Pastorais”. Em seguida, o Padre Geraldo Marques, da Paróquia Santa Edwiges e São Pedro, de Sepetiba, falou sobre “O Agir na Oração”. O tema “Filantropia” foi relatado pelas assistentes sociais Regina Coeli, da Pastoral do Menor, e Terezinha Nascimento, do Banco da Providência. O Arcebispo do Rio, Dom Orani Tempesta, finalizou a parte da manhã do Fórum, demonstrando a preocupação e o envolvimento da Arquidiocese com as causas sociais.

O Grupo de Música Operários, da Paróquia Nossa Senhora das Graças, em Campo Grande, ficou responsável pela animação do evento. O grupo é formado por oito amigos que iniciaram a participação na Pastoral da Juventude em 1985, passando em seguida a atuarem junto à Pastoral do Trabalhador, atual Pastoral Operária. Todos autodidatas na música, eles atuam nas diversas comunidades do Vicariato Oeste e em outros eventos promovidos pela Igreja.

A parte da tarde do Fórum foi dedicada a uma oficina com cinco temas. A mesa, formada por especialistas em assuntos sociais, abordou assuntos de diversos interesses atuais, já em direção ao proposto pela Campanha da Fraternidade do ano de 2011, que terá como tema “Fraternidade e a Vida no Planeta”. O professor da UERJ, Jorge da Silva, apresentou os problemas relacionados à violência.

Em seguida, o Vigário Episcopal Leopoldina e coordenador da Pastoral das Favelas, Monsenhor Luiz Antonio, falou sobre moradia. Márcia Tharakan, advogada e professora de direito ambiental, mostrou os problemas relacionados ao Meio Ambiente. O tema “Mercado Informal” foi apresentado pelo jornalista Isaias Bezerra. E, encerrando a oficina, o professor universitário e assessor da Petrobrás, Robson Leite, conversou sobre o “Jovem na Sociedade”.

Após a oficina aconteceu a apresentação da peça Anastácia, pelo Grupo de Teatro Armazém de Ideias e Ações Comunitárias (AIACOM), da Paróquia Consolação e Correa, no Engenho Novo. Mantido pelos Freis Agostinianos, esse trabalho social funciona há 18 anos com atuação de oficinas pedagógicas e artísticas com crianças e adolescentes na faixa de 4 a 18 anos.

O Fórum foi encerrado às 18h, com a celebração da Santa Missa, presidida pelo Padre Manoel Manangão. Agora espera-se uma ação de articulação das atividades pastorais nas paróquias. E o próximo passo será a assembleia do Vicariato para a Caridade Social, que será realizada no dia 05 de fevereiro de 2011, entre 8h e 12h, também no auditório da Paróquia de Sant'Ana, no Centro, com o objetivo de responder ao documento nº 2 do 11º Plano de Pastoral de Conjunto .

Fonte: http://www.arquidiocese.org.br/cgi/cgilua.exe/sys/start.htm?infoid=4776&sid=39

Cardeal Peter Turkson: Justiça Social e Evangelização.

Por Jason Adkins

O desafio de servir como a voz de Bento XVI em questões de justiça e paz deve ser muito pesado; requer a aplicação de princípios testados pelo tempo a uma vasta quantidade de temas em muitas situações geográficas, políticas e culturais diferentes. Atento às dificuldades de comunicação, de acordo com o contexto e a cultura de cada região, o novo chefe do Conselho Pontifício Justiça e Paz afirma que temos de nos esforçar para entender os termos difíceis e as ideias desde o ponto de vista de quem fala. Em outras palavras: temos de perguntar-nos o que a pessoa que fala tenta comunicar a sua audiência particular.

Adotando este ponto de partida, é possível promover uma profunda experiência de aprendizado pessoal, acredita o cardeal Peter Kodwo Appiah Turkson, presidente do Conselho Pontifício Justiça e Paz, nomeado em outubro de 2009 por Bento XVI. O cardeal Turkson, de 62 anos, nasceu em Nsuta Wassaw (Gana) e é arcebispo emérito de Cape Coast, capital do país. Frequentou o seminário St. Anthony-on-Hudson de Nova Iorque e depois, estudou no Pontifício Instituto Bíblico de Roma, onde completou o doutorado em Sagrada Escritura. Ordenado em 1975, foi nomeado arcebispo de Cape Coast em 1992 e cardeal por João Paulo II em 2003.

O cardeal Turkson trabalhou como chanceler da Catholic University College de Gana. Participou de uma série de comissões, conselhos e comitês pontifícios. Recentemente, esteve em St. Paul (Minnesota, Estados Unidos), visitando a Universidade St. Thomas, onde deu a conferência anual Habiger, patrocinada pelo Center for Catholic Studies. A conferência era sobre Caritas in Veritate: Good News for Society (Caritas in veritate: boa notícia para a sociedade).

Durante esta viagem, o cardeal Turkson concedeu uma entrevista a ZENIT, na qual tratou, entre outros assuntos, das dificuldades na compreensão e aplicação da Doutrina Social da Igreja, da importância da solidariedade e do trabalho da Santa Sé na ONU. Citando o relato bíblico de Zaqueu, ele acredita que as verdades sobre a tradição social da Igreja supõem uma preparação para a graça e convidam ao encontro com o Senhor. Nesta entrevista, o purpurado fala sobre os primeiros frutos da Caritas in Veritate, assim como sobre a necessidade de que a Santa Sé continue sendo a "voz da consciência" na ONU.




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ZENIT: Como cabeça do Conselho Pontifício Justiça e Paz o senhor tem que estar familiarizado com várias questões diferentes, desde economia até meio ambiente. Quais são suas principais fontes de inspiração para enfrentar esta tarefa?

Cardenal Turkson: Existem, basicamente, três influências. A primeira é o próprio Papa Bento XVI. Ele é, naturalmente, a razão da minha presença em Roma. Eu mesmo perguntei ao Papa quais são seus objetivos para o Conselho porque a natureza do meu trabalho é apoiar sua visão.

A segunda fonte de inspiração é meu trabalho como pastor. Antes de vir a Roma, eu era pastor. Minhas experiências pastorais são uma referência e uma fonte particularmente rica pra meu trabalho. Cheguei aqui com muitos sentimentos de pastor. Tenho de ser criativo, inovador e mostrar iniciativa em todas as situações que possa atravessar.

A terceira é minha própria formação nas Escrituras. Afinal, tudo o que se relaciona com nossa fé em ação nasce, em última análise, na Escritura. Eu não fui um aluno muito brilhante em Doutrina Social da Igreja - não fiz nenhum estudo acadêmico sobre este tema, somente o que era necessário para meu trabalho como pastor. Por isso, um grande apoio para meu trabalho é a base bíblica de tudo o que acontece.

ZENIT: Qual é a visão de Bento XVI sobre o Conselho Justiça e Paz?

Cardenal Turkson: Minha nomeação foi depois do sínodo sobre a África. No sínodo, o Santo Padre disse que em nosso trabalho devíamos distinguir entre ação pastoral e ação política. Tudo o que fazemos deve estar alinhado com a ação pastoral. As soluções políticas possíveis, devem estar de acordo com nossa compreensão da Igreja como família de Deus.

Quem conhece alguma coisa da vida de um bispo ou sacerdote num país de missão sabe que não se trata somente de ser um pastor ou administrador; pelo contrário, é um "faz tudo": é arquiteto, economista, projetista... Isto significa que como pastores temos que desenvolver um agudo sentido de inovação, criatividade e iniciativa. Nosso trabalho no Conselho deve ser igual.

O Conselho Pontifício Justiça e Paz é um departamento entre outros muitos no Vaticano e por isso deve alinhar-se ao Papa. Temos que falar como o faria o Papa quando se representa o Papa.

ZENIT: Nos Estados Unidos existe muita confusão com o termo "justiça social". Algumas pessoas atuam como se se tratasse de uma virtude ou de um humanitarismo enquanto outros acreditam que o termo deveria ser abandonado por ter sido distorcido e utilizado por ativistas políticos de esquerda. Poderia esclarecer essa confusão e definir exatamente o que significa a justiça social?

Cardenal Turkson: No fundo, a justiça social é uma função da própria fé e da doutrina da Igreja. Um grupo de investigadores dos Estados Unidos veio recentemente a Roma visitar-nos e falar sobre a recente encíclica. Ficou evidente na discussão sobre o tema que certos termos, como solidariedade, não são valorizados pelos americanos e são de difícil tradução, mas aprendemos com a discussão. É sempre bom ter em conta o ponto de vista dos demais.

Temos de entender o ponto de vista do autor e o que o autor expõe. Certos termos ou conceitos só podem ser apreciados quando vistos desde este ponto de vista. Com o termo justiça social temos de analisá-lo dessa forma. Em primeiro lugar, examinemos o termo justiça, por separado, e só depois acrescentar o adjetivo social e ver onde nos leva. Considero útil para que possamos ter um ideia correta da própria expressão.

A justiça pode ser considerada como a necessidade de respeitar as exigências de qualquer relação. Quando respeito estas relações, posso estar seguro de ser justo. Isto é certo com respeito à relação entre Deus e eu e é certo sobre a relação marido e mulher, estudante e professor, proprietário e trabalhador.

As exigências de qualquer relação, quando se espera entre as partes, constituem a justiça. Se nos referimos a ela como social, significa somente que vemos um conjunto de relações e expectativas entre os membros da sociedade. Por tanto, isto não é conservador nem liberal.

Vamos considerar as exigências de certas relações nas quais estamos envolvidos, quer dizer, na causa da justiça. Temos de tomar cuidado de não ser demasiado teóricos. Existe uma relação entre o legislador e o cidadão, entre chefes e trabalhadores que deve ser respeitada. A justiça social não diz respeito à distribuição ou com fazer que as pessoas das classes mais altas da sociedade ajudem as de classe mais baixa.

O ponto de partida é reconhecer o sentido de justiça nas relações e guiar-se por ele. Quando nos deixamos guiar por ele, nos ajuda a eliminar algumas das dificuldades na compreensão do termo. Devemos compreender a justiça social em termos de relações.

ZENIT: Também nos Estados Unidos existe muita polarização na forma como os católicos politicamente ativos interpretam e aplicam a Doutrina Social da Igreja. Por exemplo: alguns acreditam que praticamente todos os problemas sociais devem ser resolvidos pessoalmente, por organizações ou atores não governamentais enquanto outros pensam que é dever do Estado. Assegurar que todos os cidadãos tenham acesso aos serviços básicos de saúde é só um exemplo. O que acha desta polarização?

Cardenal Turkson: Poderia existir um desencontro entre o ensinamento do Papa e a realidade da situação particular nos Estados Unidos. Não estou seguro de que o debate sobre a saúde seja uma tentativa de colocar em prática o pensamento do Papa com relação à justiça social. A situação provavelmente possa estar relacionada com os dois campos políticos dentro daquele país. Não estou seguro de que o debate sobre a saúde seja uma tentativa de por em prática o pensamento do Papa nesse sentido.

A situação provavelmente possa estar relacionada com os dois campos políticos dentro deste país. Em todo caso, teria sua própria dinâmica. Se pensamos no caráter comunitário do ensinamento do Santo Padre, este se baseia na antropologia cristã da pessoa. A pessoa é criada para ser parte de uma família. A família é o ponto de partida da compreensão do Papa sobre a pessoa humana.

As pessoas pertencem a uma família. A fraternidade é um conceito que não se entende bem aqui. Sendo membros de uma família, todos somos irmãos e irmãs no caminho. É este o ponto de partida comunitária. Podemos perseguir iniciativas individuais, mas o ponto de partida original significa que devemos ser conscientes de não deixar um irmão ou irmã para trás. A lógica do dom do Santo Padre se aplica aqui.

Não deixamos um irmão ou irmã para trás porque reconhecemos o que a pessoa é: um ser criado à imagem e semelhança de Deus. Nossa solidariedade com eles é uma expressão do amor de Deus Pai por cada um de nós. A pessoa deve imitar o amor de Deus pelos demais. Devemos converter-nos em amor ou em dom para outras pessoas.

Significa que a pessoa humana deve pertencer a uma família. A solidariedade é um ponto básico de partida: a irmandade dos homens sob a paternidade de Deus. Não estou convencido de que a discussão política na sociedade americana tenha o mesmo ponto de partida. Portanto, fazer da compreensão da pessoa humana e da necessidade da solidariedade o ponto de partida se converte numa missão. Devemos usar a Doutrina Social da Igreja como meio de evangelização. Temos de compartilhar isto com os não cristãos.

Qualquer legislação que se adote deve ser uma expressão de solidariedade, uma expressão da natureza do amor de Deus e a gratidão com que Deus nos ama e se ocupa de nós.

ZENIT: Que efeito está tendo a Doutrina Social da Igreja nos homens de negócios e na sociedade?

Cardeal Turkson: As pessoas estão interessadas na tradição da Igreja. Muitos descobriram o lugar de Deus em Cristo, mostrando que a doutrina social da Igreja é uma ferramenta da evangelização. Por exemplo, no relato evangélico de Zaqueu, ele era um cobrador de impostos. Estava se enriquecendo às custas dos outros. Mas quando conheceu Jesus, experimentou uma transformação e disse: "Se defraudei alguém, eu lhe devolverei o dinheiro".

Como é possível que, antes de conhecer Jesus, ele não percebera que o que estava fazendo era enganar as pessoas? A história de Zaqueu mostra que, quando se tem um determinado encontro com o Senhor, há uma transformação em nós. Da mesma forma, as pessoas podem precisar dessa experiência do Senhor. Devem perceber que não se pode continuar como de costume. Não se pode pisotear outro ser humano.

Ao contrário, as empresas devem levar ao desenvolvimento integral da pessoa humana. A busca do progresso humano não pode ser alheio ao caráter comunitário da pessoa humana. A encíclica Caritas in veritate afirma que o desenvolvimento humano deve ser integral e completo. Ela nos convida a redescobrir o desenvolvimento humano e o progresso humano.

ZENIT: A Igreja precisa voltar a um tomismo mais rigoroso em seu enfoque das questões sociais atuais, como foi nas primeiras encíclicas sobre o tema?

Cardeal Turkson: Permita-me expor dessa forma: a este Papa, em particular, é atribuída a formulação de uma hermenêutica da continuidade. Essa hermenêutica não se aplica somente à questão do Concílio Vaticano II e aos concílios ecumênicos anteriores, mas também à continuidade entre a doutrina social pontifícia recente e a dos papas anteriores. Naturalmente, a mudança de contexto requer que a ênfase seja dada de outra forma. Às vezes, a formulação de certas questões é enquadrada de maneira diferente, mas existe uma continuidade real.

Quando este Papa fala sobre tradição, ele se refere a tudo o que falamos no passado. Não foi o tomismo, em última instância, o que proporcionou o ponto de partida para os ensinamentos sociais da Igreja, mas a própria Escritura. O tomismo era uma maneira de articular os princípios que se encontram na Bíblia.

Não sei se devemos voltar a Tomás para uma formulação clara. É provável que certa tradição dentro da Igreja - por meio de catecismos, com suas perguntas e respostas - tenha criado uma aproximação particular sobre as questões. Às vezes, o tomismo é útil neste contexto, mas não deve excluir o desejo de ser discursivo sobre os problemas e essa nova encíclica nos conduz a isso.

As encíclicas estão escritas para todas as pessoas de boa vontade. Com este propósito em mente, necessariamente não se pode apresentar os ensinamentos como um tipo de catequese, de forma tomista. O estilo discursivo não se move longe do tomismo, mas enriquece a tradição. Está destinado a um público mais amplo, ao qual as encíclicas se dirigem. Isso representa o abandono de um formato claro e tomista.

ZENIT: Na sociedade de hoje, poderia ser útil uma redescoberta da ideia, atualmente esquecida, do reinado social de Cristo, seu senhorio sobre todas as coisas, incluindo o âmbito político e econômico?

Cardeal Turkson: O Santo Padre disse que a verdade da razão e a verdade da fé não se opõem, mas a verdade da razão é convidada à transcendência. As coisas da verdade da razão não são um ponto final, de chegada. A verdade da fé deve transcender a verdade da razão. A lei natural, em si, é uma preparação para a ordem da graça.

Temos de reconhecer a vocação da razão como ordenada à transcendência, à figura de Jesus como Deus encarnado. Quando é este o caso, podemos nos referir ao que a recente encíclica diz sobre isso. O livro único da natureza mostra Deus como o autor da sua criação, mas também de tudo o que pertence a ela. Portanto, é o Senhor de todas as coisas, incluindo as relações da pessoa humana.

Existe uma tendência no mundo a conceber a pessoa humana como autora de si mesma ou configurada pela cultura e pelas forças externas. Esta é uma tentativa de substituir Deus e acabar com Ele. Em vista disso, os Papas João Paulo II e Bento XVI nos recordam que, sem transcendência, a vida não tem sentido e não pode alcançar seus próprios objetivos. A necessidade da realeza de Jesus é precisamente porque é a revelação do Pai. É necessário apresentar a vocação da razão como uma vocação à transcendência.

Trata-se de uma verdade revelada por Cristo e em Cristo. Assim, a lei natural não é um ponto de chegada, mas cada pessoa é convidada à transcendência para descobrir-se na finalidade da verdade de Jesus, a descobrir o plano do Pai na verdade da criação. Esse convite à transcendência se converte no objeto da missão evangelizadora da Igreja. Falamos da verdade da razão, mas não nos detemos aí. É preciso descobrir a si mesma em Jesus como a revelação do Pai.

ZENIT: Quando o senhor fala a organismos como as Nações Unidas, como fez em setembro sobre os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio e os exorta a defender e construir em suas atividades uma cultura da vida, parece que esta mensagem está chegando?

Cardeal Turkson: Penso que existe um monte de coisas por descobrir sobre como as Nações Unidas trabalham. Supõe-se que as Nações Unidas em si são uma reunião dos Estados soberanos, que os chefes das nações soberanas se unem. Os especialistas da ONU facilitam estas reuniões, mas precisamente este serviço põe em perigo a reunião e permite que seja sequestrada por pessoas com uma agenda. Sempre devemos reconhecer este risco.

O financiamento da ONU vem dos chefes de Estado soberanos. Mas o financiamento pode vir também com exigências ou condições. Temos de reconhecer tudo isso. Por isso, quando os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio são debatidos, é provável que algumas pessoas que estão financiando e conduzem o debate tenham sua própria agenda de interesses.

A voz da Santa Sé tem o valor de servir como um recordatório de certos temas que em geral não são discutidos. Inclusive se a posição da Santa Sé não é aprovada, serve como uma lembrança aos países sobre estes temas e valores, a importância de proteger a vida e a dignidade humanas. Mesmo se formos a única voz na sala, é necessário.

Muitas pessoas ainda nos parabeniza por discutir certos temas. As atividades da Santa Sé também podem abrir espaço para outras discussões sobre por que alguns Estados estão debatendo sobre certos temas, ou se podem conduzir a uma perda de financiamento para os demais. Por exemplo, antes da visita do Papa a Londres, alguém perguntou sobre o desenvolvimento em outros países, se a saúde reprodutiva estaria conectada diretamente a todas as ajudas. Isso significaria que toda ajuda que sai teria isso como condição para o financiamento. Isso foi algo que pôde ser discutido graças à presença da Igreja na ONU.

Todos estes detalhes precisam ser reconhecidos quando falamos sobre a participação na ONU. Devemos fazer que a verdade da Igreja seja conhecida, independentemente do grau de adesão que possa obter.



(E ainda há católicos que acham um ABSURDO a presença da Santa Sé na ONU. Convenhamos que a ignorância não conhece limites...)

Bento XVI: Agricultura, resposta para a crise econômica

Queridos irmãos e irmãs,

Na segunda leitura da liturgia de hoje (14.11), o apóstolo Paulo sublinha a importância do trabalho para a vida do homem. Este aspecto é também recordado pelo "Dia de Ação de Graças" que se comemora tradicionalmente na Itália neste segundo domingo de novembro, como agradecimento a Deus no término da estação das colheitas. Ainda que em outras áreas geográficas os tempos de cultivo sejam naturalmente diferentes, hoje eu gostaria de aproveitar a oportunidade das palavras de São Paulo para umas reflexões, em particular sobre o trabalho agrícola.

A crise econômica atual, sobre a qual se tratou também nestes dias na reunião do chamado G20, deve ser concebida em toda a sua seriedade; esta tem numerosas causas e exige uma revisão profunda do modelo de desenvolvimento econômico global (cf. encíclica Caritas in veritate, 21). É um sintoma agudo que se somou a outros também graves e já bem conhecidos, como o perdurar do desequilíbrio entre riqueza e pobreza, o escândalo da fome, a emergência ecológica e, atualmente, também geral, o problema das greves.

Neste quadro, parece decisivo um relançamento estratégico da agricultura. De fato, o processo de industrialização às vezes ensombreceu o setor agrícola, o qual, ainda contando com os benefícios dos conhecimentos e das técnicas modernas, contudo, perdeu importância, com notáveis consequências também no campo cultural. Este parece ser o momento para um convite a revalorizar a agricultura, não em sentido nostálgico, mas como recurso indispensável para o futuro.

Na situação econômica atual, a tentação para as economias mais dinâmicas é a de recorrer a alianças vantajosas que, contudo, podem acabar sendo prejudiciais para os Estados mais pobres, prolongando situações de pobreza extrema de massas de homens e mulheres e esgotando os recursos naturais da Terra, confiada por Deus Criador ao homem - como diz o Gênesis - "para que cultive e a proteja" (cf. 2, 15).

Além disso, apesar da crise, consta que nos países de antiga industrialização, incentivam-se estilos de vida marcados por um consumo insustentável, que também acabam prejudicando o ambiente e os pobres. É necessário dirigir-se, portanto, de forma verdadeiramente concertada, a um novo equilíbrio entre agricultura, indústria e serviços, para que o desenvolvimento seja sustentável, não falte pão para ninguém e para que o trabalho, o ar, a água e os demais recursos primários sejam preservados como bens universais (cf. Caritas in veritate, 27).

Para isso, é fundamental cultivar e difundir uma clara consciência ética à altura dos desafios mais complexos do tempo presente; educar-se num consumo mais sábio e responsável; promover a responsabilidade pessoal junto à dimensão social das atividades rurais, fundadas em valores perenes, como o acolhimento, a solidariedade, a partilha do cansaço no trabalho. Muitos jovens já escolheram este caminho; também muitos licenciados voltam a dedicar-se à empresa agrícola, sentindo responder assim não somente a uma necessidade pessoal e familiar, mas também a um sinal dos tempos, a uma sensibilidade concreta pelo bem comum.

Oremos a Nossa Senhora, para que estas reflexões possam servir de estímulo à comunidade internacional, enquanto elevamos a Deus nossa ação de graças pelos frutos da terra e do trabalho do homem.

Fonte: http://www.zenit.org/article-26528?l=portuguese




6 de novembro de 2010

Qualidade de vida...

Por Cardeal Dom Eugênio de Araújo Sales

Conforme uma perspectiva eterna, a Igreja também responde pelo contexto temporal. A aceitação da Mensagem de Cristo, nas condições normais, sem fazer apelo ao milagre, está condicionada a uma série de fatores naturais. Além disso, o dinamismo interno do Evangelho repercute intensamente no ambiente onde vivemos. O cristão, cônscio de sua Fé, é um promotor de transformações. Ele reage à injustiça, busca uma real encarnação dos princípios do Salvador no mundo.

Com isso, por exemplo, gera uma revolução mais profunda e ampla que a obtida pela força das armas. Não causa, pois, admiração nos preocuparmos também com o meio ambiente, com a ecologia, a preservação da natureza. Aparentemente, esses assuntos poderiam estar fora das cogitações de um pastor. Na realidade, encontram-se na mira de suas atenções, quando encarados sob a luz que vem do Alto. Tudo que há de bom na criação é obra de Deus e se destina a todos seus filhos.

O Papa Paulo VI, na Mensagem à Conferência da ONU em Vancouver, realizada em 1976, manifestou seu apoio aos que se comprometem “em favor de uma existência verdadeiramente humana para seus irmãos”. (...) “O meio ambiente deve fomentar o desenvolvimento de todas as características, de todas as riquezas do ser humano”.

Com a mesma relevância, o Santo Padre Bento XVI tratou do assunto e, em sua Mensagem para o Dia Mundial da Paz de 2010, afirma: “Os deveres para com o ambiente derivam dos deveres para com a pessoa considerada em si mesma e no seu relacionamento com os outros. Por isso, de bom grado encorajo a educação para uma responsabilidade ecológica, que salvaguarde uma autêntica ‘ecologia humana’”.

Dentro de um critério estritamente evangelizador, pastoral, voltemos nossos olhos para todos os problemas que interessam ao bem-estar natural e de todos, perguntando-nos em nosso interior se temos verdadeiro cuidado em impedir que eles aflorem ou em resolvê-los quando já existem. A civilização trouxe consigo toda uma gama de transformações. A industrialização, a mobilidade dos habitantes, o rápido crescimento populacional têm acontecido sem que estejam alicerçados em valores perenes.

A luta pelo “status” acirra a competição comandada pelo egoísmo. O objetivo meramente material, com esforços alimentados por ideais de uma sociedade de consumo, afeta o relacionamento entre as pessoas e o resultado está aí, diante de nós, no tráfico, nos assaltos, na violação das leis, e atinge a natureza, a paisagem e a segurança coletiva.

Somos o único ser que goza de inteligência e também o que diminui os limites de uma vida condigna, destruindo sistematicamente e de modo insano áreas verdes, o ar puro, deteriorando os padrões civilizados da convivência, prejudicando a limpeza e a conservação das ruas. Dir-se-ia que, poluídos por dentro, extravasam em atitudes predatórias, grosseiras ou amorais.

O meio ambiente torna-se o reflexo de nosso interior. O homem aniquila, em sua prepotência, o que serve de obstáculo à escalada na satisfação de instintos, interesses egoístas ou no seu bem-estar próprio. Esses fatos vão se repetindo. Alguns desses males ou outros existiram no passado e continuam hoje. É cômodo reclamar. Será mais eficaz cada um assumir no convívio diário atitudes dignas de um cristão. O meio ambiente, em seus diversos níveis e significados, se recomporá para alegria de todos, caso algo seja feito.

Condições mais favoráveis à recepção do Evangelho serão as consequências. Para tanto, a natureza nos oferece um sábio ensinamento. Pouco a pouco ela substitui as folhas velhas que caem, faz surgir novos brotos, alimenta-os com uma seiva que percorre ocultamente os ramos. Como um artesão cônscio de sua arte, ela cria nova vida sem pressa, mas com admirável constância.

A educação para melhor convivência social, defesa do meio ambiente, entendimento do que seja importante para a plena realização de nossa existência, exige tempo, paciência e coragem. Contudo, somos coparticipantes na construção de um mundo melhor, e somos chamados a dar exemplos, principalmente para os que hoje são o alicerce das futuras gerações.

Sobre isso recorda o Santo Padre: “Não se pode pedir aos jovens que respeitem o ambiente, se não são ajudados, em família e na sociedade, a respeitar-se a si mesmos: o livro da natureza é único, tanto sobre a vertente do ambiente como sobre a da ética pessoal, familiar e social. Os deveres para com o ambiente derivam dos deveres para com a pessoa considerada em si mesma e no seu relacionamento com os outros” (idem).

Cada um tem algo a contribuir, desde os cuidados com uma planta à defesa de objetos de utilidade pública, à limpeza, ao gesto, à palavra que irradie paz, concórdia e não agressividade. Somos, infelizmente, motivados a lucrar o máximo, investindo o mínimo. E em se tratando de bem-estar humano, o processo é inverso. Todo sacrifício em favor do meio ambiente, em seus diversos aspectos, exige amor e renúncia. Trata-se de um bom investimento, que é fortemente marcado pelo sinal de Cristo. Deus criou o homem não inimigo da natureza, mas seu Senhor, para transformar e jamais aniquilar o mundo.