6 de novembro de 2010

Qualidade de vida...

Por Cardeal Dom Eugênio de Araújo Sales

Conforme uma perspectiva eterna, a Igreja também responde pelo contexto temporal. A aceitação da Mensagem de Cristo, nas condições normais, sem fazer apelo ao milagre, está condicionada a uma série de fatores naturais. Além disso, o dinamismo interno do Evangelho repercute intensamente no ambiente onde vivemos. O cristão, cônscio de sua Fé, é um promotor de transformações. Ele reage à injustiça, busca uma real encarnação dos princípios do Salvador no mundo.

Com isso, por exemplo, gera uma revolução mais profunda e ampla que a obtida pela força das armas. Não causa, pois, admiração nos preocuparmos também com o meio ambiente, com a ecologia, a preservação da natureza. Aparentemente, esses assuntos poderiam estar fora das cogitações de um pastor. Na realidade, encontram-se na mira de suas atenções, quando encarados sob a luz que vem do Alto. Tudo que há de bom na criação é obra de Deus e se destina a todos seus filhos.

O Papa Paulo VI, na Mensagem à Conferência da ONU em Vancouver, realizada em 1976, manifestou seu apoio aos que se comprometem “em favor de uma existência verdadeiramente humana para seus irmãos”. (...) “O meio ambiente deve fomentar o desenvolvimento de todas as características, de todas as riquezas do ser humano”.

Com a mesma relevância, o Santo Padre Bento XVI tratou do assunto e, em sua Mensagem para o Dia Mundial da Paz de 2010, afirma: “Os deveres para com o ambiente derivam dos deveres para com a pessoa considerada em si mesma e no seu relacionamento com os outros. Por isso, de bom grado encorajo a educação para uma responsabilidade ecológica, que salvaguarde uma autêntica ‘ecologia humana’”.

Dentro de um critério estritamente evangelizador, pastoral, voltemos nossos olhos para todos os problemas que interessam ao bem-estar natural e de todos, perguntando-nos em nosso interior se temos verdadeiro cuidado em impedir que eles aflorem ou em resolvê-los quando já existem. A civilização trouxe consigo toda uma gama de transformações. A industrialização, a mobilidade dos habitantes, o rápido crescimento populacional têm acontecido sem que estejam alicerçados em valores perenes.

A luta pelo “status” acirra a competição comandada pelo egoísmo. O objetivo meramente material, com esforços alimentados por ideais de uma sociedade de consumo, afeta o relacionamento entre as pessoas e o resultado está aí, diante de nós, no tráfico, nos assaltos, na violação das leis, e atinge a natureza, a paisagem e a segurança coletiva.

Somos o único ser que goza de inteligência e também o que diminui os limites de uma vida condigna, destruindo sistematicamente e de modo insano áreas verdes, o ar puro, deteriorando os padrões civilizados da convivência, prejudicando a limpeza e a conservação das ruas. Dir-se-ia que, poluídos por dentro, extravasam em atitudes predatórias, grosseiras ou amorais.

O meio ambiente torna-se o reflexo de nosso interior. O homem aniquila, em sua prepotência, o que serve de obstáculo à escalada na satisfação de instintos, interesses egoístas ou no seu bem-estar próprio. Esses fatos vão se repetindo. Alguns desses males ou outros existiram no passado e continuam hoje. É cômodo reclamar. Será mais eficaz cada um assumir no convívio diário atitudes dignas de um cristão. O meio ambiente, em seus diversos níveis e significados, se recomporá para alegria de todos, caso algo seja feito.

Condições mais favoráveis à recepção do Evangelho serão as consequências. Para tanto, a natureza nos oferece um sábio ensinamento. Pouco a pouco ela substitui as folhas velhas que caem, faz surgir novos brotos, alimenta-os com uma seiva que percorre ocultamente os ramos. Como um artesão cônscio de sua arte, ela cria nova vida sem pressa, mas com admirável constância.

A educação para melhor convivência social, defesa do meio ambiente, entendimento do que seja importante para a plena realização de nossa existência, exige tempo, paciência e coragem. Contudo, somos coparticipantes na construção de um mundo melhor, e somos chamados a dar exemplos, principalmente para os que hoje são o alicerce das futuras gerações.

Sobre isso recorda o Santo Padre: “Não se pode pedir aos jovens que respeitem o ambiente, se não são ajudados, em família e na sociedade, a respeitar-se a si mesmos: o livro da natureza é único, tanto sobre a vertente do ambiente como sobre a da ética pessoal, familiar e social. Os deveres para com o ambiente derivam dos deveres para com a pessoa considerada em si mesma e no seu relacionamento com os outros” (idem).

Cada um tem algo a contribuir, desde os cuidados com uma planta à defesa de objetos de utilidade pública, à limpeza, ao gesto, à palavra que irradie paz, concórdia e não agressividade. Somos, infelizmente, motivados a lucrar o máximo, investindo o mínimo. E em se tratando de bem-estar humano, o processo é inverso. Todo sacrifício em favor do meio ambiente, em seus diversos aspectos, exige amor e renúncia. Trata-se de um bom investimento, que é fortemente marcado pelo sinal de Cristo. Deus criou o homem não inimigo da natureza, mas seu Senhor, para transformar e jamais aniquilar o mundo.


Um comentário:

  1. Seu blog ganhou um prêmio, venha ver!

    http://maitetosta.com.br/chez-maite-premiado/

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