27 de abril de 2010

Os Mandamentos do Meio Ambiente... Ou Bento XVI convida a ser responsável com a criação.

Por Pe. John Flynn, L.C.

Nos cinco anos desde que foi eleito Papa, Bento XVI tem falado repetidas vezes sobre temas relacionados com a ecologia. Como consequência, alguns começaram a chamá-lo de “Papa Verde”, mas esse rótulo não faz justiça às suas declarações.

Um guia útil para o que o atual pontífice disse sobre a criação e nossa responsabilidade para com ela é recolhido em um livro publicado no ano passado pelo jornalista Woodeene Koenig-Bricker. Em Ten Commandments for the Environment: Pope Benedict XVI Speaks Out for Creation and Justice (Dez Mandamentos para o Meio Ambiente: O Papa Bento XVI fala sobre a Criação e Justiça - Ave Maria Press), recolhe os comentários do Papa intercalados com suas opiniões pessoais sobre o meio ambiente.

A frase “Dez Mandamentos para o Meio Ambiente” não é de Bento XVI, mas foi o nome de um discurso proferido em 2005 por Dom Giampaolo Crepaldi, secretário do Conselho Pontifício Justiça e Paz (atualmente Dom Giampolo Crepaldi é bispo de Triesta, Itália). A mensagem principal desses mandamentos é que devemos ser administradores responsáveis da criação de Deus, e isso corresponde com o que o pontífice afirmou posteriormente, comentava Koenig-Bricker.

Hoje todos vemos que o homem poderia destruir o fundamento de sua existência, sua terra”, dizia o Papa em 24 de julho, respondendo às perguntas dos sacerdotes das dioceses italianas de Belluno-Feltre e Treviso. Esse cuidado com a criação baseia-se em uma convicção que vai muito além de uma simples preocupação pela ecologia. Bento XVI desejava isso claramente ao responder uma pergunta durante suas férias de verão do ano seguinte. Em seu encontro com o clero da diocese de Bolzano-Bressanone, no dia 6 de agosto de 2008, indicava que há um “vínculo inseparável” entre criação e redenção.


Subjugar a terra

"O Redentor é o Criador, e se nós não anunciamos Deus em toda sua grandeza, como Criador e Redentor, tiramos também o valor da Redenção”, afirmava o Santo Padre após mencionar que, infelizmente, nas últimas décadas a doutrina de criação quase desapareceu da teologia. Bento XVI observava que acusaram os cristãos de ser responsáveis da destruição da criação pelas palavras do Gênesis, “subjugar a terra”.

Essa acusação é falsa, afirmava, posto que vemos a terra como criação de Deus: “a terefa de ‘subjugá-la’ nunca foi entendida como uma ordem de fazê-la escrava, mas sim como a tarefa de custódia da criação e de desenvolver seus dons, de colaborarmos ativamente na obra de Deus, na evolução que ele pôs no mundo, de forma que os dons da criação sejam valorizados e não pisoteados e destruídos”.

A esse contexto entre o natural e o sobrenatural, entre fé em Deus e respeito pela criação, foi algo sobre o que Bento XVI se voltou na entrevista concedida aos jornalistas na viagem de avião para Sydney, Austrália, em 12 de julho de 2008. Necessitamos do dom da Terra, da água; necessitamos do Criador. O Criador se faz presente em sua criação. Dessa forma compreendemos que não podemos ser realmente felizes, não podemos promover a verdadeira justiça em todo mundo sem um critério em nossas ideias, sem um Deus que seja justo e nos dê a luz da vida”, dizia.

O Papa mencionava o papel do Redentor em sua homilia da Missa do Galo de 2007. Cristo, afirmava, “veio para devolver à criação, ao cosmos, sua beleza e sua dignidade: é isto que tem início no Natal e faz os anjos saltarem de alegria”. O Natal é a festa de criação restaurada, a Terra se renova e celebra que céu e terra, homem e Deus se unem, comentava.


Dom de Deus

Pouco depois da publicação do livro Koenig-Bricker, veio a encíclica do Papa “Caridade na Verdade” (Caritas in Veritate). Na encíclica foram dedicados ao meio ambiente alguns parágrafos. Entre outros pontos, o pontífice advertia contra uma visão de uma natureza puramente materialista. "A salvação humana não pode vir da natureza por si só", afirmou, "temos uma legítima administração sobre a natureza", afirmava Bento XVI, que implica o dever de entregar às futuras gerações uma terra em boas condições.

Isso não é só uma questão de ciência ou economia, explica, mas sim uma questão que precisa integrar uma ecologia humana que inclui tudo o que forma nossa existência. O livro da natureza é uno e indivisível, tanto no que diz respeito à vida, sexualidade, matrimônio, família, relações sociais, em suma, o desenvolvimento humano integral”, disse o Papa.

Há uma antinomia fundamental em nossa mentalidade se, por um lado, insistimos no respeito pelo meio ambiente natural enquanto, por outro lado, não respeitamos o direito à vida e à morte natural, insistia Bento XVI. A relação entre o respeito pelo meio ambiente e o respeito pela vida foi um tema recorrente nas declarações do Papa sobre ecologia.

Os grandes temas morais, vitais, da paz, a não-violência, a justiça e o respeito da criação não conferem por si só a dignidade ao homem”, dizia ao novo embaixador da Irlanda junto à Santa Sé em 15 de setembro de 2007. A vida humana tem uma dignidade natural, explicava. “É preocupante o fato de que frequentemente os mesmos grupos sociais e políticos que, admiravelmente, estão mais em harmonia com a maravilha da criação de Deus dão pouca atenção para a maravilha da vida no útero”, comentava o Papa.


Ecologia e Paz

No início desse ano, em sua Mensagem para o Dia Mundial da Paz de 2007, Bento XVI também uniu o respeito pela ecologia e paz. Assim, pois, além da ecologia e natureza há uma ecologia que podemos chamar ‘humana’, e que por sua vez requer uma ‘ecologia social’”, observou. “A experiência demonstra que toda atitude irresponsável com o meio ambiente resulta em danos da convivência humana, e vice-versa”, acrescentou ao discurso. Cada vez mais é possível ver claramente um nexo inseparável entre paz com a criação e a paz entre os homens. Ambas pressupõem a paz com Deus”, concluía o Papa. Essa relação entre ecologia e paz voltou como tema central da Mensagem para o Dia Mundial da Paz de 2010.

"O meio ambiente é um dom de Deus a todos os povos. Nem a natureza e nem os seres humanos podem ser vistos como meros produtos", afirmava o pontífice. Ele encorajava a uma maior solidariedade entre as nações ao tratar os problemas ecológicos e examinar nosso estilo de vida, modelos de consumo e produção. Mais uma vez ele advertiu contra o panteísmo ou o paganismo em que se considera que nossa salvação só pode ser alcançada no mundo natural. Bento XVI estabelecia que a Igreja tem fortes reservas sobre uma visão ecocêntrica ou biocêntrica do meio ambiente.

O perigo dessas posturas é que não veem diferença alguma entre a pessoa humana e as demais criaturas vivas. Dessa forma, é anulada na prática a identidade e o papel superior do homem, favorecendo uma visão igualitária da dignidade de todos os seres vivos”, advertia. Ao concluir a mensagem, Bento XVI observou que os cristãos contemplam o cosmos e as maravilhas da obra criadora do Pai e da obra redentora de Cristo. O cuidado do meio ambiente, o respeito pelos valores humanos e a vida, a solidariedade entre todos estão assim ligados à nossa fé em Deus, criador e redentor. Uma visão complexa do natural e do sobrenatural que vai além da ideia de ser simplesmente verde.

Fonte: http://zenit.org/p-24711

25 de abril de 2010

Ostensão 2010: um evento “verde”, sóbrio e solidário

Por Chiara Santomiero
[Adap. Renata Espíndola]

Nenhum desperdício de recursos, máximo respeito pelo meio-ambiente e atenção à solidariedade internacional. Assim se pode sintetizar, para além do significado religioso, a fórmula do evento “Ostensão 2010 do Santo Sudário”. A agência ZENIT falou com Maurizio Baradello, diretor do Comitê para a Ostensão, criado em 2008 por um acordo entre prefeituras e governos das províncias de Turim, Piemonte e a arquidiocese de Turim – à qual estão vinculadas, para fazer frente às despesas com a organização do evento, as instituições bancárias Companhia de São Paulo e a Fundação CRT.

É interessante observar como conceitos de gerenciamento ambiental foram incorporados no projeto, desde a sua concepção à sua desmobilização e incluindo o tratamento dos resíduos e efluentes gerados. Boa leitura!

Atenção no uso dos recursos

"A primeira atenção foi dada à realização de obras permanentes. A maior parte das intervenções", explicou Baradello, “foi realizada em edifícios que permanecerão parte do patrimônio cultural da região. Este é o caso de diversas salas do Palácio Chiablese, re-estruturadas e utilizadas duarante a Ostensão do Sudário como capela para adoração Eucarística e centro para confissões, e que mais tarde abrigaram também bilheterias e livrarias”.

Da mesma forma, “o novo pórtico aberto nos Jardins reais, pelo qual passaram todos os peregrinos em direção à área do Museu de antiguidades, servirá ao próprio museu como via de acesso ao jardim, que anteriormente era acessível somente através de um percurso longo e complicado. Algumas intervenções tecnológicas foram também realizadas na expectativa de serem utilizadas novamente no futuro, como por exemplo as conexões via fibras óticas, bem como equipamentos e sistemas de difusão, sendo que o sistema de monitoração e controle do Sudário permanecerá operante”.

Um evento de baixo impacto ambiental

Já na fase de projeto” – afirmou Baradello – “foi previsto que a Ostensão levaria a Turim entre 1,5 a 2 milhões de visitantes. Este dado exigiu que se elaborasse um sistema de gestão visando a minimização dos impactos ambientais sobre a cidade. Com a previsão de cerca de 20 mil vans para o transporte dos peregrinos, foi fácil imaginar o impacto de tal aumento no tráfego. Assim, preparamos um sistema para recepcionar os veículos na parte central da cidade, definindo percursos e pontos de parada de modo a garantir um fluxo ordenado e harmônico”.

Uma taxa ecológica e solidária

Às vans foi solicitado o pagamento de uma taxa ambiental com valor entre 30 e 50 euros, dependendo do porte do veículo. “A taxa” – explicou o diretor do comitê – “foi requerida pela cidade a fim de compensar o aumento na produção de CO2”, e o valor arrecadado foi aplicado “no plantio de árvores na área urbana da cidade, e na aquisição de créditos de carbono junto a países em desenvolvimento. Há organismos das Nações Unidas que controlam as cargas de poluentes lançados no ambiente e determinam métodos de compensação, mediante a aquisição de ‘créditos verdes’. Como o aumento nas emissões de CO2 ocorrido em Turim não afeta apenas o ambiente local, a compensação não precisa ser, necessariamente, feita aqui. Dessa forma, parceiros do evento no Brasil e na Argentina –as cidades de Rosario e Belo Horizonte, que gerenciam suas emissões – puderam partilhar conosco destes benefícios”. Uma demonstração de que a Ostensão do Sudário também teve entre suas preocupações os temas do desenvolvimento e da cooperação internacional.

Incentivos ao uso do transporte coletivo

Foi promovido o uso do transporte público e as pessoas que chegam de automóvel são convidadas a deixarem seus carros nos estacionamentos na periferia e fazer uso do transporte público. O bilhete “park and ride” permite, pelo custo de 1 euro, estacionar e fazer uso ilimitado do transporte público por um dia inteiro, com o intuito de manter os veículos longe do centro histórico da cidade.

Coleta seletiva de rejeitos

A atenção para com o meio-ambiente se verifica também em outros detalhes da recepção dos peregrinos. A AMIAT, sociedade que gerencia a coleta seletiva na área da Ostensão, disponibilizou cestos identificados para os diversos tipos de rejeitos. O material re-aproveitável é destinado à reciclagem. Além disso, foi disponibilizada gratuitamente água do aqueduto, de modo que não há distribuição de garrafas plásticas. Finalmente, nos praças de alimentação e descanso destinadas aos peregrinos, houve a preocupação de oferece bens e produtos locais – os assim chamados “produtos zero quilômetro”.

Sobriedade

Todo o evento” – afirmou Baradello – “foi concebido para que servisse como exemplo de sobriedade. Este estilo sóbrio 'orientou todas as escolhas' e possibilitou a realização do evento com a ajuda de todos, pois sem a atuação dos voluntários, a Ostensão jamais teria ocorrido. Foram eles, entre outros, que garantiram a recepção das mais diversas categorias de pessoas, incluindo doentes e portadores de deficiências, além de autoridades; se tivéssemos que retribuir por tais serviços o evento teria sido impossível”.

A ajuda da internet

O uso da internet” – explicou Baradello – “foi determinante. Os especialistas nos disseram que, por meio da internet, receberíamos cerca de 35% das reservas. Ao contrário recebemos 91% dos pedidos de reserva. O recurso da internet facilitou de tal forma a comunicação do evento, que acabou por ajudar a veicular um imagem diferente de Turim e de toda a região – não a de uma cidade ‘cinzenta -, mas viva e com mil possibilidades. Por meio da internet, também os hotéis e restaurantes puderam se organizar para o evento com meses de antecedência, algo muito positivo em um período de crise econômica”.

Encerramento do evento

Como será a conclusão do evento, no próximo 23 de maio? “Será preciso desmontar tudo” – concluiu Baradello – “colocar as obras permanentes à disposição da cidade, restabelecer o Sudário ao seu lugar de origem. Será lembrado sem dúvida como um evento de grande importância para a Igreja, e esperamos que positivo em termos de organização, seja para os peregrinos, seja para a cidade”.


Sítio oficial do Santo Sudário:
(em inglês, italiano, francês, russo, alemão ou espanhol)

17 de abril de 2010

O uso do solo urbano

Por Dom Eugenio Araujo Sales
Arcebispo Emérito da Arquidiocese do Rio de Janeiro


Em 1981, a Arquidiocese do Rio de Janeiro promoveu um encontro, em seu Centro de Estudos do Sumaré, sobre “A posse e o uso do solo urbano”. Estando presentes membros de organismos governamentais, juristas e residentes em favelas, foi focalizado o problema nas características e dimensões que ele assume na cidade do Rio de Janeiro. Participaram, em regime de internato, 115 pessoas.

Esse foi mais um “Encontro de líderes e pessoas com poder decisório” que deu continuidade ao anterior, em 1978, que teve por tema “Moradia do pobre no Rio de Janeiro”. Razão eminentemente pastoral levou-me, quando então Arcebispo do Rio, a tomar essa iniciativa. Diante da tragédia que recentemente se abateu sobre nossa Cidade e em todo o Estado, acho oportuno recordar os principais pontos daquele encontro.

A missão da Igreja é evangelizar, ou seja, sua atividade é religiosa. A experiência, entretanto, mostra que o tema em questão tem profundas e extensas repercussões na conduta dos indivíduos. A angústia pela segurança de uma definitiva permanência nos poucos palmos de terra, onde foi levantado o barraco para alojar a família cria obstáculos à observância da mensagem de Cristo. Por outro lado, a justiça e a paz no ambiente social reclamam a descoberta de recursos legais e a busca a uma base jurídica para a solução. Isso facilitará uma convivência pacífica entre setores diversificados, mas complementares de nossa população. Em outras palavras, um serviço à comunidade e, em especial, aos mais carentes.

Embora tais temáticas sejam merecedoras de atenção, sem exclusivismos, um dado - guardadas as devidas proporções e aplicações à nossa época-, mostrou a importância da escolha daquele assunto e sua inclusão na série de encontros com pessoas que detêm parcelas de poder decisório.


Com aquela renda mensal, as alternativas para obter uma habitação eram poucas. Uma, dentre estas, é a favela. No Rio de Janeiro, eram 320, algumas com população maior que muitas cidades do Brasil. Neste ano de 2010, verifica-se que o número é significativamente maior e, com isto, também os desafios.Naquela ocasião, segundo dados oficiais da Pesquisa Nacional de Amostras por Domicílio (PNAD), no Rio de Janeiro 83,9% das famílias ganhavam menos de cinco salários mínimos. Ora, o lar é um dos fundamentos da vida cristã. Uma casa com as condições mínimas de dignidade e segurança constitui um fator básico para que essa célula da sociedade possa sobreviver e cumprir seu papel formador, garantia do futuro.

A outra, são conjuntos habitacionais. Entre 1968 e 1979, para eles foram removidas 80 favelas. Apesar de ser evidentemente válido o esforço governamental em proporcionar teto condigno às classes de baixa renda, eles são insuficientes. Acrescente-se que, por fatores diversos, 50% dos transferidos buscaram outras soluções, inclusive a volta à situação anterior, principalmente nas encostas dos morros e em áreas de risco.

Eis a realidade. Nela a Providência divina nos colocou. Governantes e povo, católicos e outros credos religiosos temos ante nossos olhos e sob nossa responsabilidade, embora em graus diferentes, esse drama. Não há dúvida que ele faz parte de um problema global, cuja raiz está fora do alcance das autoridades locais ou refletem um clima mundial, que gera as concentrações populacionais. Se não podemos dar aqui condições para a fixação do homem à terra, ou orientar o fluxo migratório, devemos abrir o coração ao sofrimento de muitos irmãos e procurar remédios práticos e viáveis.

Convém considerar que a pessoa que mora nas comunidades carentes, em sua grande maioria, é cidadã ordeira, honesta, pacífica, com notável senso comunitário e capacidade criativa na busca de superar a angústia proveniente da carência de moradia. As áreas onde vivem não são um valhacouto de bandidos, salteadores e traficantes. Os que aí residem são igualmente vítimas, mais desprotegidas, aliás.

A garantia de permanência do pobre onde construiu em boa-fé seu barraco, ou a justa compensação, nos casos de transferência para outros lugares, produz um efeito admirável, transformador, de consequências extraordinárias. A experiência tem provado. Preparada uma infra-estrutura, garantido o solo pelo reconhecimento de um direito adquirido ou mediante um pagamento em prazo adequado, espera-se uma mudança radical do problema. Este, por estranho que pareça, está menos no custo da construção da casa que nos obstáculos oriundos de uma legislação feita para circunstâncias totalmente diversas.

Ficou evidenciado naquele encontro, que não será por falta de inventividade jurídica que a dificuldade deixará de ser resolvida legalmente. Há decisões que, uma vez tomadas, dariam tranquilidade a centenas ou talvez milhares de pessoas, proporcionariam condições para um vasto plano de urbanização, com efeitos profundos em nossa Cidade. Resta assumi-las, pois há viabilidade. Essa foi a conclusão do encontro, em 1981, promovido pela Arquidiocese do Rio sobre a posse e o uso do solo urbano, estudados à luz do Evangelho e, portanto, dentro de uma perspectiva global.

Havia uma consciência de que o assunto não se circunscrevia a esses moradores, mas interessava à coletividade. Uma solução justa e humana é inerente à nossa Fé cristã. Custará alguns sacrifícios, mas estes são menores que o holocausto que leva, em uma cidade maravilhosa, à deteriorização do convívio social, que pode chegar a limites intoleráveis.

Lembro-me das palavras do Papa João Paulo em sua visita à favela do Vidigal, em 1980, com as quais encerrei o encontro: “Fazei-o por consideração a cada homem que é vosso próximo e vosso concidadão. Fazei-o por consideração ao bem comum de todos. E fazei-o por consideração a vós mesmos. Só tem razão de ser a sociedade socialmente justa, que se esforça por ser sempre mais justa. (...) Pensai, pois, no passado e olhai o dia de hoje, e projetai o futuro melhor da vossa inteira sociedade!”.
 
Fonte: http://www.arquidiocese.org.br/cgi/cgilua.exe/sys/start.htm

14 de abril de 2010

Haiti: Cáritas continua a levar esperança após o terremoto

Transcorridos três meses desde o terremoto que devastou o Haiti em 12 de janeiro, já se verificam progressos, graças também aos esforços da Caritas, que já atendeu mais de 1,5 milhão de sobreviventes da tragédia. O terremoto causou 230 mil mortes, destruiu completamente a infra-estrutura do país e deixou mais de 3 milhões de desabrigados.

Membros da Caritas de mais de 60 países atuaram nos trabalhos de suporte e de atendimento de emergência, fornecendo comida, alojamento, água potável, locais seguros para que as crianças possam brincar e estudar, além de assistência médica e psicológica. A rede Caritas já mobilizou mais de 10 milhões de euros para as operações no Haiti e planeja atuar na crise ao longo dos próximos cinco anos, buscando ajudar os habitantes a construir um país autossuficiente.

A organização trabalha em cooperação com diversos organismos internacionais para fornecer alojamentos provisórios aos desabrigados e até o momento já disponibilizou tendas para cerca de 100 mil pessoas em acampamentos improvisados. Os projetos de assistência médica já beneficiaram mais de 350 mil haitianos. Foram construídas 25 escolas provisórias e 53 instituições de ensino receberam apoio para retomarem suas atividades. A Caritas desenvolve também uma série de projetos de crianças e de suas famílias, separadas pelo terremoto.

A organização promoveu ainda dois encontros de agricultores, onde foram fornecidos cupons para a aquisição de sementes, fertilizantes e outros insumos agrícolas. A Caritas atua também em conjunto com os agricultores, tendo em vista evitar a erosão do solo, promovendo o plantio de árvores frutíferas.




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O Brasil também responde

Em carta divulgada, o presidente da CNBB, Dom Geraldo Lyrio Rocha, e o presidente da Cáritas Brasileira, Dom Demétrio Valentim, conclamam todas as comunidades eclesiais, paróquias e dioceses a promoverem orações e coletas em dinheiro para as vítimas do desastre.

As doações em dinheiro podem ser feitas nas seguintes contas bancárias:
. Banco do Brasil - Agência: 3475-4; Conta Corrente: 23.969-0;
. Caixa Econômica Federal - OP: 003; Agência:1041; Conta Corrente:1132-1;
. Banco Bradesco - Agência: 0606 ; Conta Corrente: 70.000-2.


CNPJ da Cáritas Brasileira: 33.654.419/0001-16

Outras informações no site www.caritas.org.br
Para doações diretas à Caritas - Haiti: https://secure.caritas.org/donation.aspx?DonationTo=E&Emergency=26

11 de abril de 2010

Decálogo sobre Ética e Meio Ambiente

No ano passado - por ocasião do Dia Mundial do Meio Ambiente - foi divulgado um decálogo sobre Ética e Meio Ambiente. Este decálogo é interpretativo dos ensinamentos contidos no décimo capítulo do Compêndio da Doutrina Social da Igreja:

1. A Bíblia tem de ditar os princípios morais fundamentais do desígnio de Deus sobre a relação entre homem e criação.

2. É necessário desenvolver uma consciência ecológica de responsabilidade pela criação e pela humanidade.

3. A questão do meio ambiente envolve todo o planeta, pois é um bem coletivo.

4. É necessário confirmar a primazia da ética e dos direitos do homem sobre a técnica.

5. A natureza não deve ser considerada uma realidade em si mesma divina, portanto, não fica subtraída à ação humana.

6. Os bens da terra foram criados por Deus para o bem de todos. É necessário sublinhar o destino universal dos bens.

7. Requer-se colaborar no desenvolvimento ordenado das regiões mais pobres.

8. A colaboração internacional, o direito ao desenvolvimento, ao meio ambiente sadio e à paz devem ser considerados nas diferentes legislações.

9. É necessário adotar novos estilos de vida, mais sóbrios.

10. Deve-se oferecer uma resposta espiritual, que não é a da adoração da natureza.

Germinando...

(Artigo recuperado – 20.03.09)

Procurando um texto para atualizar o blog, encontrei este da rede Catholic.NET e apesar de antigo, o tema abordado é atualíssimo, num momento em que muitos dos que se dizem católicos são a favor do aborto, mas protegem o mico-leão dourado, as jubartes e as tartaruguinhas… E por estarmos em plena Quaresma, momento de reflexão sobre todo o ‘lixo tóxico’ que acumulamos em nós e ao nosso redor, nos afetando e aos que conosco convivem.

É óbvio que sou a favor do movimento para a proteção da qualidade de vida destes seres, da proteção de áreas naturais, da melhoria das zonas antropizadas, mas sou muito mais a favor da manutenção da vida humana. Meu pai costuma me encarnar dizendo que sou "especialista em dejetos" (para ser educada ao menos aqui…rs) e ele tem razão do absurdo de se fazer necessário profissionais que corrijam, que façam o "faxinão" de outros que agem de modo irresponsável e nada impensado, profissionais que se dedicam ensinando o que não deve ser feito.

Espero que o texto que traduzi e apresento a vocês permita uma reflexão sincera sobre as escolhas corretas em relação ao Reino e à criação.

Boa leitura!

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Ecologia humana

Por Juan García Inza
[Tradução: Renata Espíndola]

Admiro os amantes da natureza, sou um deles, porém faz falta em muitos ecologistas algo muito essencial. Os que militam nestas organizações naturalistas são capazes de tudo para defender uma paisagem, uma espécie em perigo, um animal em concreto, o oxigênio que respiramos… Os temos visto fazerem greves de fome, fazerem grandes manifestações, se lançarem valentemente contra pesqueiros e submarinos em defesa da pureza ambiental.

Tudo me parece muito positivo. Porém, tenho que dizer, e o disse por muitas vezes nos meios de comunicação, que menosprezam algo: UMA DEFESA AUDAZ, VALENTE, RADICAL DO SER HUMANO DESDE SUA CONCEPÇÃO ATÉ SUA MORTE NATURAL. Não vi estes ecologistas manifestarem-se, ou fazerem greves de fome, diante das clínicas abortistas, ou nas campanhas contra a fome e a injustiça no mundo, ou por motivo das freqüentíssimas violações dos direitos humanos, dos atentados contra a vida, da violência contra a mulher ou às crianças, das aberrações de tantos pais sem escrúpulos que marcam os seus filhos(as) para sempre com a brutalidade de seus impulsos obscenos.

Não observo tampouco que os ativistas destas organizações protestem diante dos colégios pela violência que se está gerando nas salas de aulas, ou nas ruas de qualquer povoado ou cidade, ou contra o terrorismo, ou os crimes que muitas vezes se cometem por pura ambição ou diversão. Estou a favor do respeito mais exigente à natureza. Porém, como nós, os humanos, também somos natureza, quero unir minha voz aos que pedem socorro para salvar a espécie humana em perigo de extinção.

A este respeito, o Papa João Paulo II falava recentemente de “uma necessária Ecologia Humana para tornar mais digna a existência do Homem”. Foi em 18 de janeiro deste ano na Audiência Geral. Ali falou sobre o senhorio do ser humano frente à Criação, explicando que o homem está prestando mais atenção à qualidade de vida pois “não está em jogo somente uma ecologia ‘física’, senão uma ecologia ‘humana’ que torne mais digna a existência do ser humano. Somente assim o homem poderá passear novamente pelo jardim da Criação”.

O Santo Padre afirmou que o senhorio do homem não é “absoluto, senão ministerial; é reflexo real do senhorio único e infinito de Deus. Por isso, o homem tem que vivê-lo com sabedoria e amor, participando na sabedoria e no amor incomensurável de Deus”. Logo após escutar o Salmo, o Pontífice explicou que “é um hino de esperança que nos introduz numa visão cósmica. Representa o paraíso perdido e também o prometido de onde a harmonia do homem com os demais, com a Criação e com Deus, é o projeto querido pelo Criador, porém este tem sido alterado pelo pecado. A criatura humana recebeu a missão de governar a Criação para desenvolver suas potencialidades. Porém, ao contemplar nosso planeta, vemos que o homem deformou o hábitat da terra. Pelo qual é necessário promover a ‘conversão ecológica’, que faça a humanidade mais sensível diante tal deterioração”, acrescentou o Papa.

O Pontífice afirmou que “nesta reencontrada harmonia com a natureza e com si mesmos, os homens e as mulheres retornam a passearem no jardim da Criação, tratando de fazer que os bens da terra estejam disponíveis a todos e não somente a alguns privilegiados, tal como sugeria o jubileu bíblico (cf. Lv 25,8-13.23). Entre aquelas maravilhas descobrimos a voz do Criador, transmitida por céu e pela terra, de dia e de noite: uma linguagem ‘sem palavras, sem que se ouça o som’, capaz de transpassar todas as fronteiras”.

Na linguagem bíblica ‘dar o nome’ às criaturas (cf. Gn 2,19-20) é o sinal desta missão de conhecimento e transformação da realidade criada. É a missão não de um dono absoluto e inquestionável, senão de um ministro do Reino de Deus, chamado a continuar a obra do Criador, uma obra de vida e paz. Sua tarefa, definida no Livro da Sabedoria, é governar ‘o mundo com santidade e justiça’ (Sab 9,3)”, explicou o Papa.

O Santo Padre acrescentou que “desaforadamente, se recorremos as regiões de nosso planeta, nos damos conta em seguida que a humanidade ‘decepcionou’ a expectativa divina. Sobretudo em nosso tempo, o homem devastou sem cortesia planícies e vales florestados, contaminou as águas, deformou o hábitat da terra, tornou irrespirável o ar, desestabilizou os sistemas hidrogeológicos e atmosféricos, desertificando espaços verdejantes, desenvolvendo formas de industrialização selvagem, humilhando – para usar uma imagem de Dante Alighieri – aquele tesouro que é a Terra, nossa morada”.

Que impressionantes são estas sábias palavras! O homem deve defender esse jardim do mundo, esse lugar de encontro com a vida, e poder deste modo passear por ele com toda liberdade, contemplando suas maravilhas, desfrutando das cores, dos odores, dos sons da natureza, e também do silêncio de uma terra que continuamente está dando a luz novas criaturas sem fazer ruído.

Amigo leitor veja mais além do computador, levante a cabeça ou cerre os olhos, descubra esse mundo que carrega consigo e essa maravilha que te rodeia. Esta semana começa o santo tempo da Quaresma. Uma boa oportunidade para exercitarmos o ECOLOGISMO HUMANO tratando de sermos melhores pessoas, limpando nosso interior de tanto mal que nos enfeia e põe em perigo nossa segurança, e tratemos de criar ao nosso redor um ambiente de onde seja possível viver o amor e a amizade, com Deus e os homens.

Postagens do antigo blog

Consegui recuperar apenas uma parte dos arquivos do antigo sítio e não creio que seja producente publicar todos os artigos novamente, uma vez que estão disponíveis em seus sítios de origem. Então, como uma forma de traduzir o que o antigo blog continha, elaborei a listagem abaixo para mostrar a pertinência dos objetivos do mesmo e para que vejam que o zelo com a criação não é um tema tão alheio na mídia católica.

A atenção ao tema não se inicia em 1997 – ainda que neste momento seja tratada a Rio +5 pelos países signatários da Declaração do Rio -, mas os textos anteriores não haviam ainda sido editados para o formato do blog e assim, não os cito aqui. Quem tiver a mesma curiosidade que a minha, bastará pesquisar no sítio da Santa Sé, o qual possui farto material a disposição. Também foram poucos os textos pessoais publicados na seção Reciclando Idéias que puderam ser recuperados.

• Intervenção da Santa Sé na 19ª. Assembléia Geral da ONU sobre o tema do meio ambiente (1997):

• Sábias palavras sobre solidariedade e globalização, pelo ainda cardeal Joseph Ratzinger (2002):

• Intervenção da Santa Sé na 2ª. Comissão da Assembléia Geral da ONU sobre o “Desenvolvimento Sustentável” (2006):
http://www.vatican.va/roman_curia/secretariat_state/2005/documents/rc_seg-st_20051103_sustainable-development_po.html

• Mensagem do Papa Bento XVI por ocasião do VI simpósio dedicado ao meio ambiente com o tema “Rio Amazonas, fonte de vida” (2006):

• Mensagem do Papa Bento XVI por ocasião da inauguração do VII Congresso sobre Religião, Ciência e Meio Ambiente (2007):

• Papa explica que quem está em Cristo «não tem medo de nada nem de ninguém» (2009):
http://www.zenit.org/article-20536?l=portuguese

• Não há oposição entre homem e planeta, diz a Santa Sé (2009):

• Que não sejam os mais pobres que paguem pela mudança climática (2009):

• A Santa Sé pede uma via de desenvolvimento sustentável para os países pobres (2009):

• Mães – Terra (2009):
Um texto curto de Kevin E. Schmiesing sobre a relação, publicado próximo ao dia das mães e que foi disponibilizado pelo CIEEP – Centro Interdisciplinar de Ética e Economia Personalista, editor da revista Communio.

• Desequilíbrio ecológico amplia a brecha entre pobres e ricos (2009):

Mudança climática, desafio aos estilos de vida e à solidariedade (2009):

• Cáritas pede a G-20 que mantenham ajudas para desenvolvimento (2009):

• O bem comum global perante a escassez de recursos (2009):

• Visita do Santo Padre à sede da FAO por ocasião da 36ª Sessão da Conferência Geral da ONU sobre a alimentação e a agricultura (2009):

• Fundação “Centesimus Annus” indica qual é a economia virtuosa (2009):

• A nova década de um mundo envelhecido (2009):

• Bento XVI: paz e respeito à criação (2010):
Discurso ao corpo diplomático, pronunciado em 11.01.10 por Bento XVI, ante os embaixadores acreditados na Santa Sé, recebidos em audiência na Sala Régia do Palácio Apostólico Vaticano.

• Promover relações pessoais para alcançar o desenvolvimento (2010):
Intervenção de Dom Celestino Migliore em uma comissão do UN-ECOSOC.

• Papa: lucro e individualismo oferecem um falso modelo de desenvolvimento (2010):
Na audiência aos membros da "Azienda Comunale Energia e Ambiente".
http://www.zenit.org/article-24032?l=portuguese

• Como atuar como cristãos responsáveis na gestão da cidade (2010):
Dom Angelo Casile indica o caminho da Doutrina Social.

• Diante da crise econômica, Papa pede mais generosidade com pobres (2010):
Catequese sobre a figura de Santo Antônio de Pádua.

• A Doutrina Social é o anúncio da Verdade de Cristo na Sociedade(2010):
"Caritas in Veritate" e a questão antropológica.
http://www.zenit.org/article-24074?l=portuguese

• Por amor aos animais (2010):
Cresce a tendência a sua humanização.
http://www.zenit.org/article-24176?l=portuguese

4 de abril de 2010

O meio ambiente e o cristão

Por Mscperu.org
[Tradução: Renata Espíndola]

O novo Compêndio de Doutrina Social da Igreja dedica um capítulo inteiro a temas relativos ao meio ambiente, reconhecendo sua crescente importância. Os primeiros números animam aos cristãos a considerar o meio ambiente com uma atitude positiva, para evitar una mentalidade de desprezo e condenação, e reconhecer a presença de Deus na natureza. “Deveríamos ver o futuro com esperança”, recomenda o Compêndio, “sustentados pela promessa e o compromisso que Deus renova continuamente”. (No. 451)

No Antigo Testamento vemos como Israel viveu sua fé num meio ambiente que era visto como dom de Deus. Ademais, “a natureza, a obra da ação criativa de Deus, não é um adversário perigoso”. O Compêndio também convida a recordar o começo do livro de Gênesis, no qual o homem é posto acima de todos os seres e Deus lhe confia os cuidados com toda a criação. “A relação do homem com o mundo é parte constitutiva de sua identidade humana. Esta relação é a sua vez, resultado de outra relação ainda mais profunda com Deus”. (No. 452)

No Novo Testamento, Jesus faz uso dos elementos naturais em alguns de seus milagres e recorda aos discípulos a providência de seu Pai. Logo, em sua morte e ressurreição, “Jesus inaugura um mundo novo no qual tudo lhe está submetido e recria as relações de ordem e harmonia que o pecado havia destruído”. (No. 454)

Ciência e tecnologia

O concílio Vaticano II reconheceu o progresso feito pela ciência e pela tecnologia o estender nosso controle sobre o mundo criado. Melhorar nossas vidas deste modo está de acordo com a vontade de Deus, concluíram os padres conciliares. Também observaram que a Igreja não se opõe ao progresso científico, que é uma parte da criatividade humana dada por Deus. Porém, acrescenta o Compêndio, “um ponto central de todo uso científico e tecnológico é o respeito pelos homens e mulheres, que deve acompanhar também da necessária atitude de respeito por todas as criaturas vivas”. (No. 459)

Portanto, nosso uso da terra não deveria ser arbitrário e é necessário que esteja inspirado por um espírito de cooperação com Deus. Esquecer isto, pode ser a causa das ações que causam dano ao meio ambiente. Reduzir a natureza aos “limites mecanicistas”, pode acompanhar-se pela falsa idéia de que seus recursos são ilimitados, levando a considerar o desenvolvimento numa dimensão meramente material, na que se dá o primeiro lugar “ao fazer e ter em vez do ser”. (No. 462)

Se é necessário que evitemos o erro de reduzir a natureza a limites meramente utilitaristas, segundo o qual somente é algo que havemos de explorar, também é necessário que evitemos ir ao outro extremo fazendo-a um valor absoluto”. Uma visão ecocêntrica ou biocêntrica do meio ambiente cai no erro de colocarmos a todos os seres vivos no mesmo nível, ignorando a diferença qualitativa entre os seres humanos - baseada em sua dignidade de pessoas humanas - e outras criaturas.

A chave para evitar tais erros é manter uma visão transcendente. Atuar de modo mais responsável ao redor do meio ambiente resulta mais fácil quando recordamos o papel de Deus na criação”, explica o Compêndio. A cultura cristã considera as criaturas como um dom de Deus, que deve ser cuidado e salvaguardado. O cuidado do meio ambiente também entra dentro da responsabilidade de assegurar o bem comum, pelo que a criação se destina a todos. O Compêndio também observa que temos uma responsabilidade com as gerações futuras.

Biotecnologia

Uma seção do capítulo se centra no tema da biotecnologia. As novas possibilidades oferecidas por estas técnicas são uma fonte de esperança, porém também levantaram hostilidade e alarme. “Como regra”, observa o texto, “a visão cristã da criação aceita a intervenção humana, porque a natureza não possui uma condição de objeto sagrado que devemos deixar intocável”.

Porém, a natureza é também um dom a ser usado com responsabilidade e portanto, o modificar das propriedades dos seres vivos se deve acompanhar de uma avaliação cuidadosa dos benefícios e riscos de tais ações. Ademais, é necessário que a biotecnologia se guie pelos mesmos critérios éticos que deveriam orientar nossas ações nas esferas da ação social e política. E também devem ter em conta os deveres de justiça e solidariedade. Quanto à solidariedade, o Compêndio pede “intercâmbios comerciais eqüitativos, sem a carga de injustas estipulações” (No. 475).

Neste sentido, é importante ajudar as nações a conseguir uma certa autonomia na ciência e tecnologia, transferindo-lhes o conhecimento que as ajudará no processo de desenvolvimento. A solidariedade também significa que, junto à biotecnologia, são necessárias políticas comerciais favoráveis para melhorar a alimentação e a saúde.

O Compêndio também menciona aos cientistas que, “estando chamados a trabalhar de modo inteligente e com perseverança para resolver os problemas de distribuição de alimentos e saúde, também deveriam recordar que estão trabalhando com objetos que formam parte do patrimônio da humanidade”. Aos empresários e agências públicas do setor da biotecnologia, o texto lhes recorda “que junto à preocupação por atingir um beneficio legítimo, deveriam ter presente o bem comum”. Isto é especialmente aplicável nos países mais pobres e na hora de salvaguardar os ecossistemas.

Compartilhar os bens

Uma seção do capítulo é dedicada à questão do compartilhamento dos recursos da terra. “Deus criou os bens da terra para que sejam usados por todos”, observa o Compêndio e “devem ser compartilhados de modo eqüitativo, de acordo a justiça e a caridade”. (No. 481)

De fato, é necessária a cooperação internacional em temas ecológicos, posto que podem ser problemas de escala global. Os problemas ecológicos podem estar conectados com a pobreza, com a gente pobre incapaz de abordar problemas como a erosão das terras de cultivo, devido a suas limitações econômicas e tecnológicas. E muitos pobres vivem em subúrbios urbanos, afligidos pela poluição. “Em tais casos a fome e a pobreza fazem ser virtualmente impossível evitar uma exploração intensiva e excessiva do meio ambiente” (No. 482)

A resposta a estes problemas não é, sem dúvida, políticas de controle populacional que não respeitam a dignidade da pessoa humana. O Compêndio sustém que o crescimento demográfico é “plenamente compatível com um desenvolvimento integral e compartilhado”. (No. 483)

O desenvolvimento deveria ser integral”, continua o texto, “assegurando o verdadeiro bem das pessoas”. Em relação aos recursos naturais há que considerar o destino universal dos bens e, particularmente, quando se trata do tema da água. O acesso inadequado à água potável afeta a um grande número de pessoas e pode ser fonte de enfermidades e morte. Para o mundo desenvolvido, o Compêndio oferece algumas notas sobre os estilos de vida apropriados. A nível individual e comunitário, se recomendam as virtudes da sobriedade, a temperança e a autodisciplina. “Necessitamos romper com a mentalidade baseada num mero consumo, além de sermos conscientes das conseqüências ecológicas de nossas eleições”, sustém o texto.

O Compêndio conclui seu capítulo pedindo que “nossa ação ao redor da criação se caracterize pela gratidão e pelo apreço. Deveríamos recordar também que o mundo revela o mistério de Deus que o criou e o sustenta. Redescobrir este significado profundo da natureza não somente nos ajuda a descobrir a Deus, senão também é a chave para atuar de modo responsável defronte ao meio ambiente”.

Fonte: www.es.catholic.net

3 de abril de 2010

Palavras de João Paulo II sobre o tema da consciência ecológica…

Nos idos de 1989, ao realizar um discurso no Dia Mundial da Paz (08.12.1989), nosso amado papa João Paulo II apresentou uma reflexão que une a paz com Deus Criador com a paz com a Sua Criação.

Lendo-a vinte anos depois, poderemos ver o quanto ainda é atual quanto às condições que hoje encontramos em nossa sociedade e como nosso amado papa Bento XVI a complementou com suas reflexões para o Dia Mundial da Paz para este ano.

Coincidência ou providência? Comparem as duas mensagens e tirem suas conclusões... Boa leitura, ou melhor, boa reflexão!!!



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MENSAGEM DE SUA SANTIDADE O PAPA
JOÃO PAULO II
PARA A CELEBRAÇÃO DO
DIA MUNDIAL DA PAZ
1° DE JANEIRO DE 1990

PAZ COM DEUS CRIADOR, PAZ COM TODA A CRIAÇÃO

 
Introdução

1. Observa-se nos nossos dias uma consciência crescente de que a paz mundial está ameaçada, não apenas pela corrida aos armamentos, pelos conflitos regionais e por causa das injustiças que ainda existem no seio dos povos e entre as nações, mas também pela falta do respeito devido à natureza, pela desordenada exploração dos seus recursos e pela progressiva deterioração da qualidade de vida. Semelhante situação gera um sentido de precariedade e de insegurança, que, por sua vez, favorece formas de egoísmo coletivo, de açambarcamento e de prevaricação. Perante a difusa degradação do ambiente, a humanidade já se vai dando conta de que não se pode continuar a usar os bens da terra como no passado. A opinião pública e os responsáveis políticos estão preocupados com isso; e os estudiosos das mais diversas disciplinas debruçam-se sobre as causas do que sucede. Está assim a formar-se uma consciência ecológica, que não deve ser reprimida, mas antes favorecida, de maneira que se desenvolva e vá amadurecendo até encontrar expressão adequada em programas e iniciativas concretas.

2. Não poucos valores éticos, de importância fundamental para o progresso de uma sociedade pacífica, têm uma relação directa com a questão do ambiente. A interdependência dos muitos desafios, que o mundo de hoje tem de enfrentar, confirma a exigência de soluções coordenadas e baseadas numa coerente visão moral do mundo. Para os cristãos, essa visão apoia-se nas convicções religiosas derivantes da Revelação. É por isso que, ao iniciar esta mensagem desejo aqui lembrar a narração bíblica da criação e gostaria que aqueles que não compartilham as nossas convicções de fé pudessem encontrar também eles nessa evocação elementos úteis para uma linha comum de reflexão e de empenhamento.

 
I. E Deus viu que as coisas eram boas

3. Nas páginas do Livro do Gênesis, em que está exaltada a primeira auto-revelação de Deus à humanidade (Gen 1-3), são repetidas, como um refrão, as palavras: “E Deus viu que as coisas eram boas”. Mas quando, depois de ter criado o céu, o mar, a terra e tudo o que nela se contêm, Deus criou o homem e a mulher, tal expressão muda consideravelmente: «E Deus contemplou tudo o que tinha feito; e eis que estava tudo muito bem» (Gen 1, 31). Deus confiou ao homem e à mulher todo o resto da criação e então – conforme aí lemos – pode repousar «do trabalho por Ele realizado» (Gen 2, 3). O chamamento de Adão e Eva a participarem na realização do plano de Deus sobre a criação estimulava aquelas capacidades e aqueles dotes que distinguem a pessoa humana de todas as demais criaturas; e, ao mesmo tempo, estabelecia uma relação ordenada entre os homens e a inteira criação. Feitos à imagem e semelhança de Deus, Adão e Eva deveriam exercer o seu domínio sobre a terra (Gen 1, 28), com sabedoria e com amor. Mas eles, ao contrário, com o próprio pecado destruíram a harmonia existente, pondo-se deliberadamente contra o desígnio do Criador. Isto levou não só à alienação do homem de si mesmo, à morte, e ao fratricídio, mas também a uma certa rebelião da mesma terra em relação a ele (cf. Gen 3, 17-19; 4, 12). Toda a criação se tornou sujeita à caducidade e, desde então, espera, de maneira misteriosa, ser libertada, também ela, para entrar na gloriosa liberdade dos filhos de Deus (cf. Rom 8, 21).

4. Os cristãos professam que na morte e na ressurreição de Cristo se realizou a obra da reconciliação da humanidade com o Pai, ao qual aprouve «reconciliar consigo todas as coisas, quer na terra, quer no céu, estabelecendo a paz pelo sangue da sua cruz» (Col 1, 19-20). A criação foi assim renovada (cf. Ap 21, 5) e sobre ela, anteriormente submetida à «escravidão» da morte e da corrupção (cf. Rom 8, 21), foi difundida uma vida nova, enquanto que «nós esperamos céus novos e uma nova terra, nos quais habitará a justiça» (2 Pdr 3, 13). Deste modo, o Pai «deu-nos a conhecer o mistério da sua vontade, conforme o seu benévolo desígnio que, nele, de antemão estabelecera, para ser realizado depois, na plenitude dos tempos, a saber: reunir sob a chefia de Cristo todas as coisas» (Ef 1, 9-10).

5. Estas reflexões bíblicas lançam uma luz maior sobre a relação entre o agir humano e a integridade da criação. Quando o homem se afasta do desígnio de Deus criador, provoca uma desordem que se repercute inevitavelmente sobre o resto do universo. Se o homem não estiver em paz com Deus, também a própria terra não estará em paz: «Por isso a terra está de luto, desfalecem quantos nela habitam com os animais do campo e as aves do céu; por fim, até os peixes do mar perecerão» (Os 4, 3). A experiência deste «sofrimento» da terra é comum também àqueles que não compartilham a nossa fé em Deus. Estão, efetivamente, diante dos olhos de todos as devastações crescentes, causadas no mundo da natureza pelo comportamento de homens indiferentes às exigências da ordem e da harmonia que o regem, exigências recônditas sim, mas claramente perceptíveis. Faz-se, portanto, a pergunta, com ansiedade, se será possível ainda dar remédio aos danos provocados. É evidente que uma solução adequada não pode consistir simplesmente numa melhor gestão, ou num uso menos irracional dos recursos da terra. Muito embora se reconheça a utilidade prática de semelhantes providências, parece ser necessário examinar a fundo e enfrentar no seu conjunto a grave crise moral de que a degradação do ambiente é um dos aspectos preocupantes.

II. A crise ecológica: um problema moral

6. Alguns elementos da crise ecológica atual revelam de maneira evidente o seu caráter moral. Entre esses elementos tem de se enumerar, em primeiro lugar, a aplicação sem discernimento dos progressos cientificos e tecnológicos. Muitas descobertas recentes têm trazido inegavelmente benefícios para a humanidade; mais ainda, elas manifestam quanto é nobre a vocação do homem para participar de modo responsável na acção criadora de Deus no mundo. Já se verificou, porém, que a aplicação de algumas dessas descobertas no campo industrial e agrícola, a longo prazo produzem efeitos negativos. Isto pôs cruamente em evidência que toda e qualquer intervenção numa área determinada do «ecossistema» não pode prescindir da considerarão das suas consequências noutras áreas e, em geral, das consequências no bem-estar das futuras gerações. O gradual esgotamento do estrato do ozônio e o consequente «efeito estufa» que ele provoca já atingiram dimensões críticas, por causa da crescente difusão das indústrias, das grandes concentrações urbanas e dos consumos de energia. Escórias industriais, gases produzidos pela combustão de carburantes fósseis, desflorestação imoderada, uso de alguns tipos de herbicidas, refrigerantes e propelentes, tudo isto, como se sabe, é nocivo para a atmosfera e para o ambiente. Daí resultam múltiplas mudanças meteorológicas e atmosféricas, cujos efeitos vão desde o prejuízos para a saúde até à possível submersão, no futuro, de terras baixas. Enquanto em alguns casos a danificação já é talvez irreversível, em muitos outros casos ela pode ser ainda entravada. É um dever, portanto, que se impõe à inteira família humana – indivíduos, Estados e Organismos internacionais – assumir cada um seriamente as próprias responsabilidades.

7. Mas o índice mais profundo e mais grave das implicações morais, ínsitas na problemática ecológica, é constituído pela falta de respeito pela vida, como se pode verificar em muitos comportamentos inquinantes. Muitas vezes as condições da produção prevalecem sobre a dignidade do trabalhador e os interesses econômicos são postos acima do bem de cada uma das pessoas, se não mesmo acima do bem de populações inteiras. Nestes casos, o inquinamento e a destruição do ambiente são fruto de uma visão redutiva e inatural que, algumas vezes, denota um verdadeiro desprezo do homem. De modo análogo, sucede que melindrosos equilíbrios ecológicos são profundamente alterados, por uma descomedida destruição das espécies animais e vegetais, ou por uma desavisada exploração dos recursos; e tudo isto – é bom recordá-lo – mesmo quando é realizado em nome do progresso e do bem-estar, não se torna, de fato, uma vantagem para a humanidade. Por fim, não pode deixar de se atender, com profunda inquietação, às possibilidades formidáveis da pesquisa biológica. Talvez ainda não se esteja em condições de avaliar as perturbações provocadas na natureza por uma indiscriminada manipulação genética e pelo imprudente desenvolvimento de novas plantas e de novas formas de vida animal, para não falar já de inaceitáveis intervenções sobre as origens da própria vida humana. A ninguém passa despercebido que, num campo tão delicado, a indiferença ou a rejeição das normas éticas fundamentais levam o homem às portas da própria autodestruição. A norma fundamental, capaz de inspirar um sadio progresso econômico, industrial e científìco, é o respeito pela vida e, em primeiro lugar, pela dignidade da pessoa humana. Para todos é evidente a complexidade do problema ecológico. Há no entanto, alguns princípios basilares que, com o respeito da autonomia legítima e da competência específica de quantos estão empenhados em buscar-lhe uma solução, podem orientar a pesquisa no sentido de soluções adequadas e duradouras. Trata-se de uma série de princípios essenciais para construir uma sociedade pacífica, a qual não poderá ignorar nem o respeito pela vida, nem o sentido da integridade da criação.

 
III. Em busca de uma solução

8. Teologia, filosofia e ciência estão de acordo quanto a uma concepção do universo harmonioso; isto é, de um verdadeiro «cosmos», dotado de uma sua integridade e um seu equilíbrio interno e dinâmico. Esta ordem tem de ser respeitada: a humanidade está chamada a descobrir e explorar este «cosmos» com sapiente cautela; e depois, a fazer uso dele salvaguardando a sua integridade. Por outro lado, a terra é essencialmente uma herança comum, cujos frutos devem reverter em benefício de todos. «Deus destinou a terra e tudo o que ela contém para uso de todos os homens e de todos os povos», reafirmou o Concílio Vaticano II (Const. Gaudium et spes, n. 69). Ora isto tem implicações diretas no nosso problema. É injusto que alguns poucos privilegiados continuem a acumular bens supérfluos, dilapidando os recursos disponíveis, enquanto há multidões de pessoas que vivem em condições de miséria, ao nível ínfimo de sobrevivência. E vem agora a própria dimensão dramática do desajuste ecológico ensinar-nos quanto a cobiça e o egoísmo, individuais ou coletivos, são contrários à ordem do universo, no qual está inscrita também a interdependência recíproca.

9. Os conceitos de ordem no universo e de herança comum põem, ambos eles, em realce, a necessidade de um sistema de gestão dos recursos da terra mais bem coordenado a nível internacional. As dimensões do problema do ambiente, em muitos casos, transcendem as fronteiras de cada Estado: a sua solução, portanto, não pode ser encontrada somente a nível nacional. Em tempos recentes, registaram-se alguns passos prometedores, no sentido desta desejada ação internacional concertada; mas os instrumentos e os organismos que existem mostram-se ainda inadequados para ser posto em prática um plano coordenado de intervenções. Obstáculos políticos, formas de nacionalismo exagerado e interesses econômicos, para lembrar somente alguns fatores, entravam ou até impedem mesmo a cooperação internacional e a adopção de iniciativas eficazes a longo prazo. A afirmada necessidade de uma ação concertada a nível internacional não comporta, como é obvio, uma diminuição da responsabilidade de cada um dos Estados. Com efeito, estes devem não somente pôr em prática as normas aprovadas juntamente com as autoridades de outros Estados, mas também favorecer, no seu interior, uma contextura sócio-econômica adequada, com particular atenção aos setores da sociedade mais vulneráveis. Compete a cada Estado, no âmbito do próprio território, a tarefa de prevenir a degradação da atmosfera e da biosfera, exercendo um controlo atento, além do mais, sobre os efeitos das novas descobertas tecnológicas e científicas; e ainda, dando aos próprios cidadãos a garantia de não estarem expostos a agentes inquinantes e a emanações tóxicas. Hoje em dia, vai-se falando cada vez mais frequentemente do direito a um ambiente seguro, como de algo que deve passar a figurar numa Carta atualizada dos direitos do homem.

 
IV. A urgência de uma nova solidariedade

10. A crise ecológica põe em evidência a urgente necessidade moral de uma nova solidariedade, especialmente nas relações entre os países em vias de desenvolvimento e os países altamente industrializados. Os Estados devem demonstrar-se cada vez mais solidários na promoção do desenvolvimento de um ambiente natural e social pacífico e salubre. Por exemplo, aos países de há pouco industrializados não se pode requerer que apliquem certas normas restritivas às próprias indústrias nascentes, se os países industrializados há muito não forem os primeiros a aplicá-las no seu interior. Por seu turno, os países em vias de industrialização não podem moralmente repetir os erros cometidos por outros no passado, continuando a danificar o ambiente com produtos poluentes, com desflorestações excessivas ou com a exploração ilimitada de recursos que se esgotem. Neste mesmo contexto, é urgente que se encontre uma solução para o problema do tratamento e da eliminação dos detritos tóxicos. Nenhum plano e nenhuma organização, todavia, estão em condições de efetuar as mudanças entrevistas, se os responsáveis das Nações de todo o mundo não estiverem verdadeiramente convencidos da necessidade absoluta desta nova solidariedade, que é exigida pela crise ecológica e que é essencial para a paz. Semelhante exigência proporcionará ocasiões oportunas para consolidar as relações pacíficas entre os Estados.

11. Importa acrescentar, ainda, que não se obterá nunca o justo equilíbrio ecológico, se não forem primeiro enfrentadas directamente as formas estruturais de pobreza existentes no mundo. Por exemplo, a pobreza rural e a distribuição da terra em muitos países levaram a uma agricultura de mera subsistência e ao empobrecimento dos terrenos. Quando a terra deixa de produzir, muitos agricultores transferem-se para outras zonas, incrementando muitas vezes o processo de desflorestação imoderada; ou então estabelecem-se em centros urbanos já carentes de estruturas e serviços. Além disto, sucede que alguns países fortemente endividados estão a pontos de destruir o próprio património natural, à custa de irremediáveis desequilíbrios ecológicos, contanto que consigam obter novos produtos de exportação. Diante de tais situações, porém, lançar acusações somente aos pobres, pelo que se refere às consequências negativas sobre o ambiente por eles provocadas, seria uma maneira inaceitável para avaliar as responsabilidades. É necessário, antes de mais, ajudar os pobres, a quem a terra está confiada, como aliás o está a todos os demais, a superarem a sua pobreza; e isto requer uma reforma corajosa das estruturas e novos esquemas nas relações entre os Estados e os povos.

12. Mas há ainda uma outra ameaça perigosa, que incumbe sobre nós: a guerra. A ciência moderna já dispõe, infelizmente, da capacidade de modificar o ambiente com intuitos hostis; e tal manumissão, a longo prazo, poderia vir a ter efeitos imprevisíveis e ainda mais graves. Não obstante haver acordos internacionais que proíbem a guerra química, bacteriológica e biológica, subsiste o fato de continuarem nos laboratórios as pesquisas para o desenvolvimento de novas armas ofensivas, capazes de alterarem os equilibrios naturais. Hoje em dia, qualquer forma de guerra a escala mundial causaria danos ecológicos incalculáveis. Mas até mesmo as guerras locais ou regionais, por mais limitadas que sejam, não se limitam a destruir apenas as vidas humanas e as estruturas da sociedade; mas danificam a terra, devastando as colheitas e a vegetação e envenenando os terrenos e as águas. Aqueles que sobrevivem à guerra vêem-se na necessidade de começar uma nova vida em condições naturais muito difíceis; e estas, por sua vez, criam situações de grave mal-estar social, com consequências negativas também na ordem do ambiente.

13. A sociedade hodierna não encontrará solução para o problema ecológico, se não revir seriamente o seu estilo de vida. Em muitas partes do mundo, ela mostra-se propensa ao hedonismo e ao consumismo e permanece indiferente aos danos que deles derivam. Como já observei, a gravidade da situação ecológica revela quanto é profunda a crise moral do homem. Se faltar o sentido do valor da pessoa e da vida humana, dá-se o desinteresse pelos outros e pela terra. A austeridade, a temperança, a disciplina e o espírito de sacrifício devem conformar a vida de todos os dias, a fim de que não se verifique para todos o constrangimento a suportar as consequências negativas da incúria de alguns poucos. Há uma necessidade urgente, pois, de educação para a responsabilidade ecológica: responsabilidade em relação a si próprio, responsabilidade em relação aos outros e responsabilidade em relação ao ambiente. E trata-se de uma educação que não pode basear-se simplesmente no sentimento ou sobre uma mal definida veleidade. O seu fim não pode ser ideológico nem político e a maneira de a estruturar não pode apoiar-se na rejeição do mundo moderno, nem num vago desejo de retornar ao «paraíso perdido». A educação autêntica para a responsabilidade implica uma verdadeira conversão na maneira de pensar e no comportamento. E quanto a isso, as Igrejas e as outras Instituições religiosas, os organismos governativos e não-governativos, como também todos os componentes da sociedade têm um papel bem determinado a desempenhar. A primeira educadora, no entanto, permanece a família, na qual as crianças aprendem a respeitar o próximo e a amar a natureza.

14. Não se pode descurar, por fim, o valor estético da criação. O contato com a natureza é em si mesmo algo profundamente regenerador, assim como a contemplação do seu esplendor é susceptível de dar paz e serenidade. A Bíblia fala com frequência da bondade e da beleza da criação, chamada a dar glória a Deus (cf., por exemplo, Gen 1, 4 e passim; Sl 8, 2; 104, 1 ss.; Sab 13, 3-5; Sir 39, 16. 33; 43, 1. 9). Talvez mais difícil, mas não menos intensa pode ser a contemplação das obras do engenho humano. As cidades também podem ter uma sua beleza peculiar, que deve levar as pessoas a protegerem o ambiente que as circunda. Uma boa planificação urbana constitui um aspecto importante da proteção do ambiente; e o respeito pelas características morfológicas da terra é um requisito indispensável para uma implantação ecologicamente correta. Numa palavra, não se deve descurar nunca a relação que existe entre uma formação estética apropriada e a preservação de um ambiente sadio.

 
V. A questão ecológica: uma responsabilìdade para todos

15. A questão ecológica nos dias de hoje assumiu tais dimensões, que nela está envolvida a responsabilidade de todos. Os vários aspectos da mesma, que procurei ilustrar, indicam a necessidade de esforços conjugados, com o fim de estabelecer os deveres e as tarefas que competem às pessoas individualmente consideradas, aos povos, aos Estados e à Comunidade internacional. Isto não somente anda junto com as tentativas para construir a paz, mas objetivamente também as confirma e reforça. Inserindo a questão ecológica no contexto mais vasto da causa da paz na sociedade humana, melhor nos darmos conta quanto é importante prestar atenção àquilo que a terra e a atmosfera nos revelam: existe no universo uma ordem que deve ser respeitada; e a pessoa humana, dotada da possibilidade de livre escolha, tem uma grave responsabilidade na preservação desta ordem, também em função do bem-estar das gerações futuras. A crise ecológica – uma vez mais o repito – é um problema moral. Até mesmo os homens e mulheres que não têm particulares convicções religiosas, também eles, levados pelo sentido das próprias responsabilidades em relação ao bem comum, reconhecem o dever de contribuir para o saneamento do ambiente. Com maior razão, aqueles que acreditam em Deus criador e, por conseguinte, estão convencidos que existe no mundo uma ordem bem definida e que tem uma finalidade, devem sentir-se chamados a atender ao problema. Os cristãos, em particular, advertem que a sua tarefa no seio da criação e os seus deveres em relação à natureza e ao Criador fazem parte da sua fé. Devem estar conscientes, portanto, do vasto campo de cooperação ecumênica e inter-religiosa que se abre diante deles.

16. Ao concluir esta mensagem, desejo dirigir-me especialmente aos meus Irmãos e às minhas Irmãs da Igreja católica, para lhes recordar a obrigação importante de tomarem cuidado com tudo o que foi criado. O empenhamento de quem acredita em Deus por um ambiente sadio promana diretamente da sua fé no mesmo Deus criador, das avaliações dos efeitos do pecado original e dos pecados pessoais e da certeza de terem sido remidos por Cristo. O respeito pela vida e pela dignidade da pessoa humana inclui também o respeito e o cuidado pelo universo criado, que está chamado a unir-se com o homem para glorificar a Deus (cf. Sl 148 e 96). São Francisco de Assis, que proclamei em 1979 Patrono dos cultores da Ecologia (cf. Carta Apost. Inter Sanctos: AAS 71 [1979], pp. 1509-1510), dá aos cristãos o exemplo de um respeito pleno e autêntico pela integridade da criação. Amigo dos pobres e amado pelas criaturas de Deus, ele convidou a todos – animais, plantas, forças naturais e até mesmo o irmão Sol e a irmã Lua – a honrarem e louvarem o Senhor. Do mesmo «Pobrezinho» de Assis nos vem o testemunho de que: estanto em paz com Deus, melhor nos podemos consagrar a construir a paz com toda a criação, inseparável da paz entre os povos. São meus votos que a sua inspiração: nos ajude a conservar sempre vivo o sentido da «fraternidade» com todas as coisas boas e belas criadas por Deus onipotente; e nos alerte para o grave dever de as respeitar e conservar com cuidado, no quadro da mais ampla e mais elevada fraternidade humana.

 
Vaticano, 8 de Dezembro do ano de 1989.

IOANNES PAULUS PP II

 
Fonte: http://www.vatican.va/holy_father/john_paul_ii/messages/peace/documents/hf_jpii_mes_19891208_xxiii-world-day-for-peace_po.html



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MENSAGEM DE SUA SANTIDADE
BENTO XVI
PARA A CELEBRAÇÃO DO
DIA MUNDIAL DA PAZ
1 DE JANEIRO DE 2010

SE QUISERES CULTIVAR A PAZ, PRESERVA A CRIAÇÃO




1. Por ocasião do início do Ano Novo, desejo expressar os mais ardentes votos de paz a todas as comunidades cristãs, aos responsáveis das nações, aos homens e mulheres de boa vontade do mundo inteiro. Para este XLIII Dia Mundial da Paz, escolhi o tema: Se quiseres cultivar a paz, preserva a criação. O respeito pela criação reveste-se de grande importância, designadamente porque «a criação é o princípio e o fundamento de todas as obras de Deus» [1] e a sua salvaguarda torna-se hoje essencial para a convivência pacífica da humanidade. Com efeito, se são numerosos os perigos que ameaçam a paz e o autêntico desenvolvimento humano integral, devido à desumanidade do homem para com o seu semelhante – guerras, conflitos internacionais e regionais, atos terroristas e violações dos direitos humanos –, não são menos preocupantes os perigos que derivam do desleixo, se não mesmo do abuso, em relação à terra e aos bens naturais que Deus nos concedeu. Por isso, é indispensável que a humanidade renove e reforce «aquela aliança entre ser humano e ambiente que deve ser espelho do amor criador de Deus, de Quem provimos e para Quem estamos a caminho». [2]

2. Na encíclica Caritas in veritate, pus em realce que o desenvolvimento humano integral está intimamente ligado com os deveres que nascem da relação do homem com o ambiente natural, considerado como uma dádiva de Deus para todos, cuja utilização comporta uma responsabilidade comum para com a humanidade inteira, especialmente os pobres e as gerações futuras. Assinalei também que corre o risco de atenuar-se, nas consciências, a noção da responsabilidade, quando a natureza e sobretudo o ser humano são considerados simplesmente como fruto do acaso ou do determinismo evolutivo. [3] Pelo contrário, conceber a criação como dádiva de Deus à humanidade ajuda-nos a compreender a vocação e o valor do homem; na realidade, cheios de admiração, podemos proclamar com o salmista: «Quando contemplo os céus, obra das vossas mãos, a lua e as estrelas que lá colocastes, que é o homem para que Vos lembreis dele, o filho do homem para dele Vos ocupardes?» (Sl 8, 4-5). Contemplar a beleza da criação é um estímulo para reconhecer o amor do Criador; aquele Amor que «move o sol e as outras estrelas». [4]

3. Há vinte anos, ao dedicar a Mensagem do Dia Mundial da Paz ao tema Paz com Deus criador, paz com toda a criação, o Papa João Paulo II chamava a atenção para a relação que nós, enquanto criaturas de Deus, temos com o universo que nos circunda. «Observa-se nos nossos dias – escrevia ele – uma consciência crescente de que a paz mundial está ameaçada (…) também pela falta do respeito devido à natureza». E acrescentava que esta consciência ecológica «não deve ser reprimida mas antes favorecida, de maneira que se desenvolva e vá amadurecendo até encontrar expressão adequada em programas e iniciativas concretas». [5] Já outros meus predecessores se referiram à relação existente entre o homem e o ambiente; por exemplo, em 1971, por ocasião do octogésimo aniversário da encíclica Rerum novarum de Leão XIII, Paulo VI houve por bem sublinhar que, «por motivo de uma exploração inconsiderada da natureza, [o homem] começa a correr o risco de a destruir e de vir a ser, também ele, vítima dessa degradação». E acrescentou que, deste modo, «não só o ambiente material se torna uma ameaça permanente – poluições e lixo, novas doenças, poder destruidor absoluto – mas é o próprio contexto humano que o homem não consegue dominar, criando assim para o dia de amanhã um ambiente global que se lhe poderá tornar insuportável. Problema social de grande envergadura, este, que diz respeito à inteira família humana». [6]

4. Embora evitando de intervir sobre soluções técnicas específicas, a Igreja, «perita em humanidade», tem a peito chamar vigorosamente a atenção para a relação entre o Criador, o ser humano e a criação. Em 1990, João Paulo II falava de «crise ecológica» e, realçando o caráter prevalecentemente ético de que a mesma se revestia, indicava «a urgente necessidade moral de uma nova solidariedade». [7] Hoje, com o proliferar de manifestações duma crise que seria irresponsável não tomar em séria consideração, tal apelo aparece ainda mais premente. Pode-se porventura ficar indiferente perante as problemáticas que derivam de fenômenos como as alterações climáticas, a desertificação, o deterioramento e a perda de produtividade de vastas áreas agrícolas, a poluição dos rios e dos lençóis de água, a perda da biodiversidade, o aumento de calamidades naturais, o desflorestamento das áreas equatoriais e tropicais? Como descurar o fenômeno crescente dos chamados «refugiados ambientais», ou seja, pessoas que, por causa da degradação do ambiente onde vivem, se vêem obrigadas a abandoná-lo – deixando lá muitas vezes também os seus bens – tendo de enfrentar os perigos e as incógnitas de uma deslocação forçada? Com não reagir perante os conflitos, já em ato ou potenciais, relacionados com o acesso aos recursos naturais? Trata-se de um conjunto de questões que têm um impacto profundo no exercício dos direitos humanos, como, por exemplo, o direito à vida, à alimentação, à saúde, ao desenvolvimento.

5. Entretanto tenha-se na devida conta que não se pode avaliar a crise ecológica prescindindo das questões relacionadas com ela, nomeadamente o próprio conceito de desenvolvimento e a visão do homem e das suas relações com os seus semelhantes e com a criação. Por isso, é decisão sensata realizar uma revisão profunda e clarividente do modelo de desenvolvimento e também refletir sobre o sentido da economia e dos seus objetivos, para corrigir as suas disfunções e deturpações. Exige-o o estado de saúde ecológica da terra; reclama-o também e sobretudo a crise cultural e moral do homem, cujos sintomas há muito tempo que se manifestam por toda a parte. [8] A humanidade tem necessidade de uma profunda renovação cultural; precisa de redescobrir aqueles valores que constituem o alicerce firme sobre o qual se pode construir um futuro melhor para todos. As situações de crise que está atravessando, de caráter econômico, alimentar, ambiental ou social, no fundo são também crises morais e estão todas interligadas. Elas obrigam a projetar de novo a estrada comum dos homens. Impõem, de maneira particular, um modo de viver marcado pela sobriedade e solidariedade, com novas regras e formas de compromisso, apostando com confiança e coragem nas experiências positivas realizadas e rejeitando decididamente as negativas. É o único modo de fazer com que a crise atual se torne uma ocasião para discernimento e nova projeção.

6. Porventura não é verdade que, na origem daquela que em sentido cósmico chamamos «natureza», há «um desígnio de amor e de verdade»? O mundo «não é fruto duma qualquer necessidade, dum destino cego ou do acaso, (…) procede da vontade livre de Deus, que quis fazer as criaturas participantes do seu Ser, da sua sabedoria e da sua bondade». [9] Nas suas páginas iniciais, o livro do Gênesis introduz-nos no projeto sapiente do cosmos, fruto do pensamento de Deus, que, no vértice, colocou o homem e a mulher, criados à imagem e semelhança do Criador, para «encher e dominar a terra» como «administradores» em nome do próprio Deus (cf. Gn 1, 28). A harmonia descrita na Sagrada Escritura entre o Criador, a humanidade e a criação foi quebrada pelo pecado de Adão e Eva, do homem e da mulher, que pretenderam ocupar o lugar de Deus, recusando reconhecer-se como suas criaturas. Em consequência, ficou deturpada também a tarefa de «dominar» a terra, de a «cultivar e guardar» e gerou-se um conflito entre eles e o resto da criação (cf. Gn 3, 17-19). O ser humano deixou-se dominar pelo egoísmo, perdendo o sentido do mandato de Deus, e, no relacionamento com a criação, comportou-se como explorador pretendendo exercer um domínio absoluto sobre ela. Mas o verdadeiro significado do mandamento primordial de Deus, bem evidenciado no livro do Gênesis, não consistia numa simples concessão de autoridade, mas antes num apelo à responsabilidade. Aliás, a sabedoria dos antigos reconhecia que a natureza está à nossa disposição, mas não como «um monte de lixo espalhado ao acaso», [10] enquanto a Revelação bíblica nos fez compreender que a natureza é dom do Criador, o Qual lhe traçou os ordenamentos intrínsecos a fim de que o homem pudesse deduzir deles as devidas orientações para a «cultivar e guardar» (cf. Gen 2, 15). [11] Tudo o que existe pertence a Deus, que o confiou aos homens, mas não à sua arbitrária disposição. E quando o homem, em vez de desempenhar a sua função de colaborador de Deus, se coloca no lugar de Deus, acaba por provocar a rebelião da natureza, «mais tiranizada que governada por ele». [12] O homem tem, portanto, o dever de exercer um governo responsável da criação, preservando-a e cultivandoa. [13]

7. Infelizmente temos de constatar que um grande número de pessoas, em vários países e regiões da terra, experimenta dificuldades cada vez maiores, porque muitos se descuidam ou se recusam a exercer sobre o ambiente um governo responsável. O Concílio Ecumênico Vaticano II lembrou que «Deus destinou a terra com tudo o que ela contém para uso de todos os homens e povos». [14] Por isso, a herança da criação pertence à humanidade inteira. Entretanto o ritmo atual de exploração põe seriamente em perigo a disponibilidade de alguns recursos naturais não só para a geração atual, mas sobretudo para as gerações futuras. [15] Ora não é difícil constatar como a degradação ambiental é muitas vezes o resultado da falta de projetos políticos clarividentes ou da persecução de míopes interesses econômicos, que se transformam, infelizmente, numa séria ameaça para a criação. Para contrastar tal fenômeno, na certeza de que «cada decisão econômica tem consequências de caráter moral», [16] é necessário também que a atividade econômica seja mais respeitadora do ambiente. Quando se lança mão dos recursos naturais, é preciso preocupar-se com a sua preservação prevendo também os seus custos em termos ambientais e sociais, que se devem contabilizar como uma parcela essencial da atividade econômica. Compete à comunidade internacional e aos governos nacionais dar os justos sinais para contrastar de modo eficaz, no uso do ambiente, as modalidades que resultem danosas para o mesmo. Para proteger o ambiente e tutelar os recursos e o clima é preciso, por um lado, agir no respeito de normas bem definidas mesmo do ponto de vista jurídico e econômico e, por outro, ter em conta a solidariedade devida a quantos habitam nas regiões mais pobres da terra e às gerações futuras.

8. Na realidade, é urgente a obtenção de uma leal solidariedade entre as gerações. Os custos resultantes do uso dos recursos ambientais comuns não podem ficar a cargo das gerações futuras. «Herdeiros das gerações passadas e beneficiários do trabalho dos nossos contemporâneos, temos obrigações para com todos, e não podemos desinteressar-nos dos que virão depois de nós aumentar o círculo da família humana. A solidariedade universal é para nós não só um fato e um benefício, mas também um dever. Trata-se de uma responsabilidade que as gerações presentes têm em relação às futuras, uma responsabilidade que pertence também a cada um dos Estados e à comunidade internacional». [17] O uso dos recursos naturais deverá verificar-se em condições tais que as vantagens imediatas não comportem consequências negativas para os seres vivos, humanos e não humanos, presentes e vindouros; que a tutela da propriedade privada não dificulte o destino universal dos bens; [18] que a intervenção do homem não comprometa a fecundidade da terra para benefício do dia de hoje e do amanhã. Para além de uma leal solidariedade entre as gerações, há que reafirmar a urgente necessidade moral de uma renovada solidariedade entre os indivíduos da mesma geração, especialmente nas relações entre os países em vias de desenvolvimento e os países altamente industrializados: «A comunidade internacional tem o imperioso dever de encontrar as vias institucionais para regular a exploração dos recursos não renováveis, com a participação também dos países pobres, de modo a planificar em conjunto o futuro». [19] A crise ecológica manifesta a urgência de uma solidariedade que se projete no espaço e no tempo. Com efeito, é importante reconhecer, entre as causas da crise ecológica atual, a responsabilidade histórica dos países industrializados. Contudo os países menos desenvolvidos e, de modo particular, os países emergentes não estão exonerados da sua própria responsabilidade para com a criação, porque o dever de adotar gradualmente medidas e políticas ambientais eficazes pertence a todos. Isto poder-se-ia realizar mais facilmente se houvesse cálculos menos interesseiros na assistência, na transferência dos conhecimentos e tecnologias menos poluidoras.

9. Um dos nós principais a enfrentar pela comunidade internacional é, sem dúvida, o dos recursos energéticos, delineando estratégias compartilhadas e sustentáveis para satisfazer as necessidades de energia da geração atual e das gerações futuras. Para isso, é preciso que as sociedades tecnologicamente avançadas estejam dispostas a favorecer comportamentos caracterizados pela sobriedade, diminuindo as próprias necessidades de energia e melhorando as condições da sua utilização. Ao mesmo tempo é preciso promover a pesquisa e a aplicação de energias de menor impacto ambiental e a «redistribuição mundial dos recursos energéticos, de modo que os próprios países desprovidos possam ter acesso aos mesmos». [20] Deste modo, a crise ecológica oferece uma oportunidade histórica para elaborar uma resposta coletiva tendente a converter o modelo de desenvolvimento global segundo uma direção mais respeitadora da criação e de um desenvolvimento humano integral, inspirado nos valores próprios da caridade na verdade. Faço votos, portanto, de que se adote um modelo de desenvolvimento fundado na centralidade do ser humano, na promoção e partilha do bem comum, na responsabilidade, na consciência da necessidade de mudar os estilos de vida e na prudência, virtude que indica as ações que se devem realizar hoje na previsão do que poderá suceder amanhã. [21]

10. A fim de guiar a humanidade para uma gestão globalmente sustentável do ambiente e dos recursos da terra, o homem é chamado a concentrar a sua inteligência no campo da pesquisa científica e tecnológica e na aplicação das descobertas que daí derivam. A «nova solidariedade», que João Paulo II propôs na Mensagem para o Dia Mundial da Paz de 1990,[22] e a «solidariedade global», a que eu mesmo fiz apelo na Mensagem para o Dia Mundial da Paz de 2009, [23] apresentam-se como atitudes essenciais para orientar o compromisso de tutela da criação através de um sistema de gestão dos recursos da terra melhor coordenado a nível internacional, sobretudo no momento em que se vê aparecer, de forma cada vez mais evidente, a forte relação que existe entre a luta contra a degradação ambiental e a promoção do desenvolvimento humano integral. Trata-se de uma dinâmica imprescindível, já que «o desenvolvimento integral do homem não pode realizar-se sem o desenvolvimento solidário da humanidade». [24] Muitas são hoje as oportunidades científicas e os potenciais percursos inovadores, mediante os quais é possível fornecer soluções satisfatórias e respeitadoras da relação entre o homem e o ambiente. Por exemplo, é preciso encorajar as pesquisas que visam identificar as modalidades mais eficazes para explorar a grande potencialidade da energia solar. A mesma atenção se deve prestar à questão, hoje mundial, da água e ao sistema hidrogeológico global, cujo ciclo se reveste de primária importância para a vida na terra, mas está fortemente ameaçado na sua estabilidade pelas alterações climáticas. De igual modo deve-se procurar apropriadas estratégias de desenvolvimento rural centradas nos pequenos cultivadores e nas suas famílias, sendo necessário também elaborar políticas idôneas para a gestão das florestas, o tratamento do lixo, a valorização das sinergias existentes no contraste às alterações climáticas e na luta contra a pobreza. São precisas políticas nacionais ambiciosas, completadas pelo necessário empenho internacional que há-de trazer importantes benefícios sobretudo a médio e a longo prazo. Enfim, é necessário sair da lógica de mero consumo para promover formas de produção agrícola e industrial que respeitem a ordem da criação e satisfaçam as necessidades primárias de todos. A questão ecológica não deve ser enfrentada apenas por causa das pavorosas perspectivas que a degradação ambiental esboça no horizonte; o motivo principal há-de ser a busca duma autêntica solidariedade de dimensão mundial, inspirada pelos valores da caridade, da justiça e do bem comum. Por outro lado, como já tive ocasião de recordar, a técnica «nunca é simplesmente técnica; mas manifesta o homem e as suas aspirações ao desenvolvimento, exprime a tensão do ânimo humano para uma gradual superação de certos condicionamentos materiais. Assim, a técnica insere-se no mandato de “cultivar e guardar a terra” (cf. Gen 2, 15) que Deus confiou ao homem, e há-de ser orientada para reforçar aquela aliança entre ser humano e ambiente em que se deve reflectir o amor criador de Deus». [25]

11. É cada vez mais claro que o tema da degradação ambiental põe em questão os comportamentos de cada um de nós, os estilos de vida e os modelos de consumo e de produção hoje dominantes, muitas vezes insustentáveis do ponto de vista social, ambiental e até econômico. Torna-se indispensável uma real mudança de mentalidade que induza a todos a adoptarem novos estilos de vida, «nos quais a busca do verdadeiro, do belo e do bom e a comunhão com os outros homens, em ordem ao crescimento comum, sejam os elementos que determinam as opções do consumo, da poupança e do investimento». [26] Deve-se educar cada vez mais para se construir a paz a partir de opções clarividentes a nível pessoal, familiar, comunitário e político. Todos somos responsáveis pela proteção e cuidado da criação. Tal responsabilidade não conhece fronteiras. Segundo o princípio de subsidiariedade, é importante que cada um, no nível que lhe corresponde, se comprometa a trabalhar para que deixem de prevalecer os interesses particulares. Um papel de sensibilização e formação compete de modo particular aos vários sujeitos da sociedade civil e às organizações não-governamentais, empenhados com determinação e generosidade na difusão de uma responsabilidade ecológica, que deveria aparecer cada vez mais ancorada ao respeito pela «ecologia humana». Além disso, é preciso lembrar a responsabilidade dos meios de comunicação social neste âmbito, propondo modelos positivos que sirvam de inspiração. É que ocupar-se do ambiente requer uma visão larga e global do mundo; um esforço comum e responsável a fim de passar de uma lógica centrada sobre o interesse egoísta da nação para uma visão que sempre abrace as necessidades de todos os povos. Não podemos permanecer indiferentes àquilo que sucede ao nosso redor, porque a deterioração de uma parte qualquer do mundo recairia sobre todos. As relações entre pessoas, grupos sociais e Estados, bem como as relações entre homem e ambiente são chamadas a assumir o estilo do respeito e da «caridade na verdade». Neste contexto alargado, é altamente desejável que encontrem eficaz correspondência os esforços da comunidade internacional que visam obter um progressivo desarmamento e um mundo sem armas nucleares, cuja mera presença ameaça a vida da terra e o processo de desenvolvimento integral da humanidade atual e futura.

12. A Igreja tem a sua parte de responsabilidade pela criação e sente que a deve exercer também em âmbito público, para defender a terra, a água e o ar, dádivas feitas por Deus Criador a todos, e antes de tudo para proteger o homem contra o perigo da destruição de si mesmo. Com efeito, a degradação da natureza está intimamente ligada à cultura que molda a convivência humana, pelo que, «quando a “ecologia humana” é respeitada dentro da sociedade, beneficia também a ecologia ambiental». [27] Não se pode pedir aos jovens que respeitem o ambiente, se não são ajudados, em família e na sociedade, a respeitar-se a si mesmos: o livro da natureza é único, tanto sobre a vertente do ambiente como sobre a da ética pessoal, familiar e social. [28] Os deveres para com o ambiente derivam dos deveres para com a pessoa considerada em si mesma e no seu relacionamento com os outros. Por isso, de bom grado encorajo a educação para uma responsabilidade ecológica, que, como indiquei na encíclica Caritas in veritate, salvaguarde uma autêntica «ecologia humana» e consequentemente afirme, com renovada convicção, a inviolabilidade da vida humana em todas as suas fases e condições, a dignidade da pessoa e a missão insubstituível da família, onde se educa para o amor ao próximo e o respeito da natureza. [29] É preciso preservar o patrimônio humano da sociedade. Este patrimônio de valores tem a sua origem e está inscrito na lei moral natural, que é fundamento do respeito da pessoa humana e da criação.

13. Por fim não se deve esquecer o fato, altamente significativo, de que muitos encontram tranquilidade e paz, sentem-se renovados e revigorados quando entram em contacto direto com a beleza e a harmonia da natureza. Existe aqui uma espécie de reciprocidade: quando cuidamos da criação, constatamos que Deus, através da criação, cuida de nós. Por outro lado, uma visão correta da relação do homem com o ambiente impede de absolutizar a natureza ou de a considerar mais importante do que a pessoa. Se o magistério da Igreja exprime perplexidades acerca de uma concepção do ambiente inspirada no ecocentrismo e no biocentrismo, fá-lo porque tal concepção elimina a diferença ontológica e axiológica entre a pessoa humana e os outros seres vivos. Deste modo, chega-se realmente a eliminar a identidade e a função superior do homem, favorecendo uma visão igualitarista da «dignidade» de todos os seres vivos. Assim se dá entrada a um novo panteísmo com acentos neopagãos que fazem derivar apenas da natureza, entendida em sentido puramente naturalista, a salvação para o homem. Ao contrário, a Igreja convida a colocar a questão de modo equilibrado, no respeito da «gramática» que o Criador inscreveu na sua obra, confiando ao homem o papel de guardião e administrador responsável da criação, papel de que certamente não deve abusar mas também não pode abdicar. Com efeito, a posição contrária, que considera a técnica e o poder humano como absolutos, acaba por ser um grave atentado não só à natureza, mas também à própria dignidade humana. [30]

14. Se quiseres cultivar a paz, preserva a criação. A busca da paz por parte de todos os homens de boa vontade será, sem dúvida alguma, facilitada pelo reconhecimento comum da relação indivisível que existe entre Deus, os seres humanos e a criação inteira. Os cristãos, iluminados pela Revelação divina e seguindo a Tradição da Igreja, prestam a sua própria contribuição. Consideram o cosmos e as suas maravilhas à luz da obra criadora do Pai e redentora de Cristo, que, pela sua morte e ressurreição, reconciliou com Deus «todas as criaturas, na terra e nos céus» (Cl 1, 20). Cristo crucificado e ressuscitado concedeu à humanidade o dom do seu Espírito santificador, que guia o caminho da história à espera daquele dia em que, com o regresso glorioso do Senhor, serão inaugurados «novos céus e uma nova terra» (2 Pd 3, 13), onde habitarão a justiça e a paz para sempre. Assim, proteger o ambiente natural para construir um mundo de paz é dever de toda a pessoa. Trata-se de um desafio urgente que se há-de enfrentar com renovado e concorde empenho; é uma oportunidade providencial para entregar às novas gerações a perspectiva de um futuro melhor para todos. Disto mesmo estejam cientes os responsáveis das nações e quantos, nos diversos níveis, têm a peito a sorte da humanidade: a salvaguarda da criação e a realização da paz são realidades intimamente ligadas entre si. Por isso, convido todos os crentes a elevarem a Deus, Criador omnipotente e Pai misericordioso, a sua oração fervorosa, para que no coração de cada homem e de cada mulher ressoe, seja acolhido e vivido o premente apelo: Se quiseres cultivar a paz, preserva a criação.

 
Vaticano, 8 de Dezembro de 2009.
BENEDICTUS PP. XVI

 
[1] Catecismo da Igreja Católica, 198.
[2] Bento XVI, Mensagem para o Dia Mundial da Paz (1 de Janeiro de 2008), 7.
[3] Cf. n. 48.
[4] Dante Alighieri, Divina Comédia: O Paraíso, XXXIII, 145.
[5] Mensagem para o Dia Mundial da Paz (1 de Janeiro de 1990), 1.
[6] Carta ap. Octogesima adveniens, 21.
[7] Mensagem para o Dia Mundial da Paz (1 de Janeiro de 1990), 10.
[8] Cf. Bento XVI, Carta enc. Caritas in veritate, 32.
[9] Catecismo da Igreja Católica, 295.
[10] Heráclito de Éfeso (± 535-475 a.C.), Fragmento 22B124, in H. Diels-W. Kranz, Die Fragmente der Vorsokratiker (Weidmann, Berlim 19526).
[11] Cf. Bento XVI, Carta enc. Caritas in veritate, 48.
[12] João Paulo II, Carta enc. Centesimus annus, 37.
[13] Cf. Bento XVI, Carta enc. Caritas in veritate, 50.
[14] Const. past. Gaudium et spes, 69.
[15] Cf. João Paulo II, Carta enc. Sollicitudo rei socialis, 34.
[16] Bento XVI, Carta enc. Caritas in veritate, 37.
[17] Pont. Conselho «Justiça e Paz», Compêndio da Doutrina Social da Igreja, 467;cf. Paulo VI, Carta enc. Populorum progressio, 17.
[18] Cf. João Paulo II, Carta enc. Centesimus annus, 30-31.43.
[19] Bento XVI, Carta enc. Caritas in veritate, 49.
[20] Ibid., 49.
[21] Cf. São Tomás de Aquino, Summa theologiae, II-II, q. 49, 5.
[22] Cf. n. 9.
[23] Cf. n. 8.
[24] Paulo VI, Carta enc. Populorum progressio, 43.
[25] Carta enc. Caritas in veritate, 69.
[26] João Paulo II, Carta enc. Centesimus annus, 36.
[27] Bento XVI, Carta enc. Caritas in veritate, 51.
[28] Cf. ibid., 15.51.
[29] Cf. ibid., 28.51.61; João Paulo II, Carta enc. Centesimus annus, 38.39.
[30] Cf. Bento XVI, Carta enc. Caritas in veritate, 70.