1 de março de 2017

Discurso do Santo Padre Francisco aos participantes do Seminário "Direito Humano à Água", organizado pela Pontifícia Academia de Ciências

(Tradução e adaptação por Renata P. Espíndola)


Queridos irmãos e irmãs, boa tarde.

Saúdo a todos os presentes e lhes agradeço por sua participação neste encontro que aborda a problemática do direito humano à água e também a exigência de políticas públicas que possam enfrentar esta realidade. É significativo que vocês se unam para conduzir seus saberes e recursos com a finalidade de dar uma resposta a esta necessidade e a esta problemática que vive o homem atual.

Como lemos no livro de Gênesis, a água está no início de todas as coisas (cf. Gn 1,2); é «criatura útil, casta e humilde», fonte da vida e da fecundidade (cf. São Francisco de Assis, Cântico das Criaturas). Por isso, a questão que vocês tratam não é periférica, senão é fundamental e muito urgente. Fundamental, porque onde há água, há vida e então pode surgir e avançar a sociedade. E é urgente porque nossa casa comum necessita proteção e, além disto, temos que assumir que nem toda água é vida: somente a que tenha origem numa fonte segura e que tenha qualidade, seguindo com a figura de São Francisco: a água «que serve com humildade», a água «casta», não contaminada.

Toda pessoa tem direito ao acesso à água potável e segura; este é um direito humano básico e uma das questões centrais no mundo atual (cf. Enc. Laudato Si’, 30; Enc. Caritas in veritate, 27). É doloroso quando na legislação de um país ou de uma coalizão de países não se considera a água como um direito humano. Mais doloroso ainda quando se apaga o que estava escrito e se nega este direito humano. É um problema que afeta a todos e que faz com que nossa casa comum sofra tanta miséria e clame por soluções efetivas, realmente capazes de superar os egoísmos que impedem a realização deste direito vital para todos os seres humanos. É necessário outorgar à água a centralidade que merece no embasamento das políticas públicas. Nosso direito à água é também um dever com a mesma. Do direito que temos a ela se origina uma obrigação aderente e inseparável. É inevitável anunciar este direito humano essencial e defendê-lo - como já se faz -, porém também atuar de forma concreta, assegurando um compromisso político e jurídico com a água. Neste sentido, cada país está convocado para estabelecer, tanto através de instrumentos jurídicos, quanto através daqueles indicados pelas resoluções aprovadas pela Assembléia Geral das Nações Unidas desde 2010, ações referentes ao direito humano à água potável e ao saneamento. De forma análoga, cada ator não governamental tem que cumprir suas responsabilidades em relação a este direito.

O direito á água é determinante para a sobrevivência das pessoas (cf. ibid, 30) e decide o futuro da humanidade. É prioritário também educar às próximas gerações sobre a gravidade desta realidade. A formação da consciência é uma tarefa árdua: precisa convicção e entrega. E me pergunto se em meio a esta «terceira guerra mundial em pequenas doses» que estamos vivendo, não estamos no caminho até a grande guerra mundial pela água.

As cifras que as Nações Unidas revelam são atrozes e não nos podem deixar indiferentes: a cada dia, mil crianças morrem a custa de enfermidades relacionadas com a água e milhões de pessoas consomem água contaminada. Estes dados são gravíssimos: é necessário desacelerar e inverter esta situação. Não é tarde, porém é urgente tomar consciência da necessidade da água e de seu valor essencial para o bem da humanidade.

O respeito à água é condição para o exercício dos demais direitos humanos (cf. ibid., 30). Se acatamos este direito como sendo fundamental, estaremos estabelecendo as bases para proteger os demais direitos. Porém, se não aderimos a este direito básico, como seremos capazes de cuidar e lutar pelos demais? Neste compromisso de dar à água a posição que lhe corresponde, faz falta uma cultura do cuidado (cf. ibid., 231) - parece uma coisa poética e, bem, a Criação é uma «poiesis», esta cultura do cuidado que é criativa - e além de fomentar uma cultura do encontro, na qual se unam numa causa comum todas as forças necessárias desde cientistas a empresários, governantes a políticos. É preciso unir todas nossas vozes numa mesma causa; já não serão vozes individuais ou solitárias, senão o grito do irmão que clama através de nós, o grito da terra que pede o respeito e o compartilhamento responsável de um bem que é de todos. Nesta cultura do encontro, é imprescindível a ação de cada país como garantia ao acesso universal à água segura e de qualidade.

Deus Criador não nos abandona neste trabalho para dar a todos e a cada um o acesso à água potável e segura, porém o trabalho e a responsabilidade são nossos. Desejo que este seminário seja uma ocasião propícia para que suas convicções se vejam fortalecidas, e saiam daqui com a certeza de que seu trabalho é necessário e prioritário para que outras pessoas possam viver. É um ideal pelo qual se merece a pena de lutar e de trabalhar. Com nosso «pouco» estaremos contribuindo para que nossa casa comum seja mais habitável e mais solidária, mais cuidada, onde ninguém seja descartado nem excluído, senão que todos gozemos dos bens necessários para vivermos e crescermos com dignidade. E não esqueçamos dos dados e cifras informados pelas Nações Unidas. Não esqueçamos de que a cada dia mil crianças - a cada dia! - morrem por enfermidades relacionadas com a água.

Muito obrigado.

Papa Francisco


Mensagem do Papa Francisco aos fiéis brasileiros por ocasião da Campanha da Fraternidade de 2017



Queridos irmãos e irmãs do Brasil!

Desejo me unir a vocês na Campanha da Fraternidade que, neste ano de 2017, tem como tema “Fraternidade: biomas brasileiros e defesa da vida”, lhes animando a ampliar a consciência de que o desafio global, pelo qual toda a humanidade passa, exige o envolvimento de cada pessoa juntamente com a atuação de cada comunidade local, como aliás enfatizei em diversos pontos na Encíclica Laudato Si’, sobre o cuidado de nossa casa comum.

O Criador foi pródigo com o Brasil. Concedeu-lhe uma diversidade de biomas que lhe confere extraordinária beleza. Mas, infelizmente, os sinais da agressão à criação e da degradação da natureza também estão presentes. Entre vocês, a Igreja tem sido uma voz profética no respeito e no cuidado com o meio ambiente e com os pobres. Não apenas tem chamado a atenção para os desafios e problemas ecológicos, como tem apontado suas causas e, principalmente, tem apontado caminhos para a sua superação. Entre tantas iniciativas e ações, me apraz recordar que já em 1979, a Campanha da Fraternidade que teve por tema “Por um mundo mais humano” assumiu o lema: “Preserve o que é de todos”. Assim, já naquele ano a CNBB apresentava à sociedade brasileira sua preocupação com as questões ambientais e com o comportamento humano com relação aos dons da criação.

O objetivo da Campanha da Fraternidade deste ano, inspirado na passagem do Livro do Gênesis (cf. Gn 2,15), é cuidar da criação, de modo especial dos biomas brasileiros, dons de Deus, e promover relações fraternas com a vida e a cultura dos povos, à luz do Evangelho. Como “não podemos deixar de considerar os efeitos da degradação ambiental, do modelo atual de desenvolvimento e da cultura do descarte sobre a vida das pessoas” (LS, 43), esta Campanha convida a contemplar, admirar, agradecer e respeitar a diversidade natural que se manifesta nos diversos biomas do Brasil – um verdadeiro dom de Deus - através da promoção de relações respeitosas com a vida e a cultura dos povos que neles vivem. Este é, precisamente, um dos maiores desafios em todas as partes da terra, até porque as degradações do ambiente são sempre acompanhadas pelas injustiças sociais.

Os povos originários de cada bioma ou que tradicionalmente neles vivem nos oferecem um exemplo claro de como a convivência com a criação pode ser respeitosa, portadora de plenitude e misericordiosa. Por isso, é necessário conhecer e aprender com esses povos e suas relações com a natureza. Assim, será possível encontrar um modelo de sustentabilidade que possa ser uma alternativa ao afã desenfreado pelo lucro que exaure os recursos naturais e agride a dignidade dos pobres.

Todos os anos, a Campanha da Fraternidade acontece no tempo forte da Quaresma. Trata-se de um convite a viver com mais consciência e determinação a espiritualidade pascal. A comunhão na Páscoa de Jesus Cristo é capaz de suscitar a conversão permanente e integral, que é, ao mesmo tempo, pessoal, comunitária, social e ecológica. Reafirmo, assim, o que recordei por ocasião do Ano santo Extraordinário: a misericórdia exige “restituir dignidade àqueles que dela se viram privados” (Misericordia vultus, 16). Uma pessoa de fé que celebra na Páscoa a vitória da vida sobre a morte, ao tomar consciência da situação de agressão à criação de Deus em cada um dos biomas brasileiros, não poderá ficar indiferente.

Desejo a todos uma fecunda caminhada quaresmal e peço a Deus que a Campanha da Fraternidade 2017 atinja seus objetivos. Invocando a companhia e a proteção de Nossa Senhora Aparecida sobre todo o povo brasileiro, particularmente neste Ano mariano, concedo uma especial Bênção Apostólica e peço que não deixem de rezar por mim.

Vaticano, 15 de fevereiro de 2017.

Franciscus PP.

3 de fevereiro de 2017

O Instituto Laudato Si' oferece gratuitamente o livro eletrônico "Salmos da Criação" para aprofundamento espiritual

Tradução: Renata P. Espíndola

Com alegria, o Instituto Laudato Si' oferece através de seu site um novo livro eletrônico gratuito que tem por título: “Salmos de la Creación” (em espanhol).

Este livro foi elaborado pela Sra. Isabel Cuenca Anaya, secretária geral da Comissão de Justiça e Paz na Espanha, em colaboração com a Sra. María Ángeles Martín, membro fundador do Instituto Laudato Si’ e professora de Avaliação de Impacto Ambiental. O projeto nasceu de uma inquietação comum em querer evidenciar e se aprofundar na diversidade de referências existentes nos Salmos à natureza e à criação. A  Sra. María Ángeles informa que o livro representa “Uma idéia que nós tinhamos de unirmos os louvores de todas as criaturas ao Senhor por meio dos Salmos, onde encontramos uma multitude de referências à natureza em seus cantos.

Na seção denominada “¿Por qué los Salmos de la Creación?” as autoras aprofundam o papel essencial em que atuam os elementos naturais nos salmos e o motivo pelo qual executaram este trabalho: “Destacamos uma série de Salmos nos quais Yahweh utiliza elementos da natureza para nos ensinar (por associações) sua grande misericórdia, sua fidelidade com seu povo e em particular, com cada um de nós. Animais, paisagens, luz ou as estrelas são utilizados para dialogar conosco.

As autoras oferecem o livro gratuitamente na esperança de que sirva para a oração e aprofundamento no mistério que é nosso Criador comum.


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Nota: Não permita que o fato do livro eletrônico estar em espanhol seja um empecilho no seu aprofundamento espiritual. Bastará abri-lo com a sua Bíblia em frente à tela que utilizar e, pela numeração dos Salmos, realizar a meditação necessária. Veja no menu lateral direito o link para o download.

Na aba Memorabilia do blog há outras passagens bíblicas que falam diretamente sobre a Criação. 

Tenha uma boa leitura!

1 de setembro de 2016

Usemos de misericórdia para com a nossa casa comum


MENSAGEM DE SUA SANTIDADE
PAPA FRANCISCO 
PARA A CELEBRAÇÃO DO
DIA MUNDIAL DE ORAÇÃO PELO CUIDADO DA CRIAÇÃO
01 DE SETEMBRO DE 2016

Usemos de misericórdia para com a nossa casa comum

Em união com os irmãos e irmãs ortodoxos e com a adesão de outras Igrejas e Comunidades cristãs, a Igreja Católica celebra hoje o «Dia Mundial de Oração pelo Cuidado da Criação». A ocorrência tem como objetivo oferecer «a cada fiel e às comunidades a preciosa oportunidade para renovar a adesão pessoal à sua vocação de guardiões da criação, elevando a Deus o agradecimento pela obra maravilhosa que Ele confiou ao nosso cuidado, invocando a sua ajuda para a proteção da criação e a sua misericórdia pelos pecados cometidos contra o mundo em que vivemos».[1]

É muito encorajador que a preocupação com o futuro do nosso planeta seja partilhada pelas Igrejas e comunidades cristãs em conjunto com outras religiões. De fato, nos últimos anos, foram empreendidas muitas iniciativas por autoridades religiosas e organizações para sensibilizar mais a opinião pública sobre os perigos da exploração irresponsável do planeta. 

Quero aqui mencionar o Patriarca Bartolomeu e o seu antecessor Dimitrios, que durante muitos anos não cessaram de se pronunciar contra o pecado de causar danos à criação, chamando a atenção para a crise moral e espiritual que está na base dos problemas ambientais e da degradação. Em resposta à crescente solicitude pela integridade da criação, a III Assembléia Ecumênica Européia (Sibiu, 2007) propunha que se celebrasse um «Tempo em prol da Criação» com a duração de cinco semanas entre o dia 01 de setembro (memória ortodoxa da criação divina) e 04 de outubro (memória de Francisco de Assis, na Igreja Católica e noutras tradições ocidentais). 

A partir de então, aquela iniciativa com o apoio do Conselho Mundial das Igrejas, inspirou muitas atividades ecumênicas em várias partes do mundo. Deve ser também motivo de alegria o fato de em todo o mundo iniciativas semelhantes, que promovem a justiça ambiental, a solicitude pelos pobres e o serviço responsável à sociedade, terem feito encontrar pessoas, sobretudo jovens, de diferentes contextos religiosos. 

Cristão ou não, pessoas de fé e de boa vontade, devemos estar unidos manifestando misericórdia para com a nossa casa comum – a terra – e valorizar plenamente o mundo em que vivemos como lugar de partilha e comunhão.

1. A terra clama...

Com esta Mensagem, renovo o diálogo com «cada pessoa que habita neste planeta» sobre os sofrimentos que afligem os pobres e a devastação do meio ambiente. Deus deu-nos de presente um exuberante jardim, mas estamos a transformá-lo numa poluída vastidão de «ruínas, desertos e lixo».[2] 

Não podemos render-nos ou ficar indiferentes perante a perda da biodiversidade e a destruição dos ecossistemas, muitas vezes provocadas pelos nossos comportamentos irresponsáveis e egoístas. «Por nossa causa, milhares de espécies já não darão glória a Deus com a sua existência, nem poderão comunicar-nos a sua própria mensagem. Não temos direito de o fazer».[3]

O planeta continua a aquecer, em parte devido à atividade humana: o ano de 2015 foi o ano mais quente de que há registo e, provavelmente, o ano de 2016 sê-lo-á ainda mais. Isto provoca secura, inundações, incêndios e acontecimentos meteorológicos extremos cada vez mais graves. As mudanças climáticas contribuem também para a dolorosa crise dos migrantes forçados. Os pobres do mundo, embora sejam os menos responsáveis pelas mudanças climáticas, são os mais vulneráveis e já sofrem os seus efeitos.

Como salienta a ecologia integral, os seres humanos estão profundamente ligados entre si e à criação na sua totalidade. Quando maltratamos a natureza, maltratamos também os seres humanos. Ao mesmo tempo, cada criatura tem o seu próprio valor intrínseco que deve ser respeitado. Escutemos «tanto o clamor da terra como o clamor dos pobres»[4] e procuremos atentamente ver como se pode garantir uma resposta adequada e célere.

2. ... porque pecamos

Deus deu-nos a terra para a cultivar e guardar (cf. Gn 2, 15) com respeito e equilíbrio. Cultivá-la «demasiado» – isto é, explorando-a de maneira míope e egoísta – e guardá-la pouco, é pecado.

Com coragem, o amado Patriarca Ecumênico Bartolomeu tem, repetida e profeticamente, posto em evidência os nossos pecados contra a criação: «Quando os seres humanos destroem a biodiversidade na criação de Deus; quando os seres humanos comprometem a integridade da terra e contribuem para a mudança climática, desnudando a terra das suas florestas naturais ou destruindo as suas zonas úmidas; quando os seres humanos contaminam as águas, o solo, o ar... tudo isso é pecado». Porque «um crime contra a natureza é um crime contra nós mesmos e um pecado contra Deus».[5]

Em face do que está a acontecer à nossa casa, possa o Jubileu da Misericórdia chamar os fiéis cristãos «a uma profunda conversão interior»,[6] sustentada de modo particular pelo sacramento da Penitência. Neste Ano Jubilar, aprendamos a procurar a misericórdia de Deus para os pecados contra a criação que até agora não soubemos reconhecer nem confessar; e comprometamos-nos a dar passos concretos no caminho da conversão ecológica, que exige uma clara tomada de consciência da responsabilidade que temos para conosco, o próximo, a criação e o Criador.[7]

3. Exame de consciência e arrependimento

O primeiro passo neste caminho é sempre um exame de consciência, que «implica gratidão e gratuidade, ou seja, um reconhecimento do mundo como dom recebido do amor do Pai, que consequentemente provoca disposições gratuitas de renúncia e gestos generosos (…). Implica ainda a consciência amorosa de não estar separado das outras criaturas, mas de formar com os outros seres do universo uma estupenda comunhão universal. O crente contempla o mundo, não como alguém que está fora dele, mas dentro, reconhecendo os laços com que o Pai nos uniu a todos os seres».[8]

A este Pai, cheio de misericórdia e bondade, que aguarda o regresso de cada um dos seus filhos, podemos dirigir-nos reconhecendo os nossos pecados para com a criação, os pobres e as gerações futuras. «Todos nós, na medida em que causamos pequenos danos ecológicos», somos chamados a reconhecer «a nossa contribuição – pequena ou grande – para a desfiguração e destruição do ambiente».[9] Este é o primeiro passo no caminho da conversão.

Em 2000, também ele um Ano Jubilar, o meu predecessor São João Paulo II convidou os católicos a arrepender-se da intolerância religiosa passada e presente, bem como das injustiças cometidas contra os judeus, as mulheres, os povos indígenas, os imigrantes, os pobres e os nascituros. Neste Jubileu Extraordinário da Misericórdia, convido cada um a fazer algo parecido. 

Como indivíduos, acostumados a estilos de vida induzidos quer por uma cultura equivocada do bem-estar quer por um «desejo desordenado de consumir mais do que realmente se tem necessidade»,[10] e como participantes dum sistema que «impôs a lógica do lucro a todo o custo, sem pensar na exclusão social nem na destruição da natureza»,[11] arrependamo-nos do mal que estamos a fazer à nossa casa comum.

Depois dum sério exame de consciência e habitados por tal arrependimento, podemos confessar os nossos pecados contra o Criador, contra a criação, contra os nossos irmãos e irmãs. «O Catecismo da Igreja Católica apresenta-nos o confessionário como um lugar onde a verdade nos torna livres para um encontro».[12] Sabemos que «Deus é maior do que o nosso pecado»,[13] do que todos os pecados, incluindo os pecados contra a criação. Confessamo-los, porque estamos arrependidos e queremos mudar. E a graça misericordiosa de Deus, que recebemos no sacramento, ajudar-nos-á a fazê-lo.

4. Mudar de rumo

O exame de consciência, o arrependimento e a confissão ao Pai, rico em misericórdia, levam-nos a um propósito firme de mudar de vida. Isto deve traduzir-se em atitudes e comportamento concretos mais respeitadores da criação, como, por exemplo, fazer uma utilização judiciosa do plástico e do papel, não desperdiçar água, comida e eletricidade, diferenciar o lixo, tratar com desvelo os outros seres vivos, usar os transportes públicos e partilhar o mesmo veículo com várias pessoas, etc.[14] Não devemos pensar que estes esforços sejam demasiado pequenos para melhorar o mundo. Tais ações «provocam, no seio desta terra, um bem que sempre tende a difundir-se, por vezes invisivelmente»,[15] e incentivam «um estilo de vida profético e contemplativo, capaz de gerar profunda alegria sem estar obcecado pelo consumo».[16]

De igual modo, o propósito de mudar de vida deve permear a maneira como estamos a contribuir para a construção da cultura e da sociedade a que pertencemos: de fato, «o cuidado da natureza faz parte dum estilo de vida que implica capacidade de viver juntos e de comunhão».[17] 

A economia e a política, a sociedade e a cultura não podem ser dominadas por uma mentalidade de curto prazo nem pela busca de imediato benefício financeiro ou eleitoral. Pelo contrário, aquelas devem ser urgentemente reorientadas para o bem comum, que inclui a sustentabilidade e o cuidado da criação.

Um caso concreto é o da «dívida ecológica» entre o Norte e o Sul do mundo.[18] A sua restituição exigiria cuidar do meio ambiente dos países mais pobres, fornecendo-lhes recursos financeiros e assistência técnica que os ajudem a gerir as consequências das mudanças climáticas e promover o desenvolvimento sustentável.

A proteção da casa comum requer um consenso político crescente. Neste sentido, é motivo de satisfação o fato de que, em setembro de 2015, as nações da terra adotaram os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável e, em dezembro de 2015, aprovaram o Acordo de Paris sobre as mudanças climáticas, que se propõe o difícil mas fundamental objetivo de conter a subida da temperatura global. Agora, os governos têm o dever de respeitar os compromissos que assumiram, enquanto as empresas devem responsavelmente cumprir a sua parte, e cabe aos cidadãos exigir que isto aconteça e também se aponte para objetivos cada vez mais ambiciosos.

Assim, mudar de rumo consiste em «respeitar escrupulosamente o mandamento primordial de preservar a criação de todo o mal, tanto para o nosso bem como para o bem de outros seres humanos».[19] Há uma pergunta que nos pode ajudar a não perder de vista este objetivo: «Que tipo de mundo queremos deixar a quem vai suceder-nos, às crianças que estão a crescer?»[20]

5. Uma nova obra de misericórdia

«Nada une mais a Deus do que um ato de misericórdia (…), quer se trate da misericórdia com que o Senhor nos perdoa os nossos pecados, quer se trate da graça que nos dá para praticarmos as obras de misericórdia em seu nome».[21]

Parafraseando São Tiago, «a misericórdia sem as obras está morta em si mesma. (...) Devido às mudanças no nosso mundo globalizado, algumas pobrezas materiais e espirituais têm-se multiplicado: demos pois espaço à criatividade da caridade para identificar novas modalidades operativas. Desta forma, o caminho da misericórdia tornar-se-á sempre mais concreto».[22]

A vida cristã inclui a prática das tradicionais obras de misericórdia corporais e espirituais.[23] «Estamos habituados a pensar nas obras de misericórdia uma a uma e enquanto ligadas a uma obra: hospitais para os doentes, sopa dos pobres para os famintos, abrigos para os que vivem pela estrada, escolas para quem precisa de instrução, o confessionário e a direção espiritual para quem necessita de conselho e perdão… Mas, se as olharmos em conjunto, a mensagem que daí resulta é que a misericórdia tem por objeto a própria vida humana na sua totalidade».[24]

Obviamente, a «vida humana na sua totalidade» inclui o cuidado da casa comum. Por isso, tomo a liberdade de propor um complemento aos dois elencos de sete obras de misericórdia, acrescentando a cada um o cuidado da casa comum.

Como obra de misericórdia espiritual, o cuidado da casa comum requer «a grata contemplação do mundo»,[25] que «nos permite descobrir qualquer ensinamento que Deus nos quer transmitir através de cada coisa».[26] Como obra de misericórdia corporal, o cuidado da casa comum requer aqueles «simples gestos quotidianos, pelos quais quebramos a lógica da violência, da exploração, do egoísmo» e se manifesta o amor «em todas as ações que procuram construir um mundo melhor».[27]

6. Para concluir, rezemos

Apesar dos nossos pecados e os desafios tremendos que temos pela frente, nunca percamos a esperança: «O Criador não nos abandona, nunca recua no seu projeto de amor, nem Se arrepende de nos ter criado (…), porque Se uniu definitivamente à nossa terra e o seu amor sempre nos leva a encontrar novos caminhos».[28] 

No dia 01 de setembro em particular, e depois no resto do ano, rezemos:

«Ó Deus dos pobres, 
ajudai-nos a resgatar os abandonados e esquecidos desta terra
que valem tanto aos vossos olhos (…).


Ó Deus de amor, 
mostrai-nos o nosso lugar neste mundo 
como instrumentos do vosso carinho 
por todos os seres desta terra.[29] 
Ó Deus de misericórdia, 
concedei-nos a graça de receber o vosso perdão 
e transmitir a vossa misericórdia 
em toda a nossa casa comum.
Louvado sejais. 
Amém».



Francisco



[2] Idem, Carta enc. Laudato si’, 3; 161.
[5] Discurso em Santa Bárbara, Califórnia (8 de Novembro de 1997).
[7] Cf. ibid.10229.
[9] Bartolomeu I, Mensagem para o Dia de Oração pela Salvaguarda da Criação (1 de setembro de 2012).
[11] Idem, Discurso, II Encontro Mundial dos Movimentos Populares, Santa Cruz de la Sierra (Bolívia), 9 de julho de 2015.
[18] Cf. ibid.51-52.
[19] Bartolomeu I, Mensagem para o Dia de Oração pela Salvaguarda da Criação (1 de setembro de 1997).
[23] As corporais são: dar de comer aos famintos, dar de beber aos sedentos, vestir os nus, acolher os peregrinos, dar assistência aos enfermos, visitar os presos, enterrar os mortos. As espirituais são: aconselhar os indecisos, ensinar os ignorantes, admoestar os pecadores, consolar os aflitos, perdoar as ofensas, suportar com paciência as pessoas molestas, rezar a Deus pelos vivos e defuntos.
[27] Ibid.230231.
[28] Ibid.13245.

22 de agosto de 2016

Simpósio Vaticano irá reunir jovens de diversas nacionalidades para debater os ODS


A Pontifícia Academia de Ciências Sociais vai receber em seu simpósio para a juventude, nos dias 30 e 31 de outubro, jovens do mundo inteiro que vão partilhar experiências sobre tecnologia, política, economia e cultura. Na base dos debates estarão os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável promovidos pela ONU, em particular os itens n°04 - Instrução de qualidade - e n°08 - Trabalho digno e Crescimento econômico.

Neste último ponto, os participantes se concentrarão no item: "criar medidas imediatas e eficazes para erradicar o trabalho forçado; erradicação da escravidão moderna e tráfico de seres humanos; proibição e eliminação das piores formas de trabalho infantil, incluindo o recrutamento crianças-soldados; e até 2025 erradicar o trabalho infantil em todas as suas formas”.


Vale a pena ler a notícia em inglês no site da academia, já que o simpósio será fruto não só das ações propostas pelas encíclicas Evangelii Gaudium e pela Laudato Si', como faz parte do esforço do Vaticano em promover os ODS, dos quais é também uma nação signatária (ainda que seja membro-observador na ONU).

Os pedidos de inscrição podem ser apresentados até 30 de agosto por e-mail - vatican@sdsnyouth.org - e participarão cerca de 50 jovens de todo o mundo, entre 18 e 30 anos de idade. Se você, como eu, vai ficar na vontade por ser apenas "jovem em espírito", não deixe de apoiar o evento com suas orações.

Durante o encontro, os participantes irão apresentar projetos e iniciativas, sendo que serão escolhidos dois projetos para serem promovidos pela na COP22Em 2017, a iniciativa vaticana será repetida para estudar o resultado e as consequências desta primeira reunião.

27 de julho de 2016

Pequenos tesouros da Laudato Si' - 01

São João da Cruz ensinava que tudo o que há de bom nas coisas e experiências do mundo "encontra-se eminentemente em Deus de maneira infinita ou, melhor, Ele é cada uma destas grandezas que se pregam". E isto, não porque as coisas limitadas do mundo sejam realmente divinas, mas porque o místico experimenta a ligação íntima que há entre Deus e todos os seres vivos e, deste modo, "sente que Deus é para ele todas as coisas". 

Quando admira a grandeza duma montanha, não pode separar isto de Deus, e percebe que tal admiração interior que ele vive, deve finalizar no Senhor: "As montanhas têm cumes, são altas, imponentes, belas, graciosas, floridas e perfumadas. Como estas montanhas, é o meu Amado para mim. Os vales solitários são tranquilos, amenos, frescos, sombreados, ricos de doces águas. Pela variedade das suas árvores e pelo canto suave das aves, oferecem grande divertimento e encanto aos sentidos e, na sua solidão e silêncio, dão refrigério e repouso: como estes vales, é o meu Amado para mim".

Os sacramentos constituem um modo privilegiado em que a natureza é assumida por Deus e transformada em mediação da vida sobrenatural. Através do culto, somos convidados a abraçar o mundo num plano diferente. A água, o azeite, o fogo e as cores são assumidas com toda a sua força simbólica e incorporam-se no louvor. A mão que abençoa é instrumento do amor de Deus e reflexo da proximidade de Cristo, que veio para Se fazer nosso companheiro no caminho da vida. 

A água derramada sobre o corpo da criança batizada, é sinal de vida nova. Não fugimos do mundo, nem negamos a natureza, quando queremos encontrar-nos com Deus. Nota-se isto particularmente na espiritualidade do Oriente cristão. "A beleza, que no Oriente é um dos nomes mais queridos para exprimir a harmonia divina e o modelo da humanidade transfigurada, mostra-se em toda a parte: nas formas do templo, nos sons, nas cores, nas luzes, nos perfumes". 

Segundo a experiência cristã, todas as criaturas do universo material encontram o seu verdadeiro sentido no Verbo encarnado, porque o Filho de Deus incorporou na sua pessoa parte do universo material, onde introduziu um gérmen de transformação definitiva: "O cristianismo não rejeita a matéria; pelo contrário, a corporeidade é valorizada plenamente no ato litúrgico, onde o corpo humano mostra sua íntima natureza de templo do Espírito Santo e chega a unir-se a Jesus Senhor, feito também Ele corpo para a salvação do mundo". [Nota da autora: Vide a "Teologia do Corpo"]

A criação encontra a sua maior elevação na Eucaristia. A graça, que tende a manifestar-se de modo sensível, atinge uma expressão maravilhosa quando o próprio Deus, feito homem, chega ao ponto de fazer-Se comer pela sua criatura. No apogeu do mistério da Encarnação, o Senhor quer chegar ao nosso íntimo através dum pedaço de matéria. Não o faz de cima, mas de dentro, para podermos encontrá-Lo a Ele no nosso próprio mundo. 



Na Eucaristia, já está realizada a plenitude, sendo o centro vital do universo, centro transbordante de amor e de vida sem fim. Unido ao Filho encarnado, presente na Eucaristia, todo o cosmos dá graças a Deus. Com efeito a Eucaristia é, por si mesma, um ato de amor cósmico. "Sim, cósmico! Porque mesmo quando tem lugar no pequeno altar duma igreja da aldeia, a Eucaristia é sempre celebrada, de certo modo, sobre o altar do mundo". 

A Eucaristia une o céu e a terra, abraça e penetra toda a criação. O mundo, saído das mãos de Deus, volta a Ele em feliz e plena adoração: no Pão Eucarístico, "a criação propende para a divinização, para as santas núpcias, para a unificação com o próprio Criador". Por isso, a Eucaristia é também fonte de luz e motivação para as nossas preocupações pelo meio ambiente, e leva-nos a ser guardiões da criação inteira.

A participação na Eucaristia é especialmente importante ao domingo. Este dia, à semelhança do sábado judaico, é-nos oferecido como dia de cura das relações do ser humano com Deus, consigo mesmo, com os outros e com o mundo. O domingo é o dia da Ressurreição, o "primeiro dia" da nova criação, que tem as suas primícias na humanidade ressuscitada do Senhor, garantia da transfiguração final de toda a realidade criada. Além disso, este dia anuncia "o descanso eterno do homem, em Deus". Assim, a espiritualidade cristã integra o valor do repouso e da festa. 

O ser humano tende a reduzir o descanso contemplativo ao âmbito do estéril e do inútil, esquecendo que deste modo se tira à obra realizada o mais importante: o seu significado. Na nossa atividade, somos chamados a incluir uma dimensão receptiva e gratuita, o que é diferente da simples inatividade. Trata-se doutra maneira de agir, que pertence à nossa essência. Assim, a ação humana é preservada não só do ativismo vazio, mas também da ganância desenfreada e da consciência que se isola buscando apenas o benefício pessoal. [Nota da autora: Todos devemos ter muito cuidado e humildade para não instrumentalizar os cuidados com a criação em benefício próprio e/ou atribuindo valores rasos às ações a serem tomadas e compartilhadas com os irmãos]

A lei do repouso semanal impunha abster-se do trabalho no sétimo dia, "para que descansem o teu boi e o teu jumento e tomem fôlego o filho da tua serva e o estrangeiro residente" (Ex 23, 12). O repouso é uma ampliação do olhar, que permite voltar a reconhecer os direitos dos outros. Assim o dia de descanso, cujo centro é a Eucaristia, difunde a sua luz sobre a semana inteira e encoraja-nos a assumir o cuidado da natureza e dos pobres.

Fonte: Papa Francisco, Laudato Si' - 234 a 237.

JMJ 2016 - Jovens exortam governos a investir em energias limpas

Durante a Jornada Mundial da Juventude, duas organizações internacionais que representam cerca de 10 milhões jovens estudantes católicos divulgaram segunda-feira (26/07) um comunicado apelando aos governos para investir agora nos postos de trabalho sustentáveis ​​e éticos que esta e as futuras gerações de estudantes e jovens virão a ocupar nos anos vindouros.

Movimento Internacional de Estudantes Católicos (IMCS-MIEC Pax Romana) e os Jovens Estudantes Católicos Internacionais (IYCS / JECI), que representam movimentos estudantis nacionais católicos em mais de 100 países, disseram que o comunicado era sua aceitação do convite feito pelo Papa Francisco em junho de 2015 na Encíclica Laudato Si' se unir para, nas palavras de IMCS e IYCS, “discutir, debater e celebrar a nossa relação com o ambiente, com o outro, com a economia, com o trabalho e com muitos outros aspectos interligados da vida”.

Dado os níveis extremamente elevados de desemprego entre os jovens em muitos países e as referências da encíclica ao "valor do trabalho", as duas organizações sugerem que a substituição de empregos insustentáveis, ​​como os da indústria de combustíveis fósseis, pelos postos de trabalho éticos do futuro, tais como os do setor de energia limpa, deveria ser uma prioridade para os governos. [Nota da autora: Os combustíveis fósseis possuem um valor imenso - apesar dos impactos socioambientais - que permitiram a humanidade evoluir até as novas tecnologias "limpas" (com menores impactos ambientais de instalação e operação, pois não se costuma abordar os outros custos socioambientais, incluindo a aquisição de matérias-primas, transporte, processamento e distribuição). A transição tem que ser séria com a transmissão de tecnologias, incluindo os países e populações mais carentes, até ao ponto em que haja realmente condições que permitam substituí-la completamente no atendimento às necessidades físicas das populações humanas] [UTOPIA]

"Se os governos são sérios sobre a redução do desemprego juvenil de forma ética, sem ameaçar a qualidade de vida das gerações futuras, eles simplesmente têm de investir agora em encontrar alternativas para aqueles empregos que poluem o ambiente e contribuem para as alterações climáticas – os quais todos os países já concordam em não podem existir no longo prazo", disse Richard Apeh, Secretário Geral da organização Jovens Estudantes Católicos Internacionais.

A declaração também apela a outros jovens a "trabalhar e ser agentes de mudança em suas comunidades", a fim de "criar um novo mundo marcado pela solidariedade, estilos de vida ecologicamente responsáveis, justiça e paz".

Ecovila em Cracóvia

A declaração é apenas um dos muitos esforços globais para espalhar a mensagem da encíclica durante o Dia Mundial da Juventude. Como parte da campanha #LiveLaudatoSio Movimento Católico Climático Global  criará uma Ecovila em Cracóvia, onde realizará oficinas interativas com jovens católicos sobre como eles podem colocar a Encíclica em prática e viver de forma mais sustentável.

Segunda-feira, 25 de julho, a Universidade Jagellonian sediou uma conferência intitulada 'Ecologia Integral de Laudato Si': a juventude como protagonista da mudança', com o arcebispo de Cracóvia, o Presidente da Comissão Organizadora do Dia Mundial da Juventude, o Ministro do Ambiente da Polônia e um dos conselheiros mais próximos do Papa sobre a Encíclica, Cardeal Peter Turkson. O Movimento Católico Global pelo Clima (GCCM) é uma rede internacional de mais de 250 organizações católicas e indivíduos dedicados a cuidar da criação de Deus, dos pobres e das gerações futuras.

#WYD2016 #JMJ2016


Fonte: http://br.radiovaticana.va/news/2016/07/27/jmj_jovens_exortam_governos_a_investir_em_energias_limpas/1246870