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1 de julho de 2022

Mensagem do Papa Francisco por ocasião da 1ª. Reunião dos Estados-parte no Tratado sobre a Proibição das Armas Nucleares


Carta apresentada por Dom Paul R. Gallagher
Secretário para as Relações com os Estados e as Organizações Internacionais da Missão da Santa Sé na ONU  

À Sua Excelência, o Embaixador
Alexander Kmentt
Presidente da Primeira  Reunião dos Estados-Partes
no Tratado sobre a proibição  das armas nucleares


Estou feliz por saudar Vossa Excelência e os distintos participantes por ocasião desta primeira Reunião dos Estados-Partes no Tratado sobre a proibição das armas nucleares.

Na minha mensagem à conferência diplomática convocada há cinco anos para negociar este Tratado, perguntei: «Por que estabelecer este exigente e clarividente objetivo no atual cenário internacional caraterizado por um clima instável de conflitualidade, que é ao mesmo tempo causa e indicação das dificuldades que se encontram ao promover e fortalecer o processo de desarmamento e de não proliferação nucleares?» (Mensagem para a Conferência das Nações Unidas finalizada a negociar um instrumento juridicamente vinculante para proibir as armas nucleares, que leve à sua total eliminação, 23 de março de 2017).

Neste momento particular da história, em que o mundo parece estar numa encruzilhada, a visão corajosa deste instrumento jurídico, fortemente inspirado por argumentações éticas e morais, parece ainda mais oportuna. Com efeito, esta reunião tem lugar num momento que, inevitavelmente, exige mais reflexão sobre a segurança e a paz. No contexto atual, falar de desarmamento ou apoiá-lo pode parecer paradoxal para muitos. No entanto, devemos permanecer conscientes dos perigos de abordagens míopes da segurança nacional e internacional e dos riscos de proliferação. Como todos sabemos, se não o fizermos, o preço será inevitavelmente pago por um número de vidas inocentes tiradas, e medido em termos de carnificina e destruição. Por conseguinte, renovo enfaticamente o meu apelo a fazer silenciar todas as armas e a eliminar as causas dos conflitos através do recurso incansável à negociação: «Quem faz a guerra esquece a humanidade» (Pós-Angelus , 27 de fevereiro de 2022).

A paz é indivisível, e para ser verdadeiramente justa e duradoura, deve ser universal. É um modo de raciocinar enganador e contraproducente pensar que a segurança e a paz de uns estão separadas da segurança coletiva e da paz de outros. É também uma das lições que a pandemia da Covid-19 demonstrou tragicamente. «A segurança do nosso próprio futuro depende da garantia da segurança pacífica dos outros, pois se a paz, a segurança e a estabilidade não forem fundadas no plano global, jamais serão gozadas. Somos responsáveis individual e coletivamente pelo bem-estar, quer presente quer futuro, dos nossos irmãos e irmãs» (Mensagem por ocasião da Conferência sobre o impacto humanitário das armas nucleares , 07 de dezembro de 2014).

A Santa Sé está certa de que um mundo livre de armas nucleares é necessário e ao mesmo tempo possível. Num sistema de segurança coletiva, não há lugar para armas nucleares e outras armas de destruição de massa. Com efeito, «se tomarmos em consideração as principais ameaças contra a paz e a segurança, com as suas múltiplas dimensões neste mundo multipolar do século XXI , como por exemplo o terrorismo, os conflitos assimétricos, a segurança informática, as problemáticas ambientais, a pobreza, muitas dúvidas emergem acerca da insuficiência da dissuasão nuclear para responder de modo eficaz a tais desafios. Estas preocupações assumem ainda mais consistência quando consideramos as catastróficas consequências humanitárias e ambientais que derivam de qualquer utilização das armas nucleares com efeitos devastadores indiscriminados e incontroláveis no tempo e no espaço» (Mensagem para a Conferência das Nações Unidas finalizada a negociar um instrumento juridicamente vinculante para proibir as armas nucleares, que leve à sua total eliminação, 23 de março de 2017).  Também não podemos ignorar a precariedade que deriva da simples manutenção destas armas: o risco de acidentes, involuntários ou não, que poderiam conduzir a cenários verdadeiramente preocupantes.

As armas nucleares são uma responsabilidade pesada e perigosa. Representam um “multiplicador de risco” que proporciona apenas a ilusão de uma “espécie de paz”. Desejo reafirmar aqui que a utilização de armas nucleares, bem como a sua mera posse, é imoral. Procurar defender e garantir a estabilidade e a paz através de uma falsa sensação de segurança e de um “equilíbrio do terror”, sustentado por uma mentalidade de medo e desconfiança, conduz inevitavelmente a relações envenenadas entre os povos e dificulta qualquer forma possível de verdadeiro diálogo. A sua posse leva facilmente a ameaças da sua utilização, tornando-se uma espécie de “chantagem” que deveria ser abominável para as consciências da humanidade.

A este respeito, «todos devem estar convencidos de que nem a renúncia à competição militar, nem a redução dos armamentos, nem a sua completa eliminação, que seria o principal, de modo algum se pode levar a efeito, se não se proceder a um desarmamento integral, que atinja o próprio espírito, isto é, se não trabalharem todos em concórdia e sinceridade, para afastar o medo e a psicose de uma possível guerra» (Papa João XXIII , Pacem in terris ).

Por estas razões, é importante reconhecer a necessidade global e premente da responsabilidade a diferentes níveis. Tal responsabilidade é partilhada por todos e abrange dois níveis: em primeiro lugar, um nível público, como Estados-membros da mesma família de nações. Em segundo lugar, um nível pessoal, como indivíduos e membros da mesma família humana e como pessoas de boa vontade. Qualquer que seja o nosso papel ou status, a cada um de nós correspondem vários níveis de responsabilidade: como podemos eventualmente imaginar de apertar o botão para lançar uma bomba nuclear? Como podemos, em boa consciência, empenhar-nos em modernizar os arsenais nucleares? É oportuno que este Tratado reconheça também que a educação para a paz pode desempenhar um papel importante, ajudando os jovens a tomar consciência dos riscos e consequências das armas nucleares para as gerações presentes e futuras.

Os tratados de desarmamento existentes são muito mais do que meras obrigações jurídicas. São também compromissos morais baseados na confiança entre Estados e entre os seus representantes, enraizados na confiança que os cidadãos depositam nos seus governos, com consequências éticas para as gerações presentes e futuras da humanidade. A adesão e o respeito pelos acordos internacionais de desarmamento e pelo direito internacional não são uma forma de fraqueza. Pelo contrário, constituem uma fonte de força e de responsabilidade, uma vez que aumentam a confiança e a estabilidade. Além disso, como no caso deste Tratado, oferecem cooperação e assistência internacional às vítimas e também ao meio ambiente: aqui o meu pensamento dirige-se aos Hibakusha, os sobreviventes dos bombardeamentos de Hiroshima e Nagasaki, e a todas as vítimas dos testes de armas nucleares.

Concluindo, ao lançar as bases para a implementação deste Tratado, desejo encorajar-vos, representantes dos Estados, organizações internacionais e sociedade civil, a prosseguir no caminho que escolhestes para promover uma cultura de vida e paz baseada na dignidade da pessoa humana e na consciência de que somos todos irmãos e irmãs. Por sua vez, a Igreja católica permanece irrevogavelmente empenhada em promover a paz entre povos e nações e em incentivar a educação para a paz através das suas instituições. Este é um dever ao qual a Igreja se sente vinculada perante Deus e todos os homens e mulheres do nosso mundo. Possa o Senhor abençoar cada um de vós e os vossos esforços ao serviço da justiça e da paz.


Francisco




Nota do blog extraídas da Pacem in Terris:

"É-nos igualmente doloroso constatar como em estados economicamente mais desenvolvidos se fabricaram e ainda se fabricam gigantescos armamentos. Gastam-se nisso somas enormes de recursos materiais e energias espirituais. Impõem-se sacrifícios nada leves aos cidadãos dos respectivos países, enquanto outras nações carecem da ajuda indispensável ao próprio desenvolvimento econômico e social".

"A todo custo se deverá evitar que pela terceira vez desabe sobre a humanidade a desgraça de uma guerra mundial, com suas imensas catástrofes econômicas e sociais e com as suas muitas depravações e perturbações morais".



4 de novembro de 2021

Mensagem do Papa Francisco para a reunião de abertura do Encontro Global para a eliminação do Trabalho Infantil na Agricultura [a/c. Cardeal Pietro Parolin]

Já parou para pensar no quanto você consome de produtos e serviços que são frutos de trabalho escravo? No quão profundas são as interconexões que sequer suspeitamos e ainda assim, no quanto isto nos será cobrado pela omissão ou anuência?

* * *

Traduzido por Renata P. Espíndola


Sede da FAO, 02 de novembro de 2021.

Para Sua Excelência Qu Dongyu
Diretor Geral da FAO


Excelência:

Em nome e em nome do Santo Padre, quero agradecer à FAO por ter promovido, em colaboração com a Organização Internacional do Trabalho - OIT (ILO/IPEC), este encontro global estratégico que focaliza nossa atenção sobre um fenômeno cada vez mais preocupante, dadas as estimativas recentes de organismos internacionais.

Na verdade, ainda mais quando se manifesta como exploração, o trabalho infantil torna-se um flagelo que fere cruelmente a existência digna e o desenvolvimento harmonioso dos mais pequenos, limitando consideravelmente suas oportunidades futuras, pois reduz e fere suas vidas para satisfazer os produtivos e lucrativos. necessidades dos adultos.

As conotações negativas deste drama foram exacerbadas pela pandemia, que tem levado um número crescente de menores a abandonar a escola para cair, infelizmente, nas garras desta forma de escravatura. Para muitos destes nossos irmãozinhos, faltar à escola significa não só perder oportunidades que lhes permitam enfrentar os desafios da vida adulta, mas também adoecer, ou seja, ficar privado do direito à saúde, devido às condições deploráveis em que vive têm de cumprir as tarefas que vilmente lhes são exigidas.

Se pararmos no setor agrícola, a emergência é ainda mais alarmante: milhares de crianças são obrigadas a trabalhar incansavelmente, em condições exaustivas, precárias e degradantes, sofrendo maus-tratos, abusos e discriminação. Mas a situação chega ao ápice da desolação, quando são os próprios pais que são obrigados a mandar seus filhos para o trabalho, porque sem sua contribuição ativa não seriam capazes de sustentar a família.

Senhor Diretor-Geral, que possa surgir um grito poderoso desta reunião que exorta as autoridades internacionais e nacionais competentes a defenderem a serenidade e a felicidade das crianças. O investimento mais lucrativo que a humanidade pode fazer é a proteção da criança! Proteger as crianças é respeitar o tempo do seu crescimento, permitindo que estes frágeis rebentos tenham as condições ideais para a sua abertura e floração

Proteger as crianças implica também tomar medidas incisivas para ajudar as famílias dos pequenos agricultores, para que não sejam obrigados a mandar os filhos ao campo para aumentarem os seus rendimentos, o que, sendo tão baixos, não lhes permite manter os seus rendimentos com dignidade. casas. Por fim, proteger as crianças implica agir de forma que se abram horizontes diante delas, configurando-as como cidadãos livres, honestos e solidários.

Quão importante seria para um sistema legal bem-sucedido e eficaz, tanto internacional quanto nacional, defender e proteger as crianças daquela mentalidade tecnocrática nociva que se instalou no presente. Para isso, é necessário multiplicar as pessoas e as associações que, a todos os níveis, se esforcem para que o desejo de lucro excessivo que condena as crianças e os jovens ao jugo brutal da exploração do trabalho dê lugar à lógica do cuidado

Nesse sentido, é necessário um trabalho de denúncia, educação, conscientização e convicção para que quem não tem escrúpulos de escravizar a infância com fardos insuportáveis veja mais longe e mais fundo, superando o egoísmo e essa ânsia de consumir compulsivamente que acabam devorando o planeta, esquecendo que seus recursos devem ser preservados para as gerações futuras.

Excelência, se almejamos que a nossa sociedade possa gozar daquela dignidade que a enobrece, se queremos que a lei triunfe sobre a arbitrariedade, devemos assegurar aos nossos filhos e jovens um presente sem exploração laboral. E isso só será possível se nos envolvermos conjunta e peremptoriamente com eles, guardando e cultivando seus sonhos, brincando, treinando e aprendendo. Então, um futuro brilhante se abrirá para a família humana. Não tenho dúvidas de que o evento de hoje e o atual Ano Internacional pela Eliminação do Trabalho Infantil contribuirão para isso.

Ao renovar a vontade da Santa Sé e o empenho da Igreja Católica e das suas instituições para que a comunidade internacional não deixe de combater com firmeza, conjunta e decisivamente o flagelo da exploração laboral de menores, invoco-o, Senhor Diretor-Geral, e para todos os que se esforçam para libertar crianças e jovens de todas as adversidades, a bênção do Deus Todo-Poderoso.

Vaticano, 02 de novembro de 2021

Pietro Card. Parolin
Secretário de Estado

3 de novembro de 2021

Mensagem do Santo Padre por ocasião da 26ª sessão da Conferência dos Estados Parte da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre as Mudanças do Clima

 
Traduzido por Renata P. Espíndola
 
 
Para Sua Excelência
O Honorável Alok Sharma
Presidente da COP26, a 26ª Sessão da Conferência das Partes
à Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima
[Glasgow, 31 de outubro - 12 de novembro de 2021]


Vossa Excelência,

No início da Conferência de Glasgow, todos nós estamos cientes de que ela tem a tarefa vital de demonstrar a toda a comunidade internacional se realmente existe uma vontade política de dedicar - com honestidade, responsabilidade e coragem - maiores recursos humanos, financeiros e tecnológicos para mitigar os efeitos negativos das mudanças climáticas e a assistência às nações mais pobres e vulneráveis ​​mais afetadas por elas.[1]

Ao mesmo tempo, percebemos que essa tarefa deve ser realizada em meio a uma pandemia que há quase dois anos devastou nossa família humana. A Covid-19 trouxe imensas tragédias em seu rastro, mas também nos ensinou que, se quisermos vencer a pandemia, não há alternativa: todos nós devemos participar na resposta a esse desafio. E isso, como sabemos, exige uma profunda solidariedade e uma cooperação fraterna entre os povos do mundo.

Nosso mundo pós-pandêmico será necessariamente diferente do que era antes da pandemia. É esse mundo que devemos construir agora, juntos, a partir do reconhecimento dos erros do passado.

Algo semelhante poderia ser dito sobre nossos esforços para enfrentar o problema global da mudança climática. Não há alternativa. Só podemos atingir as metas estabelecidas pelo Acordo de Paris se agirmos de forma coordenada e responsável. Essas metas são ambiciosas e não podem mais ser adiadas. Hoje cabe a você tomar as decisões necessárias.

A COP26 pode e deve oferecer uma contribuição efetiva para a construção consciente de um futuro em que as ações cotidianas e os investimentos econômicos e financeiros possam genuinamente resguardar as condições que garantam uma vida digna e humana aos homens e mulheres, de hoje e de amanhã, num planeta saudável.

Encontramo-nos perante uma mudança histórica, um desafio cultural que exige o empenho de todos, em particular dos países que dispõem de maiores meios. Esses países precisam assumir um papel de liderança nas áreas de financiamento do clima, descarbonização do sistema econômico e da vida das pessoas, promoção de uma economia circular, apoio aos países mais vulneráveis ​​que trabalham para se adaptar ao impacto das mudanças climáticas e para responder. às perdas e danos que causou.

Por sua vez, a Santa Sé, como afirmei na “Cúpula da Ambição Virtual de Alto Nível sobre o Clima” de 12 de dezembro de 2020, adotou uma estratégia de emissões líquidas zero operando em dois níveis:

1) o compromisso do Estado da Cidade do Vaticano para atingir este objetivo de 2050; e,

2) o compromisso da Santa Sé em promover a educação em ecologia integral.

Temos plena consciência de que as medidas políticas, técnicas e operacionais precisam estar vinculadas a um processo educativo que, principalmente entre os jovens, possa promover novos estilos de vida e favorecer um modelo cultural de desenvolvimento e de sustentabilidade centrado na fraternidade e na aliança entre os homens e o ambiente natural. Esses compromissos deram origem a milhares de iniciativas em todo o mundo.

Na mesma linha, em 04 de outubro passado, me juntei a vários líderes religiosos e cientistas na assinatura de um “Apelo Conjunto em vista da COP26”. Na ocasião, ouvimos as vozes de representantes de muitas religiões e tradições espirituais, de muitas culturas e campos científicos. Vozes muito diferentes, com sensibilidades muito diferentes.

No entanto, o que claramente emergiu foi uma convergência notável sobre a necessidade urgente de uma mudança de direção, uma resolução decisiva de passar da "cultura do descarte" prevalente em nossas sociedades para uma "cultura de cuidado" para nossa casa comum e seus habitantes, agora e no futuro.

As feridas infligidas à nossa família humana pela pandemia Covid-19 e o fenômeno da mudança climática são comparáveis ​​àquelas resultantes de um conflito global. Hoje, como no rescaldo da Segunda Guerra Mundial, a comunidade internacional como um todo precisa priorizar a implementação de ações colegiadas, solidárias e prospectivas.

Precisamos de esperança e coragem. A humanidade possui os meios para realizar esta mudança, que exige uma conversão genuína, tanto individual como comunitária, e uma vontade decidida de empreender este caminho. Isso implicará a transição para um modelo de desenvolvimento mais integral e integrador, baseado na solidariedade e na responsabilidade. Uma transição que também deve levar em consideração os efeitos que terá no mundo do trabalho.

Da mesma forma, deve-se ter um cuidado especial com os povos mais vulneráveis, para os quais existe uma crescente “dívida ecológica” relacionada aos desequilíbrios comerciais com repercussões ambientais e ao uso desproporcional dos recursos naturais próprios e de outros países.[2] Não há como negar isso.

A “dívida ecológica” levanta, de certa forma, a questão da dívida externa, cujo ônus muitas vezes impede o desenvolvimento dos povos.[3] O mundo pós-pandêmico pode e deve recomeçar a partir da consideração de todos esses aspectos, juntamente com a instauração de procedimentos cuidadosamente negociados para o perdão da dívida externa, vinculados a uma reestruturação econômica mais sustentável e justa visando atender à emergência climática.

Os países desenvolvidos devem ajudar a pagar a dívida ecológica, limitando significativamente seu consumo de energia não renovável e ajudando os países mais pobres a apoiar políticas e programas de desenvolvimento sustentável”.[4] Um desenvolvimento do qual, enfim, todos podem participar.

Infelizmente, devemos reconhecer o quanto ainda estamos longe de atingir as metas estabelecidas para combater as mudanças climáticas. Precisamos ser honestos: isso não pode continuar! Mesmo enquanto nos preparávamos para a COP26, ficava cada vez mais claro que não há tempo a perder. Muitos de nossos irmãos e irmãs estão sofrendo com esta crise climática. A vida de inúmeras pessoas, principalmente das mais vulneráveis, experimentou seus efeitos cada vez mais frequentes e devastadores.

Ao mesmo tempo, percebemos que isso também envolve uma crise dos direitos das crianças e que, em um futuro próximo, os migrantes ambientais serão mais numerosos do que os refugiados da guerra e dos conflitos. Agora é a hora de agir com urgência, coragem e responsabilidade. Não menos importante, para preparar um futuro em que nossa família humana esteja em condições de cuidar de si mesma e do meio ambiente.

Os jovens, que nos últimos anos nos instaram fortemente a agir, só herdarão o planeta que decidirmos deixar para eles, com base nas escolhas concretas que fazemos hoje. Chegou o momento de decisões que lhes possam dar motivos de esperança e confiança no futuro.

Eu esperava estar com você pessoalmente, mas não foi possível. Eu o acompanho, no entanto, com minhas orações enquanto você toma essas decisões importantes.

Queira aceitar, Senhor Presidente, as minhas cordiais saudações e bons votos.

Vaticano, 29 de outubro de 2021.
Papa Francisco

[2] Carta Encíclica Laudato Si'', 51.
[3] Carta Encíclica Fratelli Tutti, 126.
[4] Carta Encíclica Laudato Si' , 52.


16 de outubro de 2021

Discurso do Arcebispo Dom Gabriele Caccia, Núncio Apostólico e Observador Permanente da Santa Sé nas Nações Unidas, sobre armas nucleares, de destruição em massa e desarmamento

Enquanto católicos brigam entre si se achando mais iluminados que o Papa, mais sábios, mais inseridos na Tradição, o Vaticano trabalha seriamente pelos bens espirituais e físicos dos seres humanos, não apenas de seus filhos e filhas. De certa forma, o discurso me recordou os esforços da Igreja no livro de sci-fi "Um Cântico para Leibowitz" (MILLER JR, 1960), onde finalmente seus esforços foram duplamente em vão... Ora et labora.

.........................................................................

Tradução para o português por Renata P. Espíndola



Sr. Presidente,


Em sua recente Carta Encíclica
Fratelli Tutti, o Papa Francisco tocou em temas que contextualizam a importância do trabalho deste Comitê: “Não nos deixemos”, disse ele, “permanecer atolados em discussões teóricas, mas tocar na carne ferida das vítimas. Vejamos mais uma vez todos os civis cujas mortes foram consideradas "danos colaterais. Perguntemos às próprias vítimas. Pensemos nos refugiados e deslocados, aqueles que sofreram os efeitos da radiação atômica ou de ataques químicos”. [1]

No que diz respeito ao último grupo, relatos recentes sobre o uso de agentes “nervosos [N.T.: Agentes químicos de guerra persistentes e não persistentes] em vários lugares do mundo apontam para a relevância continuada de instrumentos que proíbem seu uso e posse. O Protocolo de Genebra (1925)
, a Convenção de Armas Biológicas e Tóxicas (1975) e a Convenção de Armas Químicas (1993) devem fornecer um escudo completo contra tais armas.

Mais de um século após o uso de armas químicas na Primeira Guerra Mundial, as nações do mundo deveriam se livrar completamente delas e deveriam buscar medidas que fortaleçam a implantação de medidas legais para um cumprimento efetivo a esse respeito. A contínua pandemia de COVID-19 é um lembrete gritante e doloroso do impacto incapacitante que pode ser causado por novos agentes biológicos, mesmo de gênese natural.

Da mesma forma, não devemos perder de vista a ameaça das chamadas “bombas sujas”, mais propriamente armas radiológicas, ou a necessidade de medidas que proíbam o uso de materiais radiológicos como armas.

(...)

Muitos elogiaram a extensão de cinco anos do
Novo Tratado START entre a Federação Russa e os Estados Unidos da América. Minha Delegação espera, além disso, um rápido progresso no diálogo estratégico que já foi convocado duas vezes para considerar novas reduções nas armas nucleares, tanto estratégicas como não estratégicas, e a relevância das novas tecnologias.

Como a
Conferência de Revisão do Tratado de Não-Proliferação adiada com o cinquentenário do Tratado de Não Proliferação (TNP) parece provável que aconteça em janeiro, é importante que os Estados possuidores de armas nucleares P-5 considerem e concordem em tomar medidas que complementem as de a Federação Russa e os Estados Unidos.

É hora de os estoques de armas nucleares serem definitivamente limitados, com reduções adicionais entre os P-5 a serem tomadas abaixo do limite. Obviamente, estabelecer um teto para os estoques nucleares dos outros estados possuidores de energia nuclear também é importante. 

Nosso mundo está tão interconectado que todas as armas nucleares, onde quer que estejam, devem ser eliminadas no menor tempo possível, para que um acidente ou erro de cálculo não leve a consequências humanitárias e ambientais catastróficas. [2]

O Papa Francisco enfatizou que “o uso da energia atômica para fins de guerra é imoral, assim como a posse de armas nucleares é imoral[3], uma vez que a intencionalidade intrínseca de possuir armas nucleares é a ameaça de usá-las.

A esse respeito, o Tratado sobre a Proibição de Armas Nucleares (TPAN, em português) estabeleceu uma proibição legal sobre a posse de armas nucleares e, no devido tempo, será uma base para que os Estados possuidores de armas nucleares se tornem participantes ao eliminarem seus programas. Por enquanto, as atuais partes do Tratado podem trabalhar para desenvolver os procedimentos que serão necessários para que a autoridade ou autoridades de verificação estabelecidas pelo Tratado possam assegurar que os programas de armas nucleares relevantes foram realmente eliminados.

O TPAN reconhece explicitamente que restrições devem ser impostas às armas convencionais, além das armas nucleares. Tendo em mente o papel que a dissuasão nuclear, incluindo a dissuasão nuclear ampliada, tem desempenhado entre os Estados, esforços adicionais substanciais devem ser feitos para lidar com as armas convencionais.

O mundo, de fato, tem feito progressos nesse sentido, como a
Convenção sobre Armas Convencionais, que tem se mostrado um acordo duradouro, com espaço para maior expansão, como evidenciado por seus protocolos como os que tratam de armas de lasers cegantes. Além disso, a crescente ameaça do uso de drones armados e sistemas de armas autônomas letais ressalta a urgência de abordar a necessidade ética de preservar a responsabilidade humana.

[N.T.: A justificativa é a de que é melhor tornar uma pessoa cega em definitivo do que matá-la. O que é mais cruel?]

As armas convencionais causaram danos terríveis em todo o mundo desde o fim da Segunda Guerra Mundial.
Este Comitê precisa redobrar seus esforços para fornecer caminhos para acordos que irão reduzir a dependência de quaisquer armas convencionais para resolver disputas. Esses esforços não apenas tornarão o desarmamento nuclear mais viável, mas também moderarão as interações entre os Estados em suas relações em curso.

Determinados como estamos a salvar as gerações vindouras do flagelo da guerra,
[4] não podemos nos permitir ser espectadores da violência e da guerra, de irmãos matando irmãos, como se estivéssemos assistindo a jogos de uma distância segura. As vidas das pessoas não são brinquedos. Não podemos ser espectadores indiferentes. [5]

[N.T.: E os seres humanos se "divertindo" nos "novos coliseus com gladiadores lutando até a morte" em séries distópicas de TV, como se a crueldade real já não fosse suficiente.]

Não podemos, como disse o Papa Francisco “continuar a aceitar as guerras com o desprendimento com que assistimos ao noticiário da noite”. [6]

Em conclusão, a Santa Sé deseja manifestar a sua convicção de que o espaço sideral deve continuar a ser o domínio pacífico que tem sido até agora na história da humanidade. Embora certos usos militares desse ambiente tenham sido implantados, como comunicações, navegação e monitoramento, eles também são essenciais para fins pacíficos.

Tornar este ambiente armado, seja por meio do uso de armas, seja pelo ataque de objetos espaciais do solo, seria extremamente perigoso. As restrições existentes aos usos militares do espaço sideral, conforme consubstanciado no
Tratado do Espaço Exterior, devem ser estendidas.

A experiência de fragmentos orbitais de longa duração resultantes da destruição de satélites mostra como seria tolice colocar objetos espaciais em risco para o uso de armas. Transparência e medidas de fortalecimento da confiança, bem como instrumentos legalmente vinculantes devem ser prontamente negociados, para que o ambiente do espaço sideral permaneça seguro para todos nós.

Obrigado, senhor presidente.

 Nova Iorque, 13 de outubro de 2021.
 Arcebispo Gabriele Caccia

 
[1] Papa Francisco, FratelliTutti, 261.

[2] Cf. Papa Francisco, FratelliTutti, 262; Tratado sobre a Proibição de Armas Nucleares, PP2.

[3] Papa Francisco, Encontro pela Paz, Memorial da Paz, Hiroshima, Japão, 24 de novembro de 2019.

[4] Cf. Carta das Nações Unidas.

[5] Cf. Papa Francisco, Discurso no Encontro das Religiões pela Paz, Roma, 7 de outubro de 2021.

[6] Idem.



Fonte da imagem: Pinterest.