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29 de julho de 2022

Mensagem de Sua Santidade Papa Francisco para a celebração do Dia Mundial de Oração pelo Cuidado da Criação em 01 de setembro de 2022.

 

Queridos irmãos e irmãs!

«Escuta a voz da criação» é o tema e o convite do «Tempo da Criação» deste ano. O período ecumênico começa no dia 1 de setembro com o Dia Mundial de Oração pelo Cuidado da Criação e termina a 4 de outubro com a festa de São Francisco. É um momento especial para todos os cristãos, a fim de orarmos e cuidarmos, juntos, da nossa casa comum. Inspiração originária do Patriarcado Ecumênico de Constantinopla, este «Tempo» é uma oportunidade para aperfeiçoarmos a nossa «conversão ecológica», uma conversão encorajada por São João Paulo II como resposta à «catástrofe ecológica» pressagiada por São Paulo VI já em 1970. [1]

Se se aprende a escutá-la, notamos uma espécie de dissonância na voz da criação. Por um lado, é um canto doce que louva o nosso amado Criador; por outro, é um grito amargo que se lamenta dos nossos maus-tratos humanos.

O canto doce da criação convida-nos a praticar uma «espiritualidade ecológica» (Francisco, Carta enc. Laudato si', 216), atenta à presença de Deus no mundo natural. É um convite a fundar a nossa espiritualidade na «consciência amorosa de não estar separado das outras criaturas, mas de formar com os outros seres do universo uma estupenda comunhão universal» (ibid., 220). Particularmente para os discípulos de Cristo, esta experiência luminosa reforça a consciência de que «por Ele é que tudo começou a existir; e sem Ele nada veio à existência» (Jo 1, 3). 

Neste «Tempo da Criação», retomemos a oração na grande catedral da criação, gozando do «grandioso coro cósmico» [2] de inúmeras criaturas que cantam louvores a Deus. Unamo-nos a São Francisco de Assis cantando «Louvado sejas, meu Senhor, com todas as tuas criaturas» (cf. Cântico do Irmão Sol). Unamo-nos ao Salmista cantando «Todo o ser vivo louve o Senhor» ( Sl 150, 6).

Esta canção doce, infelizmente, é acompanhada por um grito amargo. Ou melhor, por um coro de gritos amargos. Primeiro, é a irmã Madre Terra que grita. À mercê dos nossos excessos consumistas, geme implorando para pararmos com os nossos abusos e a sua destruição. Depois gritam as diversas criaturas. 

À mercê de um «antropocentrismo despótico» (Laudato si', 68), nos antípodas da centralidade de Cristo na obra da criação, estão a extinguir-se inúmeras espécies, cessando para sempre os seus hinos de louvor a Deus. Mas gritam também os mais pobres entre nós. Expostos à crise climática, sofrem mais severamente o impacto de secas, inundações, furacões e vagas de calor que se vão tornando cada vez mais intensas e frequentes. E gritam ainda os nossos irmãos e irmãs de povos indígenas. 

Por causa de predatórios interesses econômicos, os seus territórios ancestrais são invadidos e devastados por todo o lado, lançando «um clamor que brada ao céu» (Francisco, Exortação Apóstólica Pós-sinodal Querida Amazonia, 9). Enfim gritam os nossos filhos. Ameaçados por um egoísmo míope, os adolescentes pedem-nos ansiosamente, a nós adultos, que façamos todo o possível para prevenir ou pelo menos limitar o colapso dos ecossistemas do nosso planeta.

Escutando estes gritos amargos, devemo-nos arrepender e mudar os estilos de vida e os sistemas danosos. O apelo evangélico inicial – «Convertei-vos, porque está próximo o Reino do Céu» (Mt 3, 2) –, ao convidar a uma nova relação com Deus, pede também uma relação diferente com os outros e com a criação. O estado de degrado da nossa casa comum merece a mesma atenção que outros desafios globais, como as graves crises sanitárias e os conflitos bélicos. «Viver a vocação de guardiões da obra de Deus não é algo de opcional nem um aspeto secundário da experiência cristã, mas parte essencial duma existência virtuosa» (Laudato si', 217).

Como pessoas de fé, sentimo-nos ainda mais responsáveis por adotar comportamentos diários em consonância com a referida exigência de conversão. Mas esta não é apenas individual: «a conversão ecológica, que se requer para criar um dinamismo de mudança duradoura, é também uma conversão comunitária» (ibid., 219). Nesta perspetiva, a própria comunidade das nações é chamada a empenhar-se, com espírito de máxima cooperação, especialmente nos encontros das Nações Unidas dedicados à questão ambiental.

A cimeira COP 27 sobre o clima, que se vai realizar no Egito em novembro de 2022, constitui a próxima oportunidade para promover, todos juntos, uma eficaz implementação do Acordo de Paris. Também por este motivo dispus recentemente que a Santa Sé, em nome e por conta do Estado da Cidade do Vaticano, adira à Convenção-Quadro da ONU sobre as Mudanças Climáticas e ao Acordo de Paris, com a esperança de que a humanidade do século XXI «possa ser lembrada por ter assumido com generosidade as suas graves responsabilidades» (ibid., 165). 

Alcançar o objetivo de Paris de limitar o aumento da temperatura a 1,5°C é bastante árduo e requer uma colaboração responsável entre todas as nações para apresentar planos climáticos ou Contribuições Determinadas a nível nacional mais ambiciosos, para reduzir a zero, com a maior urgência possível, as emissões globais dos gases de efeito estufa. Trata-se de «converter» os modelos de consumo e produção, bem como os estilos de vida, numa direção mais respeitadora da criação e do progresso humano integral de todos os povos presentes e futuros, um progresso fundado na responsabilidade, na prudência/precaução, na solidariedade e atenção aos pobres e às gerações futuras. 

Na base de tudo, deve estar a aliança entre o ser humano e o meio ambiente que, para nós crentes, é «espelho do amor criador de Deus, de Quem provimos e para Quem estamos a caminho». [3] A transição realizada por esta conversão não pode negligenciar as exigências da justiça, especialmente para com os trabalhadores mais afetados pelo impacto das mudanças climáticas.

Por sua vez, a cimeira COP 15 sobre a biodiversidade, que terá lugar no Canadá em dezembro, proporcionará à boa vontade dos Governos uma oportunidade importante para adotarem um novo acordo multilateral para deter a destruição dos ecossistemas e a extinção das espécies. Segundo a antiga sabedoria dos Jubileus, temos necessidade de «recordar, regressar, repousar e restaurar». [4] 

Para impedir um colapso ainda mais grave da «rede da vida» – Biodiversidade – que Deus nos concedeu, rezemos e convidemos as nações a porem-se de acordo sobre quatro princípios-chave: 

1º. ⇒ Construir uma base ética clara para a transformação que precisamos a fim de salvar a biodiversidade; 

2º. ⇒ Lutar contra a perda de biodiversidade, apoiar a sua conservação e recuperação e satisfazer de forma sustentável as necessidades das pessoas; 

3º. ⇒ Promover a solidariedade global, tendo em vista que a biodiversidade é um bem comum global que requer um empenho compartilhado; 

4º. ⇒ Colocar no centro as pessoas em situações de vulnerabilidade, incluindo as mais afetadas pela perda de biodiversidade, como as populações indígenas, os idosos e os jovens.

Repito: «Quero pedir, em nome de Deus, às grandes empresas extrativas – mineiras, petrolíferas, florestais, imobiliárias, agro-alimentares – que deixem de destruir florestas, zonas úmidas e montanhas, que deixem de poluir rios e mares, que deixem de intoxicar as pessoas e os alimentos». [5]

É impossível não reconhecer a existência duma «dívida ecológica» (Laudato si', 51) das nações economicamente mais ricas, que poluíram mais nos últimos dois séculos; isso exige que elas realizem passos mais ambiciosos tanto na COP 27 como na COP 15. Além duma decidida ação dentro das suas fronteiras, inclui cumprir as suas promessas de apoio financeiro e técnico às nações economicamente mais pobres, que já sofrem o peso maior da crise climática. 

Além disso, seria oportuno pensar urgentemente também num maior apoio financeiro para a conservação da biodiversidade. Significativas, embora «diversificadas» (cf. ibid., 52), são também as responsabilidades dos países economicamente menos ricos; os atrasos dos outros não podem jamais justificar a inação de quem quer que seja. É necessário agirem todos, com decisão. Estamos a chegar a «um ponto de ruptura» (cf. ibid., 61).

Durante este «Tempo da Criação», rezemos para que as cimeiras COP 27 e COP 15 possam unir a família humana (cf. ibid., 13) para enfrentar decididamente a dupla crise do clima e da redução da biodiversidade. Recordando a exortação de São Paulo para nos alegrar com os que se alegram e chorar com os que choram (cf. Rm 12, 15), choremos com o grito amargo da criação, escutemo-lo e respondamos com os fatos para que nós e as gerações futuras possamos ainda alegrar-nos com o canto doce de vida e de esperança das criaturas.


Roma, São João de Latrão, na Memória de Nossa Senhora do Carmo, dia 16 de julho de 2022.

FRANCISCO





[1] Cf. Discurso à FAO, 16 de novembro de 1970.

[2] São João Paulo II, Audiência Geral, 10 de julho de 2002.



[5] Vídeo-mensagem aos Movimentos Populares, 16 de outubro de 2021.

3 de novembro de 2021

Mensagem do Santo Padre por ocasião da 26ª sessão da Conferência dos Estados Parte da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre as Mudanças do Clima

 
Traduzido por Renata P. Espíndola
 
 
Para Sua Excelência
O Honorável Alok Sharma
Presidente da COP26, a 26ª Sessão da Conferência das Partes
à Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima
[Glasgow, 31 de outubro - 12 de novembro de 2021]


Vossa Excelência,

No início da Conferência de Glasgow, todos nós estamos cientes de que ela tem a tarefa vital de demonstrar a toda a comunidade internacional se realmente existe uma vontade política de dedicar - com honestidade, responsabilidade e coragem - maiores recursos humanos, financeiros e tecnológicos para mitigar os efeitos negativos das mudanças climáticas e a assistência às nações mais pobres e vulneráveis ​​mais afetadas por elas.[1]

Ao mesmo tempo, percebemos que essa tarefa deve ser realizada em meio a uma pandemia que há quase dois anos devastou nossa família humana. A Covid-19 trouxe imensas tragédias em seu rastro, mas também nos ensinou que, se quisermos vencer a pandemia, não há alternativa: todos nós devemos participar na resposta a esse desafio. E isso, como sabemos, exige uma profunda solidariedade e uma cooperação fraterna entre os povos do mundo.

Nosso mundo pós-pandêmico será necessariamente diferente do que era antes da pandemia. É esse mundo que devemos construir agora, juntos, a partir do reconhecimento dos erros do passado.

Algo semelhante poderia ser dito sobre nossos esforços para enfrentar o problema global da mudança climática. Não há alternativa. Só podemos atingir as metas estabelecidas pelo Acordo de Paris se agirmos de forma coordenada e responsável. Essas metas são ambiciosas e não podem mais ser adiadas. Hoje cabe a você tomar as decisões necessárias.

A COP26 pode e deve oferecer uma contribuição efetiva para a construção consciente de um futuro em que as ações cotidianas e os investimentos econômicos e financeiros possam genuinamente resguardar as condições que garantam uma vida digna e humana aos homens e mulheres, de hoje e de amanhã, num planeta saudável.

Encontramo-nos perante uma mudança histórica, um desafio cultural que exige o empenho de todos, em particular dos países que dispõem de maiores meios. Esses países precisam assumir um papel de liderança nas áreas de financiamento do clima, descarbonização do sistema econômico e da vida das pessoas, promoção de uma economia circular, apoio aos países mais vulneráveis ​​que trabalham para se adaptar ao impacto das mudanças climáticas e para responder. às perdas e danos que causou.

Por sua vez, a Santa Sé, como afirmei na “Cúpula da Ambição Virtual de Alto Nível sobre o Clima” de 12 de dezembro de 2020, adotou uma estratégia de emissões líquidas zero operando em dois níveis:

1) o compromisso do Estado da Cidade do Vaticano para atingir este objetivo de 2050; e,

2) o compromisso da Santa Sé em promover a educação em ecologia integral.

Temos plena consciência de que as medidas políticas, técnicas e operacionais precisam estar vinculadas a um processo educativo que, principalmente entre os jovens, possa promover novos estilos de vida e favorecer um modelo cultural de desenvolvimento e de sustentabilidade centrado na fraternidade e na aliança entre os homens e o ambiente natural. Esses compromissos deram origem a milhares de iniciativas em todo o mundo.

Na mesma linha, em 04 de outubro passado, me juntei a vários líderes religiosos e cientistas na assinatura de um “Apelo Conjunto em vista da COP26”. Na ocasião, ouvimos as vozes de representantes de muitas religiões e tradições espirituais, de muitas culturas e campos científicos. Vozes muito diferentes, com sensibilidades muito diferentes.

No entanto, o que claramente emergiu foi uma convergência notável sobre a necessidade urgente de uma mudança de direção, uma resolução decisiva de passar da "cultura do descarte" prevalente em nossas sociedades para uma "cultura de cuidado" para nossa casa comum e seus habitantes, agora e no futuro.

As feridas infligidas à nossa família humana pela pandemia Covid-19 e o fenômeno da mudança climática são comparáveis ​​àquelas resultantes de um conflito global. Hoje, como no rescaldo da Segunda Guerra Mundial, a comunidade internacional como um todo precisa priorizar a implementação de ações colegiadas, solidárias e prospectivas.

Precisamos de esperança e coragem. A humanidade possui os meios para realizar esta mudança, que exige uma conversão genuína, tanto individual como comunitária, e uma vontade decidida de empreender este caminho. Isso implicará a transição para um modelo de desenvolvimento mais integral e integrador, baseado na solidariedade e na responsabilidade. Uma transição que também deve levar em consideração os efeitos que terá no mundo do trabalho.

Da mesma forma, deve-se ter um cuidado especial com os povos mais vulneráveis, para os quais existe uma crescente “dívida ecológica” relacionada aos desequilíbrios comerciais com repercussões ambientais e ao uso desproporcional dos recursos naturais próprios e de outros países.[2] Não há como negar isso.

A “dívida ecológica” levanta, de certa forma, a questão da dívida externa, cujo ônus muitas vezes impede o desenvolvimento dos povos.[3] O mundo pós-pandêmico pode e deve recomeçar a partir da consideração de todos esses aspectos, juntamente com a instauração de procedimentos cuidadosamente negociados para o perdão da dívida externa, vinculados a uma reestruturação econômica mais sustentável e justa visando atender à emergência climática.

“Os países desenvolvidos devem ajudar a pagar a dívida ecológica, limitando significativamente seu consumo de energia não renovável e ajudando os países mais pobres a apoiar políticas e programas de desenvolvimento sustentável”.[4] Um desenvolvimento do qual, enfim, todos podem participar.

Infelizmente, devemos reconhecer o quanto ainda estamos longe de atingir as metas estabelecidas para combater as mudanças climáticas. Precisamos ser honestos: isso não pode continuar! Mesmo enquanto nos preparávamos para a COP26, ficava cada vez mais claro que não há tempo a perder. Muitos de nossos irmãos e irmãs estão sofrendo com esta crise climática. A vida de inúmeras pessoas, principalmente das mais vulneráveis, experimentou seus efeitos cada vez mais frequentes e devastadores.

Ao mesmo tempo, percebemos que isso também envolve uma crise dos direitos das crianças e que, em um futuro próximo, os migrantes ambientais serão mais numerosos do que os refugiados da guerra e dos conflitos. Agora é a hora de agir com urgência, coragem e responsabilidade. Não menos importante, para preparar um futuro em que nossa família humana esteja em condições de cuidar de si mesma e do meio ambiente.

Os jovens, que nos últimos anos nos instaram fortemente a agir, só herdarão o planeta que decidirmos deixar para eles, com base nas escolhas concretas que fazemos hoje. Chegou o momento de decisões que lhes possam dar motivos de esperança e confiança no futuro.

Eu esperava estar com você pessoalmente, mas não foi possível. Eu o acompanho, no entanto, com minhas orações enquanto você toma essas decisões importantes.

Queira aceitar, Senhor Presidente, as minhas cordiais saudações e bons votos.

Vaticano, 29 de outubro de 2021.
Papa Francisco

[2] Carta Encíclica Laudato Si'', 51.
[3] Carta Encíclica Fratelli Tutti, 126.
[4] Carta Encíclica Laudato Si' , 52.


7 de setembro de 2021

Mensagem assinada em conjunto pelo Papa Francisco, o Patriarca Ecumênico Bartolomeu I e o Arcebispo de Cantuária, Justin Welby, para a Proteção da Criação

 Tradução: Renata P. Espíndola


Por mais de um ano, todos nós experimentamos os efeitos devastadores de uma pandemia global - todos nós, ricos ou pobres, fracos ou fortes. Alguns eram mais protegidos ou mais vulneráveis ​​do que outros, mas a rápida disseminação da infecção nos tornou dependentes uns dos outros em nossos esforços para permanecer seguros.

Percebemos que, em face desta calamidade global, ninguém está seguro até que todos estejam seguros, que nossas ações realmente afetam os outros e que o que fazemos hoje afeta o que acontece amanhã.

Essas não são lições novas, mas tivemos que enfrentá-las novamente. Espero que não percamos este momento. Devemos decidir que tipo de mundo queremos deixar para as gerações futuras. Deus ordena: "Escolhe a vida, para que tu e a tua descendência vivam" (Dt 30, 19). Devemos escolher viver de maneira diferente; devemos escolher a vida.

Muitos cristãos celebram setembro como a época da criação, uma oportunidade de orar e cuidar da criação de Deus. Enquanto os líderes mundiais se preparam para se reunir em Glasgow em novembro para deliberar sobre o futuro de nosso planeta, oramos por eles e consideramos as decisões que todos devemos tomar. 

Consequentemente, como líderes de nossas Igrejas, apelamos a todos, seja qual for sua crença ou cosmovisão, a se esforçarem para ouvir o clamor da terra e das pessoas que são pobres, examinando seu comportamento e se comprometendo a fazer sacrifícios significativos pelo bem da terra que Deus nos deu.


A importância da sustentabilidade


Em nossa tradição cristã comum, as escrituras e os santos fornecem perspectivas iluminadoras para a compreensão tanto das realidades do presente quanto da promessa de algo maior do que o que vemos agora. O conceito de mordomia - responsabilidade individual e coletiva pelo dom que Deus nos deu - representa um ponto de partida vital para a sustentabilidade social, econômica e ambiental. 

No Novo Testamento, lemos sobre o homem rico e tolo que armazena grandes riquezas de trigo enquanto se esquece de sua finitude (Lc 12: 13-21). Também conhecemos o filho pródigo que exige a sua herança com antecedência, só para esbanjá-la e acabar com fome (Lc 15,11-32). 

Somos avisados ​​de que não devemos adotar soluções de curto prazo e aparentemente baratas para construir na areia, em vez de construir na rocha, para que nossa casa comum resista às tormentas (Mt 7,24-27). Essas histórias nos convidam a uma perspectiva mais ampla e a reconhecer nosso lugar na história universal da humanidade.

Mas temos tomado a direção oposta. Maximizamos nosso interesse próprio às custas das gerações futuras. Ao nos concentrarmos em nossa riqueza, descobrimos que os ativos de longo prazo, incluindo a riqueza da natureza, são esgotados para benefícios de curto prazo. 

A tecnologia abriu novas possibilidades de progresso, mas também de acumulação desenfreada de riqueza, e muitos de nós nos comportamos de uma maneira que demonstra pouca preocupação com as outras pessoas ou com os limites do planeta. 

A natureza é resistente, mas também delicada. Já estamos vendo as consequências de nossa recusa em protegê-la e preservá-la (Gn 2,15). Agora, neste momento, temos a oportunidade de nos arrepender, de dar uma volta decisiva, de ir na direção oposta. Devemos perseguir a generosidade e a justiça na maneira como vivemos, trabalhamos e usamos o dinheiro, ao invés de uma ganância egoísta.


O impacto nas pessoas que vivem na pobreza


A atual crise climática diz muito sobre quem somos e como vemos e tratamos a criação de Deus. Estamos diante de uma justiça implacável: a perda da biodiversidade, a degradação ambiental e as mudanças climáticas são as consequências inevitáveis ​​de nossas ações, pois temos avidamente consumido mais recursos da Terra do que o planeta pode suportar. 

Mas também enfrentamos uma profunda injustiça: as pessoas que sofrem as consequências mais catastróficas desses abusos são as mais pobres do planeta e as que menos têm a responsabilidade de causá-los. 

Servimos a um Deus de justiça, que se deleita na criação e cria cada pessoa à imagem e semelhança de Deus, mas que também ouve o clamor dos pobres. Conseqüentemente, há um chamado inato dentro de nós para responder com angústia quando vemos uma injustiça tão devastadora.

Hoje estamos pagando o preço. O clima extremo e os desastres naturais dos últimos meses nos revelam mais uma vez com grande força e com grande custo humano que as mudanças climáticas não são apenas um desafio futuro, mas uma questão imediata e urgente de sobrevivência. Inundações, incêndios e secas generalizadas ameaçam continentes inteiros. O nível do mar sobe, forçando muitas comunidades a se mudarem; ciclones devastam regiões inteiras, arruinando vidas e meios de subsistência. 

A água tornou-se escassa e o abastecimento de alimentos inseguro, causando conflito e deslocamento de milhões de pessoas. Já vimos isso em lugares onde as pessoas dependem de fazendas de pequena escala. 

Hoje vemos isso nos países mais industrializados, onde nem mesmo infra-estruturas sofisticadas podem impedir completamente uma destruição extraordinária.

Amanhã pode ser pior. As crianças e os adolescentes de hoje enfrentarão consequências catastróficas se não assumirmos agora a responsabilidade, como "colaboradores de Deus" (Gn 2,4-7), de sustentar o nosso mundo. Freqüentemente ouvimos de jovens que entendem que seu futuro está ameaçado. 

Por isso, devemos escolher comer, viajar, gastar, investir e viver de maneira diferente, pensando não apenas nos juros e ganhos imediatos, mas também nos benefícios futuros. Nos arrependemos dos pecados de nossa geração. Estamos ao lado de nossos irmãos e irmãs mais novos ao redor do mundo em oração comprometida e ação determinada por um futuro que cada vez mais corresponde às promessas de Deus.




O imperativo da cooperação


Ao longo da pandemia, aprendemos o quão vulneráveis ​​somos. Nossos sistemas sociais estão desgastados e descobrimos que não podemos controlar tudo. Devemos reconhecer que a maneira como usamos o dinheiro e organizamos nossas sociedades não beneficiou a todos. Nos descobrimos fracos e ansiosos, imersos em uma série de crises: sanitária, ambiental, alimentar, econômica e social, todas profundamente interligadas.

Essas crises nos apresentam uma escolha. Estamos em uma posição única para confrontá-los com miopia e especulação ou para aproveitá-los como uma oportunidade de conversão e transformação. Se pensarmos na humanidade como uma família e trabalharmos juntos por um futuro baseado no bem comum, podemos nos encontrar vivendo em um mundo muito diferente. Juntos, podemos compartilhar uma visão de vida na qual todos prosperam. Juntos podemos escolher agir com amor, justiça e misericórdia. Juntos, podemos caminhar em direção a uma sociedade mais justa e gratificante, com os mais vulneráveis ​​no centro.

Mas isso envolve fazer mudanças. Cada um de nós, individualmente, deve assumir a responsabilidade pela maneira como usamos nossos recursos. Este caminho requer uma colaboração cada vez mais estreita entre todas as igrejas em seu compromisso com o cuidado da criação. Juntos, como comunidades, igrejas, cidades e nações, devemos mudar o curso e descobrir novas formas de trabalhar juntos para quebrar as barreiras tradicionais entre os povos, parar de competir por recursos e começar a colaborar.

Para aqueles com responsabilidades de longo alcance - administrar administrações, administrar empresas, empregar pessoas ou investir fundos - dizemos: escolha benefícios centrados nas pessoas; fazer sacrifícios de curto prazo para salvaguardar todos os nossos futuros; tornar-se líderes na transição para economias justas e sustentáveis. “Aos que muito foi dado, muito será exigido” (Lc 12,48).

Esta é a primeira vez que nós três nos sentimos compelidos a abordar juntos a urgência da sustentabilidade ambiental, seu impacto na pobreza persistente e a importância da cooperação global. Juntos, em nome de nossas comunidades, apelamos ao coração e à mente de cada cristão, cada crente e cada pessoa de boa vontade. Oramos por nossos líderes que se encontrarão em Glasgow para decidir o futuro de nosso planeta e seu povo. Mais uma vez, recordamos a Escritura: "Escolhe a vida, para que tu e a tua descendência vivam" (Dt 30,19). Escolher a vida significa fazer sacrifícios e exercer moderação.

Todos nós, quem somos e onde quer que estejamos, podemos desempenhar um papel na mudança de nossa resposta coletiva à ameaça sem precedentes da mudança climática e da degradação ambiental.

Cuidar da criação de Deus é um mandato espiritual que requer uma resposta comprometedora. Este é um momento crítico. O futuro de nossos filhos e de nossa casa comum depende disso.


1 de setembro de 2021
Patriarca Bartolomeu I   -   Papa Francisco   -    Arcebispo de Cantebury Justin Welby



1 de setembro de 2020

Mensagem do Santo Padre para a celebração do Dia Mundial de Oração pelo Cuidado da Criação - 01.09.2020

 «Santificareis o quinquagésimo ano, proclamando na vossa terra a liberdade de todos os que a habitam. Este ano será para vós um Jubileu» (Lv 25, 10).

 
Queridos irmãos e irmãs,

Anualmente, sobretudo desde a publicação da carta encíclica Laudato si’ (24/V/2015; daqui em diante, citada com a sigla LS), o primeiro dia de setembro assinala, para a família cristã, o Dia Mundial de Oração pelo Cuidado da Criação; e com ele se abre o Tempo da Criação que conclui no dia 4 de outubro, memória de São Francisco de Assis.

Durante este período, os cristãos renovam em todo o mundo a fé em Deus criador e unem-se de maneira especial na oração e na ação pela preservação da casa comum.

Alegro-me com o tema escolhido pela família ecumênica para a celebração do Tempo da Criação 2020, ou seja, um «Jubileu pela Terra», tendo em vista que se celebra precisamente este ano o quinquagésimo aniversário do Dia da Terra.

Na Sagrada Escritura, o Jubileu é um tempo sagrado para recordar, regressar, repousar, restaurar e rejubilar.

1. Um tempo para recordar

Somos convidados a lembrar sobretudo que o destino último da criação é entrar no «sábado eterno» de Deus. É uma viagem que se realiza no tempo, abraçando o ritmo dos sete dias da semana, o ciclo dos sete anos e o grande Ano Jubilar que sobrevém ao concluírem-se os sete anos sabáticos.

Depois o Jubileu é um tempo de graça para recordar a vocação primordial da criação: ser e prosperar como comunidade de amor. Existimos apenas graças às relações com Deus criador, com os irmãos e irmãs enquanto membros duma família comum e com todas as criaturas que habitam na mesma casa que nós. 

«Tudo está relacionado, e todos nós, seres humanos, caminhamos juntos como irmãos e irmãs numa peregrinação maravilhosa, entrelaçados pelo amor que Deus tem a cada uma das suas criaturas e que nos une também, com terna afeição, ao irmão sol, à irmã lua, ao irmão rio e à mãe terra» (LS, 92).

Por isso o Jubileu é um tempo para a recordação, repassando na memória a nossa existência inter-relacional. Temos necessidade constante de nos lembrar que «tudo está interrelacionado e o cuidado autêntico da nossa própria vida e das nossas relações com a natureza é inseparável da fraternidade, da justiça e da fidelidade aos outros» (LS, 70).


2. Um tempo para regressar


O Jubileu é um tempo para voltar atrás e arrepender-se. Quebramos os laços que nos uniam ao Criador, aos outros seres humanos e ao resto da criação. Precisamos de sarar estas relações danificadas, que são essenciais para sustentáculo de nós mesmos e de toda a trama da vida.

O Jubileu é um tempo de regresso a Deus, nosso criador amoroso. Não é possível viver em harmonia com a criação, sem estar em paz com o Criador, fonte e origem de todas as coisas. Como observou o Papa Bento XVI, «o consumo brutal da criação começa lá onde Deus não está, onde a matéria já é somente material para nós, onde nós mesmos somos a última instância, onde o conjunto é simplesmente nossa propriedade» (Encontro com o Clero da diocese de Bolzano-Bressanone, 06/VIII/2008).

O Jubileu convida-nos a pensar novamente nos outros, especialmente nos pobres e nos mais vulneráveis. Somos chamados a acolher de novo o plano primordial e amoroso de Deus para a criação como uma herança comum, um banquete que deve ser partilhado com todos os irmãos e irmãs em espírito de convivialidade; não numa competição desatinada, mas numa comunhão jubilosa, onde nos apoiamos e protegemos mutuamente. O Jubileu é um tempo para dar liberdade aos oprimidos e a quantos estão acorrentados aos grilhões das várias formas de escravidão moderna, nomeadamente o tráfico de pessoas e o trabalho infantil.

Além disso precisamos de voltar a ouvir a terra, expressa na Sagrada Escritura pelo termo adamah, o lugar donde foi tirado Adam, o homem. Hoje, a voz da criação incita-nos, alarmada, a regressar ao lugar certo na ordem natural, lembrando-nos que somos parte, não patrões, da rede interligada da vida. A desintegração da biodiversidade, o aumento vertiginoso de catástrofes climáticas, o impacto desproporcionado que tem a pandemia atual sobre os mais pobres e frágeis são sinais de alarme perante a avidez desenfreada do consumo.

De modo particular durante este Tempo da Criação, ouçamos o pulsar da criação. Com efeito, esta nasceu para manifestar e comunicar a glória de Deus, para nos ajudar a encontrar na sua beleza o Senhor de todas as coisas e regressar a Ele (cf. São Boaventura, In II Sent., I, 2,2, q. 1, concl; Brevil., II, 5.11). Por isso, a terra da qual fomos tirados é lugar de oração e meditação: «despertemos o sentido estético e contemplativo que Deus colocou em nós» (Francisco, Exort. ap. Querida Amazonia, 56). 

A capacidade de contemplar e nos maravilharmos é algo que podemos aprender especialmente dos irmãos e irmãs indígenas, que vivem em harmonia com a terra e as suas variadas formas de vida.


3. Um tempo para repousar

Deus, na sua sabedoria, reservou o dia de sábado para que a terra e os seus habitantes pudessem descansar e restaurar-se. Hoje, porém, os nossos estilos de vida forçam o planeta para além dos seus limites. A procura contínua de crescimento e o ciclo incessante da produção e do consumo estão a extenuar o ambiente. As florestas dissipam-se, o solo torna-se erosivo, os campos desaparecem, os desertos avançam, os mares tornam-se ácidos e as tempestades intensificam-se: a criação geme!

Durante o Jubileu, o Povo de Deus era convidado a repousar dos seus trabalhos habituais, para deixar – graças à diminuição do consumo habitual – que a terra se regenerasse e o mundo reentrasse na ordem. Hoje precisamos de encontrar estilos de vida équos (justos) e sustentáveis, que restituam à Terra o repouso que lhe cabe, vias de subsistência suficientes para todos, sem destruir os ecossistemas que nos sustentam.

De algum modo a pandemia atual levou-nos a redescobrir estilos de vida mais simples e sustentáveis. A crise deu-nos, em certo sentido, a possibilidade de desenvolver novas maneiras de viver. Foi possível constatar como a Terra consegue recuperar, se a deixarmos descansar: o ar tornou-se mais puro, as águas mais transparentes, as espécies animais voltaram para muitos lugares donde tinham desaparecido. 

A pandemia levou-nos a uma encruzilhada. Devemos aproveitar este momento decisivo para acabar com atividades e objetivos supérfluos e destrutivos, e cultivar valores, vínculos e projetos criadores. Devemos examinar os nossos hábitos no uso da energia, no consumo, nos transportes e na alimentação. Devemos retirar, das nossas economias, aspectos não essenciais e nocivos, e criar modalidades vantajosas de comércio, produção e transporte dos bens.


4. Um tempo para restaurar

O Jubileu é um tempo para restaurar a harmonia primordial da criação e para curar relações humanas comprometidas.

Convida a restabelecer relações sociais equitativas, restituindo a cada um a sua liberdade e os bens próprios, e perdoando as dívidas dos outros. Por isso não devemos esquecer a história de exploração do Sul do planeta, que provocou um enorme deficit ecológico, devido principalmente à depredação dos recursos e ao uso excessivo do espaço ambiental comum para a eliminação dos resíduos. É o tempo duma justiça reparadora. 

A este respeito, renovo o meu apelo para se cancelar a dívida dos países mais frágeis, à luz do grave impacto das crises sanitárias, sociais e econômicas que aqueles têm de enfrentar na sequência do vírus Covid-19. 

É necessário ainda assegurar que os incentivos para a recuperação, em fase de elaboração e implementação a nível mundial, regional e nacional, se tornem realmente eficazes mediante políticas, legislações e investimentos centrados no bem comum e com a garantia de se alcançar os objetivos sociais e ambientais globais.

De igual modo é preciso restaurar a terra. O restabelecimento dum equilíbrio climático é extremamente importante, vista a urgência em que nos encontramos. Estamos a ficar sem tempo, como nos lembram os nossos filhos e os jovens. Tem-se de fazer todo o possível para manter o aumento da temperatura média global abaixo do limite de 1,5 graus centígrados, como ficou consagrado no Acordo de Paris sobre o Clima: ultrapassar tal limite revelar-se-á catastrófico, sobretudo para as comunidades mais pobres em todo o mundo. Neste momento crítico, é necessário promover uma solidariedade intra e intergeracional. Como preparação para a importante Cimeira do Clima em Glasgow, no Reino Unido (COP 26), convido cada país a adotar metas nacionais mais ambiciosas para reduzir as emissões.

O restabelecimento da biodiversidade é igualmente crucial no contexto duma extinção de espécies e uma degradação dos ecossistemas sem precedentes. É necessário apoiar o apelo das Nações Unidas para preservar 30% da Terra como habitat protegido até 2030, a fim de conter a taxa alarmante de perda da biodiversidade. Exorto a comunidade internacional a colaborar para garantir que a Cimeira sobre a Biodiversidade (COP 15) de Kunming, na China, constitua um ponto de viragem no sentido do restabelecimento da Terra como casa onde, segundo a vontade do Criador, a vida seja abundante.

Somos obrigados a reparar segundo justiça, garantindo, a quantos habitaram uma terra durante gerações, que possam recuperar plenamente a sua utilização. É preciso proteger as comunidades indígenas de empresas, particularmente multinacionais, que, com a extração perniciosa de combustíveis fósseis, minerais, madeira e produtos agroindustriais, «fazem nos países menos desenvolvidos aquilo que não podem fazer nos países que lhes dão o capital» (LS, 51). 

Esta má conduta das empresas representa um «novo tipo de colonialismo» (São João Paulo II, Discurso à Academia Pontifícia das Ciências Sociais, 27/IV/2001, citado na Exort. ap. Querida Amazonia, 14), que explora vergonhosamente comunidades e países mais pobres a braços com uma busca desesperada de desenvolvimento econômico. É necessário consolidar as legislações nacionais e internacionais, para que regulamentem as atividades das empresas extrativas e garantam o acesso à justiça aos prejudicados.

5. Um tempo para rejubilar

Na tradição bíblica, o Jubileu constitui um acontecimento festivo, inaugurado por um som de tromba que ressoa por toda a terra. Sabemos que o clamor da Terra e dos pobres se tornou, nos anos passados, ainda mais rumoroso. Simultaneamente, somos testemunhas do modo como o Espírito Santo está inspirando por todo o lado indivíduos e comunidades a unirem-se para reconstruir a casa comum e defender os mais vulneráveis. Assistimos ao surgimento gradual duma grande mobilização de pessoas que, partindo de baixo e das periferias, se estão empenhando generosamente em prol da proteção da terra e dos pobres. É uma alegria ver tantos jovens e comunidades, especialmente indígenas, na linha da frente para dar resposta à crise ecológica. Apelam por um Jubileu da Terra e um novo começo, cientes de que «as coisas podem mudar» (LS, 13).

Temos ainda motivo para nos alegrar quando constatamos como o Ano especial de aniversário da Laudato si' está a inspirar numerosas iniciativas a nível local e global em prol do cuidado da casa comum e dos pobres. Este ano deveria levar a planos operacionais de longo prazo, para chegar a haver uma ecologia integral nas famílias, paróquias, dioceses, ordens religiosas, escolas, universidades, cuidados da saúde, empresas, fazendas agrícolas e em muitas outras áreas.

Regozijamo-nos também com as comunidades de crentes que se estão dando as mãos para criar um mundo mais justo, pacífico e sustentável. É motivo de particular alegria que o Tempo da Criação se esteja a tornar uma iniciativa verdadeiramente ecumênica. Continuemos a crescer na consciência de que todos moramos numa casa comum enquanto membros da mesma família!

Alegremo-nos porque o Criador, no seu amor, sustenta os nossos humildes esforços em prol da Terra. Esta é também a casa de Deus, onde a sua Palavra «Se fez carne e veio habitar conosco» (Jo 1, 14), o lugar que a efusão do Espírito Santo renova sem cessar.

«Enviai, Senhor, o vosso Espírito e renovai a face da terra» (cf. Sal 104/103, 30).
 

Roma, em São João de Latrão, 1 de setembro de 2020.
Francisco



1 de março de 2017

Discurso do Santo Padre Francisco aos participantes do Seminário "Direito Humano à Água", organizado pela Pontifícia Academia de Ciências

(Tradução e adaptação por Renata P. Espíndola)


Queridos irmãos e irmãs, boa tarde.

Saúdo a todos os presentes e lhes agradeço por sua participação neste encontro que aborda a problemática do direito humano à água e também a exigência de políticas públicas que possam enfrentar esta realidade. É significativo que vocês se unam para conduzir seus saberes e recursos com a finalidade de dar uma resposta a esta necessidade e a esta problemática que vive o homem atual.

Como lemos no livro de Gênesis, a água está no início de todas as coisas (cf. Gn 1,2); é «criatura útil, casta e humilde», fonte da vida e da fecundidade (cf. São Francisco de Assis, Cântico das Criaturas). Por isso, a questão que vocês tratam não é periférica, senão é fundamental e muito urgente. Fundamental, porque onde há água, há vida e então pode surgir e avançar a sociedade. E é urgente porque nossa casa comum necessita proteção e, além disto, temos que assumir que nem toda água é vida: somente a que tenha origem numa fonte segura e que tenha qualidade, seguindo com a figura de São Francisco: a água «que serve com humildade», a água «casta», não contaminada.

Toda pessoa tem direito ao acesso à água potável e segura; este é um direito humano básico e uma das questões centrais no mundo atual (cf. Enc. Laudato Si’, 30; Enc. Caritas in veritate, 27). É doloroso quando na legislação de um país ou de uma coalizão de países não se considera a água como um direito humano. Mais doloroso ainda quando se apaga o que estava escrito e se nega este direito humano. É um problema que afeta a todos e que faz com que nossa casa comum sofra tanta miséria e clame por soluções efetivas, realmente capazes de superar os egoísmos que impedem a realização deste direito vital para todos os seres humanos. 

É necessário outorgar à água a centralidade que merece no embasamento das políticas públicas. Nosso direito à água é também um dever com a mesma. Do direito que temos a ela se origina uma obrigação aderente e inseparável. É inevitável anunciar este direito humano essencial e defendê-lo - como já se faz -, porém também atuar de forma concreta, assegurando um compromisso político e jurídico com a água. Neste sentido, cada país está convocado para estabelecer, tanto através de instrumentos jurídicos, quanto através daqueles indicados pelas resoluções aprovadas pela Assembléia Geral das Nações Unidas desde 2010, ações referentes ao direito humano à água potável e ao saneamento. De forma análoga, cada ator não governamental tem que cumprir suas responsabilidades em relação a este direito.

O direito á água é determinante para a sobrevivência das pessoas (cf. ibid, 30) e decide o futuro da humanidade. É prioritário também educar às próximas gerações sobre a gravidade desta realidade. A formação da consciência é uma tarefa árdua: precisa convicção e entrega. E me pergunto se em meio a esta «terceira guerra mundial em pequenas doses» que estamos vivendo, não estamos no caminho até a grande guerra mundial pela água.

As cifras que as Nações Unidas revelam são atrozes e não nos podem deixar indiferentes: a cada dia, mil crianças morrem a custa de enfermidades relacionadas com a água e milhões de pessoas consomem água contaminada. Estes dados são gravíssimos: é necessário desacelerar e inverter esta situação. Não é tarde, porém é urgente tomar consciência da necessidade da água e de seu valor essencial para o bem da humanidade.

O respeito à água é condição para o exercício dos demais direitos humanos (cf. ibid., 30). Se acatamos este direito como sendo fundamental, estaremos estabelecendo as bases para proteger os demais direitos. Porém, se não aderimos a este direito básico, como seremos capazes de cuidar e lutar pelos demais? Neste compromisso de dar à água a posição que lhe corresponde, faz falta uma cultura do cuidado (cf. ibid., 231) - parece uma coisa poética e, bem, a Criação é uma «poiesis», esta cultura do cuidado que é criativa - e além de fomentar uma cultura do encontro, na qual se unam numa causa comum todas as forças necessárias desde cientistas a empresários, governantes a políticos. 

É preciso unir todas nossas vozes numa mesma causa; já não serão vozes individuais ou solitárias, senão o grito do irmão que clama através de nós, o grito da terra que pede o respeito e o compartilhamento responsável de um bem que é de todos. Nesta cultura do encontro, é imprescindível a ação de cada país como garantia ao acesso universal à água segura e de qualidade.

Deus Criador não nos abandona neste trabalho para dar a todos e a cada um o acesso à água potável e segura, porém o trabalho e a responsabilidade são nossos. Desejo que este seminário seja uma ocasião propícia para que suas convicções se vejam fortalecidas, e saiam daqui com a certeza de que seu trabalho é necessário e prioritário para que outras pessoas possam viver. É um ideal pelo qual se merece a pena de lutar e de trabalhar. 

Com nosso «pouco» estaremos contribuindo para que nossa casa comum seja mais habitável e mais solidária, mais cuidada, onde ninguém seja descartado nem excluído, senão que todos gozemos dos bens necessários para vivermos e crescermos com dignidade. E não esqueçamos dos dados e cifras informados pelas Nações Unidas. Não esqueçamos de que a cada dia mil crianças - a cada dia! - morrem por enfermidades relacionadas com a água.

Muito obrigado.

Papa Francisco


19 de junho de 2015

A Encíclica “Laudato Si” e a defesa do meio ambiente

Gostei bastante deste texto... Muito tempo irá passar até que o teor da encíclica seja adequadamente compreendido.

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"Que alguns usem o ativismo ambiental para promover suas próprias agendas econômicas, anti-humanitárias ou panteístas; isto não torna a luta pelo meio ambiente alguma coisa em si mesmo anticristã. Exatamente o contrário, nos diz o papa – isto torna ainda mais necessário devolver a esta luta sua verdadeira face humana".

Por Paulo Vasconcelos Jacobina


Em certo almoço que reunia membros da Câmara para o Meio Ambiente e Patrimônio Cultural do Ministério Público Federal, estávamos num diálogo com professores de direito ambiental, promotores, advogados, membros de ONGs e procuradores. Ao meu lado, uma professora de direito ambiental, bastante vanguardista na área, me fez uma pergunta pessoal: “O senhor não acha que o planeta terra estaria melhor sem a espécie humana?” E prosseguiu, dando as razões pelas quais ela acreditava que não deveríamos existir, nós os humanos, para o bem do meio ambiente.

Senti-me, naquela mesa de almoço, como que vivendo uma cena do filme “Matrix”, em que o personagem “Agente Smith”, um ser virtual criado pelo computador que domina o mundo, afirma para o personagem humano Morpheus: “O ser humano é uma doença, um câncer deste planeta. Vocês são uma praga, e nós somos a cura”.

O meu primeiro impulso foi o de responder à jovem professora que, se eu pensasse assim, meu próximo e inevitável gesto seria o suicídio. Meu impulso era o de dizer a ela: “Professora, qualquer membro de uma espécie que declara considerar a si mesmo apenas como uma ameaça ao próprio ambiente e às demais espécies, e não comete suicídio imediatamente a esta fala perde qualquer credibilidade...”

Não o fiz: tive medo de que sua fala decorresse de algum tipo de desordem emocional autodestrutiva, e não de uma ideologia ambientalista deturpada pelo anti-humanismo, como parecia ser o caso. Não quis correr o risco de dar ideias suicidas àquela professora. Mas a fala que ela proferiu me fez tomar uma aguda consciência de um viés anti-humanista que se embute em determinadas correntes ambientalistas.


A face política oculta em certa militância ambientalista


Este mesmo viés anti-humanista leva certos extremistas do ambientalismo – que não são parte pequena do métier – a serem, simultaneamente, advogados do aborto (inclusive do aborto compulsório), do controle de natalidade estatal obrigatório, do fim da propriedade privada e das atividades econômicas lucrativas. Tudo isto misturado com uma espiritualidade panteísta profundamente religiosa, profundamente pagã, que traz em si uma divinização do meio ambiente e da natureza. Uma religião desprovida de misericórdia. Como se sabe, o Deus cristão perdoa, mas a natureza não perdoa nunca. Que o demonstrem as grandes tragédias naturais e os tantos pesquisadores e militantes ambientalistas que foram mortos pelos animais que pesquisavam ou cultuavam.

Por outro lado, a religião cristã é vista a partir de sua vertente pós-renascentista, pós-reforma e pós-iluminista, em que pensadores de origem cristã como Francis Bacon, Descartes, Galileo e Newton pregaram a necessidade de domínio e exploração da natureza pela tecnologia científica. Faz-se a crítica do cristianismo, então, como uma religião que não somente permitiu, mas também promoveu o apoderamento da natureza pela ciência e pela economia, promovendo a degradação do meio ambiente em favor da ambição humana.

Curiosamente, o mesmo louvor ao “espírito capitalista protestante” (nas palavras de Max Weber) que serviu para desqualificar a Igreja Católica como atrasada, empobrecedora de países e inimiga do progresso serve agora, em alguns círculos, para descartá-la, junto com o restante do cristianismo, como coadjutora da degradação ambiental contemporânea.

Trata-se, portanto, de um cenário que, se não se pode dizer simplesmente que está dominado , pode-se afirmar sem medo que está impregnado de um amálgama infeliz de marxismo, anti-humanismo, libertarianismo sexual, promoção de autoritarismo estatal, anticristianismo e panteísmo autojustificante.


A Encíclica como sopro de esperança


Neste contexto, a nova Encíclica do Papa Francisco, “Laudato Si”, é uma lufada de vento fresco e despoluído. Forte no seu conteúdo profético, ela resgata uma postura verdadeiramente cristã na relação entre o ser humano e o meio ambiente, navegando com destemor através das correntes que se apoderaram do discurso ambiental para promover suas próprias causas panteístas, marxistas ou anti-humanistas. O Papa esclarece, denuncia e propõe, sempre com coragem, aquilo que deve ser a postura de um verdadeiro cristão frente ao desequilíbrio ambiental que vivemos.

É certo que há um sério risco de que a encíclica “ambiental” seja sequestrada por movimentos muito pouco aconselháveis. Já há quem proclame por aí que o Papa está promovendo mudanças tais na Igreja Católica que, no fundo, o Papa está transformando a Igreja em alguma coisa que já não é a Igreja Católica. Já perdi a conta das mensagens e notícias que recebi, nas redes sociais, com falsas citações atribuídas a ele, de que todas as religiões são iguais, de que qualquer expressão de sexualidade deve ser tida como “amor”, e assim por diante. Para muitos, o Papa é uma espécie de “Dalai Lama” do Ocidente, ou de “Paulo Coelho” de batina branca.


Os princípios para a leitura da Encíclica


Por tudo isto, a Encíclica do Papa deve ser lida com atenção a alguns princípios fundamentais. Em atenção à técnica jesuítica do papa, vou enumerar três, que considero essenciais.

O primeiro princípio é o de que o Papa, embora de fato seja Papa para servir à humanidade inteira, é católico. Portanto, quando ele fala, está falando a partir da mesma Cátedra estabelecida por Jesus para Pedro há dois mil anos. Não se deve esperar, nem é necessário, que ele reafirme em cada documento toda a doutrina católica – ela é pressuposta nos seus escritos.

O Papa é católico. Isto parece tão óbvio que tem uma tendência a ser esquecido. Portanto, não se pode usar o “argumento do silêncio” contra o Papa: aquilo que ele eventualmente silencia não está, digamos, “implicitamente revogado”. Está, isto sim, implicitamente considerado, ou seja subentendido. E nesta Encíclica ele tem um cuidado extremo de resgatar longamente a Doutrina Social da Igreja como estabelecida pelos seus antecessores – a verdadeira doutrina Social da Igreja, não aquela que foi sequestrada pelos teólogos marxistas para seus próprios fins.

Segundo princípio: o da “criaturalidade”. O filósofo alemão Josef Pieper resgatou, em 1977, o conceito de “Kreatürlichkeit”, ou criaturalidade, para dentro do debate filosófico, acusando a filosofia pós-iluminista de tê-lo esquecido em prol de uma “divinização do ser humano” - e mais recentemente, de uma divinização da natureza. Mas o Papa insiste, fortemente, na Encíclica, no princípio da criaturalidade. E o faz a partir de um enfoque fortemente bíblico e apoiando-se de maneira sólida no magistério dos seus antecessores.

O resgate da criaturalidade, em matéria ambiental, traz consigo o resgate do verdadeiro humanismo, que reconhece a centralidade do ser humano, imagem e semelhança de Deus, frente à criação, que encontra nele o seu sentido último: não em qualquer projeto humano, mas naquele que tem sua medida em Jesus, conforme explica a Gaudium et Spes, 22. A raiz de uma atuação ambiental equilibrada, sem influências marxistas, sem panteísmos e sem anti-humanismos, está no capítulo II da Encíclica, em que o Papa põe cuidadosamente estes princípios cristãos que devem pautar a atuação frente à questão ambiental.

O último princípio, o terceiro, é o da responsabilidade. Somos cristãos, estamos no mundo, agir no mundo nos obriga. Não há desculpas para não agirmos, na questão ambiental, em razão dos grandes desvios existentes na militância ambientalista, que apontei acima. Os panteístas, os marxistas, os anti-humanistas, eles não têm o monopólio do assunto; aliás, como a Encíclica demonstra muito bem, eles sequer têm as melhores posições sobre o assunto. A verdadeira ciência, que o Papa Francisco resgata com muita atenção, nos pertence – toda verdade, venha de onde vier, é cristã, já dizia Clemente de Alexandria nos primórdios do cristianismo.

Que alguns usem o ativismo ambiental para promover suas próprias agendas econômicas, anti-humanitárias ou panteístas; isto não torna a luta pelo meio ambiente alguma coisa em si mesmo anticristã. Exatamente o contrário, nos diz o papa – isto torna ainda mais necessário devolver a esta luta sua verdadeira face humana. O abuso não tolhe o uso, diziam os antigos romanos.

A verdadeira preocupação ambiental é amor à criação, não desculpa para promover aborto, raiva à espécie humana, desagregação familiar e combate à propriedade privada dos meios de produção. E a única maneira de fazermos o que devemos é nos engajando nesta luta, firme e destemidamente, com os fundamentos que o Papa agora nos dá.




Fonte: http://www.zenit.org/pt/articles/a-enciclica-laudato-si-e-a-defesa-do-meio-ambiente