28 de abril de 2015

Dom Sorondo: concluída Encíclica do Papa sobre meio ambiente

O chanceler da Pontifícia Academia das Ciências e da Pontifícia Academia das Ciências Sociais, Dom Marcelo Sánchez Sorondo, disse na manhã desta terça-feira, dia 28, estar pronta a encíclica do Papa Francisco dedicada a temas ambientais, cuja publicação sairá do final de maio a início de junho, assim que se concluir o trabalho de tradução em várias línguas. Entrevistado pela Rádio Vaticano, eis o que disse o prelado argentino:

Dom Marcelo Sánchez Sorondo:
“O Papa disse na manhã desta terça-feira que a Encíclica está pronta, que estão fazendo as traduções e que, provavelmente, a mesma será publicada no final de maio ou início de junho”.

RV:
“O secretário geral da ONU, Ban Ki-moon, que esta terça-feira participou – na sede da Pontifícia Academia das Ciências - do seminário sobre o tema “Proteger a terra, nobilitar a humanidade. As dimensões morais das mudanças climáticas e do desenvolvimento sustentável", teve um breve encontro privado com o Papa Francisco, e na ocasião expressou gratidão por essa contribuição”.

Dom Marcelo Sánchez Sorondo:
“Ban Ki-moon está muito contente, naturalmente. De fato, este encontro se realiza para apoiar a encíclica, oferecendo argumentos especificamente científicos que naturalmente a encíclica não poderá dar porque tem um estilo pastoral.

Há dois aspectos: um é o que vem da Bíblia, em que o homem é o custódio, no sentido que deve desenvolver a Criação num modo sustentável, como hoje dizemos. Isso já o dizia Paulo VI na “Populorum Progressio”. Isso significa inclusão social, significa, naturalmente, uma agricultura que responda às necessidades reais da alimentação do povo e significa muitas outras coisas.

Portanto, de um lado, o homem é custódio da Criação num modo sustentável e, de outro, a situação – não digo da Criação, porque não podemos intervir – no que tange à Terra, a situação da Terra, é descrita principalmente pelas ciências naturais e pelas ciências sociais. Cremos que a encíclica abordará esses dois temas”.

RV:
“Como disse Ban Ki-moon, ciência e religião são mais que aliadas...”

Dom Marcelo Sánchez Sorondo:
“Sim, naturalmente, como disse Ban Ki-moon, mas como é próprio do estilo de todos os papas, que colocam sempre fé e razão em quase todas as encíclicas, porque se não houver a razão, não se pode raciocinar. A fé é organizada em conceitos e, consequentemente, desde o início, fé e razão caminham juntas. Nesse caso, talvez, haja mais razão científica que razão filosófica, mas há sempre a razão”.

Fonte: http://www.news.va/pt/news/dom-sorondo-concluida-enciclica-do-papa-sobre-meio

9 de abril de 2015

Homilia de Francisco na Casa Santa Marta: Cuidar da criação não é só coisa dos ecologistas (09.02.15)

O cristão que não se preocupa com a criação não se preocupa com o trabalho de Deus
 
Na homilia da missa desta segunda-feira, o papa Francisco recordou que os cristãos são chamados a cuidar da criação e disse que Deus criou o universo, mas a criação não terminou: “Ele continuamente sustenta o que criou”. O papa falou também da 'segunda criação', realizada por Jesus ao 'recriar' o que tinha sido abalado pelo pecado.
 
Partindo da primeira leitura, que narra a criação do universo, o papa observou que "o Evangelho mostra 'a outra criação de Deus', a de Jesus, que recria o que o pecado tinha afetado. Quando as pessoas tocavam nele, eram salvas: isto é 'a recriação', que é 'mais maravilhosa do que a primeira'. Quanto ao trabalho da 'perseverança na fé', ele é sustentado pelo Espírito Santo".
 
“Deus trabalha, continua trabalhando; e nós podemos nos perguntar como é que temos de responder a esta criação de Deus, que nasceu do amor, porque Ele trabalha por amor. À ‘primeira criação’, temos que responder com a responsabilidade que nosso Senhor nos dá: ‘a Terra é vossa, submetei-a, fazei-a crescer’. Temos a responsabilidade de fazer a Terra crescer, de fazer a criação crescer, de cuidar dela e de fazê-la crescer de acordo com as suas leis. Nós somos senhores da criação, não donos”.
 
A este respeito, o papa declarou que precisamos ter “o cuidado de não nos apossarmos da criação, mas de fazê-la ir adiante, fiéis às suas leis. Esta é a primeira resposta ao trabalho de Deus: trabalhar para cuidar da criação”.
 
“Quando ouvimos falar de reuniões para pensar em como cuidar da criação, podemos dizer: ‘São os ecologistas!’. Não, não são os ecologistas! Isto é cristão! É a nossa resposta à ‘primeira criação’ de Deus. É nossa responsabilidade. Um cristão que não cuida da criação, que não a faz crescer, é um cristão que não se importa com o trabalho de Deus, com esse trabalho do amor de Deus para conosco. E esta é a primeira resposta à primeira criação: cuidar da criação, fazê-la crescer”.
 
E como respondemos 'à segunda criação'? O papa recordou: "São Paulo nos exorta a nos deixarmos “reconciliar com Deus”, ou seja, a “seguir o caminho da reconciliação interior, da reconciliação comunitária, porque a reconciliação é o trabalho de Cristo”. De novo, retomando as palavras do apóstolo, Francisco recordou que não devemos afligir o Espírito Santo que está em nós, que está dentro de nós e trabalha dentro de nós. “Cremos em um Deus pessoal”, que “é pessoa Pai, pessoa Filho e pessoa Espírito Santo”. E os três estão envolvidos nesta criação, nesta recriação, nesta perseverança na recriação.
 
“Aos três, nós respondemos: cuidar e fazer a criação crescer; deixar-nos reconciliar com Jesus, com Deus em Jesus, em Cristo, todos os dias; e não afligir o Espírito Santo, não expulsá-lo: Ele é o hóspede do nosso coração, aquele que nos acompanha, que nos faz crescer”.
 
Ao encerrar, o papa pediu que “Nosso Senhor nos dê a graça de entender que Ele trabalha e a graça de responder justamente a este trabalho de amor”.

 

1 de abril de 2015

Desenvolvimento dos povos, direitos e deveres, ambiente (Excerto da Carta Encíclica do Santo Padre Bento XVI, "Caritas in Veritate")

"[...]
 
Capítulo III
Fraternidade, desenvolvimento econômico e sociedade civil
 
48. O tema do desenvolvimento aparece, hoje, estreitamente associado também com os deveres que nascem do relacionamento do homem com o ambiente natural. Este foi dado por Deus a todos, constituindo o seu uso uma responsabilidade que temos para com os pobres, as gerações futuras e a humanidade inteira. Quando a natureza, a começar pelo ser humano, é considerada como fruto do acaso ou do determinismo evolutivo, a noção da referida responsabilidade debilita-se nas consciências.
 
Na natureza, o crente reconhece o resultado maravilhoso da intervenção criadora de Deus, de que o homem se pode responsavelmente servir para satisfazer as suas legítimas exigências — materiais e imateriais — no respeito dos equilíbrios intrínsecos da própria criação. Se falta esta perspectiva, o homem acaba por considerar a natureza um tabu intocável ou, ao contrário, por abusar dela. Nem uma nem outra destas atitudes corresponde à visão cristã da natureza, fruto da criação de Deus.
 
A natureza é expressão de um desígnio de amor e de verdade. Precede-nos, tendo-nos sido dada por Deus como ambiente de vida. Fala-nos do Criador (cf. Rm 1, 20) e do seu amor pela humanidade. Está destinada, no fim dos tempos, a ser «instaurada» em Cristo (cf. Ef 1, 9-10; Col 1, 19-20). Por conseguinte, também ela é uma «vocação». A natureza está à nossa disposição, não como «um monte de lixo espalhado ao acaso», mas como um dom do Criador que traçou os seus ordenamentos intrínsecos dos quais o homem há-de tirar as devidas orientações para a «guardar e cultivar» (Gn 2, 15). Mas é preciso sublinhar também que é contrário ao verdadeiro desenvolvimento considerar a natureza mais importante do que a própria pessoa humana.
 
Esta posição induz a comportamentos neopagãos ou a um novo panteísmo: só da natureza, entendida em sentido puramente naturalista, não pode derivar a salvação para o homem. Por outro lado, há que rejeitar também a posição oposta, que visa a sua completa tecnicização, porque o ambiente natural não é apenas matéria de que dispor a nosso bel-prazer, mas obra admirável do Criador, contendo nela uma «gramática» que indica finalidades e critérios para uma utilização sapiente, não instrumental nem arbitrária.
 
Advêm, hoje, muitos danos ao desenvolvimento precisamente destas concepções deformadas. Reduzir completamente a natureza a um conjunto de simples dados reais acaba por ser fonte de violência contra o ambiente e até por motivar ações desrespeitadoras da própria natureza do homem. Esta, constituída não só de matéria mas também de espírito e, como tal, rica de significados e de fins transcendentes a alcançar, tem um caráter normativo também para a cultura.
 
O homem interpreta e modela o ambiente natural através da cultura, a qual, por sua vez, é orientada por meio da liberdade responsável, atenta aos ditames da lei moral. Por isso, os projetos para um desenvolvimento humano integral não podem ignorar os vindouros, mas devem ser animados pela solidariedade e a justiça entre as gerações, tendo em conta os diversos âmbitos: ecológico, jurídico, econômico, político, cultural.
 
49. Hoje, as questões relacionadas com o cuidado e a preservação do ambiente devem ter na devida consideração as problemáticas energéticas. De fato, o açambarcamento dos recursos energéticos não renováveis por parte de alguns Estados, grupos de poder e empresas constitui um grave impedimento para o desenvolvimento dos países pobres. Estes não têm os meios econômicos para chegar às fontes energéticas não renováveis que existem, nem para financiar a pesquisa de fontes novas e alternativas.
 
A monopolização dos recursos naturais, que em muitos casos se encontram precisamente nos países pobres, gera exploração e frequentes conflitos entre as nações e dentro das mesmas. E muitas vezes estes conflitos são travados precisamente no território de tais países, com um pesado balanço em termos de mortes, destruições e maior degradação. A comunidade internacional tem o imperioso dever de encontrar as vias institucionais para regular a exploração dos recursos não renováveis, com a participação também dos países pobres, de modo a planificar em conjunto o futuro.
 
Também sobre este aspecto, há urgente necessidade moral de uma renovada solidariedade, especialmente nas relações entre os países em vias de desenvolvimento e os países altamente industrializados. As sociedades tecnicamente avançadas podem e devem diminuir o consumo energético seja porque as atividades manufatureiras evoluem, seja porque entre os seus cidadãos reina maior sensibilidade ecológica.
 
Além disso há que acrescentar que, atualmente, é possível melhorar a eficiência energética e fazer avançar a pesquisa de energias alternativas; mas é necessária também uma redistribuição mundial dos recursos energéticos, de modo que os próprios países desprovidos possam ter acesso aos mesmos. O seu destino não pode ser deixado nas mãos do primeiro a chegar nem estar sujeito à lógica do mais forte.
 
Trata-se de problemas relevantes que, para ser enfrentados de modo adequado, requerem da parte de todos uma responsável tomada de consciência das consequências que recairão sobre as novas gerações, principalmente sobre a imensidade de jovens presentes nos povos pobres, que «reclamam a sua parte ativa na construção de um mundo melhor».
 
50. Esta responsabilidade é global, porque não diz respeito somente à energia, mas a toda a criação, que não devemos deixar às novas gerações depauperada dos seus recursos. É lícito ao homem exercer um governo responsável sobre a natureza para a guardar, fazer frutificar e cultivar inclusive com formas novas e tecnologias avançadas, para que possa acolher e alimentar condignamente a população que a habita. Há espaço para todos nesta nossa terra: aqui a família humana inteira deve encontrar os recursos necessários para viver decorosamente, com a ajuda da própria natureza, dom de Deus aos seus filhos, e com o empenho do seu próprio trabalho e inventiva.
 
Devemos, porém, sentir como gravíssimo o dever de entregar a terra às novas gerações num estado tal que também elas possam dignamente habitá-la e continuar a cultivá-la. Isto implica «o empenho de decidir juntos depois de ter ponderado responsavelmente qual a estrada a percorrer, com o objetivo de reforçar aquela aliança entre ser humano e ambiente que deve ser espelho do amor criador de Deus, de Quem provimos e para Quem estamos a caminho». É desejável que a comunidade internacional e os diversos governos saibam contrastar, de maneira eficaz, as modalidades de utilização do ambiente que sejam danosas para o mesmo.
 
É igualmente forçoso que se empreendam, por parte das autoridades competentes, todos os esforços necessários para que os custos econômicos e sociais derivados do uso dos recursos ambientais comuns sejam reconhecidos de maneira transparente e plenamente suportados por quem deles usufrui e não por outras populações nem pelas gerações futuras: a proteção do ambiente, dos recursos e do clima requer que todos os responsáveis internacionais atuem conjuntamente e se demonstrem prontos a agir de boa fé, no respeito da lei e da solidariedade para com as regiões mais débeis da terra. Uma das maiores tarefas da economia é precisamente um uso mais eficiente dos recursos, não o abuso, tendo sempre presente que a noção de eficiência não é axiologicamente neutra.
 
51. As modalidades com que o homem trata o ambiente influem sobre as modalidades com que se trata a si mesmo, e vice-versa. Isto chama a sociedade atual a uma séria revisão do seu estilo de vida que, em muitas partes do mundo, pende para o hedonismo e o consumismo, sem olhar aos danos que daí derivam. É necessária uma real mudança de mentalidade que nos induza a adotar novos estilos de vida, «nos quais a busca do verdadeiro, do belo e do bom e a comunhão com os outros homens para um crescimento comum sejam os elementos que determinam as opções dos consumos, das poupanças e dos investimentos».
 
Toda a lesão da solidariedade e da amizade cívica provoca danos ambientais, assim como a degradação ambiental por sua vez gera insatisfação nas relações sociais. A natureza, especialmente no nosso tempo, está tão integrada nas dinâmicas sociais e culturais que quase já não constitui uma variável independente. A desertificação e a penúria produtiva de algumas áreas agrícolas são fruto também do empobrecimento das populações que as habitam e do seu atraso. Incentivando o desenvolvimento econômico e cultural daquelas populações, tutela-se também a natureza.
 
Além disso, quantos recursos naturais são devastados pela guerra! A paz dos povos e entre os povos permitiria também uma maior preservação da natureza. O açambarcamento dos recursos, especialmente da água, pode provocar graves conflitos entre as populações envolvidas. Um acordo pacífico sobre o uso dos recursos pode salvaguardar a natureza e, simultaneamente, o bem-estar das sociedades interessadas.
 
A Igreja sente o seu peso de responsabilidade pela criação e deve fazer valer esta responsabilidade também em público. Ao fazê-lo, não tem apenas de defender a terra, a água e o ar como dons da criação que pertencem a todos, mas deve sobretudo proteger o homem da destruição de si mesmo. Requer-se uma espécie de ecologia do homem, entendida no justo sentido.
 
De fato, a degradação da natureza está estreitamente ligada à cultura que molda a convivência humana: quando a «ecologia humana» é respeitada dentro da sociedade, beneficia também a ecologia ambiental. Tal como as virtudes humanas são intercomunicantes, de modo que o enfraquecimento de uma põe em risco também as outras, assim também o sistema ecológico se rege sobre o respeito de um projeto que se refere tanto à sã convivência em sociedade como ao bom relacionamento com a natureza.
 
Para preservar a natureza não basta intervir com incentivos ou penalizações econômicas, nem é suficiente uma instrução adequada. Trata-se de instrumentos importantes, mas o problema decisivo é a solidez moral da sociedade em geral. Se não é respeitado o direito à vida e à morte natural, se se tornam artificiais a concepção, a gestação e o nascimento do homem, se são sacrificados embriões humanos na pesquisa, a consciência comum acaba por perder o conceito de ecologia humana e, com ele, o de ecologia ambiental.
 
É uma contradição pedir às novas gerações o respeito do ambiente natural, quando a educação e as leis não as ajudam a respeitar-se a si mesmas. O livro da natureza é uno e indivisível, tanto sobre a vertente do ambiente como sobre a vertente da vida, da sexualidade, do matrimônio, da família, das relações sociais, numa palavra, do desenvolvimento humano integral.
 
Os deveres que temos para com o ambiente estão ligados com os deveres que temos para com a pessoa considerada em si mesma e em relação com os outros; não se podem exigir uns e espezinhar os outros. Esta é uma grave antinomia da mentalidade e do costume atual, que avilta a pessoa, transtorna o ambiente e prejudica a sociedade.
 
52. A verdade e o amor que a mesma desvenda não se podem produzir, mas apenas acolher. A sua fonte última não é — nem pode ser — o homem, mas Deus, ou seja, Aquele que é Verdade e Amor.
 
Este princípio é muito importante para a sociedade e para o desenvolvimento, enquanto nem uma nem outro podem ser somente produtos humanos; a própria vocação ao desenvolvimento das pessoas e dos povos não se funda sobre a simples deliberação humana, mas está inscrita num plano que nos precede e constitui para todos nós um dever que há-de ser livremente assumido.
 
Aquilo que nos precede e constitui — o Amor e a Verdade subsistentes — indica-nos o que é o bem e em que consiste a nossa felicidade. E, por conseguinte, aponta-nos o caminho para o verdadeiro desenvolvimento.
 
[...]"