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29 de julho de 2022

Mensagem de Sua Santidade Papa Francisco para a celebração do Dia Mundial de Oração pelo Cuidado da Criação em 01 de setembro de 2022.

 

Queridos irmãos e irmãs!

«Escuta a voz da criação» é o tema e o convite do «Tempo da Criação» deste ano. O período ecumênico começa no dia 1 de setembro com o Dia Mundial de Oração pelo Cuidado da Criação e termina a 4 de outubro com a festa de São Francisco. É um momento especial para todos os cristãos, a fim de orarmos e cuidarmos, juntos, da nossa casa comum. Inspiração originária do Patriarcado Ecumênico de Constantinopla, este «Tempo» é uma oportunidade para aperfeiçoarmos a nossa «conversão ecológica», uma conversão encorajada por São João Paulo II como resposta à «catástrofe ecológica» pressagiada por São Paulo VI já em 1970. [1]

Se se aprende a escutá-la, notamos uma espécie de dissonância na voz da criação. Por um lado, é um canto doce que louva o nosso amado Criador; por outro, é um grito amargo que se lamenta dos nossos maus-tratos humanos.

O canto doce da criação convida-nos a praticar uma «espiritualidade ecológica» (Francisco, Carta enc. Laudato si', 216), atenta à presença de Deus no mundo natural. É um convite a fundar a nossa espiritualidade na «consciência amorosa de não estar separado das outras criaturas, mas de formar com os outros seres do universo uma estupenda comunhão universal» (ibid., 220). Particularmente para os discípulos de Cristo, esta experiência luminosa reforça a consciência de que «por Ele é que tudo começou a existir; e sem Ele nada veio à existência» (Jo 1, 3). 

Neste «Tempo da Criação», retomemos a oração na grande catedral da criação, gozando do «grandioso coro cósmico» [2] de inúmeras criaturas que cantam louvores a Deus. Unamo-nos a São Francisco de Assis cantando «Louvado sejas, meu Senhor, com todas as tuas criaturas» (cf. Cântico do Irmão Sol). Unamo-nos ao Salmista cantando «Todo o ser vivo louve o Senhor» ( Sl 150, 6).

Esta canção doce, infelizmente, é acompanhada por um grito amargo. Ou melhor, por um coro de gritos amargos. Primeiro, é a irmã Madre Terra que grita. À mercê dos nossos excessos consumistas, geme implorando para pararmos com os nossos abusos e a sua destruição. Depois gritam as diversas criaturas. 

À mercê de um «antropocentrismo despótico» (Laudato si', 68), nos antípodas da centralidade de Cristo na obra da criação, estão a extinguir-se inúmeras espécies, cessando para sempre os seus hinos de louvor a Deus. Mas gritam também os mais pobres entre nós. Expostos à crise climática, sofrem mais severamente o impacto de secas, inundações, furacões e vagas de calor que se vão tornando cada vez mais intensas e frequentes. E gritam ainda os nossos irmãos e irmãs de povos indígenas. 

Por causa de predatórios interesses econômicos, os seus territórios ancestrais são invadidos e devastados por todo o lado, lançando «um clamor que brada ao céu» (Francisco, Exortação Apóstólica Pós-sinodal Querida Amazonia, 9). Enfim gritam os nossos filhos. Ameaçados por um egoísmo míope, os adolescentes pedem-nos ansiosamente, a nós adultos, que façamos todo o possível para prevenir ou pelo menos limitar o colapso dos ecossistemas do nosso planeta.

Escutando estes gritos amargos, devemo-nos arrepender e mudar os estilos de vida e os sistemas danosos. O apelo evangélico inicial – «Convertei-vos, porque está próximo o Reino do Céu» (Mt 3, 2) –, ao convidar a uma nova relação com Deus, pede também uma relação diferente com os outros e com a criação. O estado de degrado da nossa casa comum merece a mesma atenção que outros desafios globais, como as graves crises sanitárias e os conflitos bélicos. «Viver a vocação de guardiões da obra de Deus não é algo de opcional nem um aspeto secundário da experiência cristã, mas parte essencial duma existência virtuosa» (Laudato si', 217).

Como pessoas de fé, sentimo-nos ainda mais responsáveis por adotar comportamentos diários em consonância com a referida exigência de conversão. Mas esta não é apenas individual: «a conversão ecológica, que se requer para criar um dinamismo de mudança duradoura, é também uma conversão comunitária» (ibid., 219). Nesta perspetiva, a própria comunidade das nações é chamada a empenhar-se, com espírito de máxima cooperação, especialmente nos encontros das Nações Unidas dedicados à questão ambiental.

A cimeira COP 27 sobre o clima, que se vai realizar no Egito em novembro de 2022, constitui a próxima oportunidade para promover, todos juntos, uma eficaz implementação do Acordo de Paris. Também por este motivo dispus recentemente que a Santa Sé, em nome e por conta do Estado da Cidade do Vaticano, adira à Convenção-Quadro da ONU sobre as Mudanças Climáticas e ao Acordo de Paris, com a esperança de que a humanidade do século XXI «possa ser lembrada por ter assumido com generosidade as suas graves responsabilidades» (ibid., 165). 

Alcançar o objetivo de Paris de limitar o aumento da temperatura a 1,5°C é bastante árduo e requer uma colaboração responsável entre todas as nações para apresentar planos climáticos ou Contribuições Determinadas a nível nacional mais ambiciosos, para reduzir a zero, com a maior urgência possível, as emissões globais dos gases de efeito estufa. Trata-se de «converter» os modelos de consumo e produção, bem como os estilos de vida, numa direção mais respeitadora da criação e do progresso humano integral de todos os povos presentes e futuros, um progresso fundado na responsabilidade, na prudência/precaução, na solidariedade e atenção aos pobres e às gerações futuras. 

Na base de tudo, deve estar a aliança entre o ser humano e o meio ambiente que, para nós crentes, é «espelho do amor criador de Deus, de Quem provimos e para Quem estamos a caminho». [3] A transição realizada por esta conversão não pode negligenciar as exigências da justiça, especialmente para com os trabalhadores mais afetados pelo impacto das mudanças climáticas.

Por sua vez, a cimeira COP 15 sobre a biodiversidade, que terá lugar no Canadá em dezembro, proporcionará à boa vontade dos Governos uma oportunidade importante para adotarem um novo acordo multilateral para deter a destruição dos ecossistemas e a extinção das espécies. Segundo a antiga sabedoria dos Jubileus, temos necessidade de «recordar, regressar, repousar e restaurar». [4] 

Para impedir um colapso ainda mais grave da «rede da vida» – Biodiversidade – que Deus nos concedeu, rezemos e convidemos as nações a porem-se de acordo sobre quatro princípios-chave: 

1º. ⇒ Construir uma base ética clara para a transformação que precisamos a fim de salvar a biodiversidade

2º. ⇒ Lutar contra a perda de biodiversidade, apoiar a sua conservação e recuperação e satisfazer de forma sustentável as necessidades das pessoas

3º. ⇒ Promover a solidariedade global, tendo em vista que a biodiversidade é um bem comum global que requer um empenho compartilhado

4º. ⇒ Colocar no centro as pessoas em situações de vulnerabilidade, incluindo as mais afetadas pela perda de biodiversidade, como as populações indígenas, os idosos e os jovens.

Repito: «Quero pedir, em nome de Deus, às grandes empresas extrativas – mineiras, petrolíferas, florestais, imobiliárias, agro-alimentares – que deixem de destruir florestas, zonas úmidas e montanhas, que deixem de poluir rios e mares, que deixem de intoxicar as pessoas e os alimentos». [5]

É impossível não reconhecer a existência duma «dívida ecológica» (Laudato si', 51) das nações economicamente mais ricas, que poluíram mais nos últimos dois séculos; isso exige que elas realizem passos mais ambiciosos tanto na COP 27 como na COP 15. Além duma decidida ação dentro das suas fronteiras, inclui cumprir as suas promessas de apoio financeiro e técnico às nações economicamente mais pobres, que já sofrem o peso maior da crise climática. 

Além disso, seria oportuno pensar urgentemente também num maior apoio financeiro para a conservação da biodiversidade. Significativas, embora «diversificadas» (cf. ibid., 52), são também as responsabilidades dos países economicamente menos ricos; os atrasos dos outros não podem jamais justificar a inação de quem quer que seja. É necessário agirem todos, com decisão. Estamos a chegar a «um ponto de ruptura» (cf. ibid., 61).

Durante este «Tempo da Criação», rezemos para que as cimeiras COP 27 e COP 15 possam unir a família humana (cf. ibid., 13) para enfrentar decididamente a dupla crise do clima e da redução da biodiversidade. Recordando a exortação de São Paulo para nos alegrar com os que se alegram e chorar com os que choram (cf. Rm 12, 15), choremos com o grito amargo da criação, escutemo-lo e respondamos com os fatos para que nós e as gerações futuras possamos ainda alegrar-nos com o canto doce de vida e de esperança das criaturas.


Roma, São João de Latrão, na Memória de Nossa Senhora do Carmo, dia 16 de julho de 2022.

FRANCISCO





[1] Cf. Discurso à FAO, 16 de novembro de 1970.

[2] São João Paulo II, Audiência Geral, 10 de julho de 2002.



[5] Vídeo-mensagem aos Movimentos Populares, 16 de outubro de 2021.

31 de agosto de 2021

Mensagem de S.S. Paulo VI para a Conferência das Nações Unidas sobre o Desenvolvimento e Meio Ambiente Humano em Estocolmo - 1972


Aproveito alguns momentos de folga para compartilhar catequeses antigas, que foram realizadas em datas singulares para o conhecimento dos profissionais católicos romanos da área ambiental. Todos semearam para que Francisco pudesse ver os frutos se desenvolvendo, organizasse a diversidade de cultivos e desse instruções para que, até a colheita, muitos não se percam e a Criação - pela graça de Deus - possa sustentá-los.

* * * 

Sr. Secretário Geral,


Por ocasião da abertura da Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente, cuja preparação Vossa Excelência assegurou com zelo e competência, gostaríamos de manifestar a Vossa Excelência e a todos os participantes o interesse com que acompanhamos este grande empreendimento. A preocupação em preservar e melhorar o meio natural, bem como a nobre ambição de estimular um primeiro gesto de cooperação mundial a favor deste bem necessário para todos, respondem a imperativos profundamente sentidos pelos homens do nosso tempo.

Com efeito, hoje surge a consciência de que o homem e o seu meio natural são, como nunca antes, inseparáveis: o meio ambiente condiciona - essencialmente - a vida e o desenvolvimento do homem; este, por sua vez, aperfeiçoa e enobrece o meio ambiente com sua presença, seu trabalho, sua contemplação.

Mas a capacidade criativa do homem não produzirá frutos autênticos e duradouros, exceto na medida em que o homem respeite as leis que regem o impulso vital e a capacidade regenerativa da natureza: um e outro são, portanto, solidários e compartilham um futuro temporário comum. Devemos também chamar a atenção da humanidade para substituir o ímpeto, muitas vezes cego e brutal, do progresso material abandonado ao seu único dinamismo, pelo respeito pela biosfera enquadrado numa visão global dos seus domínios que se tornam "uma só terra", para usar o lindo slogan da Conferência.

A supressão das distâncias graças ao avanço das comunicações, o estabelecimento de laços cada vez mais estreitos entre os povos devido ao desenvolvimento econômico, a crescente submissão das forças da natureza à ciência e à tecnologia, a multiplicação das relações Os seres humanos acima das barreiras das nacionalidades e raças. São tantos os fatores de interdependência para melhor ou para pior, para a esperança de salvação ou para o perigo de desastre. Um abuso, uma deterioração causada em uma parte do mundo tem suas repercussões em outros lugares e pode alterar a qualidade de vida de outras pessoas, muitas vezes sem seu conhecimento e sem culpa própria.

O homem, aliás, sabe com certeza que o progresso científico e técnico, apesar de seus aspectos promissores para a promoção de todos os povos, traz em si, como todas as obras humanas, seu forte fardo de ambivalência para o bem e para o bem. É, sobretudo, a aplicação que a inteligência deve fazer de suas descobertas com fins destrutivos, como é o caso das armas atômicas, químicas e bacteriológicas, e tantos outros instrumentos de guerra, grandes ou pequenos, no que diz respeito às armas

A consciência moral não sente nada além de horror. E, como ignorar os desequilíbrios causados ​​na biosfera pela exploração, sem ordem, das reservas físicas do planeta, mesmo para fins de produção de coisas úteis, bem como o desperdício de reservas naturais não renováveis, contaminação do solo, da água , ar, espaço, com seus ataques à vida vegetal e animal?

Tudo isso contribui para empobrecer e deteriorar o meio ambiente do homem a ponto de ameaçar, dizem, sua própria sobrevivência.

Por fim, devemos enfatizar fortemente o desafio que se coloca à nossa geração para que, deixando de lado os objetivos parciais e imediatos, ofereça aos homens de amanhã uma terra que lhes seja hospitaleira.

A corresponsabilidade deve doravante responder à interdependência; a solidariedade deve corresponder à comunidade de destino. Tudo isso não será alcançado recorrendo a soluções fáceis. Assim como o problema demográfico não se resolve limitando indevidamente o acesso à vida, o problema ambiental também não pode ser enfrentado apenas com medidas técnicas. 

Estes são essenciais e a vossa Assembleia deverá estudá-los e propor os meios adequados para retificar a situação. Por exemplo, é bastante evidente que sendo a indústria uma das principais causas da poluição, é absolutamente necessário que aqueles que a dirigem aperfeiçoem seus métodos e encontrem os meios - sem prejudicar, na medida do possível, a produção - de eliminar completamente os causas da poluição, ou pelo menos reduzi-las.

Nesse trabalho de remediação, fica evidente também que o químico tem um papel importante e grande esperança se deposita em sua capacidade profissional.

Mas todas as medidas técnicas seriam ineficazes se não fossem acompanhadas pela consciência da necessidade de uma mudança radical de mentalidades. Todos são chamados a agir com lucidez e coragem. Nossa civilização, tentada a avançar em suas realizações prodigiosas por meio da dominação despótica do meio ambiente humano, saberá como descobrir com o tempo a maneira de controlar seu crescimento?

01 de junho de 1972
Papa Paulo VI




Mensagem de S.S. Paulo VI para a Conferência das Nações Unidas sobre o Desenvolvimento e Meio Ambiente Humano na ocasião do V Dia Mundial do Meio Ambiente - 1977


Aproveito alguns momentos de folga para compartilhar catequeses antigas, que foram realizadas em datas singulares para o conhecimento dos profissionais católicos romanos da área ambiental. Todos semearam para que Francisco pudesse ver os frutos se desenvolvendo, organizasse a diversidade de cultivos e desse instruções para que, até a colheita, muitos não se percam e a Criação - pela graça de Deus - possa sustentá-los.

* * * 

E Deus viu todas as coisas que havia feito, e eram muito boas” (Gn 1:51).

Este texto antigo, tão simples e ao mesmo tempo tão profundo, lembra a todos nós hoje que temos que considerar e aceitar o mundo em que vivemos, esta Criação, como boa, como um todo. Bom, porque é um presente de Deus; bom, porque constitui o ambiente no qual todos nós fomos colocados e no qual somos chamados a viver a nossa vocação em solidariedade uns com os outros.

Nos últimos anos, tem havido uma consciência crescente em todo o mundo de que "o meio ambiente condiciona essencialmente a vida e o desenvolvimento do homem; o homem, por sua vez, aperfeiçoa e enobrece o meio ambiente com sua presença, seu trabalho, sua contemplação" (Mensagem à Conferência de Estocolmo sobre o Meio Ambiente; L'Osservatore Romano, Edição em Língua Espanhola, 18 de junho de 1972, p. 1)

Portanto, é muito reconfortante ver os membros das Nações Unidas proclamarem um Dia Mundial do Meio Ambiente, para que todos, em todos os lugares, possam aproveitar esta oportunidade para celebrar os bens desta terra e compartilhá-los de forma mais consciente e igualitária com todos os seus irmãos e irmãs.

Essa consciência do nosso meio ambiente é mais urgente hoje do que nunca. Porque os homens, que têm os meios e a capacidade de construir e enobrecer o mundo ao seu redor, também podem destruí-lo e esbanjar seus bens. A ciência e a tecnologia humanas alcançaram objetivos maravilhosos. Mas você tem que ter cuidado para que eles sejam usados ​​para aumentar a vida humana, não para diminuí-la. O esforço humano trouxe muita riqueza para fora da terra. Mas esta riqueza não deve ser desperdiçada supérflua por uma minoria, nem egoisticamente acumulada para o benefício de uns poucos às custas do resto da humanidade necessitada.

Por isso, a celebração deste Dia do Meio Ambiente em que vivemos deve ser ao mesmo tempo um apelo à união de todos nós, guardiães da Criação de Deus. Deve ser um caminho para renovar o nosso empenho na tarefa de preservar, melhorar e dar às gerações futuras um ambiente saudável, no qual cada pessoa se sinta realmente em casa (cf. Mensagem citada).

O propósito de tal apelo requer mais do que uma mera renovação de esforços. Exige uma mudança de mentalidade, uma conversão de atitudes e práticas, para que os ricos usem voluntariamente menos os bens da terra e os compartilhem de forma mais ampla e sábia. Exige simplicidade no estilo de vida e uma sociedade que saiba conservar de forma inteligente, em vez de consumir desnecessariamente. Exige, por fim, um sentido universal de solidariedade, no qual cada pessoa e cada nação desempenhe o seu papel próprio e interdependente, para garantir um ambiente ecologicamente saudável para as pessoas de hoje e para as gerações futuras.

Tudo o que é criado por Deus é bom”, escreveu o apóstolo Paulo. Rezamos intensamente para que este Dia do Meio Ambiente seja uma ocasião para todos e em todos os lugares se alegrarem com a sabedoria deste grito e se comprometerem a compartilhar e preservar fraternalmente um meio ambiente puro, como patrimônio comum de toda a humanidade.


Papa Paulo VI


1 de março de 2017

Discurso do Santo Padre Francisco aos participantes do Seminário "Direito Humano à Água", organizado pela Pontifícia Academia de Ciências

(Tradução e adaptação por Renata P. Espíndola)


Queridos irmãos e irmãs, boa tarde.

Saúdo a todos os presentes e lhes agradeço por sua participação neste encontro que aborda a problemática do direito humano à água e também a exigência de políticas públicas que possam enfrentar esta realidade. É significativo que vocês se unam para conduzir seus saberes e recursos com a finalidade de dar uma resposta a esta necessidade e a esta problemática que vive o homem atual.

Como lemos no livro de Gênesis, a água está no início de todas as coisas (cf. Gn 1,2); é «criatura útil, casta e humilde», fonte da vida e da fecundidade (cf. São Francisco de Assis, Cântico das Criaturas). Por isso, a questão que vocês tratam não é periférica, senão é fundamental e muito urgente. Fundamental, porque onde há água, há vida e então pode surgir e avançar a sociedade. E é urgente porque nossa casa comum necessita proteção e, além disto, temos que assumir que nem toda água é vida: somente a que tenha origem numa fonte segura e que tenha qualidade, seguindo com a figura de São Francisco: a água «que serve com humildade», a água «casta», não contaminada.

Toda pessoa tem direito ao acesso à água potável e segura; este é um direito humano básico e uma das questões centrais no mundo atual (cf. Enc. Laudato Si’, 30; Enc. Caritas in veritate, 27). É doloroso quando na legislação de um país ou de uma coalizão de países não se considera a água como um direito humano. Mais doloroso ainda quando se apaga o que estava escrito e se nega este direito humano. É um problema que afeta a todos e que faz com que nossa casa comum sofra tanta miséria e clame por soluções efetivas, realmente capazes de superar os egoísmos que impedem a realização deste direito vital para todos os seres humanos. 

É necessário outorgar à água a centralidade que merece no embasamento das políticas públicas. Nosso direito à água é também um dever com a mesma. Do direito que temos a ela se origina uma obrigação aderente e inseparável. É inevitável anunciar este direito humano essencial e defendê-lo - como já se faz -, porém também atuar de forma concreta, assegurando um compromisso político e jurídico com a água. Neste sentido, cada país está convocado para estabelecer, tanto através de instrumentos jurídicos, quanto através daqueles indicados pelas resoluções aprovadas pela Assembléia Geral das Nações Unidas desde 2010, ações referentes ao direito humano à água potável e ao saneamento. De forma análoga, cada ator não governamental tem que cumprir suas responsabilidades em relação a este direito.

O direito á água é determinante para a sobrevivência das pessoas (cf. ibid, 30) e decide o futuro da humanidade. É prioritário também educar às próximas gerações sobre a gravidade desta realidade. A formação da consciência é uma tarefa árdua: precisa convicção e entrega. E me pergunto se em meio a esta «terceira guerra mundial em pequenas doses» que estamos vivendo, não estamos no caminho até a grande guerra mundial pela água.

As cifras que as Nações Unidas revelam são atrozes e não nos podem deixar indiferentes: a cada dia, mil crianças morrem a custa de enfermidades relacionadas com a água e milhões de pessoas consomem água contaminada. Estes dados são gravíssimos: é necessário desacelerar e inverter esta situação. Não é tarde, porém é urgente tomar consciência da necessidade da água e de seu valor essencial para o bem da humanidade.

O respeito à água é condição para o exercício dos demais direitos humanos (cf. ibid., 30). Se acatamos este direito como sendo fundamental, estaremos estabelecendo as bases para proteger os demais direitos. Porém, se não aderimos a este direito básico, como seremos capazes de cuidar e lutar pelos demais? Neste compromisso de dar à água a posição que lhe corresponde, faz falta uma cultura do cuidado (cf. ibid., 231) - parece uma coisa poética e, bem, a Criação é uma «poiesis», esta cultura do cuidado que é criativa - e além de fomentar uma cultura do encontro, na qual se unam numa causa comum todas as forças necessárias desde cientistas a empresários, governantes a políticos. 

É preciso unir todas nossas vozes numa mesma causa; já não serão vozes individuais ou solitárias, senão o grito do irmão que clama através de nós, o grito da terra que pede o respeito e o compartilhamento responsável de um bem que é de todos. Nesta cultura do encontro, é imprescindível a ação de cada país como garantia ao acesso universal à água segura e de qualidade.

Deus Criador não nos abandona neste trabalho para dar a todos e a cada um o acesso à água potável e segura, porém o trabalho e a responsabilidade são nossos. Desejo que este seminário seja uma ocasião propícia para que suas convicções se vejam fortalecidas, e saiam daqui com a certeza de que seu trabalho é necessário e prioritário para que outras pessoas possam viver. É um ideal pelo qual se merece a pena de lutar e de trabalhar. 

Com nosso «pouco» estaremos contribuindo para que nossa casa comum seja mais habitável e mais solidária, mais cuidada, onde ninguém seja descartado nem excluído, senão que todos gozemos dos bens necessários para vivermos e crescermos com dignidade. E não esqueçamos dos dados e cifras informados pelas Nações Unidas. Não esqueçamos de que a cada dia mil crianças - a cada dia! - morrem por enfermidades relacionadas com a água.

Muito obrigado.

Papa Francisco


22 de agosto de 2016

Simpósio Vaticano irá reunir jovens de diversas nacionalidades para debater os ODS


A Pontifícia Academia de Ciências Sociais vai receber em seu simpósio para a juventude, nos dias 30 e 31 de outubro, jovens do mundo inteiro que vão partilhar experiências sobre tecnologia, política, economia e cultura. Na base dos debates estarão os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável promovidos pela ONU, em particular os itens n°. 04 - Instrução de qualidade - e n°. 08 - Trabalho digno e Crescimento econômico.

Neste último ponto, os participantes se concentrarão no item: "criar medidas imediatas e eficazes para erradicar o trabalho forçado; erradicação da escravidão moderna e tráfico de seres humanos; proibição e eliminação das piores formas de trabalho infantil, incluindo o recrutamento crianças-soldados; e até 2025 erradicar o trabalho infantil em todas as suas formas”.


Vale a pena ler a notícia em inglês no site da academia, já que o simpósio será fruto não só das ações propostas pelas encíclicas Evangelii Gaudium e pela Laudato Si', como faz parte do esforço do Vaticano em promover os ODS, dos quais é também uma nação signatária (ainda que seja membro-observador na ONU).

Os pedidos de inscrição podem ser apresentados até 30 de agosto por e-mail - vatican@sdsnyouth.org - e participarão cerca de 50 jovens de todo o mundo, entre 18 e 30 anos de idade. Se você, como eu, vai ficar na vontade por ser apenas "jovem em espírito", não deixe de apoiar o evento com suas orações.

Durante o encontro, os participantes irão apresentar projetos e iniciativas, sendo que serão escolhidos dois projetos para serem promovidos pela na
COP22Em 2017, a iniciativa vaticana será repetida para estudar o resultado e as consequências desta primeira reunião.

5 de junho de 2016

Dia Mundial do Meio Ambiente... Será que você se lembra o que nos diz o Catecismo Católico sobre o tema?

A preguiça é um pecado imenso e nunca mais eu quis escrever artigos: acabei só reproduzindo no blog as escritas de terceiros e ainda preciso me fortalecer mais espiritualmente para dar um bom testemunho. Entretanto, hoje é o dia mundial do meio ambiente... Bateu uma apatia e a vontade de perguntar: "E daí?".

Daqui a alguns dias, se completará um ano da apresentação da Laudato Si' e vemos como ainda é incipiente na vivência paroquial dos leigos o estudo e os desdobramentos das diversas encíclicas. Com a Laudato Si', quis crer que o apelo às questões tão preementes a todos - crentes ou não - juntamente com a CF deste ano pudesse nos trazer debates mais amplos e eficazes. 

Pesquisando na rede pude perceber que são poucas as ações pastorais no país, muitas destas existentes desde muito antes da encíclica, como: coleta de óleo comestível usado, coleta seletiva de alumínio, distribuição de peças de vestuário aos pobres e formação de bazares, palestras sobre reciclagem, consumo de água e energia, etc e tal... Isto é muito pouco, gente! Isto é tapar o sol com a peneira, que me perdoem a franqueza de quem já trabalhou cinco anos num serviço social paroquial. 

A questão é muito mais profunda, envolve talentos ofertados com disposição e párocos com discernimento para distribuí-los pelas necessidades das paróquias. Não que as ações que citei anteriormente não sejam válidas, entendam bem, mas elas são paliativas: ajuda daqui, ganha-se dali, parece que todos ficam contentes, mas nada muda de fato... Voltarei ao assunto numa outra publicação lá no Reciclando Idéias, mas deixarei como contribuição ao dia de hoje a pergunta do título:

"Será que você se lembra o que o Catecismo nos diz sobre o tema?"

Dica: Pegue o seu e o leia... No meu exemplar (Edições Loyola - pequeno) começa na página 83 e vai até a 102.

Por que estou falando sobre ler o catecismo? Porque se você não souber o seu significado, irá ser mais um pagão travestido de católico. Interiorize os ensinamentos dele e depois sim, parta para ação utilizando o conhecimento sobre as técnicas e boas práticas adotadas para prevenção dos impactos ambientais ou de suas remediações, incluindo a sensibilização ambiental da sociedade.

"A interdependência das criaturas é querida por Deus".

3 de setembro de 2015

01.09 - Dia Mundial de Oração pelo cuidado da Criação


CARTA DO PAPA FRANCISCO
POR OCASIÃO DA INSTITUIÇÃO
DO "DIA MUNDIAL DE ORAÇÃO PELO CUIDADO DA CRIAÇÃO"



1° de Setembro

Aos Venerados Irmãos
Cardeal Peter Kodwo Appiah TURKSON
Presidente do Pontifício Conselho da Justiça e da Paz
Cardeal Kurt KOCH
Presidente do Pontifício Conselho para a Promoção da Unidade dos Cristãos



Compartilhando com o amado irmão o Patriarca Ecumênico Bartolomeu as preocupações pelo futuro da criação (cf. Cart. Enc. Laudato si’, 7-9), e acolhendo a sugestão de seu representante, o Metropolita Ioannis de Pérgamo, um dos convidados na apresentação da Encíclica Laudato si’ sobre o cuidado da casa comum, desejo comunicar-vos que decidi instituir também na Igreja Católica o "Dia Mundial de Oração pelo Cuidado da Criação" que, a partir do ano corrente, será celebrado no dia 1° de Setembro, assim como já ocorre há tempos na Igreja Ortodoxa.

Como cristãos, queremos oferecer a nossa contribuição para a superação da crise ecológica que a humanidade está vivendo. Por isso devemos, antes de tudo, buscar no nosso rico patrimônio espiritual as motivações que alimentam a paixão pelo cuidado da criação, lembrando sempre que para aqueles que crêem em Jesus Cristo, Verbo de Deus que se fez homem por nós, «a espiritualidade não está desligada do próprio corpo nem da natureza ou das realidades deste mundo, mas vive com elas e nelas, em comunhão com tudo o que nos rodeia» (ibid., 216). A crise ecológica nos chama, portanto, a uma profunda conversão espiritual: os cristãos são chamados a uma «conversão ecológica, que comporta deixar emergir, nas relações com o mundo que os rodeia, todas as consequências do encontro com Jesus» (ibid., 217). De fato, «viver a vocação de guardiões da obra de Deus não é algo de opcional nem um aspecto secundário da experiência cristã, mas parte essencial duma existência virtuosa» (ibid.).

Anualmente, o Dia Mundial de Oração pelo Cuidado da Criação oferecerá a cada fiel e às comunidades a preciosa oportunidade para renovar a adesão pessoal à própria vocação de guardião da criação, elevando a Deus o agradecimento pela obra maravilhosa que Ele confiou ao nosso cuidado, invocando a sua ajuda para a proteção da criação e a sua misericórdia pelos pecados cometidos contra o mundo em que vivemos. A celebração deste Dia, na mesma data, com a Igreja Ortodoxa, será uma ocasião profícua para testemunhar a nossa crescente comunhão com os irmãos ortodoxos. Vivemos num tempo em que todos os cristãos enfrentam idênticos e importantes desafios, diante dos quais, para ser mais críveis e eficazes, devemos dar respostas comuns. Por isto, é meu desejo que este Dia também possa envolver, de alguma forma, outras Igrejas e Comunidades eclesiais, e ser celebrado em sintonia com as iniciativas que o Conselho Mundial de Igrejas promove sobre este tema.

Ao senhor, Cardeal Turkson, Presidente do Pontifício Conselho da Justiça e da Paz, peço para que leve ao conhecimento das Comissões Justiça e Paz das Conferências Episcopais, bem como dos organismos nacionais e internacionais comprometidos no âmbito ecológico, a instituição do Dia Mundial de Oração pelo Cuidado da Criação, para que, em harmonia com as exigências e as situações locais, a celebração seja devidamente organizada com a participação de todo o Povo de Deus: sacerdotes, religiosos, religiosas e fiéis leigos. Para este fim, será de responsabilidade deste Dicastério, em colaboração com as Conferências Episcopais, implementar oportunas iniciativas de promoção e de animação, para que esta celebração anual seja um momento forte de oração, reflexão, conversão e uma oportunidade para assumir estilos de vida coerentes.

Ao senhor, Cardeal Koch, Presidente do Pontifício Conselho para a Promoção da Unidade dos Cristãos, peço que providencie os contatos necessários com o Patriarcado Ecumênico e com as outras realidades ecumênicas, para que tal Dia Mundial possa tornar-se sinal de um caminho percorrido conjuntamente por todos os que crêem em Cristo. Será responsabilidade deste Dicastério, além disto, cuidar da coordenação com iniciativas similares tomadas pelo Conselho Mundial de Igrejas.

Ao fazer votos duma mais ampla colaboração para o bom início e desenvolvimento do Dia Mundial de Oração pelo Cuidado da Criação, invoco a intercessão da Mãe de Deus, Maria Santíssima, e de São Francisco de Assis, cujo Cântico das Criaturas inspira tantos homens e mulheres de boa vontade a viver no louvor do Criador e no respeito pela criação. Corrobora estes votos a Bênção Apostólica, que de coração concedo a vós, Senhores Cardeais, e a todos aqueles que colaboram no vosso ministério.

Vaticano, 6 de Agosto de 2015
Festa da Transfiguração do Senhor


FRANCISCUS



Fonte: http://w2.vatican.va/content/francesco/pt/letters/2015/documents/papa-francesco_20150806_lettera-giornata-cura-creato.html 

Homilia do Dia Mundial de Oração pelo cuidado da Criação


LITURGIA DA PALAVRA
PRESIDIDA PELO PAPA FRANCISCO
PARA O DIA MUNDIAL DE ORAÇÃO PELO CUIDADO DA CRIAÇÃO
 Basílica Vaticana
Terça-feira, 1° de Setembro de 2015




HOMILIA DO PADRE RANIERO CANTALAMESSA
PREGADOR DA CASA PONTIFÍCIA

Abençoando-os, Deus disse-lhes «Crescei e multiplicai-vos, enchei e dominai a terra. Dominai sobre os peixes do mar, sobre as aves do céu e sobre todos os animais que se movem na terra» (Gn 1, 28).

Estas palavras em tempos recentes suscitaram uma forte crítica. Elas, escreveu alguém, ao atribuir ao homem um domínio indiscriminado sobre o restante da natureza, estão na origem da atual crise ecológica. Inverteu-se a relação do mundo antigo, sobretudo dos gregos, que via o homem em função do cosmos e não o cosmos em função do homem (Lynn White, The historical roots of our ecologic crisis em «Science», 1967 e em «Ecology and religion in history», 1974).

Penso que esta crítica, como tantas análogas dirigidas ao texto bíblico, tem início no fato de que se interpretam as palavras da Bíblia à luz de categorias seculares que lhe são alheias. «Dominai» neste caso não tem o significado que o termo assume fora da Bíblia. Para a Bíblia, o modelo último do dominus, do senhor, não é o soberano político que explora os seus súbditos, mas é o próprio Deus, Senhor e pai.

O domínio de Deus sobre as criaturas certamente não é finalizado ao próprio interesse, mas ao das criaturas que ele cria e protege. Existe um paralelismo evidente: Deus é o dominus do homem, o homem deve ser o dominus do restante da criação, isto é, responsável por ela e seu guardião. O homem foi criado para ser «à imagem e semelhança de Deus», não de padrões humanos. O sentido do domínio do homem é explicitado pela continuação do texto: «O Senhor levou o homem e colocou-o no jardim do Éden para que o cultivasse e, também, o guardasse» (Gn 2, 15). Isto é expresso muito bem na prece Eucarística IV na qual dizemos dirigindo-nos a Deus: «À vossa imagem formastes o homem, às suas mãos laboriosas confiastes o universo para que na obediência a vós, seu criador, exercesse o domínio sobre toda a criação».

Portanto, a fé num Deus criador e no homem feito à imagem de Deus, não é uma ameaça, mas uma garantia para a criação, e a mais forte de todas. Diz que o homem não é dono absoluto das outras criaturas; deve prestar contas por aquilo que recebeu. Aqui a parábola dos talentos tem uma aplicação primordial: a terra é o talento que todos juntos recebemos e pelo qual devemos prestar contas.

A ideia de uma relação idílica entre o homem e o cosmos, fora da Bíblia, além de tudo, é uma invenção literária. A opinião dominante entre os filósofos pagãos do tempo tendia a fazer do mundo material, seguindo o exemplo de Platão, o produto de um deus de segunda categoria (o Deuteros theos, o Demiurgo), ou até, como dirá Marcião de Sinope, obra de um deus malvado, diferente do Deus revelado por Jesus Cristo. O anseio era libertar-se da matéria, não libertar a matéria. Visão que no tempo de Francisco de Assis revivia na heresia dos cátaros.

Uma prova de que não foi a visão bíblica que favoreceu a prevaricação do homem sobre a criação é que o mapa da poluição não coincide com o da difusão da religião bíblica nem de outras religiões, mas com a de uma industrialização selvagem, voltada só para o lucro, e com a da corrupção que abafa todas as contestações e resiste a todos os poderes.

Ao lado da grande afirmação que homens e coisas provêm de um princípio único, a narração bíblica põe em evidência, isto sim, uma hierarquia de importância que é a mesma da vida e que vemos inscrita em toda a natureza. O mineral serve o vegetal que dele se nutre, o vegetal serve o animal (é o boi que come o capim não o contrário!), e todos servem a criatura racional que é o homem.

Esta hierarquia é a favor da vida não contra ela. Por exemplo, ela é violada quando se fazem compras insensatas para alguns animais (e não certamente para os que estão em perigo de extinção!), enquanto se deixam morrer de fome e de doenças milhões de crianças sob os próprios olhos. Alguém gostaria de abolir totalmente a hierarquia entre os seres, estabelecida pela Bíblia e ínsita na natureza. Chegaram até a idealizar e desejar um universo futuro que deixou de ter a presença da espécie humana, considerada prejudicial para o restante da criação. Isto é chamado «Ecologia Profunda» (é o caso do site VHEMT — Voluntary human extinction movement). Mas claramente isto é um contra-senso. Seria como se uma imensa orquestra fosse obrigada a executar uma maravilhosa sinfonia, mas no vazio total, sem que alguém a ouça e os próprios músicos fossem surdos.

Como é tranquilizador, neste contexto, ouvir de novo as palavras do Salmo 8 que queremos fazer nossas nesta vigília de oração: «Quando contemplo os céus, obra das vossas mãos, a lua e as estrelas que Vós fixastes; que é o homem, para vos lembrardes dele, o Filho do homem, para dele cuidardes? Contudo, pouco lhe falta para que seja um ser divino; de glória e de honra o coroastes. Destes-lhe domínio sobre as obras das vossas mãos. Tudo submetestes debaixo dos seus pés; os rebanhos e o gado sem exceção, até mesmo os animais bravos; as aves do céu e os peixes do mar, tudo o que atravessa os caminhos do mar. Ó Senhor, nosso Deus, como é grande o vosso Nome em toda a terra!».

Francisco foi a prova viva da contribuição que a fé em Deus pode dar ao esforço comum para a salvaguarda da criação. O seu amor pelas criaturas foi uma consequência direta da sua fé na paternidade universal de Deus. Ainda não havia as razões práticas que temos hoje para nos preocupar pelo futuro do planeta: poluição atmosférica, escassez de água potável... A sua foi uma ecologia pura sem as finalidades utilitaristas, apesar de legítimas, que nós hoje temos. As palavras de Jesus «Um só é o vosso Pai, aquele celeste; sois todos irmãos» (cf. Mt 23, 8-9), eram-lhe suficientes. Para ele, não eram um princípio abstrato; mas o horizonte constante dentro do qual vivia e pensava. Fortalecido por esta certeza, ele quis pôr o mundo inteiro «em estado de fraternidade e de louvor».

As fontes franciscanas referem-nos os sentimentos com os quais Francisco se pôs a escrever o seu cântico: «Gostaria, por louvor a Deus e para a minha consolação e edificação do próximo, de compor um novo Louvor ao Senhor pelas suas criaturas. Diariamente utilizamos as criaturas e sem elas não podemos viver, e nelas o gênero humano ofende muito o Criador. E todos os dias nos mostramos ingratos em relação a este grande benefício e não o louvamos como deveríamos ao nosso Criador e doador de todo o bem». Sentou-se e pôs-se a refletir, dizendo em seguida: «Altíssimo, todo-poderoso, bom Senhor...» (Leggenda Perugina, 43 «Fontes Franciscanas», 1592).

As palavras do santo que define como bom o sol, bom irmão o fogo, claras e bonitas as estrelas, são o eco daquele «E Deus viu que tudo era bom», da narração da criação.

O pecado de fundo contra a criação, que precede todos os outros, é não ouvir a sua voz, condená-lo irremediavelmente, diria são Paulo, à vaidade, à insignificância (cf. Rm 8, 18 s.). O próprio Apóstolo fala de um pecado fundamental que se chama impiedade, ou «sufocar a verdade». Diz que é o pecado de quem «embora conhecendo Deus não lhe louva nem lhe dá ação de graças» como convém a Deus. Portanto, não é só o pecado dos ateus que negam a existência de Deus, é também o pecado dos crentes de cujos corações nunca saiu um entusiasmado «Glória a Deus nas alturas», nem um comovido «Graças a ti, Senhor». A Igreja põe-nos nos lábios as palavras para o fazer quando, no Glória da Missa, dizemos: «Nós te louvamos, te bendizemos, te adoramos, te glorificamos, te damos graças pela tua glória imensa».

«Os céus e a terra — diz com frequência a Escritura — estão cheios da sua glória». Estão, por assim dizer, grávidos. Mas eles não podem, sozinhos, «eximirem-se». Como a mulher grávida, têm necessidade das mãos hábeis de uma obstetra para dar à luz aquilo de que estão «grávidos». E deveríamos ser nós estes «obstetras» da glória de Deus. Quanto teve que esperar o universo, que longo impulso deve ter dado, para chegar a este ponto! Milhões e bilhões de anos, durante os quais a matéria, através da sua opacidade, progredia com dificuldade rumo à luz da consciência como a linfa que do subsolo vem para cima da árvore para se expandir em flor e fruto. Esta consciência finalmente foi alcançada, quando apareceu no universo «o fenômeno humano». Mas agora que o universo alcançou a sua meta, exige que o homem cumpra o seu dever, que assuma, por assim dizer, a direção do coro e entoe para todos o «Glória a Deus nas alturas!».

Francisco indica-nos o caminho para uma mudança radical na nossa relação com a criação: consiste em substituir a posse pela contemplação. Ele descobriu um modo diferente de usufruir as coisas que é contemplá-las em vez de as possuir. Pode beneficiar de todas as coisas, porque renunciou a possuir algumas delas. As fontes franciscanas descrevem-nos a situação de Francisco quando compõe o seu Cântico das Criaturas: «Não sendo capaz de suportar a luz natural durante o dia, nem a claridade do fogo durante a noite, ficava sempre na obscuridade em casa e na cela. Não só, mas sofria dia e noite dores atrozes nos olhos, que quase não podia repousar nem dormir, e isto aumentava e piorava estas e outras enfermidades» (Leggenda Perugina, 1614; «Fontes Franciscanas», 1591).

Francisco cantou a beleza das criaturas quando já não podia ver nenhuma delas e aliás a simples luz do sol ou do fogo causavam-lhe dores atrozes! A posse exclui, a contemplação inclui; a posse divide, a contemplação multiplica. Se um só possuir um lago, um parque, os outros ficarão excluídos; se milhares de pessoas contemplarem aquele lago ou parque, todos beneficiarão sem privar ninguém dele. Trata-se de uma posse mais verdadeira e profunda, uma posse dentro, não fora, com a alma, não só com o corpo. Quantos latifundiários pararam para admirar uma flor dos seus campos ou acariciar uma espiga do seu trigo? A contemplação permite possuir as coisas sem as açambarcar.

O exemplo de Francisco de Assis demonstra que a atitude religiosa e doxológica em relação à criação tem consequências práticas e concretas; não é algo feito no ar. Impele também a gestos concretos. O primeiro biógrafo do Santo referiu alguns dos gestos concretos do Pobrezinho: «Abraça todos os seres criados com um amor e uma devoção que nunca se viu antes [...]. Quando os frades cortam a lenha, proíbe que cortem a árvore toda, para que possa ter novos brotos. E ordena que o hortelão deixe incultos os confins ao redor da horta, a fim de que a seu tempo o verde das ervas e o esplendor das flores cantem como é bom o Pai de toda a criação. Deseja também que na horta um canteiro seja reservado às ervas oficinais e que produzem flores para que evoquem a quem as observa a recordação da suavidade eterna. Até recolhe pelos caminhos os pequenos vermes, para que não sejam pisados e às abelhas quer que se ofereçam mel e bom vinho, para que não morram de fome no rigor do inverno» (Celano, Vita Seconda, 165).

Algumas das suas recomendações parecem escritas hoje, sob a pressão dos ambientalistas. Um dia ele disse: «Não quero ser ladrão de esmolas» (Celano, Vita Seconda, 54), significando, receber mais do que o devido, subtraindo a quem teria mais necessidade do que ele. Hoje esta regra poderia ter uma aplicação muito útil para o futuro da terra. Também nós deveríamos propor-nos: não quero ser ladrão de recursos, usando-os mais que o devido e subtraindo a quem virá depois de mim.

Certamente, Francisco não tinha a visão global e planetária do problema ecológico mas uma visão local, imediata. Pensava naquilo eventualmente podia fazer ele e os seus frades. Contudo, também com isto nos ensina algo. Um slogan hoje muito em voga diz: Think globally, act locally, pensa de modo global e age localmente. Que sentido tem, por exemplo, irar-se contra quem polui a atmosfera, os oceanos e as florestas, se não hesito lançar à margem de um rio ou do mar um saquinho de plástico que permanecerá ali por séculos, se alguém não o recuperar, se lanço em qualquer lugar, estradas ou bosques, o lixo que me incomoda ou se sujo as paredes da minha cidade?

A salvaguarda da criação, como a paz, faz-se, diria o nosso Santo Padre Francisco, «artesanalmente», começando por nós mesmos. A paz começa em cada um, repete sempre nas mensagens para o dia da paz; também a salvaguarda da criação começa por nós. Foi o que um representante ortodoxo afirmou já na assembleia ecumênica de Basileia de 1989 sobre «Justiça, paz e salvaguarda da criação»: «Sem uma mudança do coração do homem, a ecologia não tem esperança de sucesso».

Concluo a minha reflexão. Poucas semanas antes da sua morte São Francisco acrescentou uma estrofe ao seu Cântico, que inicia com as palavras: «Laudato sii, mi Signore, per quelli che perdonano per lo tuo amore» (Leggenda Perugina, 84). Penso que se vivesse hoje ele teria acrescentado outra estrofe ao seu cântico: "Laudato sii, meu Senhor, por quantos trabalham para proteger nossa irmã mãe Terra, cientistas, políticos, chefes de todas as religiões e homens de boa vontade. Laudato sii, meu Senhor, por aquele que, juntamente com o meu nome, assumiu também a minha mensagem e está a difundi-la hoje em todo o mundo"!

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Livro da celebração (foram utilizados os seguinte idiomas de modo misto: italiano, inglês e alemão): http://www.vatican.va/news_services/liturgy/libretti/2015/20150901-libretto-giornata-cura-creato.pdf


Fonte: http://w2.vatican.va/content/francesco/pt/homilies/2015/documents/papa-francesco_20150901_omelia-giornata-cura-creato.html