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5 de março de 2022

Homilia do Papa Francisco na Quarta-feira de Cinzas em meio ao horror de uma nova guerra


Neste dia, que dá início ao tempo da Quaresma, o Senhor diz-nos: «Guardai-vos de fazer as vossas obras diante dos homens, para vos tornardes notados por eles; de outro modo, não tereis nenhuma recompensa do vosso Pai que está no Céu» (Mt 6, 1). Pode causar surpresa, mas no Evangelho de hoje a palavra que aparece mais vezes é recompensa (cf. 6, 1.2.5.16). 

Habitualmente, na Quarta-feira de Cinzas, a nossa atenção concentra-se mais sobre o empenho exigido pelo caminho de fé do que no prêmio que daí nos advém. Contudo, hoje, o discurso de Jesus retorna regularmente a este termo, recompensa, que parece ser a mola do nosso agir. De fato em nós, no nosso coração, há uma sede, um desejo de alcançar uma recompensa, que nos atrai e move a cumprir aquilo que fazemos.

Mas o Senhor distingue dois tipos de recompensa, a que pode tender a vida duma pessoa: por um lado, temos a recompensa junto do Pai e, por outro, a recompensa junto dos homens. A primeira é eterna, é a verdadeira, definitiva, é o objetivo da existência. Ao contrário, a segunda é transitória, é um encandeamento que nos prende quando a admiração dos homens e o sucesso mundano representam para nós a coisa mais importante, a maior gratificação. 

Mas trata-se duma ilusão: é como uma miragem que, uma vez alcançada, nos deixa de mãos vazias. A inquietação e o descontentamento sempre aguardam ao virar da esquina quem possui como horizonte o mundanismo, que seduz, mas depois decepciona. Quem tem em vista a recompensa do mundo nunca encontra paz, nem sabe promover a paz, porque perde de vista o Pai e os irmãos. É um risco que todos corremos; por isso nos adverte Jesus: «Guardai-vos…»! É como se dissesse: «Tendes a possibilidade de gozar uma recompensa infinita, uma recompensa sem igual: por isso tende cuidado para não vos deixar deslumbrar pela aparência, perseguindo recompensas insignificantes, que vos morrem na mão».

O rito das cinzas, que recebemos sobre a cabeça, quer subtrair-nos ao encandeamento de preferir a recompensa junto dos homens à recompensa junto do Pai. Este sinal austero, que nos leva a refletir sobre a caducidade da nossa condição humana, é como um remédio de sabor amargo, mas eficaz para curar a doença da aparência. Trata-se duma doença espiritual, que escraviza a pessoa, levando-a a tornar-se dependente da admiração dos outros. 

É uma verdadeira «escravidão dos olhos e da mente» (cf. Ef 6, 6; Col 3, 22), que nos induz a viver buscando a vanglória, de modo que conta não a pureza do coração, mas a admiração do povo; não o olhar de Deus sobre nós, mas como nos olham os outros. E não é possível viver bem, contentando-se com esta recompensa.

O problema é que esta doença da aparência mina também os âmbitos mais sagrados. É sobre isto que Jesus insiste hoje: também a oração, a caridade e o jejum podem tornar-se autorreferenciais. Em cada gesto, mesmo no mais belo, pode esconder-se a traça da autocomplacência. 

Assim o coração não é completamente livre, porque não procura o amor ao Pai e aos irmãos, mas a aprovação humana, o aplauso do povo, a sua própria glória. E tudo se pode transformar numa espécie de ficção em relação a Deus, a si mesmo e aos outros. Por isso a Palavra de Deus convida-nos a olhar o nosso íntimo para ver as nossas hipocrisias. Façamos um diagnóstico das aparências que buscamos; tentemos desmascará-las. Far-nos-á bem.

As cinzas colocam em evidência o nada que se esconde por trás da afanosa procura das recompensas mundanas. Lembram-nos que o mundanismo é como o pó, que um pouco de vento arrasta. Irmãs, irmãos, não estamos no mundo para correr atrás do vento; o nosso coração tem sede de eternidade. A Quaresma é um tempo que o Senhor nos deu para voltarmos a viver, sermos curados interiormente e caminharmos para a Páscoa, para aquilo que não passa, para a recompensa junto do Pai. 

É um caminho de cura. Não para mudar tudo da noite para o dia, mas para viver cada dia com um espírito novo, com um estilo diferente. Para isto servem a oração, a caridade e o jejum: purificados pelas cinzas quaresmais, purificados da hipocrisia da aparência, reencontra-se a força plena para voltar a gerar uma relação viva com Deus, com os irmãos e consigo mesmo.

A oração humilde, feita «em segredo» (Mt 6, 6), no recanto do próprio quarto, torna-se o segredo para fazer florescer a vida no exterior. É um diálogo ardente de afeto e confiança, que consola e abre o coração. Sobretudo neste tempo de Quaresma, rezemos com os olhos fixos no Crucifixo: deixemo-nos invadir pela comovente ternura de Deus e, nas suas chagas, coloquemos as nossas e as do mundo. 

Não nos deixemos levar pela pressa, fiquemos em silêncio diante d’Ele. Redescubramos a essencialidade fecunda do diálogo íntimo com o Senhor. Com efeito, Deus não Se compraz com as coisas espetaculares; pelo contrário, gosta de Se deixar encontrar no segredo. É «o caráter secreto do amor», longe de toda a ostentação e de tonalidades espalhafatosas.

Se a oração for verdadeira, não pode deixar de se traduzir em caridade. E a caridade liberta-nos da escravidão pior: a escravidão de nós mesmos. A caridade quaresmal, purificada pelas cinzas, reconduz-nos ao essencial, à alegria íntima que existe no dar. A esmola, dada longe dos holofotes, dá paz e esperança ao coração. Revela-nos a beleza do dar que se torna receber, permitindo assim descobrir um segredo precioso: o dar alegra mais o coração do que o receber (cf. At 20, 35).

Por fim, o jejum. Este não é uma dieta; antes, liberta-nos da autorreferencialidade da busca obsessiva do bem-estar físico, para nos ajudar a ter em forma, não o corpo, mas o espírito. O jejum leva-nos de novo a dar o justo valor às coisas. Concretamente, recorda-nos que a vida não deve estar submetida ao cenário passageiro deste mundo. E o jejum não se deve restringir apenas ao alimento: especialmente na Quaresma, deve-se jejuar daquilo que gera em nós dependência. Cada qual pense nisto, para fazer um jejum que incida verdadeiramente na sua vida concreta.

Mas, se a oração, a caridade e o jejum devem amadurecer no segredo, os seus efeitos não são secretos. Oração, caridade e jejum não são remédios só para nós, mas para todos: podem, de fato, mudar a história. Não só porque quem sente os seus efeitos, quase sem se aperceber também os transmite aos outros, mas sobretudo porque a oração, a caridade e o jejum são os meios principais que permitem a Deus intervir na vida nossa e do mundo. São as armas do espírito e é com elas que, nesta jornada de oração e jejum pela Ucrânia, imploramos a Deus aquela paz que os homens sozinhos não conseguem construir.

Vós, Senhor, que vedes no segredo e nos recompensais além de toda a nossa expectativa, escutai a oração de quantos confiam em Vós, sobretudo dos mais humildes, dos mais provados, daqueles que sofrem e fogem sob o estrondo das armas. Colocai de novo a paz nos corações, concedei aos nossos dias a vossa paz. 

Amém.



Fonte: https://www.vatican.va/content/francesco/pt/homilies/2022/documents/20220302_omelia-ceneri.html

31 de agosto de 2021

Na mesma data de entrega do Relatório Bruntland em 1987, S.S. São João Paulo II escrevia sobre solidariedade social à 10ª Conferência da UN-Habitat

Aproveito alguns momentos de folga para compartilhar catequeses antigas, que foram realizadas em datas singulares para o conhecimento dos profissionais católicos romanos da área ambiental. Todos semearam para que Francisco pudesse ver os frutos se desenvolvendo, organizasse a diversidade de cultivos e desse instruções para que, até a colheita, muitos não se percam e a Criação - pela graça de Deus - possa sustentá-los.  Quanto as datas citadas no título, não acredito em coincidências, mas na Providência... 😄

* * * 

Para o Dr. Arcot Ramachandran,
Diretor Executivo da “Habitat”


Neste Ano Internacional dedicado aos desabrigados, apresento as minhas cordiais saudações a vós e a todos os participantes na 10ª sessão comemorativa do "Habitat", o Centro das Nações Unidas para os Assentamentos Humanos.

Desde o início, a Igreja teve um interesse ativo nas metas e atividades do Centro. Neste décimo aniversário da sua fundação, asseguro-vos que este interesse tem crescido ao longo dos anos, assim como a convicção da urgência vital de esforços coordenados para ajudar eficazmente os desabrigados ou àqueles com moradia inadequada.

É cada vez mais claro que o problema da habitação, como tantos outros problemas humanos em nosso mundo hoje, só pode ser resolvido com a cooperação de toda a comunidade internacional. Assim o declarei na minha Mensagem para o Dia Mundial da Paz de 1987: “O desafio urgente que nos é apresentado consiste na necessidade de adotar uma atitude de solidariedade social com toda a família humana e com tal atitude enfrentarmos todas as situações sociais e políticas ”.

A Habitat está em condições de encorajar e fomentar exatamente essa atitude e de ajudar nos esforços para colocá-la em prática, especialmente no que diz respeito ao bem-estar das pessoas que sofrem com uma moradia inadequada. Embora o número de desabrigados e de pessoas sem um refúgio digno continue a crescer, não deveríamos esperar que o desejo de ajudá-los  também cresça cada vez mais? 

Rogo a Deus para que vejamos muitos setores da comunidade mundial empenhados no planejamento e implementação de estratégias de habitação, esforços que manifestarão uma atitude prática de solidariedade social com todos os necessitados.

Sobre vós e sobre todos os participantes da sessão em Nairóbi, invoco os dons de sabedoria e paz de Deus.

20 de março de 1987

4 de abril de 2021

Mensagem "Urbe et Orbi" de Páscoa, 2021


 Caros irmãos e irmãs, uma boa, feliz e pacífica Páscoa!



Hoje, por todo o mundo, ressoa a proclamação da Igreja: “Jesus, que foi crucificado, ressuscitou como disse. Aleluia!"


A mensagem da Páscoa não nos oferece uma miragem, nem revela uma fórmula mágica. Não aponta para uma fuga da difícil situação que vivemos. A pandemia ainda está se espalhando, enquanto a crise social e econômica continua severa, especialmente para os pobres. No entanto - e isso é escandaloso - os conflitos armados não terminaram e os arsenais militares estão sendo fortalecidos. Esse é o escândalo de hoje.


Diante, ou melhor, em meio a esta complexa realidade, a mensagem pascal fala de maneira concisa sobre o acontecimento que nos dá a esperança que não desilude: “Jesus crucificado ressuscitou”. Não nos fala sobre anjos ou fantasmas, mas sobre um homem, um homem de carne e osso, com um rosto e um nome: Jesus. O Evangelho testifica que este Jesus, crucificado sob Pôncio Pilatos por afirmar que era o Cristo, o Filho de Deus, ressuscitou no terceiro dia de acordo com as Escrituras, assim como ele havia predito aos seus discípulos.


O Jesus crucificado, nenhum outro, ressuscitou dos mortos. Deus Pai ressuscitou Jesus, seu Filho, porque ele cumpriu plenamente sua vontade salvadora. Jesus tomou sobre si nossa fraqueza, nossas enfermidades, até mesmo nossa morte. Ele suportou nossos sofrimentos e carregou o peso de nossos pecados. Por causa disso, Deus Pai o exaltou e agora Jesus Cristo vive para sempre; ele é o Senhor.


As testemunhas relatam um detalhe importante: o Jesus ressuscitado traz as marcas das feridas nas mãos, pés e flanco. Essas feridas são o selo eterno de seu amor por nós. Todos aqueles que experimentam uma dolorosa prova no corpo ou no espírito podem encontrar refúgio nessas feridas e, por meio delas, receber a graça da esperança que não decepciona.


O Cristo ressuscitado é a esperança para todos os que continuam a sofrer com a pandemia, tanto os doentes quanto os que perderam um ente querido. Que o Senhor os console e apoie os valentes esforços de médicos e enfermeiras. Todos, especialmente os mais vulneráveis entre nós, requerem assistência e têm direito ao acesso aos cuidados necessários. Isso é ainda mais evidente nestes tempos em que todos nós somos chamados para combater a pandemia. As vacinas são uma ferramenta essencial nessa luta. Exorto toda a comunidade internacional, em um espírito de responsabilidade global, a se comprometer a superar os atrasos na distribuição de vacinas e a facilitar sua distribuição, especialmente nos países mais pobres.


O Senhor crucificado e ressuscitado é um conforto para aqueles que perderam seus empregos ou passam por sérias dificuldades econômicas e carecem de proteção social adequada. Que ele inspire as autoridades públicas a agirem para que a todos, especialmente as famílias mais necessitadas, seja oferecida a assistência necessária para um padrão de vida digno. Infelizmente, a pandemia aumentou dramaticamente o número de pobres e o desespero de milhares de pessoas.


“Os pobres de toda espécie devem começar uma vez mais a ter esperança”. São João Paulo II pronunciou essas palavras durante sua visita ao Haiti. É precisamente para o querido povo haitiano que meus pensamentos se voltam nestes dias. Exorto-os a não se abaterem com as dificuldades, mas a olharem para o futuro com confiança e esperança. E meus pensamentos se voltam especialmente para vocês, meus queridos irmãos e irmãs haitianos. Estou perto de você e quero uma solução definitiva para seus problemas. Estou orando por isso, queridos irmãos e irmãs haitianos.


Jesus ressuscitado é também a esperança para todos os jovens forçados a passar longos períodos sem ir à escola ou à universidade, ou de passar o tempo com os amigos. Experimentar relacionamentos humanos reais, não apenas relacionamentos virtuais, é algo que todos precisam, especialmente em uma idade em que o caráter e a personalidade de uma pessoa estão sendo formados. Percebemos isso claramente na última sexta-feira, na Via Sacra composta pelas crianças. Expresso a minha proximidade aos jovens de todo o mundo e, nestes dias, especialmente aos jovens de Mianmar empenhados em apoiar a democracia e fazer ouvir a sua voz pacificamente, sabendo que o ódio só pode ser dissipado com o amor.



Que a luz de Jesus ressuscitado seja fonte de renascimento para os migrantes que fogem da guerra e da extrema pobreza. Reconheçamos em seus rostos o rosto desfigurado e sofredor do Senhor enquanto ele percorria o caminho do Calvário. Que nunca faltem sinais concretos de solidariedade e fraternidade humana, penhor da vitória da vida sobre a morte que celebramos neste dia. Agradeço às nações que recebem generosamente pessoas que sofrem e procuram refúgio. O Líbano e a Jordânia, em particular, estão recebendo muitos refugiados que fugiram do conflito na Síria.


Que o povo libanês, que vive tempos de dificuldade e incerteza, experimente a consolação do Senhor Ressuscitado e encontre o apoio da comunidade internacional na sua vocação de ser uma terra de encontro, de convivência e de pluralismo.


Que Cristo, nossa paz, finalmente ponha fim ao conflito de armas na amada e devastada Síria, onde milhões de pessoas vivem atualmente em condições desumanas; no Iêmen, cuja situação se deparou com um silêncio ensurdecedor e escandaloso, e na Líbia, onde finalmente há esperança de que uma década de lutas e confrontos sangrentos chegue ao fim. Que todas as partes envolvidas se comprometam efetivamente a acabar com os conflitos e permitir que os povos cansados da guerra vivam em paz e comecem a reconstrução de seus respectivos países.


A ressurreição naturalmente nos leva a Jerusalém. Em Jerusalém, pedimos ao Senhor que conceda paz e segurança (cf. Sl 122), para que possa abraçar a sua vocação de ser um lugar de encontro, onde todos se possam ver como irmãos e onde israelitas e palestinianos redescubram o poder de diálogo para alcançar uma solução estável que permitirá aos dois estados viver lado a lado em paz e prosperidade.


Neste dia de festa, o meu pensamento regressa também ao Iraque, que tive a alegria de visitar no mês passado. Rezo para que continue no caminho da paz e, assim, realize o sonho de Deus para uma família humana hospitaleira e acolhedora para todos os seus filhos. [1]


Que o poder do Senhor ressuscitado sustente os povos da África que vêem seu futuro comprometido pela violência interna e pelo terrorismo internacional, especialmente no Sahel e na Nigéria, bem como em Tigray e na região de Cabo Delgado. Continuem os esforços para uma solução pacífica dos conflitos, no respeito pelos direitos humanos e pela sacralidade da vida, por meio do diálogo fraterno e construtivo, em espírito de reconciliação e de verdadeira solidariedade. 


Ainda há muitas guerras e muita violência no mundo! Que o Senhor, que é a nossa paz, nos ajude a superar a mentalidade da guerra. Que ele conceda que os prisioneiros de conflitos, especialmente no leste da Ucrânia e em Nagorno-Karabakh, possam retornar em segurança para suas famílias, e que ele inspire os líderes mundiais a conter a corrida por novos armamentos. Hoje, 4 de abril, marca o Dia Internacional da Conscientização contra as minas terrestres antipessoais, dispositivos traiçoeiros e horríveis que matam ou mutilam muitos inocentes a cada ano e impedem a humanidade de “caminhar juntos nos caminhos da vida sem temer a ameaça de destruição e morte!” [2] Quão melhor seria o nosso mundo sem esses instrumentos de morte!


Queridos irmãos e irmãs, mais uma vez este ano, em vários lugares, muitos cristãos celebraram a Páscoa sob severas restrições e, às vezes, sem poder assistir às celebrações litúrgicas. Oramos para que essas restrições, bem como todas as restrições à liberdade de culto e religião em todo o mundo, sejam levantadas e todos possam orar e louvar a Deus livremente.


Em meio às muitas provações que enfrentamos, nunca nos esqueçamos de que fomos curados pelas feridas de Cristo (cf. 1 Pe 2, 24). À luz do Senhor Ressuscitado, nossos sofrimentos agora se transfiguram. Onde havia morte, agora existe vida. Onde havia luto, agora há consolo. Ao abraçar a cruz, Jesus deu significado aos nossos sofrimentos e agora oramos para que os benefícios dessa cura se espalhem por todo o mundo. Uma boa Páscoa feliz e serena a todos!


Francisco



[1] Discurso na Reunião Inter-religiosa em Ur, 6 de março de 2021.

[2] João Paulo II, Angelus, 28 de fevereiro de 1999.

Tradução: Renata P. Espíndola.


Fonte: http://www.vatican.va/content/francesco/en/messages/urbi/documents/papa-francesco_20210404_urbi-et-orbi-pasqua.html


1 de março de 2017

Discurso do Santo Padre Francisco aos participantes do Seminário "Direito Humano à Água", organizado pela Pontifícia Academia de Ciências

(Tradução e adaptação por Renata P. Espíndola)


Queridos irmãos e irmãs, boa tarde.

Saúdo a todos os presentes e lhes agradeço por sua participação neste encontro que aborda a problemática do direito humano à água e também a exigência de políticas públicas que possam enfrentar esta realidade. É significativo que vocês se unam para conduzir seus saberes e recursos com a finalidade de dar uma resposta a esta necessidade e a esta problemática que vive o homem atual.

Como lemos no livro de Gênesis, a água está no início de todas as coisas (cf. Gn 1,2); é «criatura útil, casta e humilde», fonte da vida e da fecundidade (cf. São Francisco de Assis, Cântico das Criaturas). Por isso, a questão que vocês tratam não é periférica, senão é fundamental e muito urgente. Fundamental, porque onde há água, há vida e então pode surgir e avançar a sociedade. E é urgente porque nossa casa comum necessita proteção e, além disto, temos que assumir que nem toda água é vida: somente a que tenha origem numa fonte segura e que tenha qualidade, seguindo com a figura de São Francisco: a água «que serve com humildade», a água «casta», não contaminada.

Toda pessoa tem direito ao acesso à água potável e segura; este é um direito humano básico e uma das questões centrais no mundo atual (cf. Enc. Laudato Si’, 30; Enc. Caritas in veritate, 27). É doloroso quando na legislação de um país ou de uma coalizão de países não se considera a água como um direito humano. Mais doloroso ainda quando se apaga o que estava escrito e se nega este direito humano. É um problema que afeta a todos e que faz com que nossa casa comum sofra tanta miséria e clame por soluções efetivas, realmente capazes de superar os egoísmos que impedem a realização deste direito vital para todos os seres humanos. 

É necessário outorgar à água a centralidade que merece no embasamento das políticas públicas. Nosso direito à água é também um dever com a mesma. Do direito que temos a ela se origina uma obrigação aderente e inseparável. É inevitável anunciar este direito humano essencial e defendê-lo - como já se faz -, porém também atuar de forma concreta, assegurando um compromisso político e jurídico com a água. Neste sentido, cada país está convocado para estabelecer, tanto através de instrumentos jurídicos, quanto através daqueles indicados pelas resoluções aprovadas pela Assembléia Geral das Nações Unidas desde 2010, ações referentes ao direito humano à água potável e ao saneamento. De forma análoga, cada ator não governamental tem que cumprir suas responsabilidades em relação a este direito.

O direito á água é determinante para a sobrevivência das pessoas (cf. ibid, 30) e decide o futuro da humanidade. É prioritário também educar às próximas gerações sobre a gravidade desta realidade. A formação da consciência é uma tarefa árdua: precisa convicção e entrega. E me pergunto se em meio a esta «terceira guerra mundial em pequenas doses» que estamos vivendo, não estamos no caminho até a grande guerra mundial pela água.

As cifras que as Nações Unidas revelam são atrozes e não nos podem deixar indiferentes: a cada dia, mil crianças morrem a custa de enfermidades relacionadas com a água e milhões de pessoas consomem água contaminada. Estes dados são gravíssimos: é necessário desacelerar e inverter esta situação. Não é tarde, porém é urgente tomar consciência da necessidade da água e de seu valor essencial para o bem da humanidade.

O respeito à água é condição para o exercício dos demais direitos humanos (cf. ibid., 30). Se acatamos este direito como sendo fundamental, estaremos estabelecendo as bases para proteger os demais direitos. Porém, se não aderimos a este direito básico, como seremos capazes de cuidar e lutar pelos demais? Neste compromisso de dar à água a posição que lhe corresponde, faz falta uma cultura do cuidado (cf. ibid., 231) - parece uma coisa poética e, bem, a Criação é uma «poiesis», esta cultura do cuidado que é criativa - e além de fomentar uma cultura do encontro, na qual se unam numa causa comum todas as forças necessárias desde cientistas a empresários, governantes a políticos. 

É preciso unir todas nossas vozes numa mesma causa; já não serão vozes individuais ou solitárias, senão o grito do irmão que clama através de nós, o grito da terra que pede o respeito e o compartilhamento responsável de um bem que é de todos. Nesta cultura do encontro, é imprescindível a ação de cada país como garantia ao acesso universal à água segura e de qualidade.

Deus Criador não nos abandona neste trabalho para dar a todos e a cada um o acesso à água potável e segura, porém o trabalho e a responsabilidade são nossos. Desejo que este seminário seja uma ocasião propícia para que suas convicções se vejam fortalecidas, e saiam daqui com a certeza de que seu trabalho é necessário e prioritário para que outras pessoas possam viver. É um ideal pelo qual se merece a pena de lutar e de trabalhar. 

Com nosso «pouco» estaremos contribuindo para que nossa casa comum seja mais habitável e mais solidária, mais cuidada, onde ninguém seja descartado nem excluído, senão que todos gozemos dos bens necessários para vivermos e crescermos com dignidade. E não esqueçamos dos dados e cifras informados pelas Nações Unidas. Não esqueçamos de que a cada dia mil crianças - a cada dia! - morrem por enfermidades relacionadas com a água.

Muito obrigado.

Papa Francisco


29 de agosto de 2014

Nômades? Não, refugiados e precisando de nossa ajuda material e espiritual.

Tenho acompanhado apreensiva as notícias que nos chegam a todo momento pela internet sobre perseguições e massacres de cristãos. Me dói o silêncio tácito das redes de jornalismo e o que mais me assusta é o fato de que a imensa massa de pessoas não-cristãs que professam credos diferentes dos nossos, mas que se auto-intitulam como "pessoas de bem", não se sensibilizam. "De bem" para quem?

Também é verdade que a indignação deveria ser visceral, daquela de sentir nos ossos, por todos irmãos na fé. Me dói muito mais o silêncio covarde de muitos cristãos que não sofrem na pele qualquer perseguição e nem se comovem além das bonitas frases de efeito nas redes sociais.

Nossas "armas" serão o protesto pelas redes sociais (se já não nos restam as ruas), a doação de verbas como auxílio à rede de solidariedade montada e orações, muitas orações. E se você não orar pelo irmão que sofre longe, não reclame se acontecer o mesmo quando chegar sua vez. 

Quem desejar doar verbas - para auxiliar às seguintes instituições católicas presentes no Iraque - bastará procurar o banner específico no menu à direita:

  •  a Caritas Internationalis (informar a ajuda para a Caritas Iraq);
  •  a Fundação de Direito Pontifício "Ajuda à Igreja que Sofre - AIS";
  •  a Catholic Relief Services - CRS (membro da Caritas Internationalis);

Um afetuoso "Muito obrigada" a todos e que Deus os abençoe!

WE ARE CHRISTIANS!
(and I'm proud to be one of His lambs)

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O Papa telefona para um sacerdote iraquiano do campo de refugiados de Ankawa, Iraque.


"Uma carta de lágrimas" - este foi o título que o Pe. Behnam Benoka deu à carta que escreveu ao Papa Francisco. O sacerdote explicou a ZENIT que aproveitou a presença do amigo jornalista Alan Holdren, no voo pontifício de volta da Coreia do Sul, para enviar a carta ao papa através do Viber, um aplicativo de mensagens para telefones celulares inteligentes. O jornalista transcreveu a carta em papel e o entregou ao Santo Padre.

 
No texto, o sacerdote se dirige ao papa dizendo: 

 
"Ao Santo Padre, nosso pastor misericordioso,

Meu nome é Behnam Benoka, sacerdote de Bartella, uma pequena cidade cristã perto de Mossul. Sou vice-reitor do seminário católico de Ankawa. Mas hoje estou em uma barraca que montamos junto com uma equipe de médicos e voluntários para dar assistência médica aos nossos irmãos que estão desabrigados por causa da perseguição.
Santidade, a situação das suas ovelhas é miserável. Eles morrem e têm fome. Seus pequenos têm medo e não aguentam mais. Nós, sacerdotes, religiosos e religiosas, somos poucos e tememos não conseguir responder às exigências físicas e psíquicas dos filhos deles, que também são nossos.
Quero lhe agradecer muito, muitíssimo mesmo, por nos manter sempre no seu coração. Coloque-nos no altar em que celebra a missa para que Deus cancele os nossos pecados e tenha misericórdia de nós, e, talvez, afaste de nós este cálice.
Escrevo com as minhas lágrimas, porque estamos em um vale escuro no meio de uma grande alcateia de lobos ferozes. Santidade, tenho medo de perder os seus pequenos, em especial os recém-nascidos que, a cada dia, se cansam e se debilitam mais; temo que a morte leve embora alguns deles. 
Mande-nos a sua bênção para termos a força de seguir em frente e, quem sabe, resistir ainda mais. 
 
Com profundo amor, 
 
Behnam Benoka"

A resposta do Papa Francisco não demorou. De volta à Itália, na manhã do dia 19 de agosto, o papa telefonou para o Pe. Behnam expressando a sua profunda comoção com a carta recebida. Conforme as declarações do sacerdote, o papa lhe manifestou a sua profunda gratidão pelo trabalho dos voluntários nos campos de refugiados.
 
Na conversa telefônica, o Papa Francisco confirmou o seu pleno apoio e a sua proximidade dos cristãos perseguidos, prometendo que continuará fazendo todo o possível para dar alívio ao sofrimento deles. Ao se despedir, o Santo Padre deu a bênção apostólica e rogou que nosso Senhor dê a esses irmãos o dom da perseverança na fé.