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21 de agosto de 2022

Mensagem do Papa Francisco por ocasião do "XLIII Encontro de Amizade entre os Povos" em Rimini, via Secretaria de Estado.

Tradução do blog
por Vatican News


À Sua Excelência Reverendíssima
Monsenhor Francesco Lambiasi
Bispo de Rimini

 

Excelência Reverendíssima,

O Santo Padre saúda-vos de coração e confia-vos, através de mim, esta mensagem para o próximo "Encontro de Amizade entre os Povos", intitulado "A paixão pelo homem". No centenário do nascimento do Servo de Deus Dom Luigi Giussani, os organizadores pretendem fazer uma grata memória de seu zelo apostólico, que o levou a encontrar tantas pessoas e levar a Boa Nova de Jesus Cristo a cada um. De fato, ele disse em seu discurso no Encontro de 1985: "O cristianismo não nasceu para fundar uma religião, nasceu como uma paixão pelo homem. [...] Amor pelo homem, veneração pelo homem, ternura pelo homem, paixão pelo homem, estima absoluta pelo homem".

Às vezes, parece que a história deu as costas a este olhar de Cristo sobre o homem. O Papa Francisco enfatizou isso em muitas ocasiões: "A fragilidade dos tempos em que vivemos é também esta: acreditar que não há possibilidade de redenção, uma mão que te levanta, um abraço que te salva, te perdoa, te levanta para cima, inunda você com um amor infinito, paciente e indulgente; coloca você de volta aos trilhos" ("O nome de Deus é Misericórdia: Uma conversa com Andrea Tornielli", Cidade do Vaticano-Milão 2016, p. 31).

Este é o aspecto mais doloroso da experiência de muitos que viveram a solidão durante a pandemia ou que tiveram que abandonar tudo para escapar da violência da guerra. Eis então que a parábola do bom samaritano é hoje mais do que nunca uma palavra-chave, porque é evidente como "os homens em seus corações esperam que o samaritano venha em seu socorro, que ele se incline sobre eles, derrame óleo sobre suas feridas, cuide delas e leve-as para um abrigo. Em última análise, eles sabem que precisam da misericórdia de Deus e de sua delicadeza [...], um amor salvador que se dá gratuitamente" (Entrevista com S.H. Papa Emérito Bento XVI, em "Por meio da fé", editado por Daniele Libanori, Cinisello Balsamo 2016, p.129).

O Evangelho aponta o Bom Samaritano como modelo de paixão incondicional por cada irmão e irmã que se encontra no caminho e, por isso, tem uma profunda sintonia com o tema do Encontro: "Cuidemos da fragilidade de cada homem, de cada mulher, de cada criança e de cada idoso, com aquela atitude solidária e atenta, a atitude de proximidade com bom samaritano" (Enc. Fratelli tutti, 79).

Não é apenas uma questão de generosidade, que uns têm mais e outros menos. Aqui Jesus quer nos colocar diante da raiz profunda do gesto do bom samaritano. O Papa Francisco assim o descreve: "Reconhecer o próprio Cristo em cada irmão abandonado ou excluído (cf. Mt 25,40.45). Na realidade, a fé enche o reconhecimento do outro de motivações sem precedentes, porque quem crê pode vir a reconhecer que Deus ama cada ser humano com amor infinito e, assim, lhe confere uma dignidade infinita. A isto acrescentamos que cremos que Cristo derramou o seu sangue por todos e por todos e, portanto, ninguém fica fora do seu amor universal” (ibid., 85).

Este mistério nunca deixa de nos surpreender, como o próprio Dom Giussani testemunhou na presença de São João Paulo II em 30 de maio de 1998: "O que é o homem que você se lembra dele, o filho do homem que você cuida dele?". Nenhuma pergunta me atingiu, na vida, tão bem quanto esta. Havia apenas um homem no mundo que poderia me responder, fazendo uma nova pergunta: "Que vantagem terá o homem se ganhar o mundo inteiro e depois se perder? Ou o que o homem poderá dar em troca de si mesmo?”. […] Só Cristo leva a sério toda a minha humanidade” ("Gerando traços na história do mundo", Milão 2019, p. 78).

É esta paixão de Cristo pelo destino de cada criatura que deve animar o olhar do crente para todos: um amor gratuito, sem medida e sem cálculos. Mas - nos perguntamos - tudo isso não poderia parecer uma intenção piedosa, em comparação com o que vemos acontecer no mundo de hoje? No embate de todos contra todos, onde o egoísmo e os interesses partidários parecem ditar a agenda na vida dos indivíduos e das nações, como é possível olhar para os que nos rodeiam como um bem a ser respeitado, salvaguardado e cuidado? Como é possível preencher a lacuna que separa um do outro? A pandemia e a guerra parecem ter alargado o fosso, retrocedendo o caminho para uma humanidade mais unida e solidária.

Mas sabemos que o caminho da fraternidade não se desenha nas nuvens: atravessa os muitos desertos espirituais presentes em nossas sociedades. "No deserto - disse o Papa Bento XVI - redescobre-se o valor do essencial para viver; assim, no mundo contemporâneo há inúmeros sinais, muitas vezes expressos de forma implícita ou negativa, da sede de Deus, do sentido último da vida. E no deserto há necessidade sobretudo de pessoas de fé que, com a própria vida, mostrem o caminho para a Terra Prometida e assim mantenham desperta a esperança” (Homilia na Santa Missa de abertura do Ano da Fé, 11 outubro de 2012). 

O Papa Francisco não se cansa de indicar o caminho que atravessa o deserto trazendo vida: "O nosso compromisso não consiste exclusivamente em ações ou programas de promoção e assistência; o que o Espírito põe em movimento não é um excesso de ativismo, mas antes de tudo uma atenção ao outro, considerando-o como uma única coisa consigo mesmo. Esta atenção de amor é o início de uma verdadeira solicitude pela sua pessoa e a partir dele quero procurar eficazmente o seu bem" (Exortação Apostólica Evangelii gaudium, 199).

Recuperar essa consciência é crucial. Uma pessoa não pode trilhar o caminho da autodescoberta sozinha, o encontro com o outro é essencial. Nesse sentido, o Bom Samaritano nos mostra que nossa existência está intimamente ligada à dos outros e que a relação com o outro é condição para nos tornarmos plenamente nós mesmos e dar frutos. 

Ao dar-nos a vida, Deus deu-nos de alguma forma porque nós, por nossa vez, nos doamos aos outros: "O ser humano é feito de tal maneira que não se realiza, não se desenvolve e não pode encontrar a sua plenitude se não por um dom sincero de si” (Encíclica Fratelli tutti, 87). Dom Giussani acrescentou que a caridade é um dom de si mesmo "comovido". De fato, é comovente pensar que Deus, o Todo-Poderoso, curvado sobre o nosso nada, se compadeceu de nós e nos amou um a um com um amor eterno.

Qual é o fruto de quem, imitando Jesus, se doa? "A amizade social que não exclui ninguém e a fraternidade aberta a todos" (ibid., 94). Um abraço que derruba muros e vai ao encontro do outro na consciência do quanto vale cada pessoa, seja qual for a situação em que se encontre. Um amor pelo outro pelo que ele é: criatura de Deus, feita à sua imagem e semelhança, portanto dotada de uma dignidade intangível, da qual ninguém pode dispor ou, pior ainda, abusar.

É esta amizade social que, como crentes, somos convidados a nutrir com o nosso testemunho: "A comunidade evangelizadora coloca-se na vida quotidiana dos outros através de obras e gestos, encurta distâncias, rebaixa-se até à humilhação, se necessário, e assume a vida humana, tocando a carne sofredora de Cristo no povo" (Evangelii gaudium, 24). Quanta necessidade têm os homens e as mulheres do nosso tempo de conhecer pessoas que não dão lições da varanda, mas saem às ruas para partilhar a labuta quotidiana da vida, sustentados por uma esperança confiável!

O Papa Francisco insiste em chamar os cristãos a esta tarefa histórica, para o bem de todos, na certeza de que a fonte da dignidade de cada ser humano e a possibilidade da fraternidade universal é o Evangelho de Jesus encarnado na vida da comunidade cristã: “Se a música do Evangelho parar de vibrar em nossas entranhas, teremos perdido a alegria que brota da compaixão, a ternura que vem da confiança, a capacidade de reconciliação que encontra sua fonte em saber que somos sempre perdoados. Se a música do Evangelho parar de tocar em nossas casas, em nossas praças, no trabalho, na política e na economia, teremos desligado a melodia que nos levou a lutar pela dignidade de todo homem e mulher” (Discurso na reunião ecumênica, Riga - Letônia, 24 de setembro de 2018).

O Santo Padre espera que os organizadores e participantes do Encontro de 2022 acolham este apelo com coração feliz e disponível, continuando a colaborar com a Igreja universal no caminho da amizade entre os povos, expandindo a paixão pela humanidade em todo o mundo. E enquanto confia esta intenção à intercessão de Maria Santíssima, envia de coração a Bênção Apostólica.

Ao formular os meus desejos pessoais de um Encontro que corresponda plenamente às expectativas, confirmo-me com um sentido de distinto respeito

de Vossa Excelência Reverendíssima
dev.mo
Pietro Card. Parolin
Secretário de Estado





1 de julho de 2022

Mensagem do Papa Francisco por ocasião da 1ª. Reunião dos Estados-parte no Tratado sobre a Proibição das Armas Nucleares


Carta apresentada por Dom Paul R. Gallagher
Secretário para as Relações com os Estados e as Organizações Internacionais da Missão da Santa Sé na ONU  

À Sua Excelência, o Embaixador
Alexander Kmentt
Presidente da Primeira  Reunião dos Estados-Partes
no Tratado sobre a proibição  das armas nucleares


Estou feliz por saudar Vossa Excelência e os distintos participantes por ocasião desta primeira Reunião dos Estados-Partes no Tratado sobre a proibição das armas nucleares.

Na minha mensagem à conferência diplomática convocada há cinco anos para negociar este Tratado, perguntei: «Por que estabelecer este exigente e clarividente objetivo no atual cenário internacional caraterizado por um clima instável de conflitualidade, que é ao mesmo tempo causa e indicação das dificuldades que se encontram ao promover e fortalecer o processo de desarmamento e de não proliferação nucleares?» (Mensagem para a Conferência das Nações Unidas finalizada a negociar um instrumento juridicamente vinculante para proibir as armas nucleares, que leve à sua total eliminação, 23 de março de 2017).

Neste momento particular da história, em que o mundo parece estar numa encruzilhada, a visão corajosa deste instrumento jurídico, fortemente inspirado por argumentações éticas e morais, parece ainda mais oportuna. Com efeito, esta reunião tem lugar num momento que, inevitavelmente, exige mais reflexão sobre a segurança e a paz. No contexto atual, falar de desarmamento ou apoiá-lo pode parecer paradoxal para muitos. No entanto, devemos permanecer conscientes dos perigos de abordagens míopes da segurança nacional e internacional e dos riscos de proliferação. Como todos sabemos, se não o fizermos, o preço será inevitavelmente pago por um número de vidas inocentes tiradas, e medido em termos de carnificina e destruição. Por conseguinte, renovo enfaticamente o meu apelo a fazer silenciar todas as armas e a eliminar as causas dos conflitos através do recurso incansável à negociação: «Quem faz a guerra esquece a humanidade» (Pós-Angelus , 27 de fevereiro de 2022).

A paz é indivisível, e para ser verdadeiramente justa e duradoura, deve ser universal. É um modo de raciocinar enganador e contraproducente pensar que a segurança e a paz de uns estão separadas da segurança coletiva e da paz de outros. É também uma das lições que a pandemia da Covid-19 demonstrou tragicamente. «A segurança do nosso próprio futuro depende da garantia da segurança pacífica dos outros, pois se a paz, a segurança e a estabilidade não forem fundadas no plano global, jamais serão gozadas. Somos responsáveis individual e coletivamente pelo bem-estar, quer presente quer futuro, dos nossos irmãos e irmãs» (Mensagem por ocasião da Conferência sobre o impacto humanitário das armas nucleares , 07 de dezembro de 2014).

A Santa Sé está certa de que um mundo livre de armas nucleares é necessário e ao mesmo tempo possível. Num sistema de segurança coletiva, não há lugar para armas nucleares e outras armas de destruição de massa. Com efeito, «se tomarmos em consideração as principais ameaças contra a paz e a segurança, com as suas múltiplas dimensões neste mundo multipolar do século XXI , como por exemplo o terrorismo, os conflitos assimétricos, a segurança informática, as problemáticas ambientais, a pobreza, muitas dúvidas emergem acerca da insuficiência da dissuasão nuclear para responder de modo eficaz a tais desafios. Estas preocupações assumem ainda mais consistência quando consideramos as catastróficas consequências humanitárias e ambientais que derivam de qualquer utilização das armas nucleares com efeitos devastadores indiscriminados e incontroláveis no tempo e no espaço» (Mensagem para a Conferência das Nações Unidas finalizada a negociar um instrumento juridicamente vinculante para proibir as armas nucleares, que leve à sua total eliminação, 23 de março de 2017).  Também não podemos ignorar a precariedade que deriva da simples manutenção destas armas: o risco de acidentes, involuntários ou não, que poderiam conduzir a cenários verdadeiramente preocupantes.

As armas nucleares são uma responsabilidade pesada e perigosa. Representam um “multiplicador de risco” que proporciona apenas a ilusão de uma “espécie de paz”. Desejo reafirmar aqui que a utilização de armas nucleares, bem como a sua mera posse, é imoral. Procurar defender e garantir a estabilidade e a paz através de uma falsa sensação de segurança e de um “equilíbrio do terror”, sustentado por uma mentalidade de medo e desconfiança, conduz inevitavelmente a relações envenenadas entre os povos e dificulta qualquer forma possível de verdadeiro diálogo. A sua posse leva facilmente a ameaças da sua utilização, tornando-se uma espécie de “chantagem” que deveria ser abominável para as consciências da humanidade.

A este respeito, «todos devem estar convencidos de que nem a renúncia à competição militar, nem a redução dos armamentos, nem a sua completa eliminação, que seria o principal, de modo algum se pode levar a efeito, se não se proceder a um desarmamento integral, que atinja o próprio espírito, isto é, se não trabalharem todos em concórdia e sinceridade, para afastar o medo e a psicose de uma possível guerra» (Papa João XXIII , Pacem in terris ).

Por estas razões, é importante reconhecer a necessidade global e premente da responsabilidade a diferentes níveis. Tal responsabilidade é partilhada por todos e abrange dois níveis: em primeiro lugar, um nível público, como Estados-membros da mesma família de nações. Em segundo lugar, um nível pessoal, como indivíduos e membros da mesma família humana e como pessoas de boa vontade. Qualquer que seja o nosso papel ou status, a cada um de nós correspondem vários níveis de responsabilidade: como podemos eventualmente imaginar de apertar o botão para lançar uma bomba nuclear? Como podemos, em boa consciência, empenhar-nos em modernizar os arsenais nucleares? É oportuno que este Tratado reconheça também que a educação para a paz pode desempenhar um papel importante, ajudando os jovens a tomar consciência dos riscos e consequências das armas nucleares para as gerações presentes e futuras.

Os tratados de desarmamento existentes são muito mais do que meras obrigações jurídicas. São também compromissos morais baseados na confiança entre Estados e entre os seus representantes, enraizados na confiança que os cidadãos depositam nos seus governos, com consequências éticas para as gerações presentes e futuras da humanidade. A adesão e o respeito pelos acordos internacionais de desarmamento e pelo direito internacional não são uma forma de fraqueza. Pelo contrário, constituem uma fonte de força e de responsabilidade, uma vez que aumentam a confiança e a estabilidade. Além disso, como no caso deste Tratado, oferecem cooperação e assistência internacional às vítimas e também ao meio ambiente: aqui o meu pensamento dirige-se aos Hibakusha, os sobreviventes dos bombardeamentos de Hiroshima e Nagasaki, e a todas as vítimas dos testes de armas nucleares.

Concluindo, ao lançar as bases para a implementação deste Tratado, desejo encorajar-vos, representantes dos Estados, organizações internacionais e sociedade civil, a prosseguir no caminho que escolhestes para promover uma cultura de vida e paz baseada na dignidade da pessoa humana e na consciência de que somos todos irmãos e irmãs. Por sua vez, a Igreja católica permanece irrevogavelmente empenhada em promover a paz entre povos e nações e em incentivar a educação para a paz através das suas instituições. Este é um dever ao qual a Igreja se sente vinculada perante Deus e todos os homens e mulheres do nosso mundo. Possa o Senhor abençoar cada um de vós e os vossos esforços ao serviço da justiça e da paz.


Francisco




Nota do blog extraídas da Pacem in Terris:

"É-nos igualmente doloroso constatar como em estados economicamente mais desenvolvidos se fabricaram e ainda se fabricam gigantescos armamentos. Gastam-se nisso somas enormes de recursos materiais e energias espirituais. Impõem-se sacrifícios nada leves aos cidadãos dos respectivos países, enquanto outras nações carecem da ajuda indispensável ao próprio desenvolvimento econômico e social".

"A todo custo se deverá evitar que pela terceira vez desabe sobre a humanidade a desgraça de uma guerra mundial, com suas imensas catástrofes econômicas e sociais e com as suas muitas depravações e perturbações morais".



19 de junho de 2022

Mensagem do Santo Padre para o VI Dia Mundial dos Pobres em 13 de novembro de 2022

 
Jesus Cristo fez-Se pobre por vós (cf. 2 Cor 8, 9)

 

1. «Jesus Cristo (…) fez-Se pobre por vós» (2 Cor 8, 9). Com estas palavras, o apóstolo Paulo dirige-se aos cristãos de Corinto para fundamentar o seu compromisso de solidariedade para com os irmãos necessitados. O Dia Mundial dos Pobres torna este ano como uma sadia provocação para nos ajudar a refletir sobre o nosso estilo de vida e as inúmeras pobrezas da hora atual.


Há alguns meses, o mundo estava a sair da tempestade da pandemia, mostrando sinais de recuperação econômica que se esperava voltasse a trazer alívio a milhões de pessoas empobrecidas pela perda do emprego. Abria-se uma nesga de céu sereno que, sem esquecer a tristeza pela perda dos próprios entes queridos, prometia ser possível tornar finalmente às relações interpessoais diretas, encontrar-se sem embargos nem restrições. Mas eis que uma nova catástrofe assomou ao horizonte, destinada a impor ao mundo um cenário diferente.


A guerra na Ucrânia veio juntar-se às guerras regionais que, nestes anos, têm produzido morte e destruição. Aqui, porém, o quadro apresenta-se mais complexo devido à intervenção direta duma «superpotência», que pretende impor a sua vontade contra o princípio da autodeterminação dos povos. Vemos repetir-se cenas de trágica memória e, mais uma vez, as ameaças recíprocas de alguns poderosos abafam a voz da humanidade que implora paz.


2. Quantos pobres gera a insensatez da guerra! Para onde quer que voltemos o olhar, constata-se como os mais atingidos pela violência sejam as pessoas indefesas e frágeis. Deportação de milhares de pessoas, sobretudo meninos e meninas, para os desenraizar e impor-lhes outra identidade. Voltam a ser atuais as palavras do Salmista perante a destruição de Jerusalém e o exílio dos judeus: «Junto aos rios da Babilônia nos sentamos a chorar, / recordando-nos de Sião. / Nos salgueiros das suas margens / penduramos as nossas harpas. / Os que nos levaram para ali cativos / pediam-nos um cântico; / e os nossos opressores, uma canção de alegria / (...). Como poderíamos nós cantar um cântico do Senhor, / estando numa terra estranha?» (Sal 137, 1-4).


Milhões de mulheres, crianças e idosos veem-se constrangidos a desafiar o perigo das bombas para pôr a vida a salvo, procurando abrigo como refugiados em países vizinhos. Entretanto, aqueles que permanecem nas zonas de conflito têm de conviver diariamente com o medo e a carência de comida, água, cuidados médicos e sobretudo com a falta de afeto familiar. Nestes momentos, a razão fica obscurecida e quem sofre as consequências é uma multidão de gente simples, que vem juntar-se ao número já elevado de pobres. Como dar uma resposta adequada que leve alívio e paz a tantas pessoas, deixadas à mercê da incerteza e da precariedade?


3. Neste contexto tão desfavorável, situa-se o VI Dia Mundial dos Pobres, com o convite – tomado do apóstolo Paulo – a manter o olhar fixo em Jesus, que, «sendo rico, Se fez pobre por vós, para vos enriquecer com a sua pobreza» (2 Cor 8, 9). Na sua visita a Jerusalém, Paulo encontrara Pedro, Tiago e João, que lhe tinham pedido para não esquecer os pobres. De fato, a comunidade de Jerusalém debatia-se com sérias dificuldades devido à carestia que assolara o país. O Apóstolo preocupou-se imediatamente em organizar uma grande coleta a favor daqueles pobres. Os cristãos de Corinto mostraram-se muito sensíveis e disponíveis. Por indicação de Paulo, em cada primeiro dia da semana recolhiam quanto haviam conseguido poupar e todos foram muito generosos.


Como se o tempo tivesse parado naquele momento, também nós, cada domingo, durante a celebração da Santa Missa, cumprimos o mesmo gesto, colocando em comum as nossas ofertas para que a comunidade possa prover às necessidades dos mais pobres. É um sinal que os cristãos sempre cumpriram com alegria e sentido de responsabilidade, para que a nenhum irmão e irmã faltasse o necessário. 


Já o testemunhava no século II São Justino que, ao descrever ao imperador Antonino Pio a celebração dominical dos cristãos, escrevia: «No dia do Sol, como é chamado, reúnem-se num mesmo lugar os habitantes, quer das cidades quer dos campos, e leem-se, na medida em que o tempo o permite, ora os comentários dos Apóstolos ora os escritos dos Profetas. (…) Seguidamente, a cada um dos presentes se distribui e faz participante dos dons sobre os quais foi pronunciada a ação de graças, e dos mesmos se envia aos ausentes por meio dos diáconos. Os que possuem bens em abundância dão livremente o que lhes parece bem, e o que se recolhe põe-se à disposição daquele que preside. Este socorre os órfãos e viúvas e os que, por motivo de doença ou qualquer outra razão, se encontram em necessidade, assim como os encarcerados e hóspedes que chegam de viagem; numa palavra, ele toma sobre si o encargo de todos os necessitados» (Primeira Apologia, LXVII, 1-6).


4. Voltando à comunidade de Corinto, sucedeu que, depois do entusiasmo inicial, começou a esmorecer o empenho, e a iniciativa proposta pelo Apóstolo perdeu impulso. Este é o motivo que leva Paulo a escrever com grande paixão, relançando a coleta, «para que, como fostes prontos no querer, também o sejais no executar, conforme as vossas possibilidades» (2 Cor 8, 11).


Neste momento, penso na disponibilidade que, nos últimos anos, moveu populações inteiras para abrir as portas a fim de acolher milhões de refugiados das guerras no Médio Oriente, na África Central e, agora, na Ucrânia. As famílias abriram as suas casas para deixar entrar outras famílias, e as comunidades acolheram generosamente muitas mulheres e crianças para lhes proporcionar a devida dignidade. 


Mas quanto mais se alonga o conflito, tanto mais se agravam as suas consequências. Os povos que acolhem têm cada vez mais dificuldade em dar continuidade à ajuda; as famílias e as comunidades começam a sentir o peso duma situação que vai além da emergência. Este é o momento de não ceder, mas de renovar a motivação inicial. O que começamos precisa de ser levado a cabo com a mesma responsabilidade.


5. Com efeito, a solidariedade é precisamente partilhar o pouco que temos com quantos nada têm, para que ninguém sofra. Quanto mais cresce o sentido de comunidade e comunhão como estilo de vida, tanto mais se desenvolve a solidariedade. Aliás, deve-se considerar que há países onde, nas últimas décadas, se verificou um significativo crescimento do bem-estar de muitas famílias, que alcançaram um estado de vida seguro. Trata-se dum resultado positivo da iniciativa privada e de leis que sustentaram o crescimento econômico, aliado a um incentivo concreto às políticas familiares e à responsabilidade social. 


Possa este patrimônio de segurança e estabilidade alcançado ser agora partilhado com quantos foram obrigados a deixar as suas casas e o seu país para se salvarem e sobreviverem. Como membros da sociedade civil, mantenhamos vivo o apelo aos valores da liberdade, responsabilidade, fraternidade e solidariedade; e, como cristãos, encontremos sempre na caridade, na fé e na esperança o fundamento do nosso ser e da nossa atividade.


6. É interessante notar que o Apóstolo não quer obrigar os cristãos, forçando-os a uma obra de caridade; de fato, escreve: «Não o digo como quem manda». O que ele pretende é «pôr à prova a sinceridade do amor» demonstrado pelos Coríntios na atenção e solicitude pelos pobres (cf. 2 Cor 8, 8). Na base do pedido de Paulo, está certamente a necessidade de ajuda concreta, mas a sua intenção vai mais longe. Convida a realizar a coleta, para que seja sinal do amor testemunhado pelo próprio Jesus. Enfim, a generosidade para com os pobres encontra a sua motivação mais forte na opção do Filho de Deus que quis fazer-Se pobre.


Na realidade, o Apóstolo não hesita em afirmar que esta opção de Cristo, este seu «despojamento», é uma «graça» – aliás, é «a graça de Nosso Senhor Jesus Cristo» (2 Cor 8, 9) – e só acolhendo-a é que podemos dar expressão concreta e coerente à nossa fé. O ensinamento de todo o Novo Testamento revela a propósito uma especial unanimidade, como se verifica nesta passagem da Carta do apóstolo Tiago sobre a Palavra que foi semeada nos crentes: «Tendes de a pôr em prática e não apena ouvi-la, enganando-vos a vós mesmos. Porque, quem se contenta com ouvir a palavra, sem a pôr em prática, assemelha-se a alguém que contempla a sua fisionomia num espelho; mal acaba de se contemplar, sai dali e esquece-se de como era. Aquele, porém, que medita com atenção a lei perfeita, a lei da liberdade, e nela persevera – não com quem a ouve e logo se esquece, mas como quem a cumpre – esse encontrará a felicidade ao pô-la em prática» (1, 22-25).


7. No caso dos pobres, não servem retóricas, mas arregaçar as mangas e pôr em prática a fé através dum envolvimento direto, que não pode ser delegado a ninguém. Às vezes, porém, pode sobrevir uma forma de relaxamento que leva a assumir comportamentos incoerentes, como no caso da indiferença em relação aos pobres. Além disso acontece que alguns cristãos, devido a um apego excessivo ao dinheiro, fiquem empantanados num mau uso dos bens e do patrimônio. São situações que manifestam uma fé frágil e uma esperança fraca e míope.


Sabemos que o problema não está no dinheiro em si, pois faz parte da vida diária das pessoas e das relações sociais. Devemos refletir, sim, sobre o valor que o dinheiro tem para nós: não pode tornar-se um absoluto, como se fosse o objetivo principal. Um tal apego impede de ver, com realismo, a vida de todos os dias e ofusca o olhar, impedindo de reconhecer as necessidades dos outros. Nada de mais nocivo poderia acontecer a um cristão e a uma comunidade do que ser ofuscados pelo ídolo da riqueza, que acaba por acorrentar a uma visão efêmera e falhada da vida.


Entretanto não se trata de ter um comportamento assistencialista com os pobres, como muitas vezes acontece; naturalmente é necessário empenhar-se para que a ninguém falte o necessário. Não é o ativismo que salva, mas a atenção sincera e generosa que me permite aproximar dum pobre como de um irmão que me estende a mão para que acorde do torpor em que caí. Por isso, «ninguém deveria dizer que se mantém longe dos pobres, porque as suas opções de vida implicam prestar mais atenção a outras incumbências. Esta é uma desculpa frequente nos ambientes acadêmicos, empresariais ou profissionais, e até mesmo eclesiais. (…) Ninguém pode sentir-se exonerado da preocupação pelos pobres e pela justiça social» (Francisco, Exort. ap. Evangelii gaudium, 201). 


Urge encontrar estradas novas que possam ir além da configuração daquelas políticas sociais «concebidas como uma política para os pobres, mas nunca com os pobres, nunca dos pobres e muito menos inserida num projeto que reúna os povos» (Francisco, Carta enc. Fratelli tutti, 169). Em vez disso, é preciso tender para assumir a atitude do Apóstolo, que podia escrever aos Coríntios: «Não se trata de, ao aliviar os outros, vos fazer entrar em apuros, mas sim de que haja igualdade» (2 Cor 8, 13).


8. Estamos diante dum paradoxo, que, hoje como no passado, é difícil de aceitar, porque embate na lógica humana: há uma pobreza que nos torna ricos. Recordando a «graça» de Jesus Cristo, Paulo quer confirmar o que o próprio Senhor pregou, ou seja, que a verdadeira riqueza não consiste em acumular «tesouros na terra, onde a traça e a ferrugem os corroem e os ladrões arrombam os muros, a fim de os roubar» (Mt 6, 19), mas, antes, no amor recíproco que nos faz carregar os fardos uns dos outros, para que ninguém seja abandonado ou excluído. 


A experiência de fragilidade e limitação, que vivemos nestes últimos anos e, agora, a tragédia duma guerra com repercussões globais, devem ensinar-nos decididamente uma coisa: não estamos no mundo para sobreviver, mas para que, a todos, seja consentida uma vida digna e feliz. A mensagem de Jesus mostra-nos o caminho e faz-nos descobrir a existência duma pobreza que humilha e mata, e há outra pobreza – a d’Ele – que liberta e nos dá serenidade.


A pobreza que mata é a miséria, filha da injustiça, da exploração, da violência e da iníqua distribuição dos recursos. É a pobreza desesperada, sem futuro, porque é imposta pela cultura do descarte que não oferece perspetivas nem vias de saída. É a miséria que, enquanto constringe à condição de extrema indigência, afeta também a dimensão espiritual, que, apesar de muitas vezes ser transcurada, não é por isso que deixa de existir ou de contar. Quando a única lei passa a ser o cálculo do lucro no fim do dia, então deixa de haver qualquer freio na adoção da lógica da exploração das pessoas: os outros não passam de meios. Deixa de haver salário justo, horário justo de trabalho e criam-se novas formas de escravidão, suportada por pessoas que, sem alternativa, devem aceitar este veneno de injustiça a fim de ganhar o mínimo para comer.


Ao contrário, pobreza libertadora é aquela que se nos apresenta como uma opção responsável para alijar da estiva quanto há de supérfluo e apostar no essencial. De fato, pode-se individuar facilmente o sentido de insatisfação que muitos experimentam, porque sentem que lhes falta algo de importante e andam à sua procura como extraviados sem rumo. Desejosos de encontrar o que os possa saciar, precisam de ser encaminhados para os humildes, os frágeis, os pobres para compreenderem finalmente aquilo de que tinham verdadeiramente necessidade. 


Encontrar os pobres permite acabar com tantas ansiedades e medos inconsistentes, para atracar àquilo que verdadeiramente importa na vida e que ninguém nos pode roubar: o amor verdadeiro e gratuito. Na realidade, os pobres, antes de ser objeto da nossa esmola, são sujeitos que ajudam a libertar-nos das armadilhas da inquietação e da superficialidade.


Um padre e doutor da Igreja, São João Crisóstomo, em cujos escritos se encontram fortes denúncias contra o comportamento dos cristãos para com os mais pobres, escrevia: «Se não consegues acreditar que a pobreza te faça tornar rico, pensa no teu Senhor e deixa de duvidar quanto a isso. Se Ele não tivesse sido pobre, tu não serias rico; trata-se de algo extraordinário: que da pobreza tenha derivado riqueza abundante. Aqui Paulo entende por “riquezas” o conhecimento da piedade, a purificação dos pecados, a justiça, a santificação e milhares doutras coisas boas que nos foram dadas agora e para sempre. Tudo isto, o temos graças à pobreza» (Homilias sobre a II Carta aos Coríntios, 17, 1).


9. O texto do Apóstolo a que se refere este VI Dia Mundial dos Pobres apresenta o grande paradoxo da vida de fé: a pobreza de Cristo torna-nos ricos. Se Paulo pôde comunicar este ensinamento – e a Igreja difundi-lo e testemunhá-lo ao longo dos séculos – é porque Deus, em seu Filho Jesus, escolheu e seguiu esta estrada. Se Ele Se fez pobre por nós, então a nossa própria vida ilumina-se e transforma-se, adquirindo um valor que o mundo não conhece nem pode dar. 


A riqueza de Jesus é o seu amor, que não se fecha a ninguém mas vai ao encontro de todos, sobretudo de quantos estão marginalizados e desprovidos do necessário. Por amor, despojou-Se a Si mesmo e assumiu a condição humana. Por amor, fez-Se servo obediente, até à morte e morte de cruz (cf. Flp 2, 6-8). Por amor, fez-Se «pão de vida» (Jo 6, 35), para que a ninguém falte o necessário, e possa encontrar o alimento que nutre para a vida eterna.


Também em nossos dias parece difícil, como foi então para os discípulos do Senhor, aceitar este ensinamento (cf. Jo 6, 60); mas a palavra de Jesus é clara. Se quisermos que a vida vença a morte e que a dignidade seja resgatada da injustiça, o caminho a seguir é o d’Ele: é seguir a pobreza de Jesus Cristo, partilhando a vida por amor, repartindo o pão da própria existência com os irmãos e irmãs, a começar pelos últimos, por aqueles que carecem do necessário, para que se crie a igualdade, os pobres sejam libertos da miséria e os ricos da vaidade, ambos sem esperança.


10. No passado dia 15 de maio, canonizei o Irmão Carlos de Foucauld, um homem que, tendo nascido rico, renunciou a tudo para seguir Jesus e com Ele tornar-se pobre e irmão de todos. A sua vida eremita, primeiro em Nazaré e depois no deserto do Saara, feita de silêncio, oração e partilha, é um testemunho exemplar da pobreza cristã. 


Ajudar-nos-á a meditação destas suas palavras: «Não desprezemos os pobres, os humildes, os operários; são não só nossos irmãos em Deus, mas também os que mais perfeitamente imitam a Jesus na sua vida exterior. Eles apresentam-nos perfeitamente Jesus, o Operário de Nazaré. São primogênitos entre os eleitos, os primeiros chamados ao berço do Salvador. Foram a companhia habitual de Jesus, desde o seu nascimento até à sua morte (…). Honremo-los, honremos neles as imagens de Jesus e dos seus santos progenitores (…). Tomemos para nós [a condição] que Ele tomou para Si (…). Nunca deixemos de ser, em tudo, pobres, irmãos dos pobres, companheiros dos pobres; sejamos os mais pobres dos pobres, como Jesus, e como Ele amemos os pobres e rodeemo-nos deles» (Comentário ao Evangelho de Lucas, Meditação 263) [1]. 


Para o Irmão Carlos, estas não eram apenas palavras, mas estilo concreto de vida, que o levou a partilhar com Jesus o dom da própria existência.


Oxalá este VI Dia Mundial dos Pobres se torne uma oportunidade de graça, para fazermos um exame de consciência pessoal e comunitário, interrogando-nos se a pobreza de Jesus Cristo é a nossa fiel companheira de vida.


Roma, São João de Latrão, na Memória de Santo Antônio, 13 de junho de 2022.
FRANCISCO


[1] Meditação n. 263, sobre Lc 2, 8-20: C.De Foucauld, A Bondade de Deus. Meditações sobre os santos Evangelhos, I, Nouvelle Cité – Montrouge 1996, 214-216.





5 de março de 2022

Homilia do Papa Francisco na Quarta-feira de Cinzas em meio ao horror de uma nova guerra


Neste dia, que dá início ao tempo da Quaresma, o Senhor diz-nos: «Guardai-vos de fazer as vossas obras diante dos homens, para vos tornardes notados por eles; de outro modo, não tereis nenhuma recompensa do vosso Pai que está no Céu» (Mt 6, 1). Pode causar surpresa, mas no Evangelho de hoje a palavra que aparece mais vezes é recompensa (cf. 6, 1.2.5.16). 

Habitualmente, na Quarta-feira de Cinzas, a nossa atenção concentra-se mais sobre o empenho exigido pelo caminho de fé do que no prêmio que daí nos advém. Contudo, hoje, o discurso de Jesus retorna regularmente a este termo, recompensa, que parece ser a mola do nosso agir. De fato em nós, no nosso coração, há uma sede, um desejo de alcançar uma recompensa, que nos atrai e move a cumprir aquilo que fazemos.

Mas o Senhor distingue dois tipos de recompensa, a que pode tender a vida duma pessoa: por um lado, temos a recompensa junto do Pai e, por outro, a recompensa junto dos homens. A primeira é eterna, é a verdadeira, definitiva, é o objetivo da existência. Ao contrário, a segunda é transitória, é um encandeamento que nos prende quando a admiração dos homens e o sucesso mundano representam para nós a coisa mais importante, a maior gratificação. 

Mas trata-se duma ilusão: é como uma miragem que, uma vez alcançada, nos deixa de mãos vazias. A inquietação e o descontentamento sempre aguardam ao virar da esquina quem possui como horizonte o mundanismo, que seduz, mas depois decepciona. Quem tem em vista a recompensa do mundo nunca encontra paz, nem sabe promover a paz, porque perde de vista o Pai e os irmãos. É um risco que todos corremos; por isso nos adverte Jesus: «Guardai-vos…»! É como se dissesse: «Tendes a possibilidade de gozar uma recompensa infinita, uma recompensa sem igual: por isso tende cuidado para não vos deixar deslumbrar pela aparência, perseguindo recompensas insignificantes, que vos morrem na mão».

O rito das cinzas, que recebemos sobre a cabeça, quer subtrair-nos ao encandeamento de preferir a recompensa junto dos homens à recompensa junto do Pai. Este sinal austero, que nos leva a refletir sobre a caducidade da nossa condição humana, é como um remédio de sabor amargo, mas eficaz para curar a doença da aparência. Trata-se duma doença espiritual, que escraviza a pessoa, levando-a a tornar-se dependente da admiração dos outros. 

É uma verdadeira «escravidão dos olhos e da mente» (cf. Ef 6, 6; Col 3, 22), que nos induz a viver buscando a vanglória, de modo que conta não a pureza do coração, mas a admiração do povo; não o olhar de Deus sobre nós, mas como nos olham os outros. E não é possível viver bem, contentando-se com esta recompensa.

O problema é que esta doença da aparência mina também os âmbitos mais sagrados. É sobre isto que Jesus insiste hoje: também a oração, a caridade e o jejum podem tornar-se autorreferenciais. Em cada gesto, mesmo no mais belo, pode esconder-se a traça da autocomplacência. 

Assim o coração não é completamente livre, porque não procura o amor ao Pai e aos irmãos, mas a aprovação humana, o aplauso do povo, a sua própria glória. E tudo se pode transformar numa espécie de ficção em relação a Deus, a si mesmo e aos outros. Por isso a Palavra de Deus convida-nos a olhar o nosso íntimo para ver as nossas hipocrisias. Façamos um diagnóstico das aparências que buscamos; tentemos desmascará-las. Far-nos-á bem.

As cinzas colocam em evidência o nada que se esconde por trás da afanosa procura das recompensas mundanas. Lembram-nos que o mundanismo é como o pó, que um pouco de vento arrasta. Irmãs, irmãos, não estamos no mundo para correr atrás do vento; o nosso coração tem sede de eternidade. A Quaresma é um tempo que o Senhor nos deu para voltarmos a viver, sermos curados interiormente e caminharmos para a Páscoa, para aquilo que não passa, para a recompensa junto do Pai. 

É um caminho de cura. Não para mudar tudo da noite para o dia, mas para viver cada dia com um espírito novo, com um estilo diferente. Para isto servem a oração, a caridade e o jejum: purificados pelas cinzas quaresmais, purificados da hipocrisia da aparência, reencontra-se a força plena para voltar a gerar uma relação viva com Deus, com os irmãos e consigo mesmo.

A oração humilde, feita «em segredo» (Mt 6, 6), no recanto do próprio quarto, torna-se o segredo para fazer florescer a vida no exterior. É um diálogo ardente de afeto e confiança, que consola e abre o coração. Sobretudo neste tempo de Quaresma, rezemos com os olhos fixos no Crucifixo: deixemo-nos invadir pela comovente ternura de Deus e, nas suas chagas, coloquemos as nossas e as do mundo. 

Não nos deixemos levar pela pressa, fiquemos em silêncio diante d’Ele. Redescubramos a essencialidade fecunda do diálogo íntimo com o Senhor. Com efeito, Deus não Se compraz com as coisas espetaculares; pelo contrário, gosta de Se deixar encontrar no segredo. É «o caráter secreto do amor», longe de toda a ostentação e de tonalidades espalhafatosas.

Se a oração for verdadeira, não pode deixar de se traduzir em caridade. E a caridade liberta-nos da escravidão pior: a escravidão de nós mesmos. A caridade quaresmal, purificada pelas cinzas, reconduz-nos ao essencial, à alegria íntima que existe no dar. A esmola, dada longe dos holofotes, dá paz e esperança ao coração. Revela-nos a beleza do dar que se torna receber, permitindo assim descobrir um segredo precioso: o dar alegra mais o coração do que o receber (cf. At 20, 35).

Por fim, o jejum. Este não é uma dieta; antes, liberta-nos da autorreferencialidade da busca obsessiva do bem-estar físico, para nos ajudar a ter em forma, não o corpo, mas o espírito. O jejum leva-nos de novo a dar o justo valor às coisas. Concretamente, recorda-nos que a vida não deve estar submetida ao cenário passageiro deste mundo. E o jejum não se deve restringir apenas ao alimento: especialmente na Quaresma, deve-se jejuar daquilo que gera em nós dependência. Cada qual pense nisto, para fazer um jejum que incida verdadeiramente na sua vida concreta.

Mas, se a oração, a caridade e o jejum devem amadurecer no segredo, os seus efeitos não são secretos. Oração, caridade e jejum não são remédios só para nós, mas para todos: podem, de fato, mudar a história. Não só porque quem sente os seus efeitos, quase sem se aperceber também os transmite aos outros, mas sobretudo porque a oração, a caridade e o jejum são os meios principais que permitem a Deus intervir na vida nossa e do mundo. São as armas do espírito e é com elas que, nesta jornada de oração e jejum pela Ucrânia, imploramos a Deus aquela paz que os homens sozinhos não conseguem construir.

Vós, Senhor, que vedes no segredo e nos recompensais além de toda a nossa expectativa, escutai a oração de quantos confiam em Vós, sobretudo dos mais humildes, dos mais provados, daqueles que sofrem e fogem sob o estrondo das armas. Colocai de novo a paz nos corações, concedei aos nossos dias a vossa paz. 

Amém.



Fonte: https://www.vatican.va/content/francesco/pt/homilies/2022/documents/20220302_omelia-ceneri.html

5 de novembro de 2021

Homilia do Papa Francisco sobre o Sagrado Coração de Jesus e Sua presença em nossas vidas - 05.11.2021

 Traduzido por Renata P. Espíndola.


Contemplando o Coração de Jesus, podemos deixar-nos guiar por três palavras: memória, paixão e consolação. Lembrança... Lembrar [em italiano, ricordare], significa “voltar ao coração, voltar com o coração”. Ri-cordare. A que o Sagrado Coração de Jesus nos faz voltar? Ao que Ele fez por nós: o Coração de Cristo mostra-nos Jesus que se oferece, é o compêndio da sua misericórdia.

Olhando para ele - como fez João no Evangelho (19, 31-37), nos vem naturalmente lembrar sua bondade, que é dada de graça, que não pode ser comprada nem vendida; e incondicional, não depende de nossas ações, é soberana. E está se movendo. Na pressa de hoje, em meio a mil recados e preocupações contínuas, estamos perdendo a capacidade de nos emocionar e de sentir compaixão, porque estamos perdendo esse retorno ao coração, ou seja, essa memória, esse retorno ao coração.

Sem memória, perde-se as raízes e, sem raízes, não se cresce. É bom para nós alimentar a memória de quem nos amou, cuidou de nós e nos elevou. Desejo renovar hoje o meu “obrigado” pelo carinho e pelo carinho que aqui recebi. Acredito que neste tempo de pandemia é bom lembrarmos até dos momentos que mais sofremos: não para nos entristecer, mas para não esquecer e para nos guiar nas nossas escolhas à luz do um passado muito recente.

Eu me pergunto: como funciona nossa memória? Para simplificar, poderíamos dizer que nos lembramos de alguém ou de alguma coisa quando toca nosso coração, quando nos vincula a um determinado afeto ou falta de afeto. E assim o Coração de Jesus cura a nossa memória porque a traz de volta ao afeto fundamental. Ele enraíza na base mais sólida. Isso nos lembra que, aconteça o que acontecer conosco na vida, somos amados. 

Sim, somos seres amados, filhos a quem o Pai ama sempre e, em todo o caso, irmãos e irmãs por quem bate o Coração de Cristo. Cada vez que perscrutamos aquele Coração, descobrimo-nos “enraizados e alicerçados no amor”, como disse o apóstolo Paulo na primeira leitura de hoje (Ef 3, 17).

Cultivemos esta memória, que se fortalece quando estamos face a face com o Senhor, especialmente quando nos deixamos ser olhados e amados por Ele em adoração. Mas também podemos cultivar entre nós a arte de lembrar, de valorizar os rostos que encontramos. Penso nos dias cansativos no hospital, na universidade, no trabalho. Corremos o risco de que tudo passe sem deixar rasto, ou de que permaneçam apenas o cansaço e o cansaço. É bom para nós, à noite, rever os rostos que encontramos, os sorrisos que recebemos, as boas palavras.

São memórias de amor e ajudam a nossa memória a se reencontrar: que nossa memória se reencontre. Quão importantes são essas memórias nos hospitais! Eles podem dar sentido ao dia de uma pessoa doente. Uma palavra fraterna, um sorriso, uma carícia no rosto: são memórias que curam por dentro, fazem bem ao coração. Não esqueçamos a terapia da lembrança: ela faz muito bem!

Paixão é a segunda palavra. Paixão. O primeiro é memória, lembrança; o segundo é paixão. O Coração de Cristo não é uma devoção piedosa, para sentir um pouco de calor por dentro; não é uma imagem terna que desperta afeto, não, não é isso. É um coração apaixonado - basta ler o Evangelho -, um coração ferido de amor, aberto por nós na cruz. Ouvimos como o Evangelho fala disso: “Um dos soldados lhe furou o lado com uma lança, e imediatamente saiu sangue e água” (Jo 19, 34). Perfurado, Ele dá; na morte, Ele nos dá vida.

O Sagrado Coração é o ícone da Paixão: mostra-nos a ternura visceral de Deus, a sua paixão amorosa por nós e, ao mesmo tempo, encimado pela cruz e rodeado de espinhos, mostra-nos quanto sofrimento custou a nossa salvação. Em sua ternura e dor, esse Coração revela, em suma, o que é a paixão de Deus. O que é? Cara, nós. E qual é o estilo de Deus? Proximidade, compaixão e ternura. Este é o estilo de Deus: proximidade, compaixão e ternura.

O que isso sugere? Que, se realmente queremos amar a Deus, devemos ser apaixonados pela humanidade, por toda a humanidade, especialmente por aqueles que vivem a condição em que o Coração de Jesus se manifestou, ou seja, dor, abandono e rejeição; especialmente nesta cultura descartável em que vivemos hoje. Quando servimos os que sofrem, consolamos e nos regozijamos no Coração de Cristo.

Uma passagem do Evangelho é impressionante. João Evangelista, no momento em que narra o lado traspassado, de onde jorra sangue e água, dá testemunho para que acreditemos (cf. v. 35). São João escreve, ou seja, que naquele momento ocorre o testemunho. Porque o Coração perfurado de Deus é eloqüente. Fala sem palavras, porque é a misericórdia em estado puro, o amor que fere e dá vida. É Deus, com proximidade, compaixão e ternura.

Quantas palavras falamos sobre Deus sem mostrar amor! Mas o amor fala por si, não fala por si. Vamos pedir pela graça de nos apaixonarmos pelo homem que sofre, de nos apaixonarmos pelo serviço, para que a Igreja, antes de ter palavras a dizer, mantenha um coração que bate de amor. Antes de falar, que ela aprenda a salvaguardar o seu coração no amor.

A terceira palavra é conforto. A primeira foi a lembrança, a segunda paixão, a terceira é o consolo. Indica uma força que não vem de nós, mas de quem está conosco: daí vem a força. Jesus, o Deus conosco, nos dá essa força, seu Coração nos dá coragem na adversidade. Muitas incertezas nos assustam: nesta época de pandemia, descobrimos que somos menores, mais frágeis. Apesar de tantos avanços maravilhosos, isso também é evidente na área médica: tantas doenças raras e desconhecidas!

Quando encontro pessoas na plateia - especialmente crianças - e pergunto: “Você está doente?” - [respondem] “Uma doença rara”. Existem muitos deles hoje! Como é difícil acompanhar as patologias, os centros de tratamento, os cuidados de saúde que realmente deveriam ser, para todos. Podemos ficar desanimados. É por isso que precisamos de consolo - a terceira palavra.

O Coração de Jesus bate por nós, repetindo sempre aquelas palavras: “Coragem, coragem, não tenhas medo, estou aqui!”. Coragem, irmã, coragem, irmão, não desanimes, o Senhor teu Deus é maior que as tuas mazelas, Ele te pega pela mão e te acaricia, está perto de ti, é compassivo, é terno. Ele é o seu conforto.

Se olharmos a realidade desde a grandeza do seu Coração, muda a perspectiva, muda o nosso conhecimento da vida porque, como nos lembrava São Paulo, conhecemos “o amor de Cristo que ultrapassa o conhecimento” (Ef 3,19). Vamos nos encorajar com essa certeza, com o conforto de Deus. E peçamos ao Sagrado Coração a graça de poder consolar por sua vez. É uma graça que deve ser pedida, pois corajosamente nos comprometemos a nos abrir, ajudar uns aos outros, carregar os fardos uns dos outros. Também se aplica ao futuro da saúde, especialmente da saúde “católica”: compartilhar, apoiar-se, caminhar juntos.

Que Jesus abra o coração de quem cuida dos enfermos à colaboração e à coesão. Ao teu Coração, Senhor, confiamos a nossa vocação de cuidar: façamos com que cada pessoa que se aproxima de nós em necessidade se sinta querida.

Amém.
Catholic University of the Sacred Heart
05 de novembro de 2021
Papa Francisco 

Fonte: https://www.vatican.va/content/francesco/en/homilies/2021/documents/20211105-omelia-univ-cattolica.html