17 de fevereiro de 2015

Sobre a nova encíclica papal a ser publicada em 2015

A nova encíclica papal abordará os cuidados com a criação e, possivelmente, estará disponível em meados de 2015, conforme podemos ler no trecho da entrevista publicada abaixo.
 
Não tenho cuidado muito do blog, mas as visitas continuam e agradeço a curiosidade dos que aqui "migram". Uma das maiores doenças espirituais me pegou "em cheio" - uma preguiça triste de quase quatro anos. Essa condição também reflete um pouco o posicionamento de muitos católicos que adoram postergar ações de conversão e resiliência às coisas do mundo, focando em Deus e no que nos solicita. Sem a Sua armadura (Ef 6, 11) ninguém resiste...

Minhas sinceras desculpas pelo hiato. E boas leituras!
 
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VIAGEM APOSTÓLICA DO PAPA FRANCISCO
AO SRI LANKA E ÀS FILIPINAS

(12-19 DE JANEIRO DE 2015)
ENCONTRO DO SANTO PADRE COM OS JORNALISTAS
DURANTE O VOO PARA MANILA
Quinta-feira, 15 de Janeiro de 2015

"[...] 
(Padre Lombardi)
 
Obrigado. Então agora passemos às perguntas, para as quais se inscreveram os nossos colegas. O primeiro é Jerry O'Connell de America Magazine, que o Santo Padre conhece bem. A ele, a palavra.
 
(Jerry O'Connell)
 
Antes de mais nada, concordo com o Padre Lombardi e dou-lhe os parabéns, Santo Padre, pelo sucesso da visita ao Sri Lanka. Apresento uma pergunta em nome do grupo inglês; pusemo-nos de acordo para lhe pôr uma questão-ponte, que ligue a visita ao Sri Lanka e a visita às Filipinas. No Sri Lanka, vimos a beleza da natureza, mas também a vulnerabilidade daquela ilha: desde as alterações climáticas até ao mar, etc. Estamos voando para as Filipinas e o Santo Padre visitará a área já atingida. Há mais de um ano que está a estudar a questão da ecologia e do cuidado da criação. Por isso, a minha pergunta prevê três aspectos. Primeiro: a alteração climática deve-se, principalmente, à obra do homem, à sua falta de cuidado pela natureza? Segundo: a sua Encíclica, quando sairá? Terceiro: o Santo Padre insiste muito, como vimos no Sri Lanka, sobre a cooperação entre religiões; porventura tem intenção de convidar as outras religiões a unirem-se para enfrentar este problema? Obrigado.

(Papa Francisco)
 
Quanto à primeira pergunta, o senhor disse uma palavra – «principalmente» – que me poupa de fazer um esclarecimento. Totalmente, não sei; mas principalmente, em grande medida, é o homem que maltrata a natureza, continuamente. De certo modo assenhoreamo-nos da natureza, da irmã terra, da mãe terra. Lembro-me – já ouvistes isto – daquilo que um velho agricultor me disse uma vez: «Deus perdoa sempre, nós – os homens – algumas vezes, a natureza nunca». Se a maltratas, ela faz-to pagar. Creio que explorámos demasiadamente a natureza; as desflorestações, por exemplo. 
 
Recordo a Conferência da Aparecida: naquele tempo, eu não compreendia bem este problema e, quando ouvia os bispos brasileiros falar da desflorestação da Amazónia, não os conseguia entender bem. A Amazónia é um pulmão do mundo. Depois, há cinco anos, com uma comissão dos direitos humanos, fiz um recurso para o Supremo Tribunal da Argentina a fim de se suspender, no norte do país – na área norte de Salta, Tartagal –, pelo menos temporariamente, uma terrível desflorestação. 
 
Este é um aspecto; outro são as monoculturas. Por exemplo, os agricultores sabem que se pode cultivar o milho durante três anos, depois tem-se que parar e fazer outra cultura um ou dois anos para nitrogenizar a terra, senão a terra não faz crescer. Na Argentina, por exemplo, cultiva-se apenas soja e mais soja até a terra se esgotar. Nem todos fazem isto, mas é um exemplo entre muitos outros. 
 
Creio que o homem foi longe demais. Hoje, graças a Deus, levantam-se vozes, tantas, tantas que falam disto; neste momento, quero recordar o meu amado irmão Bartolomeu, que há anos prega sobre isto. Li muitas coisas dele para preparar esta Encíclica. Podia falar mais sobre isto, mas não quero alongar-me. 
 
Digo só isto! Guardini tem uma frase bastante esclarecedora. Diz ele: «a segunda forma de incultura, é a má. A primeira é a incultura em que recebemos a criação com a ordem de a tornar cultura; mas, quando o homem se assenhoreia em demasia e exorbita, esta cultura vira-se contra o homem». Pensemos em Hiroshima. Cria-se uma incultura, ou seja, a segunda.
 
Quanto à Encíclica: o primeiro projeto fê-lo o Cardeal Turkson com a sua equipe. Depois eu, com a ajuda de alguns, peguei e trabalhei nele. Em seguida, com alguns teólogos, fiz um terceiro projeto, enviando cópia à Congregação para a Doutrina da Fé, à Segunda Seção da Secretaria de Estado e ao Teólogo da Casa Pontifícia, pedindo que o estudassem bem para eu não dizer «tolices». Há três semanas, recebi as respostas, algumas muito longas, mas todas construtivas. E agora vou reservar uma semana inteira de março para a concluir. Creio que, no final de março, estará concluída, passando-se às traduções. 
 
Penso que, se o trabalho de tradução correr bem – Mons. Becciu está a ouvir-me; ele tem que contribuir para isso –, se tudo correr bem, em junho/julho poderá sair. Importante é que transcorra um pouco de tempo entre a saída da Encíclica e o encontro de Paris, para que lhe sirva de contribuição. O encontro do Peru não foi de grande valor. Fiquei desiludido com a falta de coragem: chegados a determinado ponto, pararam. Esperemos que em Paris os representantes sejam mais corajosos para avançar sobre este assunto.
 
Quanto à terceira pergunta, creio que o diálogo entre as religiões é importante a propósito disto. As outras religiões têm uma boa perspectiva. Inclusive sobre este ponto, há um acordo para se ter o mesmo ponto de vista. Ainda não aparece na Encíclica. Na realidade, falei com algumas pessoas doutras religiões sobre o tema e sei que o Cardeal Turkson também o fez, e o mesmo fizeram pelo menos dois teólogos: este é o caminho feito. A Encíclica não será uma declaração conjunta. Os encontros virão depois.
 
(Padre Lombardi)
 

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