27 de julho de 2016

Pequenos tesouros da Laudato Si' - 01


São João da Cruz ensinava que tudo o que há de bom nas coisas e experiências do mundo "encontra-se eminentemente em Deus de maneira infinita ou, melhor, Ele é cada uma destas grandezas que se pregam". E isto, não porque as coisas limitadas do mundo sejam realmente divinas, mas porque o místico experimenta a ligação íntima que há entre Deus e todos os seres vivos e, deste modo, "sente que Deus é para ele todas as coisas". 

Quando admira a grandeza duma montanha, não pode separar isto de Deus, e percebe que tal admiração interior que ele vive, deve finalizar no Senhor: "As montanhas têm cumes, são altas, imponentes, belas, graciosas, floridas e perfumadas. Como estas montanhas, é o meu Amado para mim. Os vales solitários são tranquilos, amenos, frescos, sombreados, ricos de doces águas. Pela variedade das suas árvores e pelo canto suave das aves, oferecem grande divertimento e encanto aos sentidos e, na sua solidão e silêncio, dão refrigério e repouso: como estes vales, é o meu Amado para mim".

Os sacramentos constituem um modo privilegiado em que a natureza é assumida por Deus e transformada em mediação da vida sobrenatural. Através do culto, somos convidados a abraçar o mundo num plano diferente. A água, o azeite, o fogo e as cores são assumidas com toda a sua força simbólica e incorporam-se no louvor. A mão que abençoa é instrumento do amor de Deus e reflexo da proximidade de Cristo, que veio para Se fazer nosso companheiro no caminho da vida. 

A água derramada sobre o corpo da criança batizada, é sinal de vida nova. Não fugimos do mundo, nem negamos a natureza, quando queremos encontrar-nos com Deus. Nota-se isto particularmente na espiritualidade do Oriente cristão. "A beleza, que no Oriente é um dos nomes mais queridos para exprimir a harmonia divina e o modelo da humanidade transfigurada, mostra-se em toda a parte: nas formas do templo, nos sons, nas cores, nas luzes, nos perfumes". 

Segundo a experiência cristã, todas as criaturas do universo material encontram o seu verdadeiro sentido no Verbo encarnado, porque o Filho de Deus incorporou na sua pessoa parte do universo material, onde introduziu um gérmen de transformação definitiva: "O cristianismo não rejeita a matéria; pelo contrário, a corporeidade é valorizada plenamente no ato litúrgico, onde o corpo humano mostra sua íntima natureza de templo do Espírito Santo e chega a unir-se a Jesus Senhor, feito também Ele corpo para a salvação do mundo". [Nota da autora: Vide a "Teologia do Corpo"]

A criação encontra a sua maior elevação na Eucaristia. A graça, que tende a manifestar-se de modo sensível, atinge uma expressão maravilhosa quando o próprio Deus, feito homem, chega ao ponto de fazer-Se comer pela sua criatura. No apogeu do mistério da Encarnação, o Senhor quer chegar ao nosso íntimo através dum pedaço de matéria. Não o faz de cima, mas de dentro, para podermos encontrá-Lo a Ele no nosso próprio mundo. 



Na Eucaristia, já está realizada a plenitude, sendo o centro vital do universo, centro transbordante de amor e de vida sem fim. Unido ao Filho encarnado, presente na Eucaristia, todo o cosmos dá graças a Deus. Com efeito a Eucaristia é, por si mesma, um ato de amor cósmico. "Sim, cósmico! Porque mesmo quando tem lugar no pequeno altar duma igreja da aldeia, a Eucaristia é sempre celebrada, de certo modo, sobre o altar do mundo". 

A Eucaristia une o céu e a terra, abraça e penetra toda a criação. O mundo, saído das mãos de Deus, volta a Ele em feliz e plena adoração: no Pão Eucarístico, "a criação propende para a divinização, para as santas núpcias, para a unificação com o próprio Criador". Por isso, a Eucaristia é também fonte de luz e motivação para as nossas preocupações pelo meio ambiente, e leva-nos a ser guardiões da criação inteira.

A participação na Eucaristia é especialmente importante ao domingo. Este dia, à semelhança do sábado judaico, é-nos oferecido como dia de cura das relações do ser humano com Deus, consigo mesmo, com os outros e com o mundo. O domingo é o dia da Ressurreição, o "primeiro dia" da nova criação, que tem as suas primícias na humanidade ressuscitada do Senhor, garantia da transfiguração final de toda a realidade criada. Além disso, este dia anuncia "o descanso eterno do homem, em Deus". Assim, a espiritualidade cristã integra o valor do repouso e da festa. 

O ser humano tende a reduzir o descanso contemplativo ao âmbito do estéril e do inútil, esquecendo que deste modo se tira à obra realizada o mais importante: o seu significado. Na nossa atividade, somos chamados a incluir uma dimensão receptiva e gratuita, o que é diferente da simples inatividade. Trata-se doutra maneira de agir, que pertence à nossa essência. Assim, a ação humana é preservada não só do ativismo vazio, mas também da ganância desenfreada e da consciência que se isola buscando apenas o benefício pessoal. 

[Nota da autora: Todos devemos ter muito cuidado e humildade para não instrumentalizar os cuidados com a criação em benefício próprio e/ou atribuindo valores rasos às ações a serem tomadas e compartilhadas com os irmãos]

A lei do repouso semanal impunha abster-se do trabalho no sétimo dia, "para que descansem o teu boi e o teu jumento e tomem fôlego o filho da tua serva e o estrangeiro residente" (Ex 23, 12). O repouso é uma ampliação do olhar, que permite voltar a reconhecer os direitos dos outros. Assim o dia de descanso, cujo centro é a Eucaristia, difunde a sua luz sobre a semana inteira e encoraja-nos a assumir o cuidado da natureza e dos pobres.

Fonte: Papa Francisco, Laudato Si' - 234 a 237.

JMJ 2016 - Jovens exortam governos a investir em energias limpas

Durante a Jornada Mundial da Juventude, duas organizações internacionais que representam cerca de 10 milhões jovens estudantes católicos divulgaram segunda-feira (26/07) um comunicado apelando aos governos para investir agora nos postos de trabalho sustentáveis ​​e éticos que esta e as futuras gerações de estudantes e jovens virão a ocupar nos anos vindouros.

O Movimento Internacional de Estudantes Católicos (IMCS-MIEC Pax Romana) e os Jovens Estudantes Católicos Internacionais (IYCS / JECI), que representam movimentos estudantis nacionais católicos em mais de 100 países, disseram que o comunicado era sua aceitação do convite feito pelo Papa Francisco em junho de 2015 na Encíclica Laudato Si' se unir para, nas palavras de IMCS e IYCS, “discutir, debater e celebrar a nossa relação com o ambiente, com o outro, com a economia, com o trabalho e com muitos outros aspectos interligados da vida”.

Dado os níveis extremamente elevados de desemprego entre os jovens em muitos países e as referências da encíclica ao "valor do trabalho", as duas organizações sugerem que a substituição de empregos insustentáveis, ​​como os da indústria de combustíveis fósseis, pelos postos de trabalho éticos do futuro, tais como os do setor de energia limpa, deveria ser uma prioridade para os governos. 
[Nota da autora: Os combustíveis fósseis possuem um valor imenso - apesar dos impactos socioambientais - que permitiram a humanidade evoluir até as novas tecnologias "limpas" (com menores impactos ambientais de instalação e operação, pois não se costuma abordar os outros custos socioambientais, incluindo a aquisição de matérias-primas, transformação, transporte, processamento, distribuição, logística reversa e descomissionamentos). A transição tem que ser séria com a transmissão de tecnologias, incluindo os países e populações mais carentes, até ao ponto em que haja realmente condições que permitam substituí-la completamente no atendimento às necessidades físicas das populações humanas] [UTOPIA]

"Se os governos são sérios sobre a redução do desemprego juvenil de forma ética, sem ameaçar a qualidade de vida das gerações futuras, eles simplesmente têm de investir agora em encontrar alternativas para aqueles empregos que poluem o ambiente e contribuem para as alterações climáticas – os quais todos os países já concordam em não podem existir no longo prazo", disse Richard Apeh, Secretário Geral da organização Jovens Estudantes Católicos Internacionais.

A declaração também apela a outros jovens a "trabalhar e ser agentes de mudança em suas comunidades", a fim de "criar um novo mundo marcado pela solidariedade, estilos de vida ecologicamente responsáveis, justiça e paz".

Ecovila em Cracóvia

A declaração é apenas um dos muitos esforços globais para espalhar a mensagem da encíclica durante o Dia Mundial da Juventude. Como parte da campanha #LiveLaudatoSi, o Movimento Católico Climático Global  criará uma Ecovila em Cracóvia, onde realizará oficinas interativas com jovens católicos sobre como eles podem colocar a Encíclica em prática e viver de forma mais sustentável.

Segunda-feira, 25 de julho, a Universidade Jagellonian sediou uma conferência intitulada 'Ecologia Integral de Laudato Si': a juventude como protagonista da mudança', com o arcebispo de Cracóvia, o Presidente da Comissão Organizadora do Dia Mundial da Juventude, o Ministro do Ambiente da Polônia e um dos conselheiros mais próximos do Papa sobre a Encíclica, Cardeal Peter Turkson. O Movimento Católico Global pelo Clima (GCCM) é uma rede internacional de mais de 250 organizações católicas e indivíduos dedicados a cuidar da criação de Deus, dos pobres e das gerações futuras.


#WYD2016 #JMJ2016


Fonte:
 http://br.radiovaticana.va/news/2016/07/27/jmj_jovens_exortam_governos_a_investir_em_energias_limpas/1246870

28 de junho de 2016

Que dia tão lindo! Aniversário de 65 anos de ordenação sacerdotal do Bentinho!

Amo-o, "avô", e o presente desta festa, nós quem o recebemos: a partilha de seu amor e conhecimento. A Laudato Si' não aconteceria se o Espírito Santo já não houvesse preparado o terreno e semeado nos corações dos predecessores de Francisco e nele, as sementes floresceram e frutificaram - e frutificarão ainda mais, muito mais para honra e glória do Amado.

Que Deus os continue abençoando e protegendo, que nunca deixemos de sempre interceder pelas vossas missões. E que suas suaves presenças sempre permaneçam entre nós como exemplos de humildade e sabedoria.



José de Anchieta e Laudato Si'

Por Pe. Josafá Carlos de Siqueira



No dia 9 de junho celebramos a Festa de São José de Anchieta, este jesuíta canonizado pelo Papa Francisco, cuja vida e obra estão profundamente identificadas com a história de nosso Brasil. Como comemoramos também um ano do lançamento da Encíclica Ecológica “Laudato Si'”, faz-se necessário um paralelismo entre a vida do santo e alguns conteúdos existentes no referido documento sobre o cuidado com a casa comum.
A visão integradora de toda a Criação, na qual as questões sociais estão profundamente unidas com as questões ambientais, conforme nos fala a “Laudato Si'” quando aborda a ecologia integral (LS,139), era algo que estava no horizonte de José de Anchieta quando em 1560 relatou os fenômenos físicos da natureza do Brasil, associando-os com a biodiversidade e os povos indígenas. Certamente esta visão sistêmica foi adquirida a partir de uma conversão ecológica, nascida de um mergulho apostólico de enculturação da fé na realidade local. Esta conversão, que é pessoal e comunitária, supõe uma espiritualidade que nos une a Deus, à natureza e à realidade, e com tudo o que nos rodeia (LS, 216).
Nesta correlação, aparece a temática da ecologia cultural na “Laudato Si'”, que nos recorda a importância de prestarmos atenção às comunidades tradicionais e suas tradições culturais, onde a terra não é um bem econômico, mas dom gratuito de Deus e dos antepassados que nela descansam, sendo um espaço sagrado com o qual precisam interagir para manter a sua identidade e os seus valores (LS,146). Foi desta perspectiva que José de Anchieta percebeu e relatou em sua carta biogeográfica de 1560 como os povos indígenas no Brasil se relacionavam com os fenômenos da natureza, ventos, chuvas, raios, animais e plantas, integrando a diversidade cultural e ecológica. 
Esta relação entre ecologia e cultura era tão forte que ele chegou a afirmar que “existiam muitas outras coisas não narradas que são dignas de menção, e que nós como inexperientes desconhecemos”. Os esforços em escrever uma gramática tupi-guarani, mostram o apreço pela cultura local e o desejo de valorizar aquilo que ela tem de mais precioso no processo de comunicação com os outros e com o mundo circundante. Num país como o nosso, onde a riqueza de culturas tradicionais e da biodiversidade é algo admirável e inquestionável, as mensagens de José de Anchieta e da “Laudato Si'” nos convidam a valorizar mais este patrimônio cultural e ecológico, lutando contra toda forma de banalização e destruição desta dupla riqueza que o Criador colocou em nossas mãos para cuidar, guardar e preservar.
Um terceiro paralelismo entre José de Anchieta e a “Laudato Si'” consiste na busca de um novo estilo de vida, “onde é possível necessitar de pouco e viver muito, dando espaços a outros prazeres como os encontros fraternos, o serviço, a música, a arte, o contato com a natureza e a oração” (LS,223). Ao vir para o Brasil, o apóstolo São José de Anchieta teve que mudar todo o seu estilo de vida europeu, passando a viver com poucas coisas, cultivando o diálogo e a convivência com os povos nativos, desenvolvendo a música e o teatro entre os índios, procurando servir de maneira incansável, adquirindo um novo olhar sobre a natureza rica e prodigiosa de nosso país, mantendo-se contemplativo na ação e cultivando a sua vida de oração como cristão, religioso e sacerdote. 
Esta busca em viver um novo estilo de vida, com mais qualidade e menos rodeada dos excessos de coisas que muitas vezes nos escravizam e não nos realizam em profundidade, é um apelo necessário para superar as feridas que provocamos em nós e na casa planetária comum. Que o testemunho de vida de José de Anchieta e a exortação da Encíclica “Laudato Si'” nos ajudem a galgar estes ideais e a viver mais plenamente a nossa vocação de guardiões da Criação.
Fonte: http://arqrio.org/formacao/detalhes/1289/jose-de-anchieta-e-laudato-si

23 de junho de 2016

Como falar sobre cuidados com a casa comum sem falarmos de misericórdia com os irmãos que sofrem?

"Não nos deixemos cair na indiferença que humilha, na habituação que anestesia o espírito e impede de descobrir a novidade, no cinismo que destrói. Abramos os nossos olhos para ver as misérias do mundo, as feridas de tantos irmãos e irmãs privados da própria dignidade e sintamo-nos desafiados a escutar o seu grito de ajuda. As nossas mãos apertem as suas mãos e estreitemo-los a nós para que sintam o calor da nossa presença, da amizade e da fraternidade. Que o seu grito se torne o nosso e, juntos, possamos romper a barreira de indiferença que frequentemente reina soberana para esconder a hipocrisia e o egoísmo". (Papa Francisco)




* * *

Ao lado do auxílio, muitas vezes financeiro, por que não espalharmos tecnologias sociais em nossas paróquias - por toda a comunidade e não somente no "corpo" físico da igreja - através de ações que melhorem o conforto ambiental dos locais de moradia dos paroquianos, com ênfase nos mais necessitados?

Não sabe como fazer? Pesquise! Seja voluntário(a)! 

Há muitos católicos envolvidos em diversas pastorais sociais e agora, em algumas cidades, já existem pastorais relacionadas à ecologia e ao meio ambiente, ainda que eu ache mais belo o termo Pastoral da Criação para diferenciarmos de todas as ONGs existentes que tratam exatamente do mesmo tema, já que nosso enfoque é outro - infinitamente mais abrangente. Veja na sua cidade e se engaje. 

* * *

"É meu vivo desejo que o povo cristão reflita, durante o Jubileu, sobre as obras de misericórdia corporal e espiritual. Será uma maneira de acordar a nossa consciência, muitas vezes adormecida perante o drama da pobreza, e de entrar cada vez mais no coração do Evangelho, onde os pobres são os privilegiados da misericórdia divina. A pregação de Jesus apresenta-nos estas obras de misericórdia, para podermos perceber se vivemos ou não como seus discípulos".  (Papa Francisco na Bula Misericordiae Vultus)

9 de junho de 2016

Vamos participar de uma enquete?

Confesso que é a primeira vez que faço uma e sou movida por uma curiosidade: dezenas de pessoas de diversas nacionalidades passam diariamente pelo blog, mas nada recebo de feedback... Esta primeira enquete é sobre como você compreende o posicionamento do homem quanto aos cuidados com a Criação. Está lá no menu direito, logo após a "Sopa de Letrinhas" (marcadores) ou basta clicar na figura abaixo.

Muito obrigada!

6 de junho de 2016

Diplomata da Santa Sé cita Laudato Si' na ONU

O novo Observador Permanente da Santa Sé na sede das Nações Unidas em Genebra, o Arcebispo Ivan Jurkovič, invocou a Organização Mundial do Trabalho a fazer mais para resolver o urgente problema do desemprego dos jovens. Em discurso na quinta-feira, (02/06), na 105ª sessão da Conferência Internacional sobre o Trabalho, o diplomata esloveno insistiu que "criar empregos dignos e bem remunerados para os jovens é uma obrigação moral". E para isto, prosseguiu, "deve-se encorajar modelos econômicos novos, inclusivos e igualitários, não voltados para poucos, mas que atendam o povo comum e a sociedade como um todo".
Ilusão
Advertindo que o avanço da tecnologia pode "reduzir o valor e dignidade dos trabalhadores", o Arcebispo Jurkovič reiterou que "medir o progresso humano em termos de crescimento econômico e a acumulação de riqueza material não é realístico [...] O trabalho adquire seu verdadeiro caráter quando é decente e sustentável para trabalhadores, empregadores, governos, comunidades e meio ambiente. A globalização propiciou novas oportunidades de emprego nas economias emergentes, mas por outro lado, deixou os trabalhadores mais vulneráveis a pressões competitivas por um salário mais alto e uma maior jornada de trabalho".   
Laudato Si'
Finalizando, o Arcebispo Jurkovič falou dos efeitos negativos das mudanças climáticas no desenvolvimento econômico e social. Mencionando a Encíclica Laudato Si’, disse que "Não há duas crises separadas: uma ambiental e outra social; mas uma única e complexa crise socioambiental. As diretrizes para a solução requerem uma abordagem integral para combater a pobreza, devolver a dignidade aos excluídos e, simultaneamente, cuidar da natureza". 
Fonte: http://www.news.va/pt/news/santa-se-exorta-onu-a-criar-trabalho-digno-para-os

5 de junho de 2016

Dia Mundial do Meio Ambiente... Será que você se lembra o que nos diz o Catecismo Católico sobre o tema?

A preguiça é um pecado imenso e nunca mais eu quis escrever artigos: acabei só reproduzindo no blog as escritas de terceiros e ainda preciso me fortalecer mais espiritualmente para dar um bom testemunho. Entretanto, hoje é o dia mundial do meio ambiente... Bateu uma apatia e a vontade de perguntar: "E daí?".

Daqui a alguns dias, se completará um ano da apresentação da Laudato Si' e vemos como ainda é incipiente na vivência paroquial dos leigos o estudo e os desdobramentos das diversas encíclicas. Com a Laudato Si', quis crer que o apelo às questões tão preementes a todos - crentes ou não - juntamente com a CF deste ano pudesse nos trazer debates mais amplos e eficazes. 

Pesquisando na rede pude perceber que são poucas as ações pastorais no país, muitas destas existentes desde muito antes da encíclica, como: coleta de óleo comestível usado, coleta seletiva de alumínio, distribuição de peças de vestuário aos pobres e formação de bazares, palestras sobre reciclagem, consumo de água e energia, etc e tal... Isto é muito pouco, gente! Isto é tapar o sol com a peneira, que me perdoem a franqueza de quem já trabalhou cinco anos num serviço social paroquial. 

A questão é muito mais profunda, envolve talentos ofertados com disposição e párocos com discernimento para distribuí-los pelas necessidades das paróquias. Não que as ações que citei anteriormente não sejam válidas, entendam bem, mas elas são paliativas: ajuda daqui, ganha-se dali, parece que todos ficam contentes, mas nada muda de fato... Voltarei ao assunto numa outra publicação lá no Reciclando Idéias, mas deixarei como contribuição ao dia de hoje a pergunta do título:

"Será que você se lembra o que o Catecismo nos diz sobre o tema?"

Dica: Pegue o seu e o leia... No meu exemplar (Edições Loyola - pequeno) começa na página 83 e vai até a 102.

Por que estou falando sobre ler o catecismo? Porque se você não souber o seu significado, irá ser mais um pagão travestido de católico. Interiorize os ensinamentos dele e depois sim, parta para ação utilizando o conhecimento sobre as técnicas e boas práticas adotadas para prevenção dos impactos ambientais ou de suas remediações, incluindo a sensibilização ambiental da sociedade.

"A interdependência das criaturas é querida por Deus".

3 de junho de 2016

Laudato Si' e apostolado local...


E lá se foi mais um ano... A ONG 'The Global Catholic Climate Movement', a qual reúne associações católicas de diversas nacionalidades, promoverá entre 12 e 19 de junho a Celebração Global do 1º. Aniversário da Encíclica Laudato Si', em paróquias e comunidades por todo o mundo.

A ONG apresenta uma proposta bastante interessante para a formação de animadores paroquiais da encíclica onde estes atuarão, principalmente, como mediadores de ações práticas nas mesmas e nas comunidades circunvizinhas, promovendo inclusive o diálogo inter-religioso. E é claro que, para tal fim, estes animadores estarão sob a autoridade dos párocos locais.

Para saber mais acesse: www.laudatosiweek.org/pt-pt




Sem a base fisiológica, a espiritual não persiste. 
Só se abdica do que se tem...

30 de maio de 2016

O papa nos mostra o caminho...


Os convido a visitar a aba Reciclando Ideias e a ler o artigo de Carlos Ramalhete sobre a Laudato Si', onde este disserta sobre a imensa contribuição do Papa Francisco às questões mais íntimas do catolicismo. Como a estrutura do Blogspot não permite todos os recursos para páginas autônomas, quaisquer comentários deverão ser feitos nesta postagem.

Boa leitura! 


19 de maio de 2016

Arquidiocese espanhola de Granada cria o "Instituto Internacional Laudato Si' para a Custódia da Criação"

No último dia 13, durante a festa de Nossa Senhora de Fátima, a arquidiocese espanhola de Granada - através de seu Arcebispo Mons. Javier Martinez - criou o Instituto Internacional Laudato Si' para a Custodia da Criação. 


Com sede no seminário "São Cecílio", o instituto se ocupará do estudo e difusão de conhecimento sobre a custódia da Criação à luz da encíclica do Papa Francisco e da tradição cristã, como forma de promover iniciativas práticas dos conceitos contidos na mesma, especialmente no desenvolvimento comunitário e empreendedorismo, sobretudo em zonas rurais e comunidades cristãs.

A primeira atividade programada é a realização de um curso de verão a ser realizado no período de 11 a 15 de julho deste ano, cujas inscrições estão abertas através do e-mail info@LaudatoSiInstitute.org. 

O instituto conta com uma página na internet: www.institutolaudatosi.org (em espanhol) ou www.laudatosiinstitute.org (em inglês). Também se encontra presente nas redes sociais através do perfil no Facebook:  https://web.facebook.com/institutolaudatosi.

Fonte: http://www.archidiocesisgranada.es/index.php/noticias/item/7234-constituido-en-la-archidiocesis-de-granada-el-instituto-internacional-laudato-si-para-la-custodia-de-la-creacion

2 de março de 2016

É uma atribuição sacerdotal promover a reflexão sobre o tema com os fiéis sob sua responsabilidade?


Sim! E por que não o seria? Ainda encontro no meu círculo de fé quem não tenha entendido a profundidade da questão sob o ponto de vista espiritual... 

Está aí uma boa reflexão para a Quaresma:
  • Até que ponto compreendo o que ensinam o Catecismo e a Doutrina Social sobre o tema? Consigo pô-los em prática em minha rotina de fé?
  • O que mais me incomoda quando vejo a Igreja abordando este tema ou outros semelhantes? 
  • Ela estaria errada ou certa? Quem define isto? Eu? Meu sacerdote? O Papa? A Tradição?
  • Se acho que a abordagem local está errada, o que posso fazer enquanto fiel? Irei conversar com meu sacerdote e me oferecer para auxiliá-lo na paróquia? Ou ficarei protestando nas redes sociais?
  • Se acho que a abordagem local está certa, o que posso fazer enquanto fiel? Irei conversar com meu sacerdote e me oferecer para auxiliá-lo na paróquia? Posso sugerir alguma ação pastoral e participar no planejamento e na execução da mesma?

http://w2.vatican.va/content/francesco/pt/encyclicals/documents/papa-francesco_20150524_enciclica-laudato-si.html 

3 de setembro de 2015

01.09 - Dia Mundial de Oração pelo cuidado da Criação


CARTA DO PAPA FRANCISCO
POR OCASIÃO DA INSTITUIÇÃO
DO "DIA MUNDIAL DE ORAÇÃO PELO CUIDADO DA CRIAÇÃO"



1° de Setembro

Aos Venerados Irmãos
Cardeal Peter Kodwo Appiah TURKSON
Presidente do Pontifício Conselho da Justiça e da Paz
Cardeal Kurt KOCH
Presidente do Pontifício Conselho para a Promoção da Unidade dos Cristãos



Compartilhando com o amado irmão o Patriarca Ecumênico Bartolomeu as preocupações pelo futuro da criação (cf. Cart. Enc. Laudato si’, 7-9), e acolhendo a sugestão de seu representante, o Metropolita Ioannis de Pérgamo, um dos convidados na apresentação da Encíclica Laudato si’ sobre o cuidado da casa comum, desejo comunicar-vos que decidi instituir também na Igreja Católica o "Dia Mundial de Oração pelo Cuidado da Criação" que, a partir do ano corrente, será celebrado no dia 1° de Setembro, assim como já ocorre há tempos na Igreja Ortodoxa.

Como cristãos, queremos oferecer a nossa contribuição para a superação da crise ecológica que a humanidade está vivendo. Por isso devemos, antes de tudo, buscar no nosso rico patrimônio espiritual as motivações que alimentam a paixão pelo cuidado da criação, lembrando sempre que para aqueles que crêem em Jesus Cristo, Verbo de Deus que se fez homem por nós, «a espiritualidade não está desligada do próprio corpo nem da natureza ou das realidades deste mundo, mas vive com elas e nelas, em comunhão com tudo o que nos rodeia» (ibid., 216). A crise ecológica nos chama, portanto, a uma profunda conversão espiritual: os cristãos são chamados a uma «conversão ecológica, que comporta deixar emergir, nas relações com o mundo que os rodeia, todas as consequências do encontro com Jesus» (ibid., 217). De fato, «viver a vocação de guardiões da obra de Deus não é algo de opcional nem um aspecto secundário da experiência cristã, mas parte essencial duma existência virtuosa» (ibid.).

Anualmente, o Dia Mundial de Oração pelo Cuidado da Criação oferecerá a cada fiel e às comunidades a preciosa oportunidade para renovar a adesão pessoal à própria vocação de guardião da criação, elevando a Deus o agradecimento pela obra maravilhosa que Ele confiou ao nosso cuidado, invocando a sua ajuda para a proteção da criação e a sua misericórdia pelos pecados cometidos contra o mundo em que vivemos. A celebração deste Dia, na mesma data, com a Igreja Ortodoxa, será uma ocasião profícua para testemunhar a nossa crescente comunhão com os irmãos ortodoxos. Vivemos num tempo em que todos os cristãos enfrentam idênticos e importantes desafios, diante dos quais, para ser mais críveis e eficazes, devemos dar respostas comuns. Por isto, é meu desejo que este Dia também possa envolver, de alguma forma, outras Igrejas e Comunidades eclesiais, e ser celebrado em sintonia com as iniciativas que o Conselho Mundial de Igrejas promove sobre este tema.

Ao senhor, Cardeal Turkson, Presidente do Pontifício Conselho da Justiça e da Paz, peço para que leve ao conhecimento das Comissões Justiça e Paz das Conferências Episcopais, bem como dos organismos nacionais e internacionais comprometidos no âmbito ecológico, a instituição do Dia Mundial de Oração pelo Cuidado da Criação, para que, em harmonia com as exigências e as situações locais, a celebração seja devidamente organizada com a participação de todo o Povo de Deus: sacerdotes, religiosos, religiosas e fiéis leigos. Para este fim, será de responsabilidade deste Dicastério, em colaboração com as Conferências Episcopais, implementar oportunas iniciativas de promoção e de animação, para que esta celebração anual seja um momento forte de oração, reflexão, conversão e uma oportunidade para assumir estilos de vida coerentes.

Ao senhor, Cardeal Koch, Presidente do Pontifício Conselho para a Promoção da Unidade dos Cristãos, peço que providencie os contatos necessários com o Patriarcado Ecumênico e com as outras realidades ecumênicas, para que tal Dia Mundial possa tornar-se sinal de um caminho percorrido conjuntamente por todos os que crêem em Cristo. Será responsabilidade deste Dicastério, além disto, cuidar da coordenação com iniciativas similares tomadas pelo Conselho Mundial de Igrejas.

Ao fazer votos duma mais ampla colaboração para o bom início e desenvolvimento do Dia Mundial de Oração pelo Cuidado da Criação, invoco a intercessão da Mãe de Deus, Maria Santíssima, e de São Francisco de Assis, cujo Cântico das Criaturas inspira tantos homens e mulheres de boa vontade a viver no louvor do Criador e no respeito pela criação. Corrobora estes votos a Bênção Apostólica, que de coração concedo a vós, Senhores Cardeais, e a todos aqueles que colaboram no vosso ministério.

Vaticano, 6 de Agosto de 2015
Festa da Transfiguração do Senhor


FRANCISCUS



Fonte: http://w2.vatican.va/content/francesco/pt/letters/2015/documents/papa-francesco_20150806_lettera-giornata-cura-creato.html 

Homilia do Dia Mundial de Oração pelo cuidado da Criação


LITURGIA DA PALAVRA
PRESIDIDA PELO PAPA FRANCISCO
PARA O DIA MUNDIAL DE ORAÇÃO PELO CUIDADO DA CRIAÇÃO
 Basílica Vaticana
Terça-feira, 1° de Setembro de 2015




HOMILIA DO PADRE RANIERO CANTALAMESSA
PREGADOR DA CASA PONTIFÍCIA

Abençoando-os, Deus disse-lhes «Crescei e multiplicai-vos, enchei e dominai a terra. Dominai sobre os peixes do mar, sobre as aves do céu e sobre todos os animais que se movem na terra» (Gn 1, 28).

Estas palavras em tempos recentes suscitaram uma forte crítica. Elas, escreveu alguém, ao atribuir ao homem um domínio indiscriminado sobre o restante da natureza, estão na origem da atual crise ecológica. Inverteu-se a relação do mundo antigo, sobretudo dos gregos, que via o homem em função do cosmos e não o cosmos em função do homem (Lynn White, The historical roots of our ecologic crisis em «Science», 1967 e em «Ecology and religion in history», 1974).

Penso que esta crítica, como tantas análogas dirigidas ao texto bíblico, tem início no fato de que se interpretam as palavras da Bíblia à luz de categorias seculares que lhe são alheias. «Dominai» neste caso não tem o significado que o termo assume fora da Bíblia. Para a Bíblia, o modelo último do dominus, do senhor, não é o soberano político que explora os seus súbditos, mas é o próprio Deus, Senhor e pai.

O domínio de Deus sobre as criaturas certamente não é finalizado ao próprio interesse, mas ao das criaturas que ele cria e protege. Existe um paralelismo evidente: Deus é o dominus do homem, o homem deve ser o dominus do restante da criação, isto é, responsável por ela e seu guardião. O homem foi criado para ser «à imagem e semelhança de Deus», não de padrões humanos. O sentido do domínio do homem é explicitado pela continuação do texto: «O Senhor levou o homem e colocou-o no jardim do Éden para que o cultivasse e, também, o guardasse» (Gn 2, 15). Isto é expresso muito bem na prece Eucarística IV na qual dizemos dirigindo-nos a Deus: «À vossa imagem formastes o homem, às suas mãos laboriosas confiastes o universo para que na obediência a vós, seu criador, exercesse o domínio sobre toda a criação».

Portanto, a fé num Deus criador e no homem feito à imagem de Deus, não é uma ameaça, mas uma garantia para a criação, e a mais forte de todas. Diz que o homem não é dono absoluto das outras criaturas; deve prestar contas por aquilo que recebeu. Aqui a parábola dos talentos tem uma aplicação primordial: a terra é o talento que todos juntos recebemos e pelo qual devemos prestar contas.

A ideia de uma relação idílica entre o homem e o cosmos, fora da Bíblia, além de tudo, é uma invenção literária. A opinião dominante entre os filósofos pagãos do tempo tendia a fazer do mundo material, seguindo o exemplo de Platão, o produto de um deus de segunda categoria (o Deuteros theos, o Demiurgo), ou até, como dirá Marcião de Sinope, obra de um deus malvado, diferente do Deus revelado por Jesus Cristo. O anseio era libertar-se da matéria, não libertar a matéria. Visão que no tempo de Francisco de Assis revivia na heresia dos cátaros.

Uma prova de que não foi a visão bíblica que favoreceu a prevaricação do homem sobre a criação é que o mapa da poluição não coincide com o da difusão da religião bíblica nem de outras religiões, mas com a de uma industrialização selvagem, voltada só para o lucro, e com a da corrupção que abafa todas as contestações e resiste a todos os poderes.

Ao lado da grande afirmação que homens e coisas provêm de um princípio único, a narração bíblica põe em evidência, isto sim, uma hierarquia de importância que é a mesma da vida e que vemos inscrita em toda a natureza. O mineral serve o vegetal que dele se nutre, o vegetal serve o animal (é o boi que come o capim não o contrário!), e todos servem a criatura racional que é o homem.

Esta hierarquia é a favor da vida não contra ela. Por exemplo, ela é violada quando se fazem compras insensatas para alguns animais (e não certamente para os que estão em perigo de extinção!), enquanto se deixam morrer de fome e de doenças milhões de crianças sob os próprios olhos. Alguém gostaria de abolir totalmente a hierarquia entre os seres, estabelecida pela Bíblia e ínsita na natureza. Chegaram até a idealizar e desejar um universo futuro que deixou de ter a presença da espécie humana, considerada prejudicial para o restante da criação. Isto é chamado «Ecologia Profunda» (é o caso do site VHEMT — Voluntary human extinction movement). Mas claramente isto é um contra-senso. Seria como se uma imensa orquestra fosse obrigada a executar uma maravilhosa sinfonia, mas no vazio total, sem que alguém a ouça e os próprios músicos fossem surdos.

Como é tranquilizador, neste contexto, ouvir de novo as palavras do Salmo 8 que queremos fazer nossas nesta vigília de oração: «Quando contemplo os céus, obra das vossas mãos, a lua e as estrelas que Vós fixastes; que é o homem, para vos lembrardes dele, o Filho do homem, para dele cuidardes? Contudo, pouco lhe falta para que seja um ser divino; de glória e de honra o coroastes. Destes-lhe domínio sobre as obras das vossas mãos. Tudo submetestes debaixo dos seus pés; os rebanhos e o gado sem exceção, até mesmo os animais bravos; as aves do céu e os peixes do mar, tudo o que atravessa os caminhos do mar. Ó Senhor, nosso Deus, como é grande o vosso Nome em toda a terra!».

Francisco foi a prova viva da contribuição que a fé em Deus pode dar ao esforço comum para a salvaguarda da criação. O seu amor pelas criaturas foi uma consequência direta da sua fé na paternidade universal de Deus. Ainda não havia as razões práticas que temos hoje para nos preocupar pelo futuro do planeta: poluição atmosférica, escassez de água potável... A sua foi uma ecologia pura sem as finalidades utilitaristas, apesar de legítimas, que nós hoje temos. As palavras de Jesus «Um só é o vosso Pai, aquele celeste; sois todos irmãos» (cf. Mt 23, 8-9), eram-lhe suficientes. Para ele, não eram um princípio abstrato; mas o horizonte constante dentro do qual vivia e pensava. Fortalecido por esta certeza, ele quis pôr o mundo inteiro «em estado de fraternidade e de louvor».

As fontes franciscanas referem-nos os sentimentos com os quais Francisco se pôs a escrever o seu cântico: «Gostaria, por louvor a Deus e para a minha consolação e edificação do próximo, de compor um novo Louvor ao Senhor pelas suas criaturas. Diariamente utilizamos as criaturas e sem elas não podemos viver, e nelas o gênero humano ofende muito o Criador. E todos os dias nos mostramos ingratos em relação a este grande benefício e não o louvamos como deveríamos ao nosso Criador e doador de todo o bem». Sentou-se e pôs-se a refletir, dizendo em seguida: «Altíssimo, todo-poderoso, bom Senhor...» (Leggenda Perugina, 43 «Fontes Franciscanas», 1592).

As palavras do santo que define como bom o sol, bom irmão o fogo, claras e bonitas as estrelas, são o eco daquele «E Deus viu que tudo era bom», da narração da criação.

O pecado de fundo contra a criação, que precede todos os outros, é não ouvir a sua voz, condená-lo irremediavelmente, diria são Paulo, à vaidade, à insignificância (cf. Rm 8, 18 s.). O próprio Apóstolo fala de um pecado fundamental que se chama impiedade, ou «sufocar a verdade». Diz que é o pecado de quem «embora conhecendo Deus não lhe louva nem lhe dá ação de graças» como convém a Deus. Portanto, não é só o pecado dos ateus que negam a existência de Deus, é também o pecado dos crentes de cujos corações nunca saiu um entusiasmado «Glória a Deus nas alturas», nem um comovido «Graças a ti, Senhor». A Igreja põe-nos nos lábios as palavras para o fazer quando, no Glória da Missa, dizemos: «Nós te louvamos, te bendizemos, te adoramos, te glorificamos, te damos graças pela tua glória imensa».

«Os céus e a terra — diz com frequência a Escritura — estão cheios da sua glória». Estão, por assim dizer, grávidos. Mas eles não podem, sozinhos, «eximirem-se». Como a mulher grávida, têm necessidade das mãos hábeis de uma obstetra para dar à luz aquilo de que estão «grávidos». E deveríamos ser nós estes «obstetras» da glória de Deus. Quanto teve que esperar o universo, que longo impulso deve ter dado, para chegar a este ponto! Milhões e bilhões de anos, durante os quais a matéria, através da sua opacidade, progredia com dificuldade rumo à luz da consciência como a linfa que do subsolo vem para cima da árvore para se expandir em flor e fruto. Esta consciência finalmente foi alcançada, quando apareceu no universo «o fenômeno humano». Mas agora que o universo alcançou a sua meta, exige que o homem cumpra o seu dever, que assuma, por assim dizer, a direção do coro e entoe para todos o «Glória a Deus nas alturas!».

Francisco indica-nos o caminho para uma mudança radical na nossa relação com a criação: consiste em substituir a posse pela contemplação. Ele descobriu um modo diferente de usufruir as coisas que é contemplá-las em vez de as possuir. Pode beneficiar de todas as coisas, porque renunciou a possuir algumas delas. As fontes franciscanas descrevem-nos a situação de Francisco quando compõe o seu Cântico das Criaturas: «Não sendo capaz de suportar a luz natural durante o dia, nem a claridade do fogo durante a noite, ficava sempre na obscuridade em casa e na cela. Não só, mas sofria dia e noite dores atrozes nos olhos, que quase não podia repousar nem dormir, e isto aumentava e piorava estas e outras enfermidades» (Leggenda Perugina, 1614; «Fontes Franciscanas», 1591).

Francisco cantou a beleza das criaturas quando já não podia ver nenhuma delas e aliás a simples luz do sol ou do fogo causavam-lhe dores atrozes! A posse exclui, a contemplação inclui; a posse divide, a contemplação multiplica. Se um só possuir um lago, um parque, os outros ficarão excluídos; se milhares de pessoas contemplarem aquele lago ou parque, todos beneficiarão sem privar ninguém dele. Trata-se de uma posse mais verdadeira e profunda, uma posse dentro, não fora, com a alma, não só com o corpo. Quantos latifundiários pararam para admirar uma flor dos seus campos ou acariciar uma espiga do seu trigo? A contemplação permite possuir as coisas sem as açambarcar.

O exemplo de Francisco de Assis demonstra que a atitude religiosa e doxológica em relação à criação tem consequências práticas e concretas; não é algo feito no ar. Impele também a gestos concretos. O primeiro biógrafo do Santo referiu alguns dos gestos concretos do Pobrezinho: «Abraça todos os seres criados com um amor e uma devoção que nunca se viu antes [...]. Quando os frades cortam a lenha, proíbe que cortem a árvore toda, para que possa ter novos brotos. E ordena que o hortelão deixe incultos os confins ao redor da horta, a fim de que a seu tempo o verde das ervas e o esplendor das flores cantem como é bom o Pai de toda a criação. Deseja também que na horta um canteiro seja reservado às ervas oficinais e que produzem flores para que evoquem a quem as observa a recordação da suavidade eterna. Até recolhe pelos caminhos os pequenos vermes, para que não sejam pisados e às abelhas quer que se ofereçam mel e bom vinho, para que não morram de fome no rigor do inverno» (Celano, Vita Seconda, 165).

Algumas das suas recomendações parecem escritas hoje, sob a pressão dos ambientalistas. Um dia ele disse: «Não quero ser ladrão de esmolas» (Celano, Vita Seconda, 54), significando, receber mais do que o devido, subtraindo a quem teria mais necessidade do que ele. Hoje esta regra poderia ter uma aplicação muito útil para o futuro da terra. Também nós deveríamos propor-nos: não quero ser ladrão de recursos, usando-os mais que o devido e subtraindo a quem virá depois de mim.

Certamente, Francisco não tinha a visão global e planetária do problema ecológico mas uma visão local, imediata. Pensava naquilo eventualmente podia fazer ele e os seus frades. Contudo, também com isto nos ensina algo. Um slogan hoje muito em voga diz: Think globally, act locally, pensa de modo global e age localmente. Que sentido tem, por exemplo, irar-se contra quem polui a atmosfera, os oceanos e as florestas, se não hesito lançar à margem de um rio ou do mar um saquinho de plástico que permanecerá ali por séculos, se alguém não o recuperar, se lanço em qualquer lugar, estradas ou bosques, o lixo que me incomoda ou se sujo as paredes da minha cidade?

A salvaguarda da criação, como a paz, faz-se, diria o nosso Santo Padre Francisco, «artesanalmente», começando por nós mesmos. A paz começa em cada um, repete sempre nas mensagens para o dia da paz; também a salvaguarda da criação começa por nós. Foi o que um representante ortodoxo afirmou já na assembleia ecumênica de Basileia de 1989 sobre «Justiça, paz e salvaguarda da criação»: «Sem uma mudança do coração do homem, a ecologia não tem esperança de sucesso».

Concluo a minha reflexão. Poucas semanas antes da sua morte São Francisco acrescentou uma estrofe ao seu Cântico, que inicia com as palavras: «Laudato sii, mi Signore, per quelli che perdonano per lo tuo amore» (Leggenda Perugina, 84). Penso que se vivesse hoje ele teria acrescentado outra estrofe ao seu cântico: "Laudato sii, meu Senhor, por quantos trabalham para proteger nossa irmã mãe Terra, cientistas, políticos, chefes de todas as religiões e homens de boa vontade. Laudato sii, meu Senhor, por aquele que, juntamente com o meu nome, assumiu também a minha mensagem e está a difundi-la hoje em todo o mundo"!

***

Livro da celebração (foram utilizados os seguinte idiomas de modo misto: italiano, inglês e alemão): http://www.vatican.va/news_services/liturgy/libretti/2015/20150901-libretto-giornata-cura-creato.pdf


Fonte: http://w2.vatican.va/content/francesco/pt/homilies/2015/documents/papa-francesco_20150901_omelia-giornata-cura-creato.html