19 de junho de 2022

Mensagem do Santo Padre para o VI Dia Mundial dos Pobres em 13 de novembro de 2022

 
Jesus Cristo fez-Se pobre por vós (cf. 2 Cor 8, 9)

 

1. «Jesus Cristo (…) fez-Se pobre por vós» (2 Cor 8, 9). Com estas palavras, o apóstolo Paulo dirige-se aos cristãos de Corinto para fundamentar o seu compromisso de solidariedade para com os irmãos necessitados. O Dia Mundial dos Pobres torna este ano como uma sadia provocação para nos ajudar a refletir sobre o nosso estilo de vida e as inúmeras pobrezas da hora atual.


Há alguns meses, o mundo estava a sair da tempestade da pandemia, mostrando sinais de recuperação econômica que se esperava voltasse a trazer alívio a milhões de pessoas empobrecidas pela perda do emprego. Abria-se uma nesga de céu sereno que, sem esquecer a tristeza pela perda dos próprios entes queridos, prometia ser possível tornar finalmente às relações interpessoais diretas, encontrar-se sem embargos nem restrições. Mas eis que uma nova catástrofe assomou ao horizonte, destinada a impor ao mundo um cenário diferente.


A guerra na Ucrânia veio juntar-se às guerras regionais que, nestes anos, têm produzido morte e destruição. Aqui, porém, o quadro apresenta-se mais complexo devido à intervenção direta duma «superpotência», que pretende impor a sua vontade contra o princípio da autodeterminação dos povos. Vemos repetir-se cenas de trágica memória e, mais uma vez, as ameaças recíprocas de alguns poderosos abafam a voz da humanidade que implora paz.


2. Quantos pobres gera a insensatez da guerra! Para onde quer que voltemos o olhar, constata-se como os mais atingidos pela violência sejam as pessoas indefesas e frágeis. Deportação de milhares de pessoas, sobretudo meninos e meninas, para os desenraizar e impor-lhes outra identidade. Voltam a ser atuais as palavras do Salmista perante a destruição de Jerusalém e o exílio dos judeus: «Junto aos rios da Babilônia nos sentamos a chorar, / recordando-nos de Sião. / Nos salgueiros das suas margens / penduramos as nossas harpas. / Os que nos levaram para ali cativos / pediam-nos um cântico; / e os nossos opressores, uma canção de alegria / (...). Como poderíamos nós cantar um cântico do Senhor, / estando numa terra estranha?» (Sal 137, 1-4).


Milhões de mulheres, crianças e idosos veem-se constrangidos a desafiar o perigo das bombas para pôr a vida a salvo, procurando abrigo como refugiados em países vizinhos. Entretanto, aqueles que permanecem nas zonas de conflito têm de conviver diariamente com o medo e a carência de comida, água, cuidados médicos e sobretudo com a falta de afeto familiar. Nestes momentos, a razão fica obscurecida e quem sofre as consequências é uma multidão de gente simples, que vem juntar-se ao número já elevado de pobres. Como dar uma resposta adequada que leve alívio e paz a tantas pessoas, deixadas à mercê da incerteza e da precariedade?


3. Neste contexto tão desfavorável, situa-se o VI Dia Mundial dos Pobres, com o convite – tomado do apóstolo Paulo – a manter o olhar fixo em Jesus, que, «sendo rico, Se fez pobre por vós, para vos enriquecer com a sua pobreza» (2 Cor 8, 9). Na sua visita a Jerusalém, Paulo encontrara Pedro, Tiago e João, que lhe tinham pedido para não esquecer os pobres. De fato, a comunidade de Jerusalém debatia-se com sérias dificuldades devido à carestia que assolara o país. O Apóstolo preocupou-se imediatamente em organizar uma grande coleta a favor daqueles pobres. Os cristãos de Corinto mostraram-se muito sensíveis e disponíveis. Por indicação de Paulo, em cada primeiro dia da semana recolhiam quanto haviam conseguido poupar e todos foram muito generosos.


Como se o tempo tivesse parado naquele momento, também nós, cada domingo, durante a celebração da Santa Missa, cumprimos o mesmo gesto, colocando em comum as nossas ofertas para que a comunidade possa prover às necessidades dos mais pobres. É um sinal que os cristãos sempre cumpriram com alegria e sentido de responsabilidade, para que a nenhum irmão e irmã faltasse o necessário. 


Já o testemunhava no século II São Justino que, ao descrever ao imperador Antonino Pio a celebração dominical dos cristãos, escrevia: «No dia do Sol, como é chamado, reúnem-se num mesmo lugar os habitantes, quer das cidades quer dos campos, e leem-se, na medida em que o tempo o permite, ora os comentários dos Apóstolos ora os escritos dos Profetas. (…) Seguidamente, a cada um dos presentes se distribui e faz participante dos dons sobre os quais foi pronunciada a ação de graças, e dos mesmos se envia aos ausentes por meio dos diáconos. Os que possuem bens em abundância dão livremente o que lhes parece bem, e o que se recolhe põe-se à disposição daquele que preside. Este socorre os órfãos e viúvas e os que, por motivo de doença ou qualquer outra razão, se encontram em necessidade, assim como os encarcerados e hóspedes que chegam de viagem; numa palavra, ele toma sobre si o encargo de todos os necessitados» (Primeira Apologia, LXVII, 1-6).


4. Voltando à comunidade de Corinto, sucedeu que, depois do entusiasmo inicial, começou a esmorecer o empenho, e a iniciativa proposta pelo Apóstolo perdeu impulso. Este é o motivo que leva Paulo a escrever com grande paixão, relançando a coleta, «para que, como fostes prontos no querer, também o sejais no executar, conforme as vossas possibilidades» (2 Cor 8, 11).


Neste momento, penso na disponibilidade que, nos últimos anos, moveu populações inteiras para abrir as portas a fim de acolher milhões de refugiados das guerras no Médio Oriente, na África Central e, agora, na Ucrânia. As famílias abriram as suas casas para deixar entrar outras famílias, e as comunidades acolheram generosamente muitas mulheres e crianças para lhes proporcionar a devida dignidade. 


Mas quanto mais se alonga o conflito, tanto mais se agravam as suas consequências. Os povos que acolhem têm cada vez mais dificuldade em dar continuidade à ajuda; as famílias e as comunidades começam a sentir o peso duma situação que vai além da emergência. Este é o momento de não ceder, mas de renovar a motivação inicial. O que começamos precisa de ser levado a cabo com a mesma responsabilidade.


5. Com efeito, a solidariedade é precisamente partilhar o pouco que temos com quantos nada têm, para que ninguém sofra. Quanto mais cresce o sentido de comunidade e comunhão como estilo de vida, tanto mais se desenvolve a solidariedade. Aliás, deve-se considerar que há países onde, nas últimas décadas, se verificou um significativo crescimento do bem-estar de muitas famílias, que alcançaram um estado de vida seguro. Trata-se dum resultado positivo da iniciativa privada e de leis que sustentaram o crescimento econômico, aliado a um incentivo concreto às políticas familiares e à responsabilidade social. 


Possa este patrimônio de segurança e estabilidade alcançado ser agora partilhado com quantos foram obrigados a deixar as suas casas e o seu país para se salvarem e sobreviverem. Como membros da sociedade civil, mantenhamos vivo o apelo aos valores da liberdade, responsabilidade, fraternidade e solidariedade; e, como cristãos, encontremos sempre na caridade, na fé e na esperança o fundamento do nosso ser e da nossa atividade.


6. É interessante notar que o Apóstolo não quer obrigar os cristãos, forçando-os a uma obra de caridade; de fato, escreve: «Não o digo como quem manda». O que ele pretende é «pôr à prova a sinceridade do amor» demonstrado pelos Coríntios na atenção e solicitude pelos pobres (cf. 2 Cor 8, 8). Na base do pedido de Paulo, está certamente a necessidade de ajuda concreta, mas a sua intenção vai mais longe. Convida a realizar a coleta, para que seja sinal do amor testemunhado pelo próprio Jesus. Enfim, a generosidade para com os pobres encontra a sua motivação mais forte na opção do Filho de Deus que quis fazer-Se pobre.


Na realidade, o Apóstolo não hesita em afirmar que esta opção de Cristo, este seu «despojamento», é uma «graça» – aliás, é «a graça de Nosso Senhor Jesus Cristo» (2 Cor 8, 9) – e só acolhendo-a é que podemos dar expressão concreta e coerente à nossa fé. O ensinamento de todo o Novo Testamento revela a propósito uma especial unanimidade, como se verifica nesta passagem da Carta do apóstolo Tiago sobre a Palavra que foi semeada nos crentes: «Tendes de a pôr em prática e não apena ouvi-la, enganando-vos a vós mesmos. Porque, quem se contenta com ouvir a palavra, sem a pôr em prática, assemelha-se a alguém que contempla a sua fisionomia num espelho; mal acaba de se contemplar, sai dali e esquece-se de como era. Aquele, porém, que medita com atenção a lei perfeita, a lei da liberdade, e nela persevera – não com quem a ouve e logo se esquece, mas como quem a cumpre – esse encontrará a felicidade ao pô-la em prática» (1, 22-25).


7. No caso dos pobres, não servem retóricas, mas arregaçar as mangas e pôr em prática a fé através dum envolvimento direto, que não pode ser delegado a ninguém. Às vezes, porém, pode sobrevir uma forma de relaxamento que leva a assumir comportamentos incoerentes, como no caso da indiferença em relação aos pobres. Além disso acontece que alguns cristãos, devido a um apego excessivo ao dinheiro, fiquem empantanados num mau uso dos bens e do patrimônio. São situações que manifestam uma fé frágil e uma esperança fraca e míope.


Sabemos que o problema não está no dinheiro em si, pois faz parte da vida diária das pessoas e das relações sociais. Devemos refletir, sim, sobre o valor que o dinheiro tem para nós: não pode tornar-se um absoluto, como se fosse o objetivo principal. Um tal apego impede de ver, com realismo, a vida de todos os dias e ofusca o olhar, impedindo de reconhecer as necessidades dos outros. Nada de mais nocivo poderia acontecer a um cristão e a uma comunidade do que ser ofuscados pelo ídolo da riqueza, que acaba por acorrentar a uma visão efêmera e falhada da vida.


Entretanto não se trata de ter um comportamento assistencialista com os pobres, como muitas vezes acontece; naturalmente é necessário empenhar-se para que a ninguém falte o necessário. Não é o ativismo que salva, mas a atenção sincera e generosa que me permite aproximar dum pobre como de um irmão que me estende a mão para que acorde do torpor em que caí. Por isso, «ninguém deveria dizer que se mantém longe dos pobres, porque as suas opções de vida implicam prestar mais atenção a outras incumbências. Esta é uma desculpa frequente nos ambientes acadêmicos, empresariais ou profissionais, e até mesmo eclesiais. (…) Ninguém pode sentir-se exonerado da preocupação pelos pobres e pela justiça social» (Francisco, Exort. ap. Evangelii gaudium, 201). 


Urge encontrar estradas novas que possam ir além da configuração daquelas políticas sociais «concebidas como uma política para os pobres, mas nunca com os pobres, nunca dos pobres e muito menos inserida num projeto que reúna os povos» (Francisco, Carta enc. Fratelli tutti, 169). Em vez disso, é preciso tender para assumir a atitude do Apóstolo, que podia escrever aos Coríntios: «Não se trata de, ao aliviar os outros, vos fazer entrar em apuros, mas sim de que haja igualdade» (2 Cor 8, 13).


8. Estamos diante dum paradoxo, que, hoje como no passado, é difícil de aceitar, porque embate na lógica humana: há uma pobreza que nos torna ricos. Recordando a «graça» de Jesus Cristo, Paulo quer confirmar o que o próprio Senhor pregou, ou seja, que a verdadeira riqueza não consiste em acumular «tesouros na terra, onde a traça e a ferrugem os corroem e os ladrões arrombam os muros, a fim de os roubar» (Mt 6, 19), mas, antes, no amor recíproco que nos faz carregar os fardos uns dos outros, para que ninguém seja abandonado ou excluído. 


A experiência de fragilidade e limitação, que vivemos nestes últimos anos e, agora, a tragédia duma guerra com repercussões globais, devem ensinar-nos decididamente uma coisa: não estamos no mundo para sobreviver, mas para que, a todos, seja consentida uma vida digna e feliz. A mensagem de Jesus mostra-nos o caminho e faz-nos descobrir a existência duma pobreza que humilha e mata, e há outra pobreza – a d’Ele – que liberta e nos dá serenidade.


A pobreza que mata é a miséria, filha da injustiça, da exploração, da violência e da iníqua distribuição dos recursos. É a pobreza desesperada, sem futuro, porque é imposta pela cultura do descarte que não oferece perspetivas nem vias de saída. É a miséria que, enquanto constringe à condição de extrema indigência, afeta também a dimensão espiritual, que, apesar de muitas vezes ser transcurada, não é por isso que deixa de existir ou de contar. Quando a única lei passa a ser o cálculo do lucro no fim do dia, então deixa de haver qualquer freio na adoção da lógica da exploração das pessoas: os outros não passam de meios. Deixa de haver salário justo, horário justo de trabalho e criam-se novas formas de escravidão, suportada por pessoas que, sem alternativa, devem aceitar este veneno de injustiça a fim de ganhar o mínimo para comer.


Ao contrário, pobreza libertadora é aquela que se nos apresenta como uma opção responsável para alijar da estiva quanto há de supérfluo e apostar no essencial. De fato, pode-se individuar facilmente o sentido de insatisfação que muitos experimentam, porque sentem que lhes falta algo de importante e andam à sua procura como extraviados sem rumo. Desejosos de encontrar o que os possa saciar, precisam de ser encaminhados para os humildes, os frágeis, os pobres para compreenderem finalmente aquilo de que tinham verdadeiramente necessidade. 


Encontrar os pobres permite acabar com tantas ansiedades e medos inconsistentes, para atracar àquilo que verdadeiramente importa na vida e que ninguém nos pode roubar: o amor verdadeiro e gratuito. Na realidade, os pobres, antes de ser objeto da nossa esmola, são sujeitos que ajudam a libertar-nos das armadilhas da inquietação e da superficialidade.


Um padre e doutor da Igreja, São João Crisóstomo, em cujos escritos se encontram fortes denúncias contra o comportamento dos cristãos para com os mais pobres, escrevia: «Se não consegues acreditar que a pobreza te faça tornar rico, pensa no teu Senhor e deixa de duvidar quanto a isso. Se Ele não tivesse sido pobre, tu não serias rico; trata-se de algo extraordinário: que da pobreza tenha derivado riqueza abundante. Aqui Paulo entende por “riquezas” o conhecimento da piedade, a purificação dos pecados, a justiça, a santificação e milhares doutras coisas boas que nos foram dadas agora e para sempre. Tudo isto, o temos graças à pobreza» (Homilias sobre a II Carta aos Coríntios, 17, 1).


9. O texto do Apóstolo a que se refere este VI Dia Mundial dos Pobres apresenta o grande paradoxo da vida de fé: a pobreza de Cristo torna-nos ricos. Se Paulo pôde comunicar este ensinamento – e a Igreja difundi-lo e testemunhá-lo ao longo dos séculos – é porque Deus, em seu Filho Jesus, escolheu e seguiu esta estrada. Se Ele Se fez pobre por nós, então a nossa própria vida ilumina-se e transforma-se, adquirindo um valor que o mundo não conhece nem pode dar. 


A riqueza de Jesus é o seu amor, que não se fecha a ninguém mas vai ao encontro de todos, sobretudo de quantos estão marginalizados e desprovidos do necessário. Por amor, despojou-Se a Si mesmo e assumiu a condição humana. Por amor, fez-Se servo obediente, até à morte e morte de cruz (cf. Flp 2, 6-8). Por amor, fez-Se «pão de vida» (Jo 6, 35), para que a ninguém falte o necessário, e possa encontrar o alimento que nutre para a vida eterna.


Também em nossos dias parece difícil, como foi então para os discípulos do Senhor, aceitar este ensinamento (cf. Jo 6, 60); mas a palavra de Jesus é clara. Se quisermos que a vida vença a morte e que a dignidade seja resgatada da injustiça, o caminho a seguir é o d’Ele: é seguir a pobreza de Jesus Cristo, partilhando a vida por amor, repartindo o pão da própria existência com os irmãos e irmãs, a começar pelos últimos, por aqueles que carecem do necessário, para que se crie a igualdade, os pobres sejam libertos da miséria e os ricos da vaidade, ambos sem esperança.


10. No passado dia 15 de maio, canonizei o Irmão Carlos de Foucauld, um homem que, tendo nascido rico, renunciou a tudo para seguir Jesus e com Ele tornar-se pobre e irmão de todos. A sua vida eremita, primeiro em Nazaré e depois no deserto do Saara, feita de silêncio, oração e partilha, é um testemunho exemplar da pobreza cristã. 


Ajudar-nos-á a meditação destas suas palavras: «Não desprezemos os pobres, os humildes, os operários; são não só nossos irmãos em Deus, mas também os que mais perfeitamente imitam a Jesus na sua vida exterior. Eles apresentam-nos perfeitamente Jesus, o Operário de Nazaré. São primogênitos entre os eleitos, os primeiros chamados ao berço do Salvador. Foram a companhia habitual de Jesus, desde o seu nascimento até à sua morte (…). Honremo-los, honremos neles as imagens de Jesus e dos seus santos progenitores (…). Tomemos para nós [a condição] que Ele tomou para Si (…). Nunca deixemos de ser, em tudo, pobres, irmãos dos pobres, companheiros dos pobres; sejamos os mais pobres dos pobres, como Jesus, e como Ele amemos os pobres e rodeemo-nos deles» (Comentário ao Evangelho de Lucas, Meditação 263) [1]. 


Para o Irmão Carlos, estas não eram apenas palavras, mas estilo concreto de vida, que o levou a partilhar com Jesus o dom da própria existência.


Oxalá este VI Dia Mundial dos Pobres se torne uma oportunidade de graça, para fazermos um exame de consciência pessoal e comunitário, interrogando-nos se a pobreza de Jesus Cristo é a nossa fiel companheira de vida.


Roma, São João de Latrão, na Memória de Santo Antônio, 13 de junho de 2022.
FRANCISCO


[1] Meditação n. 263, sobre Lc 2, 8-20: C.De Foucauld, A Bondade de Deus. Meditações sobre os santos Evangelhos, I, Nouvelle Cité – Montrouge 1996, 214-216.





24 de março de 2022

A Criação geme em dores de parto...

[É muito difícil manter o coração pacífico em meio a tantas injustiças e atrocidades que surgem a todo momento, mas a fé em Cristo com esperança de uma conformação diária do coração Nele é o único caminho para a paz.]



ATO DE CONSAGRAÇÃO AO IMACULADO CORAÇÃO DE MARIA

"Ó Maria, Mãe de Deus e nossa Mãe, recorremos a Vós nesta hora de tribulação. Vós sois Mãe, amais-nos e conheceis-nos: de quanto temos no coração, nada Vos é oculto. Mãe de misericórdia, muitas vezes experimentamos a vossa ternura providente, a vossa presença que faz voltar a paz, porque sempre nos guiais para Jesus, Príncipe da paz.


Mas perdemos o caminho da paz. Esquecemos a lição das tragédias do século passado, o sacrifício de milhões de mortos nas guerras mundiais. Descuidamos os compromissos assumidos como Comunidade das Nações e estamos a atraiçoar os sonhos de paz dos povos e as esperanças dos jovens. Adoecemos de ganância, fechamo-nos em interesses nacionalistas, deixamo-nos ressequir pela indiferença e paralisar pelo egoísmo. Preferimos ignorar Deus, conviver com as nossas falsidades, alimentar a agressividade, suprimir vidas e acumular armas, esquecendo-nos que somos guardiões do nosso próximo e da própria casa comum. Dilaceramos com a guerra o jardim da Terra, ferimos com o pecado o coração do nosso Pai, que nos quer irmãos e irmãs. Tornamo-nos indiferentes a todos e a tudo, exceto a nós mesmos. E, com vergonha, dizemos: perdoai-nos, Senhor!


Na miséria do pecado, das nossas fadigas e fragilidades, no mistério de iniquidade do mal e da guerra, Vós, Mãe Santa, lembrai-nos que Deus não nos abandona, mas continua a olhar-nos com amor, desejoso de nos perdoar e levantar novamente. Foi Ele que Vos deu a nós e colocou no vosso Imaculado Coração um refúgio para a Igreja e para a humanidade. Por bondade divina, estais connosco e conduzis-nos com ternura mesmo nos transes mais apertados da história.


Por isso recorremos a Vós, batemos à porta do vosso Coração, nós os vossos queridos filhos que não Vos cansais de visitar em todo o tempo e convidar à conversão. Nesta hora escura, vinde socorrer-nos e consolar-nos. Repeti a cada um de nós: «Não estou porventura aqui Eu, que sou tua mãe?» Vós sabeis como desfazer os emaranhados do nosso coração e desatar os nós do nosso tempo. Repomos a nossa confiança em Vós. Temos a certeza de que Vós, especialmente no momento da prova, não desprezais as nossas súplicas e vindes em nosso auxílio.


Assim fizestes em Caná da Galileia, quando apressastes a hora da intervenção de Jesus e introduzistes no mundo o seu primeiro sinal. Quando a festa se mudara em tristeza, dissestes-Lhe: «Não têm vinho!» (Jo 2, 3). Ó Mãe, repeti-o mais uma vez a Deus, porque hoje esgotamos o vinho da esperança, desvaneceu-se a alegria, diluiu-se a fraternidade. Perdemos a humanidade, malbaratamos a paz. Tornamo-nos capazes de toda a violência e destruição. Temos necessidade urgente da vossa intervenção materna.


Por isso acolhei, ó Mãe, esta nossa súplica:


"Vós, estrela do mar, não nos deixeis naufragar na tempestade da guerra;

Vós, arca da nova aliança, inspirai projetos e caminhos de reconciliação;

Vós, «terra do Céu», trazei de volta ao mundo a concórdia de Deus;

Apagai o ódio, acalmai a vingança, ensinai-nos o perdão;

Libertai-nos da guerra, preservai o mundo da ameaça nuclear;

Rainha do Rosário, despertai em nós a necessidade de rezar e amar;

Rainha da família humana, mostrai aos povos o caminho da fraternidade;

Rainha da paz, alcançai a paz para o mundo."


O vosso pranto, ó Mãe, comova os nossos corações endurecidos. As lágrimas, que por nós derramastes, façam reflorescer este vale que o nosso ódio secou. E, enquanto o rumor das armas não se cala, que a vossa oração nos predisponha para a paz. As vossas mãos maternas acariciem quantos sofrem e fogem sob o peso das bombas. O vosso abraço materno console quantos são obrigados a deixar as suas casas e o seu país. Que o vosso doloroso Coração nos mova à compaixão e estimule a abrir as portas e cuidar da humanidade ferida e descartada.


Santa Mãe de Deus, enquanto estáveis ao pé da cruz, Jesus, ao ver o discípulo junto de Vós, disse-Vos: «Eis o teu filho!» (Jo 19, 26). Assim Vos confiou cada um de nós. Depois disse ao discípulo, a cada um de nós: «Eis a tua mãe!» (19, 27). Mãe, agora queremos acolher-Vos na nossa vida e na nossa história. Nesta hora, a humanidade, exausta e transtornada, está ao pé da cruz convosco. E tem necessidade de se confiar a Vós, de se consagrar a Cristo por vosso intermédio. O povo ucraniano e o povo russo, que Vos veneram com amor, recorrem a Vós, enquanto o vosso Coração palpita por eles e por todos os povos ceifados pela guerra, a fome, a injustiça e a miséria.


Por isso nós, ó Mãe de Deus e nossa, solenemente confiamos e consagramos ao vosso Imaculado Coração nós mesmos, a Igreja e a humanidade inteira, de modo especial a Rússia e a Ucrânia. Acolhei este nosso ato que realizamos com confiança e amor, fazei que cesse a guerra, providenciai ao mundo a paz. O sim que brotou do vosso Coração abriu as portas da história ao Príncipe da Paz; confiamos que mais uma vez, por meio do vosso Coração, virá a paz. Assim a Vós consagramos o futuro da família humana inteira, as necessidades e os anseios dos povos, as angústias e as esperanças do mundo.


Por vosso intermédio, derrame-se sobre a Terra a Misericórdia divina e o doce palpitar da paz volte a marcar as nossas jornadas. Mulher do sim, sobre Quem desceu o Espírito Santo, trazei de volta ao nosso meio a harmonia de Deus. Dessedentai a aridez do nosso coração, Vós que «sois fonte viva de esperança». Tecestes a humanidade para Jesus, fazei de nós artesãos de comunhão. Caminhastes pelas nossas estradas, guiai-nos pelas sendas da paz. 


Amém."

                                                                    Papa Francisco


Fonte: https://www.vatican.va/content/francesco/pt/prayers/documents/20220325-atto-consacrazione-cuoredimaria.html

5 de março de 2022

Homilia do Papa Francisco na Quarta-feira de Cinzas em meio ao horror de uma nova guerra


Neste dia, que dá início ao tempo da Quaresma, o Senhor diz-nos: «Guardai-vos de fazer as vossas obras diante dos homens, para vos tornardes notados por eles; de outro modo, não tereis nenhuma recompensa do vosso Pai que está no Céu» (Mt 6, 1). Pode causar surpresa, mas no Evangelho de hoje a palavra que aparece mais vezes é recompensa (cf. 6, 1.2.5.16). 

Habitualmente, na Quarta-feira de Cinzas, a nossa atenção concentra-se mais sobre o empenho exigido pelo caminho de fé do que no prêmio que daí nos advém. Contudo, hoje, o discurso de Jesus retorna regularmente a este termo, recompensa, que parece ser a mola do nosso agir. De fato em nós, no nosso coração, há uma sede, um desejo de alcançar uma recompensa, que nos atrai e move a cumprir aquilo que fazemos.

Mas o Senhor distingue dois tipos de recompensa, a que pode tender a vida duma pessoa: por um lado, temos a recompensa junto do Pai e, por outro, a recompensa junto dos homens. A primeira é eterna, é a verdadeira, definitiva, é o objetivo da existência. Ao contrário, a segunda é transitória, é um encandeamento que nos prende quando a admiração dos homens e o sucesso mundano representam para nós a coisa mais importante, a maior gratificação. 

Mas trata-se duma ilusão: é como uma miragem que, uma vez alcançada, nos deixa de mãos vazias. A inquietação e o descontentamento sempre aguardam ao virar da esquina quem possui como horizonte o mundanismo, que seduz, mas depois decepciona. Quem tem em vista a recompensa do mundo nunca encontra paz, nem sabe promover a paz, porque perde de vista o Pai e os irmãos. É um risco que todos corremos; por isso nos adverte Jesus: «Guardai-vos…»! É como se dissesse: «Tendes a possibilidade de gozar uma recompensa infinita, uma recompensa sem igual: por isso tende cuidado para não vos deixar deslumbrar pela aparência, perseguindo recompensas insignificantes, que vos morrem na mão».

O rito das cinzas, que recebemos sobre a cabeça, quer subtrair-nos ao encandeamento de preferir a recompensa junto dos homens à recompensa junto do Pai. Este sinal austero, que nos leva a refletir sobre a caducidade da nossa condição humana, é como um remédio de sabor amargo, mas eficaz para curar a doença da aparência. Trata-se duma doença espiritual, que escraviza a pessoa, levando-a a tornar-se dependente da admiração dos outros. 

É uma verdadeira «escravidão dos olhos e da mente» (cf. Ef 6, 6; Col 3, 22), que nos induz a viver buscando a vanglória, de modo que conta não a pureza do coração, mas a admiração do povo; não o olhar de Deus sobre nós, mas como nos olham os outros. E não é possível viver bem, contentando-se com esta recompensa.

O problema é que esta doença da aparência mina também os âmbitos mais sagrados. É sobre isto que Jesus insiste hoje: também a oração, a caridade e o jejum podem tornar-se autorreferenciais. Em cada gesto, mesmo no mais belo, pode esconder-se a traça da autocomplacência. 

Assim o coração não é completamente livre, porque não procura o amor ao Pai e aos irmãos, mas a aprovação humana, o aplauso do povo, a sua própria glória. E tudo se pode transformar numa espécie de ficção em relação a Deus, a si mesmo e aos outros. Por isso a Palavra de Deus convida-nos a olhar o nosso íntimo para ver as nossas hipocrisias. Façamos um diagnóstico das aparências que buscamos; tentemos desmascará-las. Far-nos-á bem.

As cinzas colocam em evidência o nada que se esconde por trás da afanosa procura das recompensas mundanas. Lembram-nos que o mundanismo é como o pó, que um pouco de vento arrasta. Irmãs, irmãos, não estamos no mundo para correr atrás do vento; o nosso coração tem sede de eternidade. A Quaresma é um tempo que o Senhor nos deu para voltarmos a viver, sermos curados interiormente e caminharmos para a Páscoa, para aquilo que não passa, para a recompensa junto do Pai. 

É um caminho de cura. Não para mudar tudo da noite para o dia, mas para viver cada dia com um espírito novo, com um estilo diferente. Para isto servem a oração, a caridade e o jejum: purificados pelas cinzas quaresmais, purificados da hipocrisia da aparência, reencontra-se a força plena para voltar a gerar uma relação viva com Deus, com os irmãos e consigo mesmo.

A oração humilde, feita «em segredo» (Mt 6, 6), no recanto do próprio quarto, torna-se o segredo para fazer florescer a vida no exterior. É um diálogo ardente de afeto e confiança, que consola e abre o coração. Sobretudo neste tempo de Quaresma, rezemos com os olhos fixos no Crucifixo: deixemo-nos invadir pela comovente ternura de Deus e, nas suas chagas, coloquemos as nossas e as do mundo. 

Não nos deixemos levar pela pressa, fiquemos em silêncio diante d’Ele. Redescubramos a essencialidade fecunda do diálogo íntimo com o Senhor. Com efeito, Deus não Se compraz com as coisas espetaculares; pelo contrário, gosta de Se deixar encontrar no segredo. É «o caráter secreto do amor», longe de toda a ostentação e de tonalidades espalhafatosas.

Se a oração for verdadeira, não pode deixar de se traduzir em caridade. E a caridade liberta-nos da escravidão pior: a escravidão de nós mesmos. A caridade quaresmal, purificada pelas cinzas, reconduz-nos ao essencial, à alegria íntima que existe no dar. A esmola, dada longe dos holofotes, dá paz e esperança ao coração. Revela-nos a beleza do dar que se torna receber, permitindo assim descobrir um segredo precioso: o dar alegra mais o coração do que o receber (cf. At 20, 35).

Por fim, o jejum. Este não é uma dieta; antes, liberta-nos da autorreferencialidade da busca obsessiva do bem-estar físico, para nos ajudar a ter em forma, não o corpo, mas o espírito. O jejum leva-nos de novo a dar o justo valor às coisas. Concretamente, recorda-nos que a vida não deve estar submetida ao cenário passageiro deste mundo. E o jejum não se deve restringir apenas ao alimento: especialmente na Quaresma, deve-se jejuar daquilo que gera em nós dependência. Cada qual pense nisto, para fazer um jejum que incida verdadeiramente na sua vida concreta.

Mas, se a oração, a caridade e o jejum devem amadurecer no segredo, os seus efeitos não são secretos. Oração, caridade e jejum não são remédios só para nós, mas para todos: podem, de fato, mudar a história. Não só porque quem sente os seus efeitos, quase sem se aperceber também os transmite aos outros, mas sobretudo porque a oração, a caridade e o jejum são os meios principais que permitem a Deus intervir na vida nossa e do mundo. São as armas do espírito e é com elas que, nesta jornada de oração e jejum pela Ucrânia, imploramos a Deus aquela paz que os homens sozinhos não conseguem construir.

Vós, Senhor, que vedes no segredo e nos recompensais além de toda a nossa expectativa, escutai a oração de quantos confiam em Vós, sobretudo dos mais humildes, dos mais provados, daqueles que sofrem e fogem sob o estrondo das armas. Colocai de novo a paz nos corações, concedei aos nossos dias a vossa paz. 

Amém.



Fonte: https://www.vatican.va/content/francesco/pt/homilies/2022/documents/20220302_omelia-ceneri.html

6 de novembro de 2021

O blog ficará inativo até o final de fevereiro/2022.


Com diversas atividades acadêmicas a cumprir na reta final, 
resolvi inativar o blog até depois do Carnaval. 

Boas Festas a todos e que a pandemia termine!

5 de novembro de 2021

Homilia do Papa Francisco sobre o Sagrado Coração de Jesus e Sua presença em nossas vidas - 05.11.2021

 Traduzido por Renata P. Espíndola.


Contemplando o Coração de Jesus, podemos deixar-nos guiar por três palavras: memória, paixão e consolação. Lembrança... Lembrar [em italiano, ricordare], significa “voltar ao coração, voltar com o coração”. Ri-cordare. A que o Sagrado Coração de Jesus nos faz voltar? Ao que Ele fez por nós: o Coração de Cristo mostra-nos Jesus que se oferece, é o compêndio da sua misericórdia.

Olhando para ele - como fez João no Evangelho (19, 31-37), nos vem naturalmente lembrar sua bondade, que é dada de graça, que não pode ser comprada nem vendida; e incondicional, não depende de nossas ações, é soberana. E está se movendo. Na pressa de hoje, em meio a mil recados e preocupações contínuas, estamos perdendo a capacidade de nos emocionar e de sentir compaixão, porque estamos perdendo esse retorno ao coração, ou seja, essa memória, esse retorno ao coração.

Sem memória, perde-se as raízes e, sem raízes, não se cresce. É bom para nós alimentar a memória de quem nos amou, cuidou de nós e nos elevou. Desejo renovar hoje o meu “obrigado” pelo carinho e pelo carinho que aqui recebi. Acredito que neste tempo de pandemia é bom lembrarmos até dos momentos que mais sofremos: não para nos entristecer, mas para não esquecer e para nos guiar nas nossas escolhas à luz do um passado muito recente.

Eu me pergunto: como funciona nossa memória? Para simplificar, poderíamos dizer que nos lembramos de alguém ou de alguma coisa quando toca nosso coração, quando nos vincula a um determinado afeto ou falta de afeto. E assim o Coração de Jesus cura a nossa memória porque a traz de volta ao afeto fundamental. Ele enraíza na base mais sólida. Isso nos lembra que, aconteça o que acontecer conosco na vida, somos amados. 

Sim, somos seres amados, filhos a quem o Pai ama sempre e, em todo o caso, irmãos e irmãs por quem bate o Coração de Cristo. Cada vez que perscrutamos aquele Coração, descobrimo-nos “enraizados e alicerçados no amor”, como disse o apóstolo Paulo na primeira leitura de hoje (Ef 3, 17).

Cultivemos esta memória, que se fortalece quando estamos face a face com o Senhor, especialmente quando nos deixamos ser olhados e amados por Ele em adoração. Mas também podemos cultivar entre nós a arte de lembrar, de valorizar os rostos que encontramos. Penso nos dias cansativos no hospital, na universidade, no trabalho. Corremos o risco de que tudo passe sem deixar rasto, ou de que permaneçam apenas o cansaço e o cansaço. É bom para nós, à noite, rever os rostos que encontramos, os sorrisos que recebemos, as boas palavras.

São memórias de amor e ajudam a nossa memória a se reencontrar: que nossa memória se reencontre. Quão importantes são essas memórias nos hospitais! Eles podem dar sentido ao dia de uma pessoa doente. Uma palavra fraterna, um sorriso, uma carícia no rosto: são memórias que curam por dentro, fazem bem ao coração. Não esqueçamos a terapia da lembrança: ela faz muito bem!

Paixão é a segunda palavra. Paixão. O primeiro é memória, lembrança; o segundo é paixão. O Coração de Cristo não é uma devoção piedosa, para sentir um pouco de calor por dentro; não é uma imagem terna que desperta afeto, não, não é isso. É um coração apaixonado - basta ler o Evangelho -, um coração ferido de amor, aberto por nós na cruz. Ouvimos como o Evangelho fala disso: “Um dos soldados lhe furou o lado com uma lança, e imediatamente saiu sangue e água” (Jo 19, 34). Perfurado, Ele dá; na morte, Ele nos dá vida.

O Sagrado Coração é o ícone da Paixão: mostra-nos a ternura visceral de Deus, a sua paixão amorosa por nós e, ao mesmo tempo, encimado pela cruz e rodeado de espinhos, mostra-nos quanto sofrimento custou a nossa salvação. Em sua ternura e dor, esse Coração revela, em suma, o que é a paixão de Deus. O que é? Cara, nós. E qual é o estilo de Deus? Proximidade, compaixão e ternura. Este é o estilo de Deus: proximidade, compaixão e ternura.

O que isso sugere? Que, se realmente queremos amar a Deus, devemos ser apaixonados pela humanidade, por toda a humanidade, especialmente por aqueles que vivem a condição em que o Coração de Jesus se manifestou, ou seja, dor, abandono e rejeição; especialmente nesta cultura descartável em que vivemos hoje. Quando servimos os que sofrem, consolamos e nos regozijamos no Coração de Cristo.

Uma passagem do Evangelho é impressionante. João Evangelista, no momento em que narra o lado traspassado, de onde jorra sangue e água, dá testemunho para que acreditemos (cf. v. 35). São João escreve, ou seja, que naquele momento ocorre o testemunho. Porque o Coração perfurado de Deus é eloqüente. Fala sem palavras, porque é a misericórdia em estado puro, o amor que fere e dá vida. É Deus, com proximidade, compaixão e ternura.

Quantas palavras falamos sobre Deus sem mostrar amor! Mas o amor fala por si, não fala por si. Vamos pedir pela graça de nos apaixonarmos pelo homem que sofre, de nos apaixonarmos pelo serviço, para que a Igreja, antes de ter palavras a dizer, mantenha um coração que bate de amor. Antes de falar, que ela aprenda a salvaguardar o seu coração no amor.

A terceira palavra é conforto. A primeira foi a lembrança, a segunda paixão, a terceira é o consolo. Indica uma força que não vem de nós, mas de quem está conosco: daí vem a força. Jesus, o Deus conosco, nos dá essa força, seu Coração nos dá coragem na adversidade. Muitas incertezas nos assustam: nesta época de pandemia, descobrimos que somos menores, mais frágeis. Apesar de tantos avanços maravilhosos, isso também é evidente na área médica: tantas doenças raras e desconhecidas!

Quando encontro pessoas na plateia - especialmente crianças - e pergunto: “Você está doente?” - [respondem] “Uma doença rara”. Existem muitos deles hoje! Como é difícil acompanhar as patologias, os centros de tratamento, os cuidados de saúde que realmente deveriam ser, para todos. Podemos ficar desanimados. É por isso que precisamos de consolo - a terceira palavra.

O Coração de Jesus bate por nós, repetindo sempre aquelas palavras: “Coragem, coragem, não tenhas medo, estou aqui!”. Coragem, irmã, coragem, irmão, não desanimes, o Senhor teu Deus é maior que as tuas mazelas, Ele te pega pela mão e te acaricia, está perto de ti, é compassivo, é terno. Ele é o seu conforto.

Se olharmos a realidade desde a grandeza do seu Coração, muda a perspectiva, muda o nosso conhecimento da vida porque, como nos lembrava São Paulo, conhecemos “o amor de Cristo que ultrapassa o conhecimento” (Ef 3,19). Vamos nos encorajar com essa certeza, com o conforto de Deus. E peçamos ao Sagrado Coração a graça de poder consolar por sua vez. É uma graça que deve ser pedida, pois corajosamente nos comprometemos a nos abrir, ajudar uns aos outros, carregar os fardos uns dos outros. Também se aplica ao futuro da saúde, especialmente da saúde “católica”: compartilhar, apoiar-se, caminhar juntos.

Que Jesus abra o coração de quem cuida dos enfermos à colaboração e à coesão. Ao teu Coração, Senhor, confiamos a nossa vocação de cuidar: façamos com que cada pessoa que se aproxima de nós em necessidade se sinta querida.

Amém.
Catholic University of the Sacred Heart
05 de novembro de 2021
Papa Francisco 

Fonte: https://www.vatican.va/content/francesco/en/homilies/2021/documents/20211105-omelia-univ-cattolica.html

4 de novembro de 2021

Mensagem do Papa Francisco para a reunião de abertura do Encontro Global para a eliminação do Trabalho Infantil na Agricultura [a/c. Cardeal Pietro Parolin]

Já parou para pensar no quanto você consome de produtos e serviços que são frutos de trabalho escravo? No quão profundas são as interconexões que sequer suspeitamos e ainda assim, no quanto isto nos será cobrado pela omissão ou anuência?

* * *

Traduzido por Renata P. Espíndola


Sede da FAO, 02 de novembro de 2021.

Para Sua Excelência Qu Dongyu
Diretor Geral da FAO


Excelência:

Em nome e em nome do Santo Padre, quero agradecer à FAO por ter promovido, em colaboração com a Organização Internacional do Trabalho - OIT (ILO/IPEC), este encontro global estratégico que focaliza nossa atenção sobre um fenômeno cada vez mais preocupante, dadas as estimativas recentes de organismos internacionais.

Na verdade, ainda mais quando se manifesta como exploração, o trabalho infantil torna-se um flagelo que fere cruelmente a existência digna e o desenvolvimento harmonioso dos mais pequenos, limitando consideravelmente suas oportunidades futuras, pois reduz e fere suas vidas para satisfazer os produtivos e lucrativos. necessidades dos adultos.

As conotações negativas deste drama foram exacerbadas pela pandemia, que tem levado um número crescente de menores a abandonar a escola para cair, infelizmente, nas garras desta forma de escravatura. Para muitos destes nossos irmãozinhos, faltar à escola significa não só perder oportunidades que lhes permitam enfrentar os desafios da vida adulta, mas também adoecer, ou seja, ficar privado do direito à saúde, devido às condições deploráveis em que vive têm de cumprir as tarefas que vilmente lhes são exigidas.

Se pararmos no setor agrícola, a emergência é ainda mais alarmante: milhares de crianças são obrigadas a trabalhar incansavelmente, em condições exaustivas, precárias e degradantes, sofrendo maus-tratos, abusos e discriminação. Mas a situação chega ao ápice da desolação, quando são os próprios pais que são obrigados a mandar seus filhos para o trabalho, porque sem sua contribuição ativa não seriam capazes de sustentar a família.

Senhor Diretor-Geral, que possa surgir um grito poderoso desta reunião que exorta as autoridades internacionais e nacionais competentes a defenderem a serenidade e a felicidade das crianças. O investimento mais lucrativo que a humanidade pode fazer é a proteção da criança! Proteger as crianças é respeitar o tempo do seu crescimento, permitindo que estes frágeis rebentos tenham as condições ideais para a sua abertura e floração. 

Proteger as crianças implica também tomar medidas incisivas para ajudar as famílias dos pequenos agricultores, para que não sejam obrigados a mandar os filhos ao campo para aumentarem os seus rendimentos, o que, sendo tão baixos, não lhes permite manter os seus rendimentos com dignidade. casas. Por fim, proteger as crianças implica agir de forma que se abram horizontes diante delas, configurando-as como cidadãos livres, honestos e solidários.

Quão importante seria para um sistema legal bem-sucedido e eficaz, tanto internacional quanto nacional, defender e proteger as crianças daquela mentalidade tecnocrática nociva que se instalou no presente. Para isso, é necessário multiplicar as pessoas e as associações que, a todos os níveis, se esforcem para que o desejo de lucro excessivo que condena as crianças e os jovens ao jugo brutal da exploração do trabalho dê lugar à lógica do cuidado. 

Nesse sentido, é necessário um trabalho de denúncia, educação, conscientização e convicção para que quem não tem escrúpulos de escravizar a infância com fardos insuportáveis veja mais longe e mais fundo, superando o egoísmo e essa ânsia de consumir compulsivamente que acabam devorando o planeta, esquecendo que seus recursos devem ser preservados para as gerações futuras.

Excelência, se almejamos que a nossa sociedade possa gozar daquela dignidade que a enobrece, se queremos que a lei triunfe sobre a arbitrariedade, devemos assegurar aos nossos filhos e jovens um presente sem exploração laboral. E isso só será possível se nos envolvermos conjunta e peremptoriamente com eles, guardando e cultivando seus sonhos, brincando, treinando e aprendendo. Então, um futuro brilhante se abrirá para a família humana. Não tenho dúvidas de que o evento de hoje e o atual Ano Internacional pela Eliminação do Trabalho Infantil contribuirão para isso.

Ao renovar a vontade da Santa Sé e o empenho da Igreja Católica e das suas instituições para que a comunidade internacional não deixe de combater com firmeza, conjunta e decisivamente o flagelo da exploração laboral de menores, invoco-o, Senhor Diretor-Geral, e para todos os que se esforçam para libertar crianças e jovens de todas as adversidades, a bênção do Deus Todo-Poderoso.

Vaticano, 02 de novembro de 2021

Pietro Card. Parolin
Secretário de Estado

3 de novembro de 2021

Mensagem do Santo Padre por ocasião da 26ª sessão da Conferência dos Estados Parte da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre as Mudanças do Clima

 
Traduzido por Renata P. Espíndola
 
 
Para Sua Excelência
O Honorável Alok Sharma
Presidente da COP26, a 26ª Sessão da Conferência das Partes
à Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima
[Glasgow, 31 de outubro - 12 de novembro de 2021]


Vossa Excelência,

No início da Conferência de Glasgow, todos nós estamos cientes de que ela tem a tarefa vital de demonstrar a toda a comunidade internacional se realmente existe uma vontade política de dedicar - com honestidade, responsabilidade e coragem - maiores recursos humanos, financeiros e tecnológicos para mitigar os efeitos negativos das mudanças climáticas e a assistência às nações mais pobres e vulneráveis ​​mais afetadas por elas.[1]

Ao mesmo tempo, percebemos que essa tarefa deve ser realizada em meio a uma pandemia que há quase dois anos devastou nossa família humana. A Covid-19 trouxe imensas tragédias em seu rastro, mas também nos ensinou que, se quisermos vencer a pandemia, não há alternativa: todos nós devemos participar na resposta a esse desafio. E isso, como sabemos, exige uma profunda solidariedade e uma cooperação fraterna entre os povos do mundo.

Nosso mundo pós-pandêmico será necessariamente diferente do que era antes da pandemia. É esse mundo que devemos construir agora, juntos, a partir do reconhecimento dos erros do passado.

Algo semelhante poderia ser dito sobre nossos esforços para enfrentar o problema global da mudança climática. Não há alternativa. Só podemos atingir as metas estabelecidas pelo Acordo de Paris se agirmos de forma coordenada e responsável. Essas metas são ambiciosas e não podem mais ser adiadas. Hoje cabe a você tomar as decisões necessárias.

A COP26 pode e deve oferecer uma contribuição efetiva para a construção consciente de um futuro em que as ações cotidianas e os investimentos econômicos e financeiros possam genuinamente resguardar as condições que garantam uma vida digna e humana aos homens e mulheres, de hoje e de amanhã, num planeta saudável.

Encontramo-nos perante uma mudança histórica, um desafio cultural que exige o empenho de todos, em particular dos países que dispõem de maiores meios. Esses países precisam assumir um papel de liderança nas áreas de financiamento do clima, descarbonização do sistema econômico e da vida das pessoas, promoção de uma economia circular, apoio aos países mais vulneráveis ​​que trabalham para se adaptar ao impacto das mudanças climáticas e para responder. às perdas e danos que causou.

Por sua vez, a Santa Sé, como afirmei na “Cúpula da Ambição Virtual de Alto Nível sobre o Clima” de 12 de dezembro de 2020, adotou uma estratégia de emissões líquidas zero operando em dois níveis:

1) o compromisso do Estado da Cidade do Vaticano para atingir este objetivo de 2050; e,

2) o compromisso da Santa Sé em promover a educação em ecologia integral.

Temos plena consciência de que as medidas políticas, técnicas e operacionais precisam estar vinculadas a um processo educativo que, principalmente entre os jovens, possa promover novos estilos de vida e favorecer um modelo cultural de desenvolvimento e de sustentabilidade centrado na fraternidade e na aliança entre os homens e o ambiente natural. Esses compromissos deram origem a milhares de iniciativas em todo o mundo.

Na mesma linha, em 04 de outubro passado, me juntei a vários líderes religiosos e cientistas na assinatura de um “Apelo Conjunto em vista da COP26”. Na ocasião, ouvimos as vozes de representantes de muitas religiões e tradições espirituais, de muitas culturas e campos científicos. Vozes muito diferentes, com sensibilidades muito diferentes.

No entanto, o que claramente emergiu foi uma convergência notável sobre a necessidade urgente de uma mudança de direção, uma resolução decisiva de passar da "cultura do descarte" prevalente em nossas sociedades para uma "cultura de cuidado" para nossa casa comum e seus habitantes, agora e no futuro.

As feridas infligidas à nossa família humana pela pandemia Covid-19 e o fenômeno da mudança climática são comparáveis ​​àquelas resultantes de um conflito global. Hoje, como no rescaldo da Segunda Guerra Mundial, a comunidade internacional como um todo precisa priorizar a implementação de ações colegiadas, solidárias e prospectivas.

Precisamos de esperança e coragem. A humanidade possui os meios para realizar esta mudança, que exige uma conversão genuína, tanto individual como comunitária, e uma vontade decidida de empreender este caminho. Isso implicará a transição para um modelo de desenvolvimento mais integral e integrador, baseado na solidariedade e na responsabilidade. Uma transição que também deve levar em consideração os efeitos que terá no mundo do trabalho.

Da mesma forma, deve-se ter um cuidado especial com os povos mais vulneráveis, para os quais existe uma crescente “dívida ecológica” relacionada aos desequilíbrios comerciais com repercussões ambientais e ao uso desproporcional dos recursos naturais próprios e de outros países.[2] Não há como negar isso.

A “dívida ecológica” levanta, de certa forma, a questão da dívida externa, cujo ônus muitas vezes impede o desenvolvimento dos povos.[3] O mundo pós-pandêmico pode e deve recomeçar a partir da consideração de todos esses aspectos, juntamente com a instauração de procedimentos cuidadosamente negociados para o perdão da dívida externa, vinculados a uma reestruturação econômica mais sustentável e justa visando atender à emergência climática.

“Os países desenvolvidos devem ajudar a pagar a dívida ecológica, limitando significativamente seu consumo de energia não renovável e ajudando os países mais pobres a apoiar políticas e programas de desenvolvimento sustentável”.[4] Um desenvolvimento do qual, enfim, todos podem participar.

Infelizmente, devemos reconhecer o quanto ainda estamos longe de atingir as metas estabelecidas para combater as mudanças climáticas. Precisamos ser honestos: isso não pode continuar! Mesmo enquanto nos preparávamos para a COP26, ficava cada vez mais claro que não há tempo a perder. Muitos de nossos irmãos e irmãs estão sofrendo com esta crise climática. A vida de inúmeras pessoas, principalmente das mais vulneráveis, experimentou seus efeitos cada vez mais frequentes e devastadores.

Ao mesmo tempo, percebemos que isso também envolve uma crise dos direitos das crianças e que, em um futuro próximo, os migrantes ambientais serão mais numerosos do que os refugiados da guerra e dos conflitos. Agora é a hora de agir com urgência, coragem e responsabilidade. Não menos importante, para preparar um futuro em que nossa família humana esteja em condições de cuidar de si mesma e do meio ambiente.

Os jovens, que nos últimos anos nos instaram fortemente a agir, só herdarão o planeta que decidirmos deixar para eles, com base nas escolhas concretas que fazemos hoje. Chegou o momento de decisões que lhes possam dar motivos de esperança e confiança no futuro.

Eu esperava estar com você pessoalmente, mas não foi possível. Eu o acompanho, no entanto, com minhas orações enquanto você toma essas decisões importantes.

Queira aceitar, Senhor Presidente, as minhas cordiais saudações e bons votos.

Vaticano, 29 de outubro de 2021.
Papa Francisco

[2] Carta Encíclica Laudato Si'', 51.
[3] Carta Encíclica Fratelli Tutti, 126.
[4] Carta Encíclica Laudato Si' , 52.