24 de setembro de 2021

Antiga homilia do Papa Francisco sobre “O permanecer recíproco entre a videira e os ramos” (2020)

Resgato esta antiga homilia porque amo a aparente simplicidade de Francisco e porque ser católica(o) vai muito além do que é exterior. A imagem da figueira e a da videira florida são curiosas porque além de serem espécies diferentes, ambas possuem particularidades de seu desenvolvimento que compartilham o ato de "entranhar-se" com o meio, para "o bem e para o mal". 

A figueira é a primeira planta descrita na Bíblia - "Então, os seus olhos abriram-se; e, vendo que estavam nus, tomaram fo­lhas de figueira, ligaram-nas e fizeram tangas para si" (Gen 3, 7) - e para existir, precisa de um ato de sacrifício de um tipo específico de vespa. Cresce firme e forte, mas apenas uma família produz frutos comestíveis e representa, de certa forma, nosso permanecer no mundo "desligados" de Deus.

Já a videira para frutificar, precisa aguentar o rigor invernal para rebrotar os sarmentos a partir dos nutrientes estocados no ano anterior. Seu passado guiará o seu presente e uma vez gasta a energia acumulada para o rebrotamento, deve extrair do solo os nutrientes necessários para continuar o seu desenvolvimento, de forma que o agricultor é quem guia a sua existência. 

A brotação dos ramos não é uniforme, assim como a distribuição de nutrientes, o que implica nas diferentes fases de amadurecimento dos cachos para a colheita. Alguns cachos possuem desenvolvimento acelerado, outros demoram por mais tempo e ainda existem os tardios; mas todos são cachos bons da mesma videira. O agricultor cuida da videira que cuida de seus ramos para que estes frutifiquem.

"Acaso, meus irmãos, pode a figueira dar azeitonas ou a videira dar figos? Do mesmo modo a fonte de água salobra não pode dar água doce" (Tg 3, 12). Já experimentou água salobra? É aquela que poderia ser doce, mas por motivos diversos houve uma intrusão salina excessiva que a fez deixar de ser potável... Também ser sal no mundo difere de ser insossa(o) ou salgada(o) em demasia. 

Isto tudo te lembra de algo em sua caminha da espiritual? Boa leitura!

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O Senhor volta para “permanecer nele”, e diz-nos: “A vida cristã é permanecer em mim”. Permanecer. E aqui usa a imagem da videira, como os ramos permanecem na videira (cf. Jo 15, 1-8). E este permanecer não é passivo, um adormecer no Senhor: seria talvez um “sono beatífico”; mas não é assim. Este permanecer é ativo e também recíproco. Porquê? Porque Ele diz: «Permanecei em mim e Eu em vós» (v. 4). 

Ele também permanece em nós, não só nós nele. Trata-se de um permanecer recíproco. E noutro trecho diz: «Eu e o Pai viremos a ele e habitaremos nele» (Jo 14, 23). É um mistério, mas um mistério de vida, um mistério muito bonito. Este permanecer recíproco. E também com o exemplo dos ramos: é verdade, sem a videira os ramos nada podem fazer, pois não recebem a seiva, e precisam da seiva para crescer e dar fruto. Mas também a árvore, a videira, precisa dos ramos, porque os frutos não estão ligados à árvore, à videira. É uma necessidade recíproca, é um permanecer mútuo para dar fruto.

E esta é a vida cristã: é verdade, a vida cristã consiste em cumprir os mandamentos (cf. Êx 20, 1-11), é isto que se deve fazer. A vida cristã consiste em percorrer o caminho das bem-aventuranças (cf. Mt 5, 1-13): é assim que se deve fazer. A vida cristã consiste em  fazer obras de misericórdia, como o Senhor nos ensina no Evangelho (cf. Mt 25, 35-36): é assim que se deve fazer. Mas ainda mais: é este permanecer recíproco. 

Sem Jesus nada podemos fazer, como os ramos sem a videira. E Ele - que o Senhor me permita dizê-lo - sem nós parece que nada pode fazer, pois o fruto é dado pelo ramo, não pela árvore, pela videira. Nesta comunidade, nesta intimidade de “permanecer” que é fecunda, o Pai e Jesus permanecem em mim e eu neles.

E qual é – vem-me à mente - a “necessidade” que a videira tem dos ramos? É dar frutos. Qual é a “necessidade” - digamos assim, com um pouco de audácia - qual é a “necessidade” que Jesus tem de nós? O testemunho. Quando no Evangelho diz que somos luz, afirma: «Sede luz, para que os homens “vejam as vossas boas obras e deem glória ao vosso Pai” (Mt 5, 16)», ou seja, o testemunho é a necessidade que Jesus tem de nós. Dar testemunho do seu nome, pois a fé, o Evangelho, cresce pelo testemunho.

Este é um modo misterioso: Jesus glorificado no céu, depois de ter passado pela Paixão, precisa do nosso testemunho para fazer crescer, para anunciar, para que a Igreja cresça. E este é o mistério recíproco do “permanecer”. Ele, o Pai e o Espírito permanecem em nós, e nós permanecemos em Jesus.

Far-nos-á bem pensar e refletir sobre isto: permanecer em Jesus; e Jesus permanece em nós. Permanecer em Jesus para ter a seiva, a força, a justificação, a gratuidade, a fecundidade. E Ele permanece em nós para nos dar a força de [dar] fruto (cf. Jo 5, 15), para nos dar a força do testemunho com o qual a Igreja cresce.

E interrogo-me: "Qual é a relação entre Jesus que permanece em mim e eu que permaneço nele?" É uma relação de intimidade, uma relação mística, uma relação sem palavras. “Mas padre, isto é para os místicos!”. Não, isto é para todos nós. Com pequenos pensamentos: “Senhor, sei que Tu estás aqui [em mim]: dá-me força e farei o que Tu me disseres!”. Este diálogo de intimidade com o Senhor. O Senhor está presente, o Senhor está presente em nós, o Pai está presente em nós, o Espírito está presente em nós; permanecem em nós. Mas devo permanecer neles...

Que o Senhor nos ajude a compreender, a sentir esta mística do permanecer, sobre a qual Jesus insiste tanto, tanto, tanto! Muitas vezes nós, quando falamos da videira e dos ramos, detemo-nos na figura, na profissão do agricultor, do Pai: que aquele [o ramo] que dá fruto é cortado, isto é, podado, e aquele que não o dá é cortado e lançado  fora (cf. Jo 15, 1-2). 

É verdade, faz isto, mas não é tudo, não. Há algo mais. 

Esta é a ajuda: as provações, as dificuldades da vida, até as correções que o Senhor nos faz. Mas não paremos aqui. Entre a videira e os ramos existe este permanecer íntimo. Os ramos, nós, precisamos da seiva, a videira tem necessidade dos frutos, do testemunho.


Papa Francisco

7 de setembro de 2021

Mensagem assinada em conjunto pelo Papa Francisco, o Patriarca Ecumênico Bartolomeu I e o Arcebispo de Cantuária, Justin Welby, para a Proteção da Criação

 Tradução: Renata P. Espíndola


Por mais de um ano, todos nós experimentamos os efeitos devastadores de uma pandemia global - todos nós, ricos ou pobres, fracos ou fortes. Alguns eram mais protegidos ou mais vulneráveis ​​do que outros, mas a rápida disseminação da infecção nos tornou dependentes uns dos outros em nossos esforços para permanecer seguros.

Percebemos que, em face desta calamidade global, ninguém está seguro até que todos estejam seguros, que nossas ações realmente afetam os outros e que o que fazemos hoje afeta o que acontece amanhã.

Essas não são lições novas, mas tivemos que enfrentá-las novamente. Espero que não percamos este momento. Devemos decidir que tipo de mundo queremos deixar para as gerações futuras. Deus ordena: "Escolhe a vida, para que tu e a tua descendência vivam" (Dt 30, 19). Devemos escolher viver de maneira diferente; devemos escolher a vida.

Muitos cristãos celebram setembro como a época da criação, uma oportunidade de orar e cuidar da criação de Deus. Enquanto os líderes mundiais se preparam para se reunir em Glasgow em novembro para deliberar sobre o futuro de nosso planeta, oramos por eles e consideramos as decisões que todos devemos tomar. 

Consequentemente, como líderes de nossas Igrejas, apelamos a todos, seja qual for sua crença ou cosmovisão, a se esforçarem para ouvir o clamor da terra e das pessoas que são pobres, examinando seu comportamento e se comprometendo a fazer sacrifícios significativos pelo bem da terra que Deus nos deu.


A importância da sustentabilidade


Em nossa tradição cristã comum, as escrituras e os santos fornecem perspectivas iluminadoras para a compreensão tanto das realidades do presente quanto da promessa de algo maior do que o que vemos agora. O conceito de mordomia - responsabilidade individual e coletiva pelo dom que Deus nos deu - representa um ponto de partida vital para a sustentabilidade social, econômica e ambiental

No Novo Testamento, lemos sobre o homem rico e tolo que armazena grandes riquezas de trigo enquanto se esquece de sua finitude (Lc 12: 13-21). Também conhecemos o filho pródigo que exige a sua herança com antecedência, só para esbanjá-la e acabar com fome (Lc 15,11-32). 

Somos avisados ​​de que não devemos adotar soluções de curto prazo e aparentemente baratas para construir na areia, em vez de construir na rocha, para que nossa casa comum resista às tormentas (Mt 7,24-27). Essas histórias nos convidam a uma perspectiva mais ampla e a reconhecer nosso lugar na história universal da humanidade.

Mas temos tomado a direção oposta. Maximizamos nosso interesse próprio às custas das gerações futuras. Ao nos concentrarmos em nossa riqueza, descobrimos que os ativos de longo prazo, incluindo a riqueza da natureza, são esgotados para benefícios de curto prazo. 

A tecnologia abriu novas possibilidades de progresso, mas também de acumulação desenfreada de riqueza, e muitos de nós nos comportamos de uma maneira que demonstra pouca preocupação com as outras pessoas ou com os limites do planeta

A natureza é resistente, mas também delicada. Já estamos vendo as consequências de nossa recusa em protegê-la e preservá-la (Gn 2,15). Agora, neste momento, temos a oportunidade de nos arrepender, de dar uma volta decisiva, de ir na direção oposta. Devemos perseguir a generosidade e a justiça na maneira como vivemos, trabalhamos e usamos o dinheiro, ao invés de uma ganância egoísta.


O impacto nas pessoas que vivem na pobreza


A atual crise climática diz muito sobre quem somos e como vemos e tratamos a criação de Deus. Estamos diante de uma justiça implacável: a perda da biodiversidade, a degradação ambiental e as mudanças climáticas são as consequências inevitáveis ​​de nossas ações, pois temos avidamente consumido mais recursos da Terra do que o planeta pode suportar

Mas também enfrentamos uma profunda injustiça: as pessoas que sofrem as consequências mais catastróficas desses abusos são as mais pobres do planeta e as que menos têm a responsabilidade de causá-los

Servimos a um Deus de justiça, que se deleita na criação e cria cada pessoa à imagem e semelhança de Deus, mas que também ouve o clamor dos pobres. Conseqüentemente, há um chamado inato dentro de nós para responder com angústia quando vemos uma injustiça tão devastadora.

Hoje estamos pagando o preço. O clima extremo e os desastres naturais dos últimos meses nos revelam mais uma vez com grande força e com grande custo humano que as mudanças climáticas não são apenas um desafio futuro, mas uma questão imediata e urgente de sobrevivência. Inundações, incêndios e secas generalizadas ameaçam continentes inteiros. O nível do mar sobe, forçando muitas comunidades a se mudarem; ciclones devastam regiões inteiras, arruinando vidas e meios de subsistência. 

A água tornou-se escassa e o abastecimento de alimentos inseguro, causando conflito e deslocamento de milhões de pessoas. Já vimos isso em lugares onde as pessoas dependem de fazendas de pequena escala. 

Hoje vemos isso nos países mais industrializados, onde nem mesmo infra-estruturas sofisticadas podem impedir completamente uma destruição extraordinária.

Amanhã pode ser pior. As crianças e os adolescentes de hoje enfrentarão consequências catastróficas se não assumirmos agora a responsabilidade, como "colaboradores de Deus" (Gn 2,4-7), de sustentar o nosso mundo. Freqüentemente ouvimos de jovens que entendem que seu futuro está ameaçado. 

Por isso, devemos escolher comer, viajar, gastar, investir e viver de maneira diferente, pensando não apenas nos juros e ganhos imediatos, mas também nos benefícios futuros. Nos arrependemos dos pecados de nossa geração. Estamos ao lado de nossos irmãos e irmãs mais novos ao redor do mundo em oração comprometida e ação determinada por um futuro que cada vez mais corresponde às promessas de Deus.




O imperativo da cooperação


Ao longo da pandemia, aprendemos o quão vulneráveis ​​somos. Nossos sistemas sociais estão desgastados e descobrimos que não podemos controlar tudo. Devemos reconhecer que a maneira como usamos o dinheiro e organizamos nossas sociedades não beneficiou a todos. Nos descobrimos fracos e ansiosos, imersos em uma série de crises: sanitária, ambiental, alimentar, econômica e social, todas profundamente interligadas.

Essas crises nos apresentam uma escolha. Estamos em uma posição única para confrontá-los com miopia e especulação ou para aproveitá-los como uma oportunidade de conversão e transformação. Se pensarmos na humanidade como uma família e trabalharmos juntos por um futuro baseado no bem comum, podemos nos encontrar vivendo em um mundo muito diferente. Juntos, podemos compartilhar uma visão de vida na qual todos prosperam. Juntos podemos escolher agir com amor, justiça e misericórdia. Juntos, podemos caminhar em direção a uma sociedade mais justa e gratificante, com os mais vulneráveis ​​no centro.

Mas isso envolve fazer mudanças. Cada um de nós, individualmente, deve assumir a responsabilidade pela maneira como usamos nossos recursos. Este caminho requer uma colaboração cada vez mais estreita entre todas as igrejas em seu compromisso com o cuidado da criação. Juntos, como comunidades, igrejas, cidades e nações, devemos mudar o curso e descobrir novas formas de trabalhar juntos para quebrar as barreiras tradicionais entre os povos, parar de competir por recursos e começar a colaborar.

Para aqueles com responsabilidades de longo alcance - administrar administrações, administrar empresas, empregar pessoas ou investir fundos - dizemos: escolha benefícios centrados nas pessoas; fazer sacrifícios de curto prazo para salvaguardar todos os nossos futuros; tornar-se líderes na transição para economias justas e sustentáveis. “Aos que muito foi dado, muito será exigido” (Lc 12,48).

Esta é a primeira vez que nós três nos sentimos compelidos a abordar juntos a urgência da sustentabilidade ambiental, seu impacto na pobreza persistente e a importância da cooperação global. Juntos, em nome de nossas comunidades, apelamos ao coração e à mente de cada cristão, cada crente e cada pessoa de boa vontade. Oramos por nossos líderes que se encontrarão em Glasgow para decidir o futuro de nosso planeta e seu povo. Mais uma vez, recordamos a Escritura: "Escolhe a vida, para que tu e a tua descendência vivam" (Dt 30,19). Escolher a vida significa fazer sacrifícios e exercer moderação.

Todos nós, quem somos e onde quer que estejamos, podemos desempenhar um papel na mudança de nossa resposta coletiva à ameaça sem precedentes da mudança climática e da degradação ambiental.

Cuidar da criação de Deus é um mandato espiritual que requer uma resposta comprometedora. Este é um momento crítico. O futuro de nossos filhos e de nossa casa comum depende disso.


1 de setembro de 2021
Patriarca Bartolomeu I   -   Papa Francisco   -    Arcebispo de Cantebury Justin Welby



31 de agosto de 2021

Na mesma data de entrega do Relatório Bruntland em 1987, S.S. São João Paulo II escrevia sobre solidariedade social à 10ª Conferência da UN-Habitat

Aproveito alguns momentos de folga para compartilhar catequeses antigas, que foram realizadas em datas singulares para o conhecimento dos profissionais católicos romanos da área ambiental. Todos semearam para que Francisco pudesse ver os frutos se desenvolvendo, organizasse a diversidade de cultivos e desse instruções para que, até a colheita, muitos não se percam e a Criação - pela graça de Deus - possa sustentá-los.  Quanto as datas citadas no título, não acredito em coincidências, mas na Providência... 😄

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Para o Dr. Arcot Ramachandran,
Diretor Executivo da “Habitat”


Neste Ano Internacional dedicado aos desabrigados, apresento as minhas cordiais saudações a vós e a todos os participantes na 10ª sessão comemorativa do "Habitat", o Centro das Nações Unidas para os Assentamentos Humanos.

Desde o início, a Igreja teve um interesse ativo nas metas e atividades do Centro. Neste décimo aniversário da sua fundação, asseguro-vos que este interesse tem crescido ao longo dos anos, assim como a convicção da urgência vital de esforços coordenados para ajudar eficazmente os desabrigados ou àqueles com moradia inadequada.

É cada vez mais claro que o problema da habitação, como tantos outros problemas humanos em nosso mundo hoje, só pode ser resolvido com a cooperação de toda a comunidade internacional. Assim o declarei na minha Mensagem para o Dia Mundial da Paz de 1987: “O desafio urgente que nos é apresentado consiste na necessidade de adotar uma atitude de solidariedade social com toda a família humana e com tal atitude enfrentarmos todas as situações sociais e políticas ”.

A Habitat está em condições de encorajar e fomentar exatamente essa atitude e de ajudar nos esforços para colocá-la em prática, especialmente no que diz respeito ao bem-estar das pessoas que sofrem com uma moradia inadequada. Embora o número de desabrigados e de pessoas sem um refúgio digno continue a crescer, não deveríamos esperar que o desejo de ajudá-los  também cresça cada vez mais? 

Rogo a Deus para que vejamos muitos setores da comunidade mundial empenhados no planejamento e implementação de estratégias de habitação, esforços que manifestarão uma atitude prática de solidariedade social com todos os necessitados.

Sobre vós e sobre todos os participantes da sessão em Nairóbi, invoco os dons de sabedoria e paz de Deus.

20 de março de 1987

Mensagem de S.S. Paulo VI para a Conferência das Nações Unidas sobre o Desenvolvimento e Meio Ambiente Humano em Estocolmo - 1972


Aproveito alguns momentos de folga para compartilhar catequeses antigas, que foram realizadas em datas singulares para o conhecimento dos profissionais católicos romanos da área ambiental. Todos semearam para que Francisco pudesse ver os frutos se desenvolvendo, organizasse a diversidade de cultivos e desse instruções para que, até a colheita, muitos não se percam e a Criação - pela graça de Deus - possa sustentá-los.

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Sr. Secretário Geral,


Por ocasião da abertura da Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente, cuja preparação Vossa Excelência assegurou com zelo e competência, gostaríamos de manifestar a Vossa Excelência e a todos os participantes o interesse com que acompanhamos este grande empreendimento. A preocupação em preservar e melhorar o meio natural, bem como a nobre ambição de estimular um primeiro gesto de cooperação mundial a favor deste bem necessário para todos, respondem a imperativos profundamente sentidos pelos homens do nosso tempo.

Com efeito, hoje surge a consciência de que o homem e o seu meio natural são, como nunca antes, inseparáveis: o meio ambiente condiciona - essencialmente - a vida e o desenvolvimento do homem; este, por sua vez, aperfeiçoa e enobrece o meio ambiente com sua presença, seu trabalho, sua contemplação.

Mas a capacidade criativa do homem não produzirá frutos autênticos e duradouros, exceto na medida em que o homem respeite as leis que regem o impulso vital e a capacidade regenerativa da natureza: um e outro são, portanto, solidários e compartilham um futuro temporário comum. Devemos também chamar a atenção da humanidade para substituir o ímpeto, muitas vezes cego e brutal, do progresso material abandonado ao seu único dinamismo, pelo respeito pela biosfera enquadrado numa visão global dos seus domínios que se tornam "uma só terra", para usar o lindo slogan da Conferência.

A supressão das distâncias graças ao avanço das comunicações, o estabelecimento de laços cada vez mais estreitos entre os povos devido ao desenvolvimento econômico, a crescente submissão das forças da natureza à ciência e à tecnologia, a multiplicação das relações Os seres humanos acima das barreiras das nacionalidades e raças. São tantos os fatores de interdependência para melhor ou para pior, para a esperança de salvação ou para o perigo de desastre. Um abuso, uma deterioração causada em uma parte do mundo tem suas repercussões em outros lugares e pode alterar a qualidade de vida de outras pessoas, muitas vezes sem seu conhecimento e sem culpa própria.

O homem, aliás, sabe com certeza que o progresso científico e técnico, apesar de seus aspectos promissores para a promoção de todos os povos, traz em si, como todas as obras humanas, seu forte fardo de ambivalência para o bem e para o bem. É, sobretudo, a aplicação que a inteligência deve fazer de suas descobertas com fins destrutivos, como é o caso das armas atômicas, químicas e bacteriológicas, e tantos outros instrumentos de guerra, grandes ou pequenos, no que diz respeito às armas

A consciência moral não sente nada além de horror. E, como ignorar os desequilíbrios causados ​​na biosfera pela exploração, sem ordem, das reservas físicas do planeta, mesmo para fins de produção de coisas úteis, bem como o desperdício de reservas naturais não renováveis, contaminação do solo, da água , ar, espaço, com seus ataques à vida vegetal e animal?

Tudo isso contribui para empobrecer e deteriorar o meio ambiente do homem a ponto de ameaçar, dizem, sua própria sobrevivência.

Por fim, devemos enfatizar fortemente o desafio que se coloca à nossa geração para que, deixando de lado os objetivos parciais e imediatos, ofereça aos homens de amanhã uma terra que lhes seja hospitaleira.

A corresponsabilidade deve doravante responder à interdependência; a solidariedade deve corresponder à comunidade de destino. Tudo isso não será alcançado recorrendo a soluções fáceis. Assim como o problema demográfico não se resolve limitando indevidamente o acesso à vida, o problema ambiental também não pode ser enfrentado apenas com medidas técnicas. 

Estes são essenciais e a vossa Assembleia deverá estudá-los e propor os meios adequados para retificar a situação. Por exemplo, é bastante evidente que sendo a indústria uma das principais causas da poluição, é absolutamente necessário que aqueles que a dirigem aperfeiçoem seus métodos e encontrem os meios - sem prejudicar, na medida do possível, a produção - de eliminar completamente os causas da poluição, ou pelo menos reduzi-las.

Nesse trabalho de remediação, fica evidente também que o químico tem um papel importante e grande esperança se deposita em sua capacidade profissional.

Mas todas as medidas técnicas seriam ineficazes se não fossem acompanhadas pela consciência da necessidade de uma mudança radical de mentalidades. Todos são chamados a agir com lucidez e coragem. Nossa civilização, tentada a avançar em suas realizações prodigiosas por meio da dominação despótica do meio ambiente humano, saberá como descobrir com o tempo a maneira de controlar seu crescimento?

01 de junho de 1972
Papa Paulo VI




Mensagem de S.S. Paulo VI para a Conferência das Nações Unidas sobre o Desenvolvimento e Meio Ambiente Humano na ocasião do V Dia Mundial do Meio Ambiente - 1977


Aproveito alguns momentos de folga para compartilhar catequeses antigas, que foram realizadas em datas singulares para o conhecimento dos profissionais católicos romanos da área ambiental. Todos semearam para que Francisco pudesse ver os frutos se desenvolvendo, organizasse a diversidade de cultivos e desse instruções para que, até a colheita, muitos não se percam e a Criação - pela graça de Deus - possa sustentá-los.

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E Deus viu todas as coisas que havia feito, e eram muito boas” (Gn 1:51).

Este texto antigo, tão simples e ao mesmo tempo tão profundo, lembra a todos nós hoje que temos que considerar e aceitar o mundo em que vivemos, esta Criação, como boa, como um todo. Bom, porque é um presente de Deus; bom, porque constitui o ambiente no qual todos nós fomos colocados e no qual somos chamados a viver a nossa vocação em solidariedade uns com os outros.

Nos últimos anos, tem havido uma consciência crescente em todo o mundo de que "o meio ambiente condiciona essencialmente a vida e o desenvolvimento do homem; o homem, por sua vez, aperfeiçoa e enobrece o meio ambiente com sua presença, seu trabalho, sua contemplação" (Mensagem à Conferência de Estocolmo sobre o Meio Ambiente; L'Osservatore Romano, Edição em Língua Espanhola, 18 de junho de 1972, p. 1)

Portanto, é muito reconfortante ver os membros das Nações Unidas proclamarem um Dia Mundial do Meio Ambiente, para que todos, em todos os lugares, possam aproveitar esta oportunidade para celebrar os bens desta terra e compartilhá-los de forma mais consciente e igualitária com todos os seus irmãos e irmãs.

Essa consciência do nosso meio ambiente é mais urgente hoje do que nunca. Porque os homens, que têm os meios e a capacidade de construir e enobrecer o mundo ao seu redor, também podem destruí-lo e esbanjar seus bens. A ciência e a tecnologia humanas alcançaram objetivos maravilhosos. Mas você tem que ter cuidado para que eles sejam usados ​​para aumentar a vida humana, não para diminuí-la. O esforço humano trouxe muita riqueza para fora da terra. Mas esta riqueza não deve ser desperdiçada supérflua por uma minoria, nem egoisticamente acumulada para o benefício de uns poucos às custas do resto da humanidade necessitada.

Por isso, a celebração deste Dia do Meio Ambiente em que vivemos deve ser ao mesmo tempo um apelo à união de todos nós, guardiães da Criação de Deus. Deve ser um caminho para renovar o nosso empenho na tarefa de preservar, melhorar e dar às gerações futuras um ambiente saudável, no qual cada pessoa se sinta realmente em casa (cf. Mensagem citada).

O propósito de tal apelo requer mais do que uma mera renovação de esforços. Exige uma mudança de mentalidade, uma conversão de atitudes e práticas, para que os ricos usem voluntariamente menos os bens da terra e os compartilhem de forma mais ampla e sábia. Exige simplicidade no estilo de vida e uma sociedade que saiba conservar de forma inteligente, em vez de consumir desnecessariamente. Exige, por fim, um sentido universal de solidariedade, no qual cada pessoa e cada nação desempenhe o seu papel próprio e interdependente, para garantir um ambiente ecologicamente saudável para as pessoas de hoje e para as gerações futuras.

Tudo o que é criado por Deus é bom”, escreveu o apóstolo Paulo. Rezamos intensamente para que este Dia do Meio Ambiente seja uma ocasião para todos e em todos os lugares se alegrarem com a sabedoria deste grito e se comprometerem a compartilhar e preservar fraternalmente um meio ambiente puro, como patrimônio comum de toda a humanidade.


Papa Paulo VI


Paulo VI e um excerto de uma audiência geral em 19.01.1972.

Há quase cinquenta anos... Por curiosidade, fui procurar algo no ano em que nasci e encontrei uma mensagem curta e profunda pertinho do meu aniversário. Ah, a vaidade humana! 😄

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Procure colocar sua mente, seu espírito, na verdade sua consciência de viver diante do acúmulo de questões importantes, aquelas relativas à origem do universo, o sentido da vida, a ansiedade de saber o destino da humanidade, o fenômeno religioso que pretende para responder a esses problemas, absorvendo e superando o que a ciência e a filosofia podem nos dizer sobre isso.

E tentar colocar o fato cristão no meio e acima dessas questões, que reconhecidas em suas necessidades ilimitadas chamamos de trevas, mas que em comparação com o próprio fato cristão se tornam mais claras e nos permitem vislumbrar sua profundidade misteriosa e ao mesmo tempo uma certa novidade própria, uma beleza maravilhosa, e ouvirás ecoar em ti, como se fossem pronunciadas neste preciso momento, as conhecidas palavras do Evangelho de João: "A luz brilha nas trevas" (Io. 1, 5).

O panorama do cosmos é iluminado como se o sol tivesse nascido da noite, as coisas mostram sua ordem encantadora e ainda explorável; e o homem, quase rindo e tremendo de alegria, passa a se conhecer e se descobre como o viajante privilegiado que caminha, mínimo e máximo no palco do mundo, com a consciência simultânea de ter o direito e a capacidade de dominá-lo, e de ter o dever e a possibilidade de transcendê-lo no fascínio de uma nova relação que o domina: o diálogo com Deus; um diálogo que se abre assim: “Pai nosso, que estás nos céus... "


Fonte: NASA (2014)


Não é um sonho, não é uma fantasia, não é uma alucinação. É simplesmente o efeito primário e normal do Evangelho, de sua luz na tela de uma alma, que se abriu para seus raios. Como é chamada essa projeção de luz? É chamada de Revelação. E como se chama essa abertura da alma? É chamada de fé.

15 de agosto de 2021

Solenidade de Assunção da Virgem Maria

 

Queridos irmãos e irmãs, bom dia e boa festa!

No Evangelho de hoje, solenidade da Assunção da Bem-Aventurada Virgem Maria ao céu, o Magnificat se destaca na liturgia. Esta canção de louvor é como uma "fotografia" da Mãe de Deus. Maria «Alegra-se em Deus. Porquê? Porque viu a humildade do seu serva», diz-o (cf. Lc 1,47-48).

A humildade é o segredo de Maria. Foi a humildade que atraiu o olhar de Deus para ela. O olho humano sempre busca a grandeza e se deslumbra com o que é ostensivo. Deus, por outro lado, não olha para as aparências, Deus olha para o coração (cf. 1 Sam 16,7) e ama a humildade. A humildade de corações encanta a Deus. Hoje, olhando para María Assunta, podemos dizer que a humildade é o caminho que leva ao céu. 

A palavra "humildade", como sabemos, vem do latim húmus, que significa "terra". É paradoxal: para chegar ao topo, ao céu, é preciso permanecer abaixado, como a terra. Jesus ensina: «Quem se humilha será exaltado» (Lc 14,11). Deus não nos exalta por causa de nossos dons, riquezas ou habilidades, mas por causa da humildade. Deus ama a humildade. Deus levanta aquele que rebaixa, eleva aquele que serve. Com efeito, Maria não se atribui mais do que o «título» de serva, para servir: é «a escrava do Senhor» (Lc 1, 38). Não diz mais nada sobre si mesmo, não busca nada mais para si. Apenas seja o servo do Senhor.

Portanto, hoje podemos nos perguntar, cada um de nós em nossos corações: como está a minha humildade? Procuro ser reconhecido pelos outros, reafirmar-me e ser elogiado, ou prefiro pensar em servir? Sei ouvir, como Maria, ou quero apenas falar e receber atenção? Sei calar, como Maria, ou estou sempre tagarelando? Sei como recuar, desarmar brigas e discussões ou apenas tento sempre me destacar? Vamos pensar sobre essas questões, cada um de nós. Como está minha humildade?

Maria, em sua pequenez, primeiro conquista os céus. O segredo de seu sucesso está justamente em se reconhecer como pequena, em se reconhecer como necessitada. Com Deus, só quem se reconhece como nada é capaz de receber tudo. Só quem se esvazia é preenchido por Ele. E Maria é «cheia de graça» (v. 28) precisamente por causa da sua humildade. 

Também para nós, a humildade é o ponto de partida, sempre, é o início da nossa fé. É essencial ser pobre de espírito, ou seja, carente de Deus. Aquele que está cheio de si não dá espaço a Deus, e tantas vezes nós estamos cheios de nós mesmos, e aquele que é cheio de si não dá espaço a Deus, mas aquele que permanece humilde permite que o Senhor faça grandes coisas (cf. v. 49).

O poeta Dante se refere à Virgem Maria como "humilde e superior a uma criatura" (Paraíso XXXIII, 2). É lindo pensar que a criatura mais humilde e elevada da história, a primeira a conquistar os céus com todo o seu ser, corpo e alma, passou a vida principalmente dentro de casa, passou a vida no comum, na humildade. Os dias da "Cheia de Graça" não foram muito impressionantes. Muitas vezes acontecia o mesmo, em silêncio: do lado de fora, nada de extraordinário. Mas o olhar de Deus permaneceu sempre nela, admirando sua humildade, sua disponibilidade, a beleza de seu coração, nunca tocado pelo pecado.

Esta é uma grande mensagem de esperança para nós; para você, para cada um de nós, para você que vive os mesmos dias, exaustivos e muitas vezes difíceis. Maria te lembra hoje que Deus também te chama para este destino de glória. Não são palavras bonitas, é verdade. Não é um final feliz inventado, uma ilusão piedosa ou um falso consolo. Não, é a verdade, é a realidade pura, viva e verdadeira como a Virgem Assunta ao Céu. Vamos festejá-la hoje com o amor das crianças, festejemos com alegria, mas com humildade, encorajados pela esperança de um dia estar com ela no céu.

E rezemos a ela agora, para nos acompanhar no caminho que leva da terra ao céu. Que ela nos lembre que o segredo do caminho está na palavra humildade. Não te esqueças desta palavra e que Nossa Senhora nos lembre sempre dela. E essa pequenez e serviço são os segredos para alcançar a meta, para alcançar o céu.


Giusto de' Menabuoi - A Mulher e o DragãoFresco, c.1376-78 - Baptistério da Catedral de Pádua

(...)

Eu me associo à preocupação unânime sobre a situação no Afeganistão. Peço-lhe que reze comigo ao Deus da paz para que cesse o rugido das armas e se encontrem soluções na mesa do diálogo. Só assim a atormentada população daquele país - homens, mulheres, idosos e crianças - poderá regressar às suas casas e viver em paz e segurança com pleno respeito mútuo.

Nas últimas horas houve um forte terremoto no Haiti, que causou muitas mortes, feridos e consideráveis ​​danos materiais. Gostaria de expressar minha proximidade a essa querida população que foi duramente atingida pelo terremoto. Ao elevar minhas orações ao Senhor pelas vítimas, dirijo minha palavra de encorajamento aos sobreviventes, esperando que a comunidade internacional se interesse por eles. Que a solidariedade de todos alivie as consequências da tragédia! Rezemos juntos a Nossa Senhora pelo Haiti. Ave Maria...

(...)

Penso sobretudo nos doentes, nos idosos, nos reclusos, nos desempregados, nos refugiados e em todos os que estão sozinhos ou em dificuldades. Que Maria estenda a proteção materna a cada uma delas.

(...)

Desejo a todos um bom domingo e uma feliz festa da Assunção. E, por favor, não se esqueça de orar por mim. Tenha um bom almoço e adeus!


Papa Francisco
Ângelus, 15.08.2021.



Obs.: No menu à direita há um link ativo para acesso ao sítio eletrônico da Cáritas Haiti.

11 de agosto de 2021

15.08 - Início da Quaresma de São Miguel Arcanjo 2021


Retiro Quaresmal


Vamos trilhar o caminho de São Francisco com a Quaresma de São Miguel Arcanjo por nossas vidas e pela Criação? 


Esta quaresma deve ser rezada, diariamente, entre os dias 15 de agosto e 29 de setembro, dia da Festa de São Miguel. Podendo ser rezada também em outras épocas do ano por um período de 40 dias.


Para se preparar para esta Quaresma é necessário:


  • Acender uma vela abençoada diante de uma imagem ou estampa de São Miguel Arcanjo;
  • Oferecer uma penitência durante os 40 dias;
  • Rezar determinadas orações todos os dias.

A minha farei junto ao altar doméstico que possuo com crucifixo, mini-círio, imagem de Nossa Senhora do Carmo e de outros santos. Sou consagrada há anos, mas ando pesada por graves rancores, implicâncias, maledicências internas e, mesmo que estejamos ainda neste isolamento da pandemia, espero por fim poder me corrigir, perdoar, para então buscar a reconciliação.

Irei ofertá-la também para que não percamos ainda mais o rumo em nossa governança sobre a Criação, pois nos últimos dois meses as consequências começaram a ficar ainda mais evidentes.  Quem não desejar fazer a quaresma, poderá participar dos momentos de oração que irão ocorrer globalmente, coordenados pelo Movimento Laudato Si'.




As orações utilizadas nesta trajetória são:

1. Sinal da Cruz:


"Pelo sinal, da Santa Cruz, livrai-nos Deus, Nosso Senhor, dos nossos inimigos. Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém."


2. Pequeno Exorcismo do Papa Leão XIII:


"São Miguel Arcanjo, defendei-nos no combate. Cobri-nos com o vosso escudo contra os embustes e ciladas do demônio. Subjugue-o Deus, instantemente o pedimos; e vós, príncipe da milícia celeste, pelo divino poder, precipitai no inferno Satanás e os outros espíritos malignos que andam pelo mundo para perder as almas. Amém."


3. Ladainha de São Miguel Arcanjo:


"Senhor, tende piedade de nós.
Cristo, tende piedade de nós.
Senhor, tende piedade de nós.

Cristo, ouvi-nos.
Cristo, atendei-nos.
Pai Celeste, que sois Deus, tende piedade de nós.
Filho, Redentor do Mundo, que sois Deus, tende piedade de nós.
Espírito Santo, que sois Deus, tende piedade de nós.
Trindade Santa, que sois um único Deus, tende piedade de nós.
Santa Maria, Rainha dos Anjos, rogai por nós.
São Miguel, rogai por nós.
São Miguel, cheio da graça de Deus, rogai por nós.
São Miguel, perfeito adorador do Verbo Divino, rogai por nós.
São Miguel, coroado de honra e de glória, rogai por nós.
São Miguel, poderosíssimo príncipe dos exércitos do Senhor, rogai por nós.
São Miguel, porta-estandarte da Santíssima Trindade, rogai por nós.
São Miguel, guardião do Paraíso, rogai por nós.
São Miguel, guia e consolador do povo israelita, rogai por nós.
São Miguel, esplendor e fortaleza da Igreja militante, rogai por nós.
São Miguel, honra e alegria da Igreja triunfante, rogai por nós.
São Miguel, luz dos anjos, rogai por nós.
São Miguel, baluarte dos cristãos, rogai por nós.
São Miguel, força daqueles que combatem pelo estandarte da cruz, rogai por nós.
São Miguel, luz e confiança das almas no último momento da vida, rogai por nós.
São Miguel, socorro muito certo, rogai por nós.
São Miguel, nosso auxílio em todas as adversidades, rogai por nós.
São Miguel, arauto da sentença eterna, rogai por nós.
São Miguel, consolador das almas que estão no Purgatório, rogai por nós.
São Miguel, a quem o Senhor incumbiu de receber as almas depois da morte, rogai por nós.
São Miguel, nosso príncipe, rogai por nós.
São Miguel, nosso advogado, rogai por nós.

Cordeiro de Deus, que tirais o pecado do mundo, perdoai-nos, Senhor.
Cordeiro de Deus, que tirais o pecado do mundo, atendei-nos, Senhor.
Cordeiro de Deus, que tirais o pecado do mundo, tende piedade de nós.

V. Rogai por nós, ó glorioso São Miguel, príncipe da Igreja de Cristo,
R. Para que sejamos dignos de Suas promessas.

Oremos
Senhor Jesus, santificai-nos, por uma bênção sempre nova e concedei-nos, pela intercessão de São Miguel, esta sabedoria que nos ensina a ajuntar riquezas do céu e a trocar os bens do tempo pelos da eternidade. Vós que viveis e reinais em todos os séculos dos séculos.
R. Amém."

4. Pai Nosso:
Um Pai Nosso em honra a São Gabriel Arcanjo.
Um Pai Nosso em honra a São Miguel Arcanjo.
Um Pai Nosso em honra a São Rafael Arcanjo.

"Pai nosso que estais nos céus, santificado seja o vosso nome; venha a nós o vosso reino, seja feita a vossa vontade, assim na terra como no céu. O pão nosso de cada dia nos dai hoje; perdoai-nos as nossas ofensas, assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido. E não nos deixeis cair em tentação, mas livrai-nos do mal. Amém."

5. Orações de petição:

"Gloriosíssimo São Miguel, chefe e príncipe dos exércitos celestes, fiel guardião das almas, vencedor dos espíritos rebeldes, amado da casa de Deus, nosso admirável guia depois de Cristo; vós, cuja excelência e virtudes são eminentíssimas, dignai-vos livrar-nos de todos os males, nós todos que recorremos a vós com confiança, e fazei pela vossa incomparável proteção, que adiantemos cada dia mais na fidelidade em servir a Deus.

V. Rogai por nós, ó bem-aventurado São Miguel, príncipe da Igreja de Cristo.
R. Para que sejamos dignos de Suas promessas.

Oremos
Deus, todo poderoso e eterno, que por um prodígio de bondade e misericórdia para a salvação dos homens, escolhestes para príncipe de Vossa Igreja o gloriosíssimo Arcanjo São Miguel, tornai-nos dignos, nós vo-lo pedimos, de sermos preservados de todos os nossos inimigos, a fim de que na hora da nossa morte nenhum deles nos possa inquietar, mas que nos seja dado de sermos introduzidos por ele na presença da Vossa poderosa e augusta Majestade, pelos merecimentos de Jesus Cristo, Nosso Senhor.
R. Amém."

6. Consagração a São Miguel Arcanjo:

"Ó Príncipe nobilíssimo dos Anjos, valoroso guerreiro do Altíssimo, zeloso defensor da glória do Senhor, terror dos espíritos rebeldes, amor e delícia de todos os Anjos justos, meu diletíssimo Arcanjo São Miguel, desejando eu fazer parte do número dos vossos devotos e servos, a vós hoje me consagro, me dou e me ofereço e ponho-me a mim próprio, a minha família e tudo o que me pertence, debaixo da vossa poderosíssima proteção. É pequena a oferta do meu serviço, sendo como sou um miserável pecador, mas vós engrandecereis o afeto do meu coração; recordai-vos que de hoje em diante estou debaixo do vosso sustento e deveis assistir-me em toda a minha vida e obter-me o perdão dos meus muitos e graves pecados, a graça da amar a Deus de todo coração, ao meu querido Salvador Jesus Cristo e a minha Mãe Maria Santíssima, obtende-me aqueles auxílios que me são necessários para obter a coroa da eterna glória. Defendei-me dos inimigos da alma, especialmente na hora da morte. Vinde, ó príncipe gloriosíssimo, assistir-me na última luta e com a vossa arma poderosa lançai para longe, precipitando nos abismos do inferno, aquele anjo quebrador de promessas e soberbo que um dia prostrastes no combate no Céu. São Miguel Arcanjo, defendei-nos no combate para que não pereçamos no supremo juízo."

7. Augusta Rainha (Indulgenciada pelo Papa Pio X):

"Augusta Rainha do Céu e altíssima soberana dos Anjos, vós que desde os primórdios recebestes de Deus o poder e a missão de esmagar a cabeça de Satanás, humildemente vos rogamos, enviai vossas santas legiões de Anjos, a fim de que à Vossa Ordem e pelo vosso poder persigam os espíritos infernais e em toda a parte os combatam, confundindo-os em sua arrogância e arrojando-os para o abismo. Quem é como Deus? Santos Anjos e Arcanjos, defendei-nos e guardai-nos. Ó Maria, Rainha dos Anjos, mandai a São Miguel defender-nos em todas as ocasiões de perigo da alma e do corpo."

8. Oração Final:

"Levanta-se Deus, pela intercessão da bem-aventurada Virgem Maria, São Miguel Arcanjo e todas as milícias celestes; sejam dispersos todos os seus inimigos e fujam de Sua face todos os que o odeiam. Em nome do Pai, e do Filho e do Espírito Santo. Amém."



18 de julho de 2021

Ângelus: Domingo 18.07.2021 - Por uma ecologia do coração repousando em Cristo

Tradução por R. P. Espíndola


Queridos irmãos e irmãs, bom dia!


A atitude de Jesus que observamos no Evangelho da liturgia hodierna (Mc 6, 30-34) ajuda-nos a compreender dois aspectos importantes da vida. O primeiro é o descanso. Aos Apóstolos que voltam do cansaço da missão e, com entusiasmo, começam a contar tudo o que fizeram, Jesus dirige com ternura um convite: "Vinde só a um lugar deserto, repousar um pouco" (v. 31). Ele o convida a descansar.


Ao fazer isso, Jesus nos dá um ensino valioso. Embora esteja feliz por ver seus discípulos felizes com os prodígios de sua pregação, Ele não se detém em congratulações e perguntas, mas se preocupa com seu cansaço físico e interno. E por que isso acontece? Porque Ele quer alertá-los de um perigo que está sempre à espreita, também para nós: o perigo de se deixar levar pelo frenesi do fazer, de cair na armadilha do ativismo, em que o mais importante são os resultados que obtemos e a sensação de protagonistas absolutos. 


Quantas vezes também acontece na Igreja: estamos ocupados, andamos rápido, pensamos que tudo depende de nós e, no final, corremos o risco de negligenciar Jesus e nos colocar sempre no centro. É por isso que Ele convida os Seus a descansar um pouco em outro lugar, com Ele. Não se trata apenas de descanso físico, mas também de descanso do coração. Porque não basta “desligar”, é preciso descansar mesmo. 


E como isso é feito? Para isso, é necessário voltar ao cerne das coisas: parar, calar-se, rezar, para não passar da correria do trabalho à das férias. 


Jesus não se esquivava das necessidades da multidão, mas todos os dias, antes de mais nada, se retirava na oração, no silêncio, na intimidade com o Pai. O seu terno convite - repousar um pouco - deve acompanhar-nos: protejamo-nos, irmãos e irmãs, da eficiência, detenhamo-nos da corrida frenética que dita as nossas agendas. Aprendamos a parar, a desligar o celular, a contemplar a natureza, a regenerar-nos no diálogo com Deus.



Fonte: Da Autora (2019).



No entanto, o Evangelho narra que Jesus e os discípulos não podem descansar como queriam. As pessoas os encontram e vêm de todos os lugares. Então, o Senhor tem compaixão. Aqui está o segundo aspecto: compaixão, que é o caminho de Deus. O estilo de Deus é proximidade, compaixão e ternura. Quantas vezes, no Evangelho, na Bíblia, encontramos esta frase: “Ele teve compaixão”.


Comovido, Jesus se dedica ao povo e começa a ensinar (cf. vv. 33-34). Parece uma contradição, mas na realidade não é. Na verdade, só o coração que não se deixa sequestrar pela pressa é capaz de se comover, isto é, de não se deixar levar por si e pelas coisas que tem que fazer, e de perceber os outros, suas feridas, de suas necessidades. A compaixão nasce da contemplação. 


Se aprendermos a descansar verdadeiramente, nos tornaremos capazes de ter verdadeira compaixão. Se cultivarmos o olhar contemplativo, realizaremos nossas atividades sem a atitude predatória de quem quer possuir e consumir tudo. Se ficarmos em contato com o Senhor e não entorpecermos a parte mais profunda de nosso ser, as coisas que temos que fazer não terão o poder de nos tirar o fôlego e nos devorar


Precisamos - ouça isso - precisamos de uma "ecologia do coração" composta de descanso, contemplação e compaixão. Vamos aproveitar o "verão" para isso! Isso nos ajuda muito. E agora rezemos a Nossa Senhora, que cultivou o silêncio, a oração e a contemplação, e que sempre se comove com ternura por nós, seus filhos.



Papa Francisco





Fonte: https://www.vatican.va/content/francesco/es/angelus/2021/documents/papa-francesco_angelus_20210718.html


16 de junho de 2021

Mensagem do Santo Padre Francisco para o "V Dia Mundial dos Pobres: 13.06.2021"


"Sempre tereis pobres entre vós" (Mc 14, 7)


1. «Sempre tereis pobres entre vós» (Mc 14, 7): estas palavras foram pronunciadas por Jesus, alguns dias antes da Páscoa, por ocasião duma refeição em Betânia na casa de Simão chamado «o leproso». Como narra o evangelista, entrou lá uma mulher com um vaso de alabastro cheio de perfume muito precioso e derramou-o sobre a cabeça de Jesus. Este gesto suscitou grande estupefação e deu origem a duas interpretações diversas.


A primeira delas é a indignação de alguns dos presentes, incluindo os discípulos, que, ao considerar o valor do perfume (cerca de 300 denários, equivalente ao salário anual dum trabalhador), pensam que teria sido melhor vendê-lo e dar o produto aos pobres. Segundo o Evangelho de João, é Judas que se faz intérprete desta posição: «Porque é que não se vendeu este perfume por trezentos denários, para os dar aos pobres?». E o evangelista observa: «Ele, porém, disse isto, não porque se preocupasse com os pobres, mas porque era ladrão e, como tinha a bolsa do dinheiro, tirava o que nela se deitava» (Jo 12, 5-6). 


Não é por acaso que esta crítica dura sai da boca do traidor: é a prova de que, quantos não reconhecem os pobres, atraiçoam o ensinamento de Jesus e não podem ser seus discípulos. Recordemos, a este propósito, as palavras fortes de Orígenes: «Judas, aparentemente, estava preocupado com os pobres. (…) Se, agora, ainda houver alguém que tem a bolsa da Igreja e fala a favor dos pobres como Judas, mas depois tira o que metem lá dentro, então tenha parte juntamente com Judas» (Comentário ao Evangelho de Mateus 11, 9).


A segunda interpretação é dada pelo próprio Jesus e permite individuar o sentido profundo do gesto realizado pela mulher. Diz Ele: «Deixai-a. Porque estais a atormentá-la? Praticou em Mim uma boa ação» (Mc 14, 6). Jesus sabe que está próxima a sua morte e vê, naquele gesto, a antecipação da unção do seu corpo sem vida antes de ser colocado no sepulcro. 


Esta visão ultrapassa todas as expectativas dos convivas. Jesus recorda-lhes que Ele é o primeiro pobre, o mais pobre entre os pobres, porque os representa a todos. E é também em nome dos pobres, das pessoas abandonadas, marginalizadas e discriminadas que o Filho de Deus aceita o gesto daquela mulher. Esta, com a sua sensibilidade feminina, demonstra ser a única que compreendeu o estado de espírito do Senhor


Esta mulher anônima – talvez por isso destinada a representar todo o universo feminino que, no decurso dos séculos, não terá voz e sofrerá violências –, inaugura a significativa presença de mulheres que participam no momento culminante da vida de Cristo: a sua crucifixão, morte e sepultura e a sua aparição como Ressuscitado. As mulheres, tantas vezes discriminadas e mantidas ao largo dos postos de responsabilidade, nas páginas do Evangelho são, pelo contrário, protagonistas na história da revelação. E é eloquente a frase conclusiva de Jesus, que associa esta mulher à grande missão evangelizadora: «Em verdade vos digo: em qualquer parte do mundo onde for proclamado o Evangelho, há de contar-se também, em sua memória, o que ela fez» (Mc 14, 9).


2. Esta forte «empatia» entre Jesus e a mulher e o modo como Ele interpreta a sua unção, em contraste com a visão escandalizada de Judas e doutros, inauguram um fecundo caminho de reflexão sobre o laço indivisível que existe entre Jesus, os pobres e o anúncio do Evangelho.


Com efeito, o rosto de Deus que Ele revela é o de um Pai para os pobres e próximo dos pobres. Toda a obra de Jesus afirma que a pobreza não é fruto duma fatalidade, mas sinal concreto da sua presença no nosso meio. Não O encontramos quando e onde queremos, mas reconhecemo-Lo na vida dos pobres, na sua tribulação e indigência, nas condições por vezes desumanas em que são obrigados a viver. Não me canso de repetir que os pobres são verdadeiros evangelizadores, porque foram os primeiros a ser evangelizados e chamados a partilhar a bem-aventurança do Senhor e o seu Reino (cf. Mt 5, 3).


Os pobres de qualquer condição e latitude evangelizam-nos, porque permitem descobrir de modo sempre novo os traços mais genuínos do rosto do Pai. Eles «têm muito para nos ensinar. Além de participar do sensus fidei, nas suas próprias dores conhecem Cristo sofredor. É necessário que todos nos deixemos evangelizar por eles. A nova evangelização é um convite a reconhecer a força salvífica das suas vidas, e a colocá-los no centro do caminho da Igreja. Somos chamados a descobrir Cristo neles: não só a emprestar-lhes a nossa voz nas suas causas, mas também a ser seus amigos, a escutá-los, a compreendê-los e a acolher a misteriosa sabedoria que Deus nos quer comunicar através deles. O nosso compromisso não consiste exclusivamente em ações ou em programas de promoção e assistência; aquilo que o Espírito põe em movimento não é um excesso de ativismo, mas primariamente uma atenção prestada ao outro, considerando-o como um só consigo mesmo. Esta atenção amiga é o início duma verdadeira preocupação pela sua pessoa e, a partir dela, desejo de procurar efetivamente o seu bem» (Papa Francisco, Exort. ap. Evangelii gaudium, 198-199).


3. Jesus não só está do lado dos pobres, mas também partilha com eles a mesma sorte. Isto constitui também um forte ensinamento para os seus discípulos de todos os tempos. As suas palavras – «sempre tereis pobres entre vós» – pretendem indicar também isto: a sua presença no meio de nós é constante, mas não deve induzir àquela habituação que se torna indiferença, mas empenhar numa partilha de vida que não prevê delegações


Os pobres não são pessoas «externas» à comunidade, mas irmãos e irmãs cujo sofrimento se partilha, para abrandar o seu mal e a marginalização, a fim de lhes ser devolvida a dignidade perdida e garantida a necessária inclusão social. Aliás sabe-se que um gesto de beneficência pressupõe um benfeitor e um beneficiado, enquanto a partilha gera fraternidade. 


A esmola é ocasional, ao passo que a partilha é duradoura. A primeira corre o risco de gratificar quem a dá e humilhar quem a recebe, enquanto a segunda reforça a solidariedade e cria as premissas necessárias para se alcançar a justiça. Enfim os crentes, quando querem ver Jesus em pessoa e tocá-Lo com a mão, sabem aonde dirigir-se: os pobres são sacramento de Cristo, representam a sua pessoa e apontam para Ele.


Temos muitos exemplos de Santos e Santas que fizeram da partilha com os pobres o seu projeto de vida. Penso, entre outros, no Padre Damião de Veuster, santo apóstolo dos leprosos. Com grande generosidade, respondeu à vocação de ir para a ilha de Molokai – tinha-se tornado um gueto acessível apenas aos leprosos –, a fim de viver e morrer com eles. Lançando-se ao trabalho, tudo fez para tornar digna de ser vivida a existência daqueles pobres doentes e marginalizados, reduzidos à degradação extrema. 


Fez-se médico e enfermeiro, sem se preocupar com os riscos que corria, levando a luz do amor àquela «colônia de morte», como era designada a ilha. A lepra atingiu-o também a ele, sinal duma partilha total com os irmãos e irmãs pelos quais dera a vida. O seu testemunho é muito atual nestes nossos dias, marcados pela pandemia de coronavírus: com certeza a graça de Deus está em ação no coração de muitas pessoas que, sem dar nas vistas, se gastam concretamente partilhando a sorte dos mais pobres.


4. Por isso precisamos de aderir com plena convicção ao convite do Senhor: «Convertei-vos e acreditai no Evangelho» (Mc 1, 15). Esta conversão consiste, primeiro, em abrir o nosso coração para reconhecer as múltiplas expressões de pobreza e, depois, em manifestar o Reino de Deus através dum estilo de vida coerente com a fé que professamos


Com frequência, os pobres são considerados como pessoas à parte, como uma categoria que requer um serviço caritativo especial. Seguir Jesus comporta uma mudança de mentalidade a esse propósito, ou seja, acolher o desafio da partilha e da co-participação. Tornar-se seu discípulo implica a opção de não acumular tesouros na terra, que dão a ilusão duma segurança em realidade frágil e efêmera; ao contrário, requer disponibilidade para se libertar de todos os vínculos que impedem de alcançar a verdadeira felicidade e bem-aventurança, para reconhecer aquilo que é duradouro e que nada e ninguém pode destruir (cf. Mt 6, 19-20).


Mas o ensinamento de Jesus aparece em contracorrente também neste caso, porque promete aquilo que só os olhos da fé podem ver e experimentar com certeza absoluta: «Todo aquele que tiver deixado casas, irmãos, irmãs, pai, mãe, filhos ou campos por causa do meu nome, receberá cem vezes mais e terá por herança a vida eterna» (Mt 19, 29). Se não se optar por tornar-se pobre de riquezas efêmeras, poder mundano e vanglória, nunca se fará capaz de dar a vida por amor; viver-se-á uma existência fragmentária, cheia de bons propósitos, mas ineficaz para transformar o mundo. Trata-se, portanto, de abrir-se decididamente à graça de Cristo, que pode tornar-nos testemunhas da sua caridade sem limites e restituir credibilidade à nossa presença no mundo.





5. O Evangelho de Cristo impele a ter uma atenção muito particular para com os pobres e requer que se reconheça as múltiplas, demasiadas, formas de desordem moral e social que sempre geram novas formas de pobreza. Parece ganhar terreno a concepção, segundo a qual os pobres não só são responsáveis pela sua condição, mas constituem também um peso intolerável para um sistema econômico que coloca no centro o interesse de algumas categorias privilegiadas. 


Um mercado que ignora ou discrimina os princípios éticos cria condições desumanas que se abatem sobre pessoas que já vivem em condições precárias. Deste modo, assiste-se à criação incessante de armadilhas novas da miséria e da exclusão, produzidas por agentes econômicos e financeiros sem escrúpulos, desprovidos de sentido humanitário e responsabilidade social.


Além disso, no ano passado, veio juntar-se outra praga que multiplicou ainda mais o número dos pobres: a pandemia. Esta continua a bater à porta de milhões de pessoas e, mesmo quando não traz consigo o sofrimento e a morte, todavia é portadora de pobreza. Os pobres têm aumentado desmesuradamente e o mesmo, infelizmente, continuará a verificar-se ainda nos próximos meses. Alguns países estão a sofrer gravíssimas consequências devido à pandemia, a ponto das pessoas mais vulneráveis se encontrarem privadas de bens de primeira necessidade. 


As longas filas diante das cantinas para os pobres são o sinal palpável deste agravamento. Um olhar atento requer que se encontrem as soluções mais idôneas para combater o vírus a nível mundial, sem olhar a interesses de parte. De modo particular, é urgente dar respostas concretas a quantos padecem o desemprego, que atinge de maneira dramática tantos pais de família, mulheres e jovens. A solidariedade social e a generosidade de que muitos, graças a Deus, são capazes, juntamente com projetos clarividentes de promoção humana, estão a dar e darão um contributo muito importante nesta conjuntura.


6. Entretanto, permanece de pé uma questão, nada óbvia: "Como se pode dar uma resposta palpável aos milhões de pobres que tantas vezes, como resposta, só encontram a indiferença, quando não a aversão? Qual caminho de justiça é necessário percorrer para que as desigualdades sociais possam ser superadas e seja restituída a dignidade humana tão frequentemente espezinhada?"


Um estilo de vida individualista é cúmplice na geração da pobreza e, muitas vezes, descarrega sobre os pobres toda a responsabilidade da sua condição. Mas a pobreza não é fruto do destino; é consequência do egoísmo. Portanto,é decisivo dar vida a processos de desenvolvimento onde se valorizem as capacidades de todos, para que a complementaridade das competências e a diversidade das funções conduzam a um recurso comum de participação


Há muitas pobrezas dos «ricos» que poderiam ser curadas pela riqueza dos «pobres», bastando para isso encontrarem-se e conhecerem-se. Ninguém é tão pobre que não possa dar algo de si na reciprocidade. Os pobres não podem ser aqueles que apenas recebem; devem ser colocados em condição de poder dar, porque sabem bem como corresponder


Quantos exemplos de partilha diante dos nossos olhos! Os pobres ensinam-nos frequentemente a solidariedade e a partilha. É verdade que são pessoas a quem falta algo e por vezes até muito, se não mesmo o necessário; mas não falta tudo, porque conservam a dignidade de filhos de Deus que nada e ninguém lhes pode tirar.


7. Impõe-se, pois, uma abordagem diferente da pobreza. É um desafio que os governos e as instituições mundiais precisam adotar para si, com um modelo social clarividente, capaz de enfrentar as novas formas de pobreza que invadem o mundo e marcarão de maneira decisiva as próximas décadas. Se os pobres são colocados à margem, como se fossem os culpados da sua condição, então o próprio conceito de democracia é posto em crise e fracassa toda e qualquer política social


Com grande humildade, temos de confessar que muitas vezes não passamos de incompetentes a respeito dos pobres: fala-se deles em abstrato, fica-se pelas estatísticas e pensa-se sensibilizar com qualquer documentário. Ao contrário, a pobreza deveria incitar a uma projetação criativa, que permita fazer aumentar a liberdade efetiva de conseguir realizar a existência com as capacidades próprias de cada pessoa. 


Pensar que a posse de dinheiro consinta e aumente a liberdade é uma ilusão de que devemos afastar-nos. Servir eficazmente os pobres incita à ação e permite encontrar as formas mais adequadas para levantar e promover esta parte da humanidade, demasiadas vezes anônima e sem voz, mas que em si mesma traz impresso o rosto do Salvador que pede ajuda.


8. «Sempre tereis pobres entre vós» (Mc 14, 7): é um convite a não perder jamais de vista a oportunidade que se nos oferece para fazer o bem. Como pano de fundo, pode-se vislumbrar o antigo mandamento bíblico: «Se houver junto de ti um indigente entre os teus irmãos (…), não endurecerás o teu coração e não fecharás a tua mão ao irmão necessitado. Abre-lhe a tua mão, empresta-lhe sob penhor, de acordo com a sua necessidade, aquilo que lhe faltar. (…) Deves dar-lhe, sem que o teu coração fique pesaroso; porque, em recompensa disso, o Senhor, teu Deus, te abençoará em todas as empresas das tuas mãos. Sem dúvida, nunca faltarão pobres na terra» (Dt 15, 7-8.10-11).


E no mesmo cumprimento de onda se coloca o apóstolo Paulo, quando exorta os cristãos das suas comunidades a socorrer os pobres da primeira comunidade de Jerusalém e a fazê-lo «sem tristeza nem constrangimento, pois Deus ama quem dá com alegria» (2 Cor 9, 7). Não se trata de serenar a nossa consciência dando qualquer esmola, mas antes contrastar a cultura da indiferença e da injustiça com que se olha os pobres.


Neste ponto, faz-nos bem recordar as palavras de São João Crisóstomo: «Quem é generoso não deve pedir contas do comportamento, mas somente melhorar a condição de pobreza e satisfazer a necessidade. O pobre só tem uma defesa: a sua pobreza e a condição de necessidade em que se encontra. Não lhe peças mais nada; mesmo que fosse o homem mais malvado do mundo, se lhe vier a faltar o alimento necessário, libertemo-lo da fome. (…) O homem misericordioso é um porto para quem está em necessidade: o porto acolhe e liberta do perigo todos os náufragos, sejam eles malfeitores, bons ou como forem. Aos que se encontram em perigo, o porto acolhe-os, coloca-os em segurança dentro da sua enseada. Também tu, portanto, quando vês por terra um homem que sofreu o naufrágio da pobreza, não o julgues, nem lhe peças conta do seu comportamento, mas liberta-o da desventura» (Discursos sobre o pobre Lázaro, II, 5).


9. É decisivo aumentar a sensibilidade para se compreender as exigências dos pobres, sempre em mutação por força das condições de vida. Com efeito, nas áreas economicamente mais desenvolvidas do mundo, está-se menos predisposto hoje que no passado a confrontar-se com a pobreza. O estado de relativo bem-estar ao qual se habituaram torna mais difícil aceitar sacrifícios e privações. Está-se pronto a tudo só para não ficar privado daquilo que foi fruto de fácil conquista. 


Deste modo, cai-se em formas de rancor, nervosismo espasmódico, reivindicações que levam ao medo, à angústia e, em alguns casos, à violência. Este não é o critério sobre o qual construir o futuro; também estas são formas de pobreza, para as quais não se pode deixar de olhar. Devemos estar abertos a ler os sinais dos tempos que exprimem novas modalidades de ser evangelizadores no mundo contemporâneo. A assistência imediata para acorrer às necessidades dos pobres não deve impedir de ser clarividente para atuar novos sinais do amor e da caridade cristã como resposta às novas pobrezas que experimenta a humanidade de hoje.


Faço votos de que o Dia Mundial dos Pobres, chegado já à sua quinta celebração, possa radicar-se cada vez mais nas nossas Igrejas locais e abrir-se a um movimento de evangelização que, em primeira instância, encontre os pobres lá onde estão. Não podemos ficar à espera que batam à nossa porta; é urgente ir ter com eles às suas casas, aos hospitais e casas de assistência, à estrada e aos cantos escuros onde, por vezes, se escondem, aos centros de refúgio e de acolhimento… É importante compreender como se sentem, o que estão a passar e quais os desejos que têm no coração


Façamos nossas as palavras inflamadas do Padre Primo Mazzolari: «Gostaria de pedir-vos para não me perguntardes se existem pobres, quem são e quantos são, porque tenho receio que tais perguntas representem uma distração ou o pretexto para escapar duma específica indicação da consciência e do coração. (…) Os pobres, eu nunca os contei, porque não se podem contar: os pobres abraçam-se, não se contam» (Revista «Adesso», n.º 7, 15 de abril de 1949). 


Os pobres estão no meio de nós. Como seria evangélico, se pudéssemos dizer com toda a verdade: também nós somos pobres, porque só assim conseguiríamos realmente reconhecê-los e fazê-los tornar-se parte da nossa vida e instrumento de salvação.



Roma, São João de Latrão, na Memória de Santo Antônio, 13 de junho de 2021.



Francisco




Fonte: https://www.vatican.va/content/francesco/pt/messages/poveri/documents/20210613-messaggio-v-giornatamondiale-poveri-2021.html