21 de outubro de 2021

“O planeta que esperamos. Ambiente, trabalho, futuro. Tudo está conectado" – Papa Francisco aos participantes da 49ª. Semana Social dos católicos italianos

 Traduzido por Renata P. Espíndola


Queridos irmãos e irmãs:
 
Saúdo cordialmente todos os que participam da 49ª Semana Social dos Católicos Italianos, convocada em Taranto. Saúdo fraternalmente o Cardeal Gualtiero Bassetti, Presidente da Conferência Episcopal Italiana, D. Filippo Santoro e os Bispos presentes, os membros da Comissão Científica e Organizadora, os Delegados das dioceses italianas, os representantes dos movimentos e associações, todos os convidados e quem acompanha o evento à distância.

Esta citação tem um sabor especial. É preciso encontrar e ver o rosto um do outro, sorrir e planejar, orar e sonhar juntos. Isso é ainda mais necessário no contexto da crise gerada pela Covid, uma crise tanto sanitária quanto social. Para sair desta crise, os católicos italianos também devem ser mais corajosos. Não podemos nos resignar e ficar olhando pela janela, não podemos ficar indiferentes ou apáticos sem assumir responsabilidade pelos outros e pela sociedade. Somos chamados a ser o fermento que fermenta a massa (cf. Mt 13,33).

A pandemia expôs a ilusão de nosso tempo de nos acreditarmos onipotentes, pisoteando os territórios que habitamos e o meio ambiente em que vivemos. Para nos recuperar, devemos nos voltar para Deus e aprender a fazer bom uso de Seus dons, antes de tudo a Criação.

Que não falte o valor da conversão ecológica, mas sobretudo, que não falte o ardor da conversão da comunidade. Por isso, espero que a Semana Social seja uma experiência sinodal, uma plena troca de vocações e talentos que o Espírito suscitou na Itália. Para isso, é preciso ouvir também o sofrimento dos pobres, dos menores, dos desesperados, das famílias cansadas de viver em lugares poluídos, explorados, queimados, devastados pela corrupção e pela degradação.

Precisamos de esperança. É significativo o título escolhido para esta Semana Social de Taranto, uma cidade que simboliza as esperanças e as contradições do nosso tempo: “O planeta que esperamos. Ambiente, trabalho, futuro. Tudo está conectado". Há um desejo de vida, uma sede de justiça, um desejo de realização que brota das comunidades afetadas pela pandemia. Vamos ouvir isso.

Neste sentido, gostaria de lhes oferecer algumas reflexões que podem ajudá-los a trilhar com ousadia o caminho da esperança, que podemos imaginar marcado por três “sinais”.

O primeiro é a atenção aos entroncamentos (cruzamentos). Muitas pessoas cruzam nossas vidas em desespero: jovens que são forçados a deixar seus países de origem para emigrar para outros lugares, desempregados ou explorados numa precariedade sem fim; mulheres que perderam seus empregos em tempos de pandemia ou que são forçadas a escolher entre a maternidade e a profissão; trabalhadores ficando em casa sem oportunidades; pobres e emigrantes que não são acolhidos nem integrados; idosos abandonados à solidão; famílias vítimas de usura, jogo e corrupção; empresários em dificuldade e sujeitos a abusos das máfias; comunidades destruídas por incêndios, etc.

Entretanto, há também tantos doentes, adultos e crianças, trabalhadores forçados a realizar trabalhos extenuantes ou imorais, muitas vezes em condições de segurança precárias. São rostos e histórias que nos desafiam: não podemos ficar indiferentes. Esses nossos irmãos e irmãs estão crucificados e aguardam a ressurreição. Que a criatividade do Espírito Santo nos ajude a não deixar nada por fazer, para que as suas legítimas esperanças se tornem reais.

Um segundo sinal indica que estacionar é proibido. Quando vemos dioceses, paróquias, comunidades, associações, movimentos, grupos eclesiais cansados ​​e desanimados, às vezes resignados a situações complexas, vemos um Evangelho que tende a se apagar. Pelo contrário, o amor de Deus nunca é estático nem renunciante, “tudo acredita, tudo espera” (1 Cor 13,7): impele-nos e proíbe-nos de parar.

Ele nos põe em movimento como crentes e discípulos de Jesus no caminho do mundo, seguindo o exemplo d’Aquele que é o caminho (cf. Jo 14,6) e que percorreu os nossos caminhos. Então, não vamos ficar nas sacristias, não vamos formar grupos elitistas que se isolam e se fecham. A esperança está sempre em movimento e também passa pelas comunidades cristãs, filhas da ressurreição, que saem, anunciam, compartilham, apoiam e lutam pela construção do Reino de Deus.

Que maravilha seria se, nas áreas mais marcadas pela poluição e degradação, os cristãos não apenas denunciassem, mas assumissem a responsabilidade de criar redes de resgate. Como escrevi na Encíclica Laudato Si': “Não basta conciliar, em meios termos, o cuidado da natureza com o rendimento financeiro, nem a preservação do meio ambiente com o progresso. Nesse caso, o meio-termo é apenas um pequeno atraso no colapso. Trata-se apenas de redefinir o progresso. Um desenvolvimento tecnológico e econômico que não resulte em um mundo melhor e com uma qualidade de vida integralmente superior não pode ser considerado um progresso” (n. 194).

Às vezes, prevalecem o medo e o silêncio, que acabam favorecendo a ação dos lobos dos negócios sujos e do interesse individual. Não tenhamos medo de denunciar e nos opor à ilegalidade, mas, sobretudo, não tenhamos medo de semear o bem.

Um terceiro sinal de trânsito é a obrigação usar a rotatória, de nos reorientarmos. O grito dos pobres e o grito da Terra o invocam. A esperança convida-nos a reconhecer que sempre podemos reorientar o nosso rumo, que sempre podemos fazer alguma coisa para resolver os problemas (n. 61).

Dom Tonino Bello, profeta na terra da Apúlia, costumava repetir: Não podemos nos limitar à esperança. A esperança deve ser organizada. Uma profunda conversão nos espera, que toca a ecologia humana, a ecologia do coração, antes mesmo da ecologia ambiental. A mudança só virá se soubermos formar as consciências para que não busquem soluções fáceis que protejam os que já estão seguros, mas antes propor processos de mudança duradouros em benefício das novas gerações". 

Uma conversão deste tipo, orientada para uma ecologia social, pode alimentar esta época que se chamou “transição ecológica”, em que as decisões tomadas não podem ser apenas fruto de novas descobertas tecnológicas, mas também de modelos sociais renovados.

A mudança de época pela qual estamos passando exige uma mudança de curso. Olhemos, neste sentido, para tantos sinais de esperança, em tantas pessoas a quem quero agradecer porque, muitas vezes em laborioso silêncio, trabalham para promover um modelo econômico diferente, mais equitativo e atento às pessoas.

Este é, pois, o planeta que esperamos: aquele no qual a cultura do diálogo e da paz fecunda um novo dia, no qual o trabalho confere dignidade à pessoa e salvaguarda à Criação, para a qual convergem mundos culturalmente distantes, animados pela mesma preocupação pelo bem comum.

Queridos irmãos e irmãs, acompanho o vosso trabalho com oração e encorajamento. Abençoo-vos, desejando que encarnem as propostas destes dias com paixão e concretude. Que o Senhor os encha de esperança. E, por favor, não se esqueçam de orar por mim.
 
Roma, São João de Latrão, 4 de outubro de 2021
 Festa de São Francisco de Assis
Papa Francisco


16 de outubro de 2021

Discurso do Arcebispo Dom Gabriele Caccia, Núncio Apostólico e Observador Permanente da Santa Sé nas Nações Unidas, sobre armas nucleares, de destruição em massa e desarmamento

Enquanto católicos brigam entre si se achando mais iluminados que o Papa, mais sábios, mais inseridos na Tradição, o Vaticano trabalha seriamente pelos bens espirituais e físicos dos seres humanos, não apenas de seus filhos e filhas. De certa forma, o discurso me recordou os esforços da Igreja no livro de sci-fi "Um Cântico para Leibowitz" (MILLER JR, 1960), onde finalmente seus esforços foram duplamente em vão... Ora et labora.

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Tradução para o português por Renata P. Espíndola



Sr. Presidente,


Em sua recente Carta Encíclica
Fratelli Tutti, o Papa Francisco tocou em temas que contextualizam a importância do trabalho deste Comitê: “Não nos deixemos”, disse ele, “permanecer atolados em discussões teóricas, mas tocar na carne ferida das vítimas. Vejamos mais uma vez todos os civis cujas mortes foram consideradas "danos colaterais. Perguntemos às próprias vítimas. Pensemos nos refugiados e deslocados, aqueles que sofreram os efeitos da radiação atômica ou de ataques químicos”. [1]

No que diz respeito ao último grupo, relatos recentes sobre o uso de agentes “nervosos [N.T.: Agentes químicos de guerra persistentes e não persistentes] em vários lugares do mundo apontam para a relevância continuada de instrumentos que proíbem seu uso e posse. O Protocolo de Genebra (1925)
, a Convenção de Armas Biológicas e Tóxicas (1975) e a Convenção de Armas Químicas (1993) devem fornecer um escudo completo contra tais armas.

Mais de um século após o uso de armas químicas na Primeira Guerra Mundial, as nações do mundo deveriam se livrar completamente delas e deveriam buscar medidas que fortaleçam a implantação de medidas legais para um cumprimento efetivo a esse respeito. A contínua pandemia de COVID-19 é um lembrete gritante e doloroso do impacto incapacitante que pode ser causado por novos agentes biológicos, mesmo de gênese natural.

Da mesma forma, não devemos perder de vista a ameaça das chamadas “bombas sujas”, mais propriamente armas radiológicas, ou a necessidade de medidas que proíbam o uso de materiais radiológicos como armas.

(...)

Muitos elogiaram a extensão de cinco anos do
Novo Tratado START entre a Federação Russa e os Estados Unidos da América. Minha Delegação espera, além disso, um rápido progresso no diálogo estratégico que já foi convocado duas vezes para considerar novas reduções nas armas nucleares, tanto estratégicas como não estratégicas, e a relevância das novas tecnologias.

Como a
Conferência de Revisão do Tratado de Não-Proliferação adiada com o cinquentenário do Tratado de Não Proliferação (TNP) parece provável que aconteça em janeiro, é importante que os Estados possuidores de armas nucleares P-5 considerem e concordem em tomar medidas que complementem as de a Federação Russa e os Estados Unidos.

É hora de os estoques de armas nucleares serem definitivamente limitados, com reduções adicionais entre os P-5 a serem tomadas abaixo do limite. Obviamente, estabelecer um teto para os estoques nucleares dos outros estados possuidores de energia nuclear também é importante. 

Nosso mundo está tão interconectado que todas as armas nucleares, onde quer que estejam, devem ser eliminadas no menor tempo possível, para que um acidente ou erro de cálculo não leve a consequências humanitárias e ambientais catastróficas. [2]

O Papa Francisco enfatizou que “o uso da energia atômica para fins de guerra é imoral, assim como a posse de armas nucleares é imoral[3], uma vez que a intencionalidade intrínseca de possuir armas nucleares é a ameaça de usá-las.

A esse respeito, o Tratado sobre a Proibição de Armas Nucleares (TPAN, em português) estabeleceu uma proibição legal sobre a posse de armas nucleares e, no devido tempo, será uma base para que os Estados possuidores de armas nucleares se tornem participantes ao eliminarem seus programas. Por enquanto, as atuais partes do Tratado podem trabalhar para desenvolver os procedimentos que serão necessários para que a autoridade ou autoridades de verificação estabelecidas pelo Tratado possam assegurar que os programas de armas nucleares relevantes foram realmente eliminados.

O TPAN reconhece explicitamente que restrições devem ser impostas às armas convencionais, além das armas nucleares. Tendo em mente o papel que a dissuasão nuclear, incluindo a dissuasão nuclear ampliada, tem desempenhado entre os Estados, esforços adicionais substanciais devem ser feitos para lidar com as armas convencionais.

O mundo, de fato, tem feito progressos nesse sentido, como a
Convenção sobre Armas Convencionais, que tem se mostrado um acordo duradouro, com espaço para maior expansão, como evidenciado por seus protocolos como os que tratam de armas de lasers cegantes. Além disso, a crescente ameaça do uso de drones armados e sistemas de armas autônomas letais ressalta a urgência de abordar a necessidade ética de preservar a responsabilidade humana.

[N.T.: A justificativa é a de que é melhor tornar uma pessoa cega em definitivo do que matá-la. O que é mais cruel?]

As armas convencionais causaram danos terríveis em todo o mundo desde o fim da Segunda Guerra Mundial.
Este Comitê precisa redobrar seus esforços para fornecer caminhos para acordos que irão reduzir a dependência de quaisquer armas convencionais para resolver disputas. Esses esforços não apenas tornarão o desarmamento nuclear mais viável, mas também moderarão as interações entre os Estados em suas relações em curso.

Determinados como estamos a salvar as gerações vindouras do flagelo da guerra,
[4] não podemos nos permitir ser espectadores da violência e da guerra, de irmãos matando irmãos, como se estivéssemos assistindo a jogos de uma distância segura. As vidas das pessoas não são brinquedos. Não podemos ser espectadores indiferentes. [5]

[N.T.: E os seres humanos se "divertindo" nos "novos coliseus com gladiadores lutando até a morte" em séries distópicas de TV, como se a crueldade real já não fosse suficiente.]

Não podemos, como disse o Papa Francisco “continuar a aceitar as guerras com o desprendimento com que assistimos ao noticiário da noite”. [6]

Em conclusão, a Santa Sé deseja manifestar a sua convicção de que o espaço sideral deve continuar a ser o domínio pacífico que tem sido até agora na história da humanidade. Embora certos usos militares desse ambiente tenham sido implantados, como comunicações, navegação e monitoramento, eles também são essenciais para fins pacíficos.

Tornar este ambiente armado, seja por meio do uso de armas, seja pelo ataque de objetos espaciais do solo, seria extremamente perigoso. As restrições existentes aos usos militares do espaço sideral, conforme consubstanciado no
Tratado do Espaço Exterior, devem ser estendidas.

A experiência de fragmentos orbitais de longa duração resultantes da destruição de satélites mostra como seria tolice colocar objetos espaciais em risco para o uso de armas. Transparência e medidas de fortalecimento da confiança, bem como instrumentos legalmente vinculantes devem ser prontamente negociados, para que o ambiente do espaço sideral permaneça seguro para todos nós.

Obrigado, senhor presidente.

 Nova Iorque, 13 de outubro de 2021.
 Arcebispo Gabriele Caccia

 
[1] Papa Francisco, FratelliTutti, 261.

[2] Cf. Papa Francisco, FratelliTutti, 262; Tratado sobre a Proibição de Armas Nucleares, PP2.

[3] Papa Francisco, Encontro pela Paz, Memorial da Paz, Hiroshima, Japão, 24 de novembro de 2019.

[4] Cf. Carta das Nações Unidas.

[5] Cf. Papa Francisco, Discurso no Encontro das Religiões pela Paz, Roma, 7 de outubro de 2021.

[6] Idem.



Fonte da imagem: Pinterest.

12 de outubro de 2021

Discurso do Papa Francisco aos participantes do encontro "Fé e Ciência: Rumo à COP26".

Líderes e Representantes religiosos,

Excelências,
Queridos amigos!

Obrigado a todos por se reunirem aqui, colocando em evidência o desejo dum diálogo profundo entre nós e com os peritos em ciência. Ouso oferecer três conceitos à vossa reflexão sobre esta colaboração: o olhar da interdependência e da partilhao motor do amor a vocação ao respeito.


1. Tudo está interligado; no mundo, tudo está intimamente relacionado. Não só a ciência, mas também as nossas crenças e as nossas tradições espirituais põem em evidência esta conexão que existe entre todos nós e com o resto da criação. Reconhecemos os sinais da harmonia divina presente no mundo natural: nenhuma criatura se basta a si mesma; cada uma só existe na dependência das outras, para se completarem mutuamente, ao serviço uma da outra [1]. Quase poderíamos dizer que uma é dada pelo Criador às outras, para que, na relação de amor e respeito, possam crescer e realizar-se em plenitude. Plantas, águas, seres vivos são guiados por uma lei impressa por Deus em cada um deles para benefício de toda a criação.


Reconhecer que o mundo está interligado significa não só compreender as consequências nefastas das nossas ações, mas também identificar comportamentos e soluções que devem ser adotados com olhar aberto à interdependência e à partilha. Não se pode agir sozinho; é fundamental o empenho de cada um no cuidado dos outros e do ambiente, um empenho que leve à tão urgente mudança de rumo, que deve ser alimentada também pela própria fé e espiritualidade. Para os cristãos, o olhar da interdependência brota do próprio mistério de Deus Trino: «A pessoa humana cresce, amadurece e santifica-se tanto mais, quanto mais se relaciona, sai de si mesma para viver em comunhão com Deus, com os outros e com todas as criaturas. Assim assume na própria existência aquele dinamismo trinitário que Deus imprimiu nela desde a sua criação» [2].


O encontro hodierno, que une muitas culturas e espiritualidades num espírito de fraternidade, reforça a consciência de que somos membros duma única família humana: temos, cada um de nós, a própria fé e tradição espiritual, mas não há fronteiras nem barreiras culturais, políticas ou sociais que consintam isolar-nos. Para iluminar este olhar, queremos empenhar-nos em prol dum futuro modelado pela interdependência e a corresponsabilidade.


2. Este empenho deve ser continuamente solicitado pelo motor do amor: «A partir da intimidade de cada coração, o amor cria vínculos e amplia a existência, quando arranca a pessoa de si mesma para o outro» [3]. Entretanto, a força propulsora do amor não é acionada  duma vez para sempre, mas deve ser reavivada dia a dia; esta é uma das grandes contribuições que as nossas crenças e tradições espirituais podem dar para facilitar esta mudança de rumo de que temos tanta necessidade.


O amor é espelho duma vida espiritual vivida intensamente. Um amor que se estende a todos sem olhar a fronteiras culturais, políticas e sociais; um amor que integra, mesmo e sobretudo em benefício dos últimos, que muitas vezes são quem nos ensina a superar as barreiras do egoísmo e a romper os muros do individualismo.


Trata-se de um desafio que surge perante a necessidade de contrastar aquela cultura do descarte que parece prevalecer na nossa sociedade e se apoia sobre aquilo que o nosso Apelo Conjunto chama as «sementes dos conflitos: ganância, indiferença, ignorância, medo, injustiça, insegurança e violência». São estas mesmas sementes de conflito que provocam as graves feridas que infligimos ao ambiente, como as mudanças climáticas, a desertificação, a poluição, a perda da biodiversidade, levando à rutura daquela «aliança entre ser humano e ambiente que deve ser espelho do amor criador de Deus, de Quem provimos e para Quem estamos a caminho» [4].


Semelhante desafio a favor duma cultura do cuidado da nossa casa comum e também de nós próprios tem o sabor da esperança, pois não há dúvida que a humanidade nunca, como hoje, teve tantos meios para alcançar tal objetivo. Este mesmo desafio pode enfrentar-se em vários níveis; gostaria de assinalar, em particular, dois deles: o nível do exemplo e da ação, e o da educação


Em ambos os níveis, nós, inspirados pelas nossas crenças e tradições espirituais, podemos oferecer contribuições importantes. Muitas são as possibilidades emergentes, como aliás coloca em evidência o Apelo Conjunto, onde se ilustram também vários percursos de educação e formação que podemos desenvolver a favor do cuidado da nossa casa comum.


3. Este cuidado é também uma vocação ao respeito: respeito pela criação, respeito pelo próximo, respeito por si mesmo e respeito perante o Criador. Mas também respeito mútuo entre fé e ciência, para «estabelecerem diálogo entre si visando o cuidado da natureza, a defesa dos pobres, a construção duma trama de respeito e de fraternidade» [5].


Um respeito que não é mero reconhecimento abstrato e passivo do outro, mas deve ser vivido de forma empática e ativa querendo conhecer o outro e dialogar com ele para caminhar juntos nesta viagem comum, bem sabendo – como se indica ainda no Apelo – que «aquilo que podemos obter depende não só das oportunidades e dos recursos, mas também da esperança, da coragem e da boa vontade».


O olhar da interdependência e da partilha, o motor do amor e a vocação ao respeito: eis três chaves de leitura que me parecem iluminar o nosso trabalho pelo cuidado da casa comum. A COP26 de Glasgow é urgentemente chamada a oferecer respostas eficazes à crise ecológica sem precedentes e à crise de valores em que vivemos e, assim, dar uma esperança concreta às gerações futuras: queremos acompanhá-la com o nosso empenho e a nossa proximidade espiritual.



[1] Cf. Francisco, Carta enc. Laudato si’ (24/V/2015), 86.

[2] Ibid., 240.

[3] Francisco, Carta enc. Fratelli tutti (03/X/2020), 88.

[4] Bento XVI, Carta enc. Caritas in veritate (29/VI/2009), 50.

[5] Francisco, Carta enc. Laudato si’ (24/V/2015), 201.


Fonte: https://www.vatican.va/content/francesco/pt/speeches/2021/october/documents/20211004-religione-scienza-cop26.html


24 de setembro de 2021

Antiga homilia do Papa Francisco sobre “O permanecer recíproco entre a videira e os ramos” (2020)

Resgato esta antiga homilia porque amo a aparente simplicidade de Francisco e porque ser católica(o) vai muito além do que é exterior. A imagem da figueira e a da videira florida são curiosas porque além de serem espécies diferentes, ambas possuem particularidades de seu desenvolvimento que compartilham o ato de "entranhar-se" com o meio, para "o bem e para o mal". 

A figueira é a primeira planta descrita na Bíblia - "Então, os seus olhos abriram-se; e, vendo que estavam nus, tomaram fo­lhas de figueira, ligaram-nas e fizeram tangas para si" (Gen 3, 7) - e para existir, precisa de um ato de sacrifício de um tipo específico de vespa. Cresce firme e forte, mas apenas uma família produz frutos comestíveis e representa, de certa forma, nosso permanecer no mundo "desligados" de Deus.

Já a videira para frutificar, precisa aguentar o rigor invernal para rebrotar os sarmentos a partir dos nutrientes estocados no ano anterior. Seu passado guiará o seu presente e uma vez gasta a energia acumulada para o rebrotamento, deve extrair do solo os nutrientes necessários para continuar o seu desenvolvimento, de forma que o agricultor é quem guia a sua existência. 

A brotação dos ramos não é uniforme, assim como a distribuição de nutrientes, o que implica nas diferentes fases de amadurecimento dos cachos para a colheita. Alguns cachos possuem desenvolvimento acelerado, outros demoram por mais tempo e ainda existem os tardios; mas todos são cachos bons da mesma videira. O agricultor cuida da videira que cuida de seus ramos para que estes frutifiquem.

"Acaso, meus irmãos, pode a figueira dar azeitonas ou a videira dar figos? Do mesmo modo a fonte de água salobra não pode dar água doce" (Tg 3, 12). Já experimentou água salobra? É aquela que poderia ser doce, mas por motivos diversos houve uma intrusão salina excessiva que a fez deixar de ser potável... Também ser sal no mundo difere de ser insossa(o) ou salgada(o) em demasia. 

Isto tudo te lembra de algo em sua caminha da espiritual? Boa leitura!

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O Senhor volta para “permanecer nele”, e diz-nos: “A vida cristã é permanecer em mim”. Permanecer. E aqui usa a imagem da videira, como os ramos permanecem na videira (cf. Jo 15, 1-8). E este permanecer não é passivo, um adormecer no Senhor: seria talvez um “sono beatífico”; mas não é assim. Este permanecer é ativo e também recíproco. Porquê? Porque Ele diz: «Permanecei em mim e Eu em vós» (v. 4). 

Ele também permanece em nós, não só nós nele. Trata-se de um permanecer recíproco. E noutro trecho diz: «Eu e o Pai viremos a ele e habitaremos nele» (Jo 14, 23). É um mistério, mas um mistério de vida, um mistério muito bonito. Este permanecer recíproco. E também com o exemplo dos ramos: é verdade, sem a videira os ramos nada podem fazer, pois não recebem a seiva, e precisam da seiva para crescer e dar fruto. Mas também a árvore, a videira, precisa dos ramos, porque os frutos não estão ligados à árvore, à videira. É uma necessidade recíproca, é um permanecer mútuo para dar fruto.

E esta é a vida cristã: é verdade, a vida cristã consiste em cumprir os mandamentos (cf. Êx 20, 1-11), é isto que se deve fazer. A vida cristã consiste em percorrer o caminho das bem-aventuranças (cf. Mt 5, 1-13): é assim que se deve fazer. A vida cristã consiste em  fazer obras de misericórdia, como o Senhor nos ensina no Evangelho (cf. Mt 25, 35-36): é assim que se deve fazer. Mas ainda mais: é este permanecer recíproco. 

Sem Jesus nada podemos fazer, como os ramos sem a videira. E Ele - que o Senhor me permita dizê-lo - sem nós parece que nada pode fazer, pois o fruto é dado pelo ramo, não pela árvore, pela videira. Nesta comunidade, nesta intimidade de “permanecer” que é fecunda, o Pai e Jesus permanecem em mim e eu neles.

E qual é – vem-me à mente - a “necessidade” que a videira tem dos ramos? É dar frutos. Qual é a “necessidade” - digamos assim, com um pouco de audácia - qual é a “necessidade” que Jesus tem de nós? O testemunho. Quando no Evangelho diz que somos luz, afirma: «Sede luz, para que os homens “vejam as vossas boas obras e deem glória ao vosso Pai” (Mt 5, 16)», ou seja, o testemunho é a necessidade que Jesus tem de nós. Dar testemunho do seu nome, pois a fé, o Evangelho, cresce pelo testemunho.

Este é um modo misterioso: Jesus glorificado no céu, depois de ter passado pela Paixão, precisa do nosso testemunho para fazer crescer, para anunciar, para que a Igreja cresça. E este é o mistério recíproco do “permanecer”. Ele, o Pai e o Espírito permanecem em nós, e nós permanecemos em Jesus.

Far-nos-á bem pensar e refletir sobre isto: permanecer em Jesus; e Jesus permanece em nós. Permanecer em Jesus para ter a seiva, a força, a justificação, a gratuidade, a fecundidade. E Ele permanece em nós para nos dar a força de [dar] fruto (cf. Jo 5, 15), para nos dar a força do testemunho com o qual a Igreja cresce.

E interrogo-me: "Qual é a relação entre Jesus que permanece em mim e eu que permaneço nele?" É uma relação de intimidade, uma relação mística, uma relação sem palavras. “Mas padre, isto é para os místicos!”. Não, isto é para todos nós. Com pequenos pensamentos: “Senhor, sei que Tu estás aqui [em mim]: dá-me força e farei o que Tu me disseres!”. Este diálogo de intimidade com o Senhor. O Senhor está presente, o Senhor está presente em nós, o Pai está presente em nós, o Espírito está presente em nós; permanecem em nós. Mas devo permanecer neles...

Que o Senhor nos ajude a compreender, a sentir esta mística do permanecer, sobre a qual Jesus insiste tanto, tanto, tanto! Muitas vezes nós, quando falamos da videira e dos ramos, detemo-nos na figura, na profissão do agricultor, do Pai: que aquele [o ramo] que dá fruto é cortado, isto é, podado, e aquele que não o dá é cortado e lançado  fora (cf. Jo 15, 1-2). 

É verdade, faz isto, mas não é tudo, não. Há algo mais. 

Esta é a ajuda: as provações, as dificuldades da vida, até as correções que o Senhor nos faz. Mas não paremos aqui. Entre a videira e os ramos existe este permanecer íntimo. Os ramos, nós, precisamos da seiva, a videira tem necessidade dos frutos, do testemunho.


Papa Francisco

7 de setembro de 2021

Mensagem assinada em conjunto pelo Papa Francisco, o Patriarca Ecumênico Bartolomeu I e o Arcebispo de Cantuária, Justin Welby, para a Proteção da Criação

 Tradução: Renata P. Espíndola


Por mais de um ano, todos nós experimentamos os efeitos devastadores de uma pandemia global - todos nós, ricos ou pobres, fracos ou fortes. Alguns eram mais protegidos ou mais vulneráveis ​​do que outros, mas a rápida disseminação da infecção nos tornou dependentes uns dos outros em nossos esforços para permanecer seguros.

Percebemos que, em face desta calamidade global, ninguém está seguro até que todos estejam seguros, que nossas ações realmente afetam os outros e que o que fazemos hoje afeta o que acontece amanhã.

Essas não são lições novas, mas tivemos que enfrentá-las novamente. Espero que não percamos este momento. Devemos decidir que tipo de mundo queremos deixar para as gerações futuras. Deus ordena: "Escolhe a vida, para que tu e a tua descendência vivam" (Dt 30, 19). Devemos escolher viver de maneira diferente; devemos escolher a vida.

Muitos cristãos celebram setembro como a época da criação, uma oportunidade de orar e cuidar da criação de Deus. Enquanto os líderes mundiais se preparam para se reunir em Glasgow em novembro para deliberar sobre o futuro de nosso planeta, oramos por eles e consideramos as decisões que todos devemos tomar. 

Consequentemente, como líderes de nossas Igrejas, apelamos a todos, seja qual for sua crença ou cosmovisão, a se esforçarem para ouvir o clamor da terra e das pessoas que são pobres, examinando seu comportamento e se comprometendo a fazer sacrifícios significativos pelo bem da terra que Deus nos deu.


A importância da sustentabilidade


Em nossa tradição cristã comum, as escrituras e os santos fornecem perspectivas iluminadoras para a compreensão tanto das realidades do presente quanto da promessa de algo maior do que o que vemos agora. O conceito de mordomia - responsabilidade individual e coletiva pelo dom que Deus nos deu - representa um ponto de partida vital para a sustentabilidade social, econômica e ambiental

No Novo Testamento, lemos sobre o homem rico e tolo que armazena grandes riquezas de trigo enquanto se esquece de sua finitude (Lc 12: 13-21). Também conhecemos o filho pródigo que exige a sua herança com antecedência, só para esbanjá-la e acabar com fome (Lc 15,11-32). 

Somos avisados ​​de que não devemos adotar soluções de curto prazo e aparentemente baratas para construir na areia, em vez de construir na rocha, para que nossa casa comum resista às tormentas (Mt 7,24-27). Essas histórias nos convidam a uma perspectiva mais ampla e a reconhecer nosso lugar na história universal da humanidade.

Mas temos tomado a direção oposta. Maximizamos nosso interesse próprio às custas das gerações futuras. Ao nos concentrarmos em nossa riqueza, descobrimos que os ativos de longo prazo, incluindo a riqueza da natureza, são esgotados para benefícios de curto prazo. 

A tecnologia abriu novas possibilidades de progresso, mas também de acumulação desenfreada de riqueza, e muitos de nós nos comportamos de uma maneira que demonstra pouca preocupação com as outras pessoas ou com os limites do planeta

A natureza é resistente, mas também delicada. Já estamos vendo as consequências de nossa recusa em protegê-la e preservá-la (Gn 2,15). Agora, neste momento, temos a oportunidade de nos arrepender, de dar uma volta decisiva, de ir na direção oposta. Devemos perseguir a generosidade e a justiça na maneira como vivemos, trabalhamos e usamos o dinheiro, ao invés de uma ganância egoísta.


O impacto nas pessoas que vivem na pobreza


A atual crise climática diz muito sobre quem somos e como vemos e tratamos a criação de Deus. Estamos diante de uma justiça implacável: a perda da biodiversidade, a degradação ambiental e as mudanças climáticas são as consequências inevitáveis ​​de nossas ações, pois temos avidamente consumido mais recursos da Terra do que o planeta pode suportar

Mas também enfrentamos uma profunda injustiça: as pessoas que sofrem as consequências mais catastróficas desses abusos são as mais pobres do planeta e as que menos têm a responsabilidade de causá-los

Servimos a um Deus de justiça, que se deleita na criação e cria cada pessoa à imagem e semelhança de Deus, mas que também ouve o clamor dos pobres. Conseqüentemente, há um chamado inato dentro de nós para responder com angústia quando vemos uma injustiça tão devastadora.

Hoje estamos pagando o preço. O clima extremo e os desastres naturais dos últimos meses nos revelam mais uma vez com grande força e com grande custo humano que as mudanças climáticas não são apenas um desafio futuro, mas uma questão imediata e urgente de sobrevivência. Inundações, incêndios e secas generalizadas ameaçam continentes inteiros. O nível do mar sobe, forçando muitas comunidades a se mudarem; ciclones devastam regiões inteiras, arruinando vidas e meios de subsistência. 

A água tornou-se escassa e o abastecimento de alimentos inseguro, causando conflito e deslocamento de milhões de pessoas. Já vimos isso em lugares onde as pessoas dependem de fazendas de pequena escala. 

Hoje vemos isso nos países mais industrializados, onde nem mesmo infra-estruturas sofisticadas podem impedir completamente uma destruição extraordinária.

Amanhã pode ser pior. As crianças e os adolescentes de hoje enfrentarão consequências catastróficas se não assumirmos agora a responsabilidade, como "colaboradores de Deus" (Gn 2,4-7), de sustentar o nosso mundo. Freqüentemente ouvimos de jovens que entendem que seu futuro está ameaçado. 

Por isso, devemos escolher comer, viajar, gastar, investir e viver de maneira diferente, pensando não apenas nos juros e ganhos imediatos, mas também nos benefícios futuros. Nos arrependemos dos pecados de nossa geração. Estamos ao lado de nossos irmãos e irmãs mais novos ao redor do mundo em oração comprometida e ação determinada por um futuro que cada vez mais corresponde às promessas de Deus.




O imperativo da cooperação


Ao longo da pandemia, aprendemos o quão vulneráveis ​​somos. Nossos sistemas sociais estão desgastados e descobrimos que não podemos controlar tudo. Devemos reconhecer que a maneira como usamos o dinheiro e organizamos nossas sociedades não beneficiou a todos. Nos descobrimos fracos e ansiosos, imersos em uma série de crises: sanitária, ambiental, alimentar, econômica e social, todas profundamente interligadas.

Essas crises nos apresentam uma escolha. Estamos em uma posição única para confrontá-los com miopia e especulação ou para aproveitá-los como uma oportunidade de conversão e transformação. Se pensarmos na humanidade como uma família e trabalharmos juntos por um futuro baseado no bem comum, podemos nos encontrar vivendo em um mundo muito diferente. Juntos, podemos compartilhar uma visão de vida na qual todos prosperam. Juntos podemos escolher agir com amor, justiça e misericórdia. Juntos, podemos caminhar em direção a uma sociedade mais justa e gratificante, com os mais vulneráveis ​​no centro.

Mas isso envolve fazer mudanças. Cada um de nós, individualmente, deve assumir a responsabilidade pela maneira como usamos nossos recursos. Este caminho requer uma colaboração cada vez mais estreita entre todas as igrejas em seu compromisso com o cuidado da criação. Juntos, como comunidades, igrejas, cidades e nações, devemos mudar o curso e descobrir novas formas de trabalhar juntos para quebrar as barreiras tradicionais entre os povos, parar de competir por recursos e começar a colaborar.

Para aqueles com responsabilidades de longo alcance - administrar administrações, administrar empresas, empregar pessoas ou investir fundos - dizemos: escolha benefícios centrados nas pessoas; fazer sacrifícios de curto prazo para salvaguardar todos os nossos futuros; tornar-se líderes na transição para economias justas e sustentáveis. “Aos que muito foi dado, muito será exigido” (Lc 12,48).

Esta é a primeira vez que nós três nos sentimos compelidos a abordar juntos a urgência da sustentabilidade ambiental, seu impacto na pobreza persistente e a importância da cooperação global. Juntos, em nome de nossas comunidades, apelamos ao coração e à mente de cada cristão, cada crente e cada pessoa de boa vontade. Oramos por nossos líderes que se encontrarão em Glasgow para decidir o futuro de nosso planeta e seu povo. Mais uma vez, recordamos a Escritura: "Escolhe a vida, para que tu e a tua descendência vivam" (Dt 30,19). Escolher a vida significa fazer sacrifícios e exercer moderação.

Todos nós, quem somos e onde quer que estejamos, podemos desempenhar um papel na mudança de nossa resposta coletiva à ameaça sem precedentes da mudança climática e da degradação ambiental.

Cuidar da criação de Deus é um mandato espiritual que requer uma resposta comprometedora. Este é um momento crítico. O futuro de nossos filhos e de nossa casa comum depende disso.


1 de setembro de 2021
Patriarca Bartolomeu I   -   Papa Francisco   -    Arcebispo de Cantebury Justin Welby



31 de agosto de 2021

Na mesma data de entrega do Relatório Bruntland em 1987, S.S. São João Paulo II escrevia sobre solidariedade social à 10ª Conferência da UN-Habitat

Aproveito alguns momentos de folga para compartilhar catequeses antigas, que foram realizadas em datas singulares para o conhecimento dos profissionais católicos romanos da área ambiental. Todos semearam para que Francisco pudesse ver os frutos se desenvolvendo, organizasse a diversidade de cultivos e desse instruções para que, até a colheita, muitos não se percam e a Criação - pela graça de Deus - possa sustentá-los.  Quanto as datas citadas no título, não acredito em coincidências, mas na Providência... 😄

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Para o Dr. Arcot Ramachandran,
Diretor Executivo da “Habitat”


Neste Ano Internacional dedicado aos desabrigados, apresento as minhas cordiais saudações a vós e a todos os participantes na 10ª sessão comemorativa do "Habitat", o Centro das Nações Unidas para os Assentamentos Humanos.

Desde o início, a Igreja teve um interesse ativo nas metas e atividades do Centro. Neste décimo aniversário da sua fundação, asseguro-vos que este interesse tem crescido ao longo dos anos, assim como a convicção da urgência vital de esforços coordenados para ajudar eficazmente os desabrigados ou àqueles com moradia inadequada.

É cada vez mais claro que o problema da habitação, como tantos outros problemas humanos em nosso mundo hoje, só pode ser resolvido com a cooperação de toda a comunidade internacional. Assim o declarei na minha Mensagem para o Dia Mundial da Paz de 1987: “O desafio urgente que nos é apresentado consiste na necessidade de adotar uma atitude de solidariedade social com toda a família humana e com tal atitude enfrentarmos todas as situações sociais e políticas ”.

A Habitat está em condições de encorajar e fomentar exatamente essa atitude e de ajudar nos esforços para colocá-la em prática, especialmente no que diz respeito ao bem-estar das pessoas que sofrem com uma moradia inadequada. Embora o número de desabrigados e de pessoas sem um refúgio digno continue a crescer, não deveríamos esperar que o desejo de ajudá-los  também cresça cada vez mais? 

Rogo a Deus para que vejamos muitos setores da comunidade mundial empenhados no planejamento e implementação de estratégias de habitação, esforços que manifestarão uma atitude prática de solidariedade social com todos os necessitados.

Sobre vós e sobre todos os participantes da sessão em Nairóbi, invoco os dons de sabedoria e paz de Deus.

20 de março de 1987

Mensagem de S.S. Paulo VI para a Conferência das Nações Unidas sobre o Desenvolvimento e Meio Ambiente Humano em Estocolmo - 1972


Aproveito alguns momentos de folga para compartilhar catequeses antigas, que foram realizadas em datas singulares para o conhecimento dos profissionais católicos romanos da área ambiental. Todos semearam para que Francisco pudesse ver os frutos se desenvolvendo, organizasse a diversidade de cultivos e desse instruções para que, até a colheita, muitos não se percam e a Criação - pela graça de Deus - possa sustentá-los.

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Sr. Secretário Geral,


Por ocasião da abertura da Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente, cuja preparação Vossa Excelência assegurou com zelo e competência, gostaríamos de manifestar a Vossa Excelência e a todos os participantes o interesse com que acompanhamos este grande empreendimento. A preocupação em preservar e melhorar o meio natural, bem como a nobre ambição de estimular um primeiro gesto de cooperação mundial a favor deste bem necessário para todos, respondem a imperativos profundamente sentidos pelos homens do nosso tempo.

Com efeito, hoje surge a consciência de que o homem e o seu meio natural são, como nunca antes, inseparáveis: o meio ambiente condiciona - essencialmente - a vida e o desenvolvimento do homem; este, por sua vez, aperfeiçoa e enobrece o meio ambiente com sua presença, seu trabalho, sua contemplação.

Mas a capacidade criativa do homem não produzirá frutos autênticos e duradouros, exceto na medida em que o homem respeite as leis que regem o impulso vital e a capacidade regenerativa da natureza: um e outro são, portanto, solidários e compartilham um futuro temporário comum. Devemos também chamar a atenção da humanidade para substituir o ímpeto, muitas vezes cego e brutal, do progresso material abandonado ao seu único dinamismo, pelo respeito pela biosfera enquadrado numa visão global dos seus domínios que se tornam "uma só terra", para usar o lindo slogan da Conferência.

A supressão das distâncias graças ao avanço das comunicações, o estabelecimento de laços cada vez mais estreitos entre os povos devido ao desenvolvimento econômico, a crescente submissão das forças da natureza à ciência e à tecnologia, a multiplicação das relações Os seres humanos acima das barreiras das nacionalidades e raças. São tantos os fatores de interdependência para melhor ou para pior, para a esperança de salvação ou para o perigo de desastre. Um abuso, uma deterioração causada em uma parte do mundo tem suas repercussões em outros lugares e pode alterar a qualidade de vida de outras pessoas, muitas vezes sem seu conhecimento e sem culpa própria.

O homem, aliás, sabe com certeza que o progresso científico e técnico, apesar de seus aspectos promissores para a promoção de todos os povos, traz em si, como todas as obras humanas, seu forte fardo de ambivalência para o bem e para o bem. É, sobretudo, a aplicação que a inteligência deve fazer de suas descobertas com fins destrutivos, como é o caso das armas atômicas, químicas e bacteriológicas, e tantos outros instrumentos de guerra, grandes ou pequenos, no que diz respeito às armas

A consciência moral não sente nada além de horror. E, como ignorar os desequilíbrios causados ​​na biosfera pela exploração, sem ordem, das reservas físicas do planeta, mesmo para fins de produção de coisas úteis, bem como o desperdício de reservas naturais não renováveis, contaminação do solo, da água , ar, espaço, com seus ataques à vida vegetal e animal?

Tudo isso contribui para empobrecer e deteriorar o meio ambiente do homem a ponto de ameaçar, dizem, sua própria sobrevivência.

Por fim, devemos enfatizar fortemente o desafio que se coloca à nossa geração para que, deixando de lado os objetivos parciais e imediatos, ofereça aos homens de amanhã uma terra que lhes seja hospitaleira.

A corresponsabilidade deve doravante responder à interdependência; a solidariedade deve corresponder à comunidade de destino. Tudo isso não será alcançado recorrendo a soluções fáceis. Assim como o problema demográfico não se resolve limitando indevidamente o acesso à vida, o problema ambiental também não pode ser enfrentado apenas com medidas técnicas. 

Estes são essenciais e a vossa Assembleia deverá estudá-los e propor os meios adequados para retificar a situação. Por exemplo, é bastante evidente que sendo a indústria uma das principais causas da poluição, é absolutamente necessário que aqueles que a dirigem aperfeiçoem seus métodos e encontrem os meios - sem prejudicar, na medida do possível, a produção - de eliminar completamente os causas da poluição, ou pelo menos reduzi-las.

Nesse trabalho de remediação, fica evidente também que o químico tem um papel importante e grande esperança se deposita em sua capacidade profissional.

Mas todas as medidas técnicas seriam ineficazes se não fossem acompanhadas pela consciência da necessidade de uma mudança radical de mentalidades. Todos são chamados a agir com lucidez e coragem. Nossa civilização, tentada a avançar em suas realizações prodigiosas por meio da dominação despótica do meio ambiente humano, saberá como descobrir com o tempo a maneira de controlar seu crescimento?

01 de junho de 1972
Papa Paulo VI




Mensagem de S.S. Paulo VI para a Conferência das Nações Unidas sobre o Desenvolvimento e Meio Ambiente Humano na ocasião do V Dia Mundial do Meio Ambiente - 1977


Aproveito alguns momentos de folga para compartilhar catequeses antigas, que foram realizadas em datas singulares para o conhecimento dos profissionais católicos romanos da área ambiental. Todos semearam para que Francisco pudesse ver os frutos se desenvolvendo, organizasse a diversidade de cultivos e desse instruções para que, até a colheita, muitos não se percam e a Criação - pela graça de Deus - possa sustentá-los.

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E Deus viu todas as coisas que havia feito, e eram muito boas” (Gn 1:51).

Este texto antigo, tão simples e ao mesmo tempo tão profundo, lembra a todos nós hoje que temos que considerar e aceitar o mundo em que vivemos, esta Criação, como boa, como um todo. Bom, porque é um presente de Deus; bom, porque constitui o ambiente no qual todos nós fomos colocados e no qual somos chamados a viver a nossa vocação em solidariedade uns com os outros.

Nos últimos anos, tem havido uma consciência crescente em todo o mundo de que "o meio ambiente condiciona essencialmente a vida e o desenvolvimento do homem; o homem, por sua vez, aperfeiçoa e enobrece o meio ambiente com sua presença, seu trabalho, sua contemplação" (Mensagem à Conferência de Estocolmo sobre o Meio Ambiente; L'Osservatore Romano, Edição em Língua Espanhola, 18 de junho de 1972, p. 1)

Portanto, é muito reconfortante ver os membros das Nações Unidas proclamarem um Dia Mundial do Meio Ambiente, para que todos, em todos os lugares, possam aproveitar esta oportunidade para celebrar os bens desta terra e compartilhá-los de forma mais consciente e igualitária com todos os seus irmãos e irmãs.

Essa consciência do nosso meio ambiente é mais urgente hoje do que nunca. Porque os homens, que têm os meios e a capacidade de construir e enobrecer o mundo ao seu redor, também podem destruí-lo e esbanjar seus bens. A ciência e a tecnologia humanas alcançaram objetivos maravilhosos. Mas você tem que ter cuidado para que eles sejam usados ​​para aumentar a vida humana, não para diminuí-la. O esforço humano trouxe muita riqueza para fora da terra. Mas esta riqueza não deve ser desperdiçada supérflua por uma minoria, nem egoisticamente acumulada para o benefício de uns poucos às custas do resto da humanidade necessitada.

Por isso, a celebração deste Dia do Meio Ambiente em que vivemos deve ser ao mesmo tempo um apelo à união de todos nós, guardiães da Criação de Deus. Deve ser um caminho para renovar o nosso empenho na tarefa de preservar, melhorar e dar às gerações futuras um ambiente saudável, no qual cada pessoa se sinta realmente em casa (cf. Mensagem citada).

O propósito de tal apelo requer mais do que uma mera renovação de esforços. Exige uma mudança de mentalidade, uma conversão de atitudes e práticas, para que os ricos usem voluntariamente menos os bens da terra e os compartilhem de forma mais ampla e sábia. Exige simplicidade no estilo de vida e uma sociedade que saiba conservar de forma inteligente, em vez de consumir desnecessariamente. Exige, por fim, um sentido universal de solidariedade, no qual cada pessoa e cada nação desempenhe o seu papel próprio e interdependente, para garantir um ambiente ecologicamente saudável para as pessoas de hoje e para as gerações futuras.

Tudo o que é criado por Deus é bom”, escreveu o apóstolo Paulo. Rezamos intensamente para que este Dia do Meio Ambiente seja uma ocasião para todos e em todos os lugares se alegrarem com a sabedoria deste grito e se comprometerem a compartilhar e preservar fraternalmente um meio ambiente puro, como patrimônio comum de toda a humanidade.


Papa Paulo VI