23 de junho de 2016

Como falar sobre cuidados com a casa comum sem falarmos de misericórdia com os irmãos que sofrem?

"Não nos deixemos cair na indiferença que humilha, na habituação que anestesia o espírito e impede de descobrir a novidade, no cinismo que destrói. Abramos os nossos olhos para ver as misérias do mundo, as feridas de tantos irmãos e irmãs privados da própria dignidade e sintamo-nos desafiados a escutar o seu grito de ajuda. As nossas mãos apertem as suas mãos e estreitemo-los a nós para que sintam o calor da nossa presença, da amizade e da fraternidade. Que o seu grito se torne o nosso e, juntos, possamos romper a barreira de indiferença que frequentemente reina soberana para esconder a hipocrisia e o egoísmo". (Papa Francisco)




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Ao lado do auxílio, muitas vezes financeiro, por que não espalharmos tecnologias sociais em nossas paróquias - por toda a comunidade e não somente no "corpo" físico da igreja - através de ações que melhorem o conforto ambiental dos locais de moradia dos paroquianos, com ênfase nos mais necessitados?

Não sabe como fazer? Pesquise! Seja voluntário(a)! 

Há muitos católicos envolvidos em diversas pastorais sociais e agora, em algumas cidades, já existem pastorais relacionadas à ecologia e ao meio ambiente, ainda que eu ache mais belo o termo Pastoral da Criação para diferenciarmos de todas as ONGs existentes que tratam exatamente do mesmo tema, já que nosso enfoque é outro - infinitamente mais abrangente. Veja na sua cidade e se engaje. 

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"É meu vivo desejo que o povo cristão reflita, durante o Jubileu, sobre as obras de misericórdia corporal e espiritual. Será uma maneira de acordar a nossa consciência, muitas vezes adormecida perante o drama da pobreza, e de entrar cada vez mais no coração do Evangelho, onde os pobres são os privilegiados da misericórdia divina. A pregação de Jesus apresenta-nos estas obras de misericórdia, para podermos perceber se vivemos ou não como seus discípulos".  (Papa Francisco na Bula Misericordiae Vultus)

9 de junho de 2016

Vamos participar de uma enquete?

Confesso que é a primeira vez que faço uma e sou movida por uma curiosidade: dezenas de pessoas de diversas nacionalidades passam diariamente pelo blog, mas nada recebo de feedback... Esta primeira enquete é sobre como você compreende o posicionamento do homem quanto aos cuidados com a Criação. Está lá no menu direito, logo após a "Sopa de Letrinhas" (marcadores) ou basta clicar na figura abaixo.

Muito obrigada!

6 de junho de 2016

Diplomata da Santa Sé cita Laudato Si' na ONU

O novo Observador Permanente da Santa Sé na sede das Nações Unidas em Genebra, o Arcebispo Ivan Jurkovič, invocou a Organização Mundial do Trabalho a fazer mais para resolver o urgente problema do desemprego dos jovens. Em discurso na quinta-feira, (02/06), na 105ª sessão da Conferência Internacional sobre o Trabalho, o diplomata esloveno insistiu que "criar empregos dignos e bem remunerados para os jovens é uma obrigação moral"E para isto, prosseguiu, "deve-se encorajar modelos econômicos novos, inclusivos e igualitários, não voltados para poucos, mas que atendam o povo comum e a sociedade como um todo".
Ilusão
Advertindo que o avanço da tecnologia pode "reduzir o valor e dignidade dos trabalhadores", o Arcebispo Jurkovič reiterou que "medir o progresso humano em termos de crescimento econômico e a acumulação de riqueza material não é realístico [...] O trabalho adquire seu verdadeiro caráter quando é decente e sustentável para trabalhadores, empregadores, governos, comunidades e meio ambiente. A globalização propiciou novas oportunidades de emprego nas economias emergentes, mas por outro lado, deixou os trabalhadores mais vulneráveis a pressões competitivas por um salário mais alto e uma maior jornada de trabalho".   
Laudato Si'
Finalizando, o Arcebispo Jurkovič falou dos efeitos negativos das mudanças climáticas no desenvolvimento econômico e social. Mencionando a Encíclica Laudato Si’, disse que "Não há duas crises separadas: uma ambiental e outra social; mas uma única e complexa crise socioambientalAs diretrizes para a solução requerem uma abordagem integral para combater a pobreza, devolver a dignidade aos excluídos e, simultaneamente, cuidar da natureza"
Fonte: http://www.news.va/pt/news/santa-se-exorta-onu-a-criar-trabalho-digno-para-os

5 de junho de 2016

Dia Mundial do Meio Ambiente... Será que você se lembra o que nos diz o Catecismo Católico sobre o tema?

A preguiça é um pecado imenso e nunca mais eu quis escrever artigos: acabei só reproduzindo no blog as escritas de terceiros e ainda preciso me fortalecer mais espiritualmente para dar um bom testemunho. Entretanto, hoje é o dia mundial do meio ambiente... Bateu uma apatia e a vontade de perguntar: "E daí?".

Daqui a alguns dias, se completará um ano da apresentação da Laudato Si' e vemos como ainda é incipiente na vivência paroquial dos leigos o estudo e os desdobramentos das diversas encíclicas. Com a Laudato Si', quis crer que o apelo às questões tão preementes a todos - crentes ou não - juntamente com a CF deste ano pudesse nos trazer debates mais amplos e eficazes. 

Pesquisando na rede pude perceber que são poucas as ações pastorais no país, muitas destas existentes desde muito antes da encíclica, como: coleta de óleo comestível usado, coleta seletiva de alumínio, distribuição de peças de vestuário aos pobres e formação de bazares, palestras sobre reciclagem, consumo de água e energia, etc e tal... Isto é muito pouco, gente! Isto é tapar o sol com a peneira, que me perdoem a franqueza de quem já trabalhou cinco anos num serviço social paroquial. 

A questão é muito mais profunda, envolve talentos ofertados com disposição e párocos com discernimento para distribuí-los pelas necessidades das paróquias. Não que as ações que citei anteriormente não sejam válidas, entendam bem, mas elas são paliativas: ajuda daqui, ganha-se dali, parece que todos ficam contentes, mas nada muda de fato... Voltarei ao assunto numa outra publicação lá no Reciclando Idéias, mas deixarei como contribuição ao dia de hoje a pergunta do título:

"Será que você se lembra o que o Catecismo nos diz sobre o tema?"

Dica: Pegue o seu e o leia... No meu exemplar (Edições Loyola - pequeno) começa na página 83 e vai até a 102.

Por que estou falando sobre ler o catecismo? Porque se você não souber o seu significado, irá ser mais um pagão travestido de católico. Interiorize os ensinamentos dele e depois sim, parta para ação utilizando o conhecimento sobre as técnicas e boas práticas adotadas para prevenção dos impactos ambientais ou de suas remediações, incluindo a sensibilização ambiental da sociedade.

"A interdependência das criaturas é querida por Deus".

3 de junho de 2016

Laudato Si' e apostolado local...


E lá se foi mais um ano... A ONG 'The Global Catholic Climate Movement', a qual reúne associações católicas de diversas nacionalidades, promoverá entre 12 e 19 de junho a Celebração Global do 1º. Aniversário da Encíclica Laudato Si', em paróquias e comunidades por todo o mundo.

A ONG apresenta uma proposta bastante interessante para a formação de animadores paroquiais da encíclica onde estes atuarão, principalmente, como mediadores de ações práticas nas mesmas e nas comunidades circunvizinhas, promovendo inclusive o diálogo inter-religioso. E é claro que, para tal fim, estes animadores estarão sob a autoridade dos párocos locais.

Para saber mais acesse: www.laudatosiweek.org/pt-pt




Sem a base fisiológica, a espiritual não persiste. 
Só se abdica do que se tem...

30 de maio de 2016

O papa nos mostra o caminho...


Os convido a visitar a aba Reciclando Ideias e a ler o artigo de Carlos Ramalhete sobre a Laudato Si', onde este disserta sobre a imensa contribuição do Papa Francisco às questões mais íntimas do catolicismo. Como a estrutura do Blogspot não permite todos os recursos para páginas autônomas, quaisquer comentários deverão ser feitos nesta postagem.

Boa leitura! 


19 de maio de 2016

Arquidiocese espanhola de Granada cria o "Instituto Internacional Laudato Si' para a Custódia da Criação"

No último dia 13, durante a festa de Nossa Senhora de Fátima, a arquidiocese espanhola de Granada - através de seu Arcebispo Mons. Javier Martinez - criou o Instituto Internacional Laudato Si' para a Custodia da Criação


Com sede no seminário "São Cecílio", o instituto se ocupará do estudo e difusão de conhecimento sobre a custódia da Criação à luz da encíclica do Papa Francisco e da tradição cristã, como forma de promover iniciativas práticas dos conceitos contidos na mesma, especialmente no desenvolvimento comunitário e empreendedorismo, sobretudo em zonas rurais e comunidades cristãs.

A primeira atividade programada é a realização de um curso de verão a ser realizado no período de 11 a 15 de julho deste ano, cujas inscrições estão abertas através do e-mail info@LaudatoSiInstitute.org

O instituto conta com uma página na internet: www.institutolaudatosi.org (em espanhol) ou www.laudatosiinstitute.org (em inglês). Também se encontra presente nas redes sociais através do perfil no Facebook:  https://web.facebook.com/institutolaudatosi.

Fonte: http://www.archidiocesisgranada.es/index.php/noticias/item/7234-constituido-en-la-archidiocesis-de-granada-el-instituto-internacional-laudato-si-para-la-custodia-de-la-creacion

2 de março de 2016

É uma atribuição sacerdotal promover a reflexão sobre o tema com os fiéis sob sua responsabilidade?


Sim! E por que não o seria? Ainda encontro no meu círculo de fé quem não tenha entendido a profundidade da questão sob o ponto de vista espiritual... 

Está aí uma boa reflexão para a Quaresma:
  • Até que ponto compreendo o que ensinam o Catecismo e a Doutrina Social sobre o tema? Consigo pô-los em prática em minha rotina de fé?
  • O que mais me incomoda quando vejo a Igreja abordando este tema ou outros semelhantes? 
  • Ela estaria errada ou certa? Quem define isto? Eu? Meu sacerdote? O Papa? A Tradição?
  • Se acho que a abordagem local está errada, o que posso fazer enquanto fiel? Irei conversar com meu sacerdote e me oferecer para auxiliá-lo na paróquia? Ou ficarei protestando nas redes sociais?
  • Se acho que a abordagem local está certa, o que posso fazer enquanto fiel? Irei conversar com meu sacerdote e me oferecer para auxiliá-lo na paróquia? Posso sugerir alguma ação pastoral e participar no planejamento e na execução da mesma?

http://w2.vatican.va/content/francesco/pt/encyclicals/documents/papa-francesco_20150524_enciclica-laudato-si.html 

3 de setembro de 2015

01.09 - Dia Mundial de Oração pelo cuidado da Criação


CARTA DO PAPA FRANCISCO
POR OCASIÃO DA INSTITUIÇÃO
DO "DIA MUNDIAL DE ORAÇÃO PELO CUIDADO DA CRIAÇÃO"



1° de Setembro

Aos Venerados Irmãos
Cardeal Peter Kodwo Appiah TURKSON
Presidente do Pontifício Conselho da Justiça e da Paz
Cardeal Kurt KOCH
Presidente do Pontifício Conselho para a Promoção da Unidade dos Cristãos



Compartilhando com o amado irmão o Patriarca Ecumênico Bartolomeu as preocupações pelo futuro da criação (cf. Cart. Enc. Laudato si’, 7-9), e acolhendo a sugestão de seu representante, o Metropolita Ioannis de Pérgamo, um dos convidados na apresentação da Encíclica Laudato si’ sobre o cuidado da casa comum, desejo comunicar-vos que decidi instituir também na Igreja Católica o "Dia Mundial de Oração pelo Cuidado da Criação" que, a partir do ano corrente, será celebrado no dia 1° de Setembro, assim como já ocorre há tempos na Igreja Ortodoxa.

Como cristãos, queremos oferecer a nossa contribuição para a superação da crise ecológica que a humanidade está vivendo. Por isso devemos, antes de tudo, buscar no nosso rico patrimônio espiritual as motivações que alimentam a paixão pelo cuidado da criação, lembrando sempre que para aqueles que crêem em Jesus Cristo, Verbo de Deus que se fez homem por nós, «a espiritualidade não está desligada do próprio corpo nem da natureza ou das realidades deste mundo, mas vive com elas e nelas, em comunhão com tudo o que nos rodeia» (ibid., 216). A crise ecológica nos chama, portanto, a uma profunda conversão espiritual: os cristãos são chamados a uma «conversão ecológica, que comporta deixar emergir, nas relações com o mundo que os rodeia, todas as consequências do encontro com Jesus» (ibid., 217). De fato, «viver a vocação de guardiões da obra de Deus não é algo de opcional nem um aspecto secundário da experiência cristã, mas parte essencial duma existência virtuosa» (ibid.).

Anualmente, o Dia Mundial de Oração pelo Cuidado da Criação oferecerá a cada fiel e às comunidades a preciosa oportunidade para renovar a adesão pessoal à própria vocação de guardião da criação, elevando a Deus o agradecimento pela obra maravilhosa que Ele confiou ao nosso cuidado, invocando a sua ajuda para a proteção da criação e a sua misericórdia pelos pecados cometidos contra o mundo em que vivemos. A celebração deste Dia, na mesma data, com a Igreja Ortodoxa, será uma ocasião profícua para testemunhar a nossa crescente comunhão com os irmãos ortodoxos. Vivemos num tempo em que todos os cristãos enfrentam idênticos e importantes desafios, diante dos quais, para ser mais críveis e eficazes, devemos dar respostas comuns. Por isto, é meu desejo que este Dia também possa envolver, de alguma forma, outras Igrejas e Comunidades eclesiais, e ser celebrado em sintonia com as iniciativas que o Conselho Mundial de Igrejas promove sobre este tema.

Ao senhor, Cardeal Turkson, Presidente do Pontifício Conselho da Justiça e da Paz, peço para que leve ao conhecimento das Comissões Justiça e Paz das Conferências Episcopais, bem como dos organismos nacionais e internacionais comprometidos no âmbito ecológico, a instituição do Dia Mundial de Oração pelo Cuidado da Criação, para que, em harmonia com as exigências e as situações locais, a celebração seja devidamente organizada com a participação de todo o Povo de Deus: sacerdotes, religiosos, religiosas e fiéis leigos. Para este fim, será de responsabilidade deste Dicastério, em colaboração com as Conferências Episcopais, implementar oportunas iniciativas de promoção e de animação, para que esta celebração anual seja um momento forte de oração, reflexão, conversão e uma oportunidade para assumir estilos de vida coerentes.

Ao senhor, Cardeal Koch, Presidente do Pontifício Conselho para a Promoção da Unidade dos Cristãos, peço que providencie os contatos necessários com o Patriarcado Ecumênico e com as outras realidades ecumênicas, para que tal Dia Mundial possa tornar-se sinal de um caminho percorrido conjuntamente por todos os que crêem em Cristo. Será responsabilidade deste Dicastério, além disto, cuidar da coordenação com iniciativas similares tomadas pelo Conselho Mundial de Igrejas.

Ao fazer votos duma mais ampla colaboração para o bom início e desenvolvimento do Dia Mundial de Oração pelo Cuidado da Criação, invoco a intercessão da Mãe de Deus, Maria Santíssima, e de São Francisco de Assis, cujo Cântico das Criaturas inspira tantos homens e mulheres de boa vontade a viver no louvor do Criador e no respeito pela criação. Corrobora estes votos a Bênção Apostólica, que de coração concedo a vós, Senhores Cardeais, e a todos aqueles que colaboram no vosso ministério.

Vaticano, 6 de Agosto de 2015
Festa da Transfiguração do Senhor


FRANCISCUS



Fonte: http://w2.vatican.va/content/francesco/pt/letters/2015/documents/papa-francesco_20150806_lettera-giornata-cura-creato.html 

Homilia do Dia Mundial de Oração pelo cuidado da Criação


LITURGIA DA PALAVRA
PRESIDIDA PELO PAPA FRANCISCO
PARA O DIA MUNDIAL DE ORAÇÃO PELO CUIDADO DA CRIAÇÃO
 Basílica Vaticana
Terça-feira, 1° de Setembro de 2015




HOMILIA DO PADRE RANIERO CANTALAMESSA
PREGADOR DA CASA PONTIFÍCIA

Abençoando-os, Deus disse-lhes «Crescei e multiplicai-vos, enchei e dominai a terra. Dominai sobre os peixes do mar, sobre as aves do céu e sobre todos os animais que se movem na terra» (Gn 1, 28).

Estas palavras em tempos recentes suscitaram uma forte crítica. Elas, escreveu alguém, ao atribuir ao homem um domínio indiscriminado sobre o restante da natureza, estão na origem da atual crise ecológica. Inverteu-se a relação do mundo antigo, sobretudo dos gregos, que via o homem em função do cosmos e não o cosmos em função do homem (Lynn White, The historical roots of our ecologic crisis em «Science», 1967 e em «Ecology and religion in history», 1974).

Penso que esta crítica, como tantas análogas dirigidas ao texto bíblico, tem início no fato de que se interpretam as palavras da Bíblia à luz de categorias seculares que lhe são alheias. «Dominai» neste caso não tem o significado que o termo assume fora da Bíblia. Para a Bíblia, o modelo último do dominus, do senhor, não é o soberano político que explora os seus súbditos, mas é o próprio Deus, Senhor e pai.

O domínio de Deus sobre as criaturas certamente não é finalizado ao próprio interesse, mas ao das criaturas que ele cria e protege. Existe um paralelismo evidente: Deus é o dominus do homem, o homem deve ser o dominus do restante da criação, isto é, responsável por ela e seu guardião. O homem foi criado para ser «à imagem e semelhança de Deus», não de padrões humanos. O sentido do domínio do homem é explicitado pela continuação do texto: «O Senhor levou o homem e colocou-o no jardim do Éden para que o cultivasse e, também, o guardasse» (Gn 2, 15). Isto é expresso muito bem na prece Eucarística IV na qual dizemos dirigindo-nos a Deus: «À vossa imagem formastes o homem, às suas mãos laboriosas confiastes o universo para que na obediência a vós, seu criador, exercesse o domínio sobre toda a criação».

Portanto, a fé num Deus criador e no homem feito à imagem de Deus, não é uma ameaça, mas uma garantia para a criação, e a mais forte de todas. Diz que o homem não é dono absoluto das outras criaturas; deve prestar contas por aquilo que recebeu. Aqui a parábola dos talentos tem uma aplicação primordial: a terra é o talento que todos juntos recebemos e pelo qual devemos prestar contas.

A ideia de uma relação idílica entre o homem e o cosmos, fora da Bíblia, além de tudo, é uma invenção literária. A opinião dominante entre os filósofos pagãos do tempo tendia a fazer do mundo material, seguindo o exemplo de Platão, o produto de um deus de segunda categoria (o Deuteros theos, o Demiurgo), ou até, como dirá Marcião de Sinope, obra de um deus malvado, diferente do Deus revelado por Jesus Cristo. O anseio era libertar-se da matéria, não libertar a matéria. Visão que no tempo de Francisco de Assis revivia na heresia dos cátaros.

Uma prova de que não foi a visão bíblica que favoreceu a prevaricação do homem sobre a criação é que o mapa da poluição não coincide com o da difusão da religião bíblica nem de outras religiões, mas com a de uma industrialização selvagem, voltada só para o lucro, e com a da corrupção que abafa todas as contestações e resiste a todos os poderes.

Ao lado da grande afirmação que homens e coisas provêm de um princípio único, a narração bíblica põe em evidência, isto sim, uma hierarquia de importância que é a mesma da vida e que vemos inscrita em toda a natureza. O mineral serve o vegetal que dele se nutre, o vegetal serve o animal (é o boi que come o capim não o contrário!), e todos servem a criatura racional que é o homem.

Esta hierarquia é a favor da vida não contra ela. Por exemplo, ela é violada quando se fazem compras insensatas para alguns animais (e não certamente para os que estão em perigo de extinção!), enquanto se deixam morrer de fome e de doenças milhões de crianças sob os próprios olhos. Alguém gostaria de abolir totalmente a hierarquia entre os seres, estabelecida pela Bíblia e ínsita na natureza. Chegaram até a idealizar e desejar um universo futuro que deixou de ter a presença da espécie humana, considerada prejudicial para o restante da criação. Isto é chamado «Ecologia Profunda» (é o caso do site VHEMT — Voluntary human extinction movement). Mas claramente isto é um contra-senso. Seria como se uma imensa orquestra fosse obrigada a executar uma maravilhosa sinfonia, mas no vazio total, sem que alguém a ouça e os próprios músicos fossem surdos.

Como é tranquilizador, neste contexto, ouvir de novo as palavras do Salmo 8 que queremos fazer nossas nesta vigília de oração: «Quando contemplo os céus, obra das vossas mãos, a lua e as estrelas que Vós fixastes; que é o homem, para vos lembrardes dele, o Filho do homem, para dele cuidardes? Contudo, pouco lhe falta para que seja um ser divino; de glória e de honra o coroastes. Destes-lhe domínio sobre as obras das vossas mãos. Tudo submetestes debaixo dos seus pés; os rebanhos e o gado sem exceção, até mesmo os animais bravos; as aves do céu e os peixes do mar, tudo o que atravessa os caminhos do mar. Ó Senhor, nosso Deus, como é grande o vosso Nome em toda a terra!».

Francisco foi a prova viva da contribuição que a fé em Deus pode dar ao esforço comum para a salvaguarda da criação. O seu amor pelas criaturas foi uma consequência direta da sua fé na paternidade universal de Deus. Ainda não havia as razões práticas que temos hoje para nos preocupar pelo futuro do planeta: poluição atmosférica, escassez de água potável... A sua foi uma ecologia pura sem as finalidades utilitaristas, apesar de legítimas, que nós hoje temos. As palavras de Jesus «Um só é o vosso Pai, aquele celeste; sois todos irmãos» (cf. Mt 23, 8-9), eram-lhe suficientes. Para ele, não eram um princípio abstrato; mas o horizonte constante dentro do qual vivia e pensava. Fortalecido por esta certeza, ele quis pôr o mundo inteiro «em estado de fraternidade e de louvor».

As fontes franciscanas referem-nos os sentimentos com os quais Francisco se pôs a escrever o seu cântico: «Gostaria, por louvor a Deus e para a minha consolação e edificação do próximo, de compor um novo Louvor ao Senhor pelas suas criaturas. Diariamente utilizamos as criaturas e sem elas não podemos viver, e nelas o gênero humano ofende muito o Criador. E todos os dias nos mostramos ingratos em relação a este grande benefício e não o louvamos como deveríamos ao nosso Criador e doador de todo o bem». Sentou-se e pôs-se a refletir, dizendo em seguida: «Altíssimo, todo-poderoso, bom Senhor...» (Leggenda Perugina, 43 «Fontes Franciscanas», 1592).

As palavras do santo que define como bom o sol, bom irmão o fogo, claras e bonitas as estrelas, são o eco daquele «E Deus viu que tudo era bom», da narração da criação.

O pecado de fundo contra a criação, que precede todos os outros, é não ouvir a sua voz, condená-lo irremediavelmente, diria são Paulo, à vaidade, à insignificância (cf. Rm 8, 18 s.). O próprio Apóstolo fala de um pecado fundamental que se chama impiedade, ou «sufocar a verdade». Diz que é o pecado de quem «embora conhecendo Deus não lhe louva nem lhe dá ação de graças» como convém a Deus. Portanto, não é só o pecado dos ateus que negam a existência de Deus, é também o pecado dos crentes de cujos corações nunca saiu um entusiasmado «Glória a Deus nas alturas», nem um comovido «Graças a ti, Senhor». A Igreja põe-nos nos lábios as palavras para o fazer quando, no Glória da Missa, dizemos: «Nós te louvamos, te bendizemos, te adoramos, te glorificamos, te damos graças pela tua glória imensa».

«Os céus e a terra — diz com frequência a Escritura — estão cheios da sua glória». Estão, por assim dizer, grávidos. Mas eles não podem, sozinhos, «eximirem-se». Como a mulher grávida, têm necessidade das mãos hábeis de uma obstetra para dar à luz aquilo de que estão «grávidos». E deveríamos ser nós estes «obstetras» da glória de Deus. Quanto teve que esperar o universo, que longo impulso deve ter dado, para chegar a este ponto! Milhões e bilhões de anos, durante os quais a matéria, através da sua opacidade, progredia com dificuldade rumo à luz da consciência como a linfa que do subsolo vem para cima da árvore para se expandir em flor e fruto. Esta consciência finalmente foi alcançada, quando apareceu no universo «o fenômeno humano». Mas agora que o universo alcançou a sua meta, exige que o homem cumpra o seu dever, que assuma, por assim dizer, a direção do coro e entoe para todos o «Glória a Deus nas alturas!».

Francisco indica-nos o caminho para uma mudança radical na nossa relação com a criação: consiste em substituir a posse pela contemplação. Ele descobriu um modo diferente de usufruir as coisas que é contemplá-las em vez de as possuir. Pode beneficiar de todas as coisas, porque renunciou a possuir algumas delas. As fontes franciscanas descrevem-nos a situação de Francisco quando compõe o seu Cântico das Criaturas: «Não sendo capaz de suportar a luz natural durante o dia, nem a claridade do fogo durante a noite, ficava sempre na obscuridade em casa e na cela. Não só, mas sofria dia e noite dores atrozes nos olhos, que quase não podia repousar nem dormir, e isto aumentava e piorava estas e outras enfermidades» (Leggenda Perugina, 1614; «Fontes Franciscanas», 1591).

Francisco cantou a beleza das criaturas quando já não podia ver nenhuma delas e aliás a simples luz do sol ou do fogo causavam-lhe dores atrozes! A posse exclui, a contemplação inclui; a posse divide, a contemplação multiplica. Se um só possuir um lago, um parque, os outros ficarão excluídos; se milhares de pessoas contemplarem aquele lago ou parque, todos beneficiarão sem privar ninguém dele. Trata-se de uma posse mais verdadeira e profunda, uma posse dentro, não fora, com a alma, não só com o corpo. Quantos latifundiários pararam para admirar uma flor dos seus campos ou acariciar uma espiga do seu trigo? A contemplação permite possuir as coisas sem as açambarcar.

O exemplo de Francisco de Assis demonstra que a atitude religiosa e doxológica em relação à criação tem consequências práticas e concretas; não é algo feito no ar. Impele também a gestos concretos. O primeiro biógrafo do Santo referiu alguns dos gestos concretos do Pobrezinho: «Abraça todos os seres criados com um amor e uma devoção que nunca se viu antes [...]. Quando os frades cortam a lenha, proíbe que cortem a árvore toda, para que possa ter novos brotos. E ordena que o hortelão deixe incultos os confins ao redor da horta, a fim de que a seu tempo o verde das ervas e o esplendor das flores cantem como é bom o Pai de toda a criação. Deseja também que na horta um canteiro seja reservado às ervas oficinais e que produzem flores para que evoquem a quem as observa a recordação da suavidade eterna. Até recolhe pelos caminhos os pequenos vermes, para que não sejam pisados e às abelhas quer que se ofereçam mel e bom vinho, para que não morram de fome no rigor do inverno» (Celano, Vita Seconda, 165).

Algumas das suas recomendações parecem escritas hoje, sob a pressão dos ambientalistas. Um dia ele disse: «Não quero ser ladrão de esmolas» (Celano, Vita Seconda, 54), significando, receber mais do que o devido, subtraindo a quem teria mais necessidade do que ele. Hoje esta regra poderia ter uma aplicação muito útil para o futuro da terra. Também nós deveríamos propor-nos: não quero ser ladrão de recursos, usando-os mais que o devido e subtraindo a quem virá depois de mim.

Certamente, Francisco não tinha a visão global e planetária do problema ecológico mas uma visão local, imediata. Pensava naquilo eventualmente podia fazer ele e os seus frades. Contudo, também com isto nos ensina algo. Um slogan hoje muito em voga diz: Think globally, act locally, pensa de modo global e age localmente. Que sentido tem, por exemplo, irar-se contra quem polui a atmosfera, os oceanos e as florestas, se não hesito lançar à margem de um rio ou do mar um saquinho de plástico que permanecerá ali por séculos, se alguém não o recuperar, se lanço em qualquer lugar, estradas ou bosques, o lixo que me incomoda ou se sujo as paredes da minha cidade?

A salvaguarda da criação, como a paz, faz-se, diria o nosso Santo Padre Francisco, «artesanalmente», começando por nós mesmos. A paz começa em cada um, repete sempre nas mensagens para o dia da paz; também a salvaguarda da criação começa por nós. Foi o que um representante ortodoxo afirmou já na assembleia ecumênica de Basileia de 1989 sobre «Justiça, paz e salvaguarda da criação»: «Sem uma mudança do coração do homem, a ecologia não tem esperança de sucesso».

Concluo a minha reflexão. Poucas semanas antes da sua morte São Francisco acrescentou uma estrofe ao seu Cântico, que inicia com as palavras: «Laudato sii, mi Signore, per quelli che perdonano per lo tuo amore» (Leggenda Perugina, 84). Penso que se vivesse hoje ele teria acrescentado outra estrofe ao seu cântico: "Laudato sii, meu Senhor, por quantos trabalham para proteger nossa irmã mãe Terra, cientistas, políticos, chefes de todas as religiões e homens de boa vontade. Laudato sii, meu Senhor, por aquele que, juntamente com o meu nome, assumiu também a minha mensagem e está a difundi-la hoje em todo o mundo"!

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Livro da celebração (foram utilizados os seguinte idiomas de modo misto: italiano, inglês e alemão): http://www.vatican.va/news_services/liturgy/libretti/2015/20150901-libretto-giornata-cura-creato.pdf


Fonte: http://w2.vatican.va/content/francesco/pt/homilies/2015/documents/papa-francesco_20150901_omelia-giornata-cura-creato.html

30 de agosto de 2015

Valores socioambientais na Encíclica Laudato Si

O jornal "O Testemunho de Fé" da Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro traz na edição desta semana um pequeno artigo sobre os valores socioambientais presentes na encíclica Laudato Si descritos pelo Pe. Josafá Carlos de Siqueira SJ.
 
Boa leitura...

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Numa leitura mais minuciosa da nova Encíclica do Papa Francisco, vamos encontrar muitos valores ético-religiosos, explicitados dentro de uma visão sistêmica da realidade social e ambiental, sobretudo de todos nós que habitamos planetariamente nesta casa comum. Dentre os inúmeros valores, destacamos apenas sete, pois acreditamos que os mesmos têm uma força mais significativa no atual contexto socioambiental em que vivemos, contribuindo para a nossa reflexão, e motivando-nos a mudar o nosso modo de ser e proceder diante dos desafios de nosso tempo.
 
O primeiro valor consiste na importância de uma visão mais integrada do mundo, chamada no documento de ecologia integral, superando as fragmentações dos saberes e das práticas. Esta visão supõe hoje, segundo o Papa, “que a análise dos problemas ambientais é inseparável das análises dos contextos humanos; quando falamos de meio ambiente, falamos da relação entre natureza e a sociedade que a habita”. Desta forma, existe uma integração entre Deus, o ser humano e a natureza.
 
O segundo valor está relacionado à sensibilidade que devemos ter com a vulnerabilidade e a fragilidade existente na sociedade e na natureza. Isto significa ser sensível aos pobres, ser sensível às centenas de seres vivos vulneráveis que vão se extinguindo do planeta Terra. Segundo o pontífice, “a deterioração do meio ambiente e da sociedade, afeta de modo especial os mais frágeis do planeta”.
 
O terceiro valor diz respeito à necessária busca de um estilo de vida menos consumista e planetariamente mais responsável. Neste sentido, o Papa critica a racionalidade econômica e o fascínio pelo consumo exagerado, que vem esgotando os recursos da terra, fazendo dela um grande lixo. O Papa Francisco afirma: “É insustentável o comportamento daqueles que consomem e destroem cada vez mais, enquanto outros ainda não podem viver de acordo com a sua dignidade humana”. “É possível viver com menos, necessitar de pouco, viver muito e ser mais feliz”.
 
O quarto valor consiste em equilibrar as diferentes racionalidades da vida humana. O fascínio e a dependência da produção técnica vêm impedindo o ser humano de viver outros valores, como a música, a poesia, a arte, o contato com a natureza, etc. Segundo ele, “a felicidade exige saber limitar algumas necessidades que nos entorpecem, permanecendo assim disponíveis para as outras múltiplas oportunidades que a vida nos oferece”.
 
O quinto valor se reporta às hermenêuticas, ou seja, às interpretações religiosas que, a princípio, deveriam ser menos antropocêntricas e mais teocêntricas. O Papa Francisco nos alerta: “A humanidade e toda a criação vêm sendo destruídas por termos pretendido ocupar o lugar de Deus, recusando reconhecer-nos como criaturas limitadas”. Segundo ele, “se é verdade que nós cristãos algumas vezes interpretamos de forma incorreta as Escrituras, hoje devemos rejeitar que, o fato de ser criado à imagem de Deus e o mandato de dominar a terra, se deduza um domínio absoluto sobre todas as criaturas”.
 
O sexto valor é a educação ambiental, sendo necessária uma conversão ecológica, ou seja, uma reorientação da vida que leva a mudança de hábitos e costumes que hoje são insustentáveis. Testemunhar com gestos e pequenas ações ajuda a resgatar a dignidade da criação. O Papa cita alguns exemplos dessas pequenas ações, como evitar o uso de plástico e papel, reduzir o consumo de água, reciclar o lixo, tratar com cuidado os outros seres vivos etc.
 
O sétimo e último valor está relacionado com a união e o consenso na proteção da casa comum. Independente de crenças, credos, raças e etnias, os limites planetários exigem neste momento uma união de forças, buscando consenso sobre aquilo que nos une na missão de guardiões da criação. Para o Papa Fran- cisco, “é indispensável um diálogo aberto e respeitoso entre as ciências, as religiões e os diferentes movimentos sociais. A gravidade da crise ecológica obriga-nos a pensar no bem comum”.
 
 
 
 
 


10 de agosto de 2015

Transmissão da "Laudato Si’" em formato digital de áudio pela Rádio Vaticano a partir de 23.03.2015

Infelizmente, a transmissão será e italiano e não em diversos idiomas. Torço que alguma iniciativa a transforme em áudio-livros, para que todos possam se beneficiar, inclusive os portadores de necessidades especiais de visão. E falando nisso, não sei como o Vaticano faz para distribuir suas informações a estas pessoas... Acho que vou gravá-la e disponibilizar aqui.

Atualização em 06.06.2016: 

Já se encontram no menu ao lado os links para os áudios em português !!!


Atualização em 2021: Retiraram do ar todos os links existentes em português e, em 2022, irei gravar a versão do Circa para oferecimento gratuito na forma de audiobook em capítulos na plataforma Soundcloud.

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"Solo, água, montanhas, tudo é carícia de Deus": para quem está na cidade, ou de férias no litoral ou nas montanhas, uma oportunidade de refletir sobre o valor da criação e sobre o respeito que o homem deve à natureza no contexto da “ecologia integral” promovida pelo papa Francisco. A partir da próxima segunda-feira, 10 de agosto, até o domingo 23 de agosto, a Rádio Vaticano transmitirá na Itália a versão radiofônica da carta encíclica "Laudato Si’", do papa Francisco, sobre o cuidado da casa comum. A iniciativa também se destina às pessoas com deficiências visuais, que assim poderão "ler" a encíclica via rádio.

Os 14 episódios trazem na íntegra o texto de Francisco, enriquecido por vozes, sons e sugestões do ambiente natural. A produção é da Rádio Vaticano em parceria com a Libreria Editrice Vaticana. A transmissão será feita em formato digital, graças às novas frequências de rádio digital que permitem à emissora vaticana cobrir 65% do território italiano. A plena cobertura nacional é esperada para os próximos meses.

Fora da Itália, a transmissão pode ser acompanhada pelo site it.radiovaticana.va, bem como via aplicativos para Android e iPad, disponíveis em
www.radiovaticana.va. Por enquanto, as transmissões serão somente em italiano.


Fonte: http://www.zenit.org/pt/articles/radio-vaticano-em-agosto-a-laudato-si-em-formato-digital-de-áudio

19 de junho de 2015

A Encíclica “Laudato Si” e a defesa do meio ambiente

Gostei bastante deste texto... Muito tempo irá passar até que o teor da encíclica seja adequadamente compreendido.

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"Que alguns usem o ativismo ambiental para promover suas próprias agendas econômicas, anti-humanitárias ou panteístas; isto não torna a luta pelo meio ambiente alguma coisa em si mesmo anticristã. Exatamente o contrário, nos diz o papa – isto torna ainda mais necessário devolver a esta luta sua verdadeira face humana".

Por Paulo Vasconcelos Jacobina


Em certo almoço que reunia membros da Câmara para o Meio Ambiente e Patrimônio Cultural do Ministério Público Federal, estávamos num diálogo com professores de direito ambiental, promotores, advogados, membros de ONGs e procuradores. Ao meu lado, uma professora de direito ambiental, bastante vanguardista na área, me fez uma pergunta pessoal: “O senhor não acha que o planeta terra estaria melhor sem a espécie humana?” E prosseguiu, dando as razões pelas quais ela acreditava que não deveríamos existir, nós os humanos, para o bem do meio ambiente.

Senti-me, naquela mesa de almoço, como que vivendo uma cena do filme “Matrix”, em que o personagem “Agente Smith”, um ser virtual criado pelo computador que domina o mundo, afirma para o personagem humano Morpheus: “O ser humano é uma doença, um câncer deste planeta. Vocês são uma praga, e nós somos a cura”.

O meu primeiro impulso foi o de responder à jovem professora que, se eu pensasse assim, meu próximo e inevitável gesto seria o suicídio. Meu impulso era o de dizer a ela: “Professora, qualquer membro de uma espécie que declara considerar a si mesmo apenas como uma ameaça ao próprio ambiente e às demais espécies, e não comete suicídio imediatamente a esta fala perde qualquer credibilidade...

Não o fiz: tive medo de que sua fala decorresse de algum tipo de desordem emocional autodestrutiva, e não de uma ideologia ambientalista deturpada pelo anti-humanismo, como parecia ser o caso. Não quis correr o risco de dar ideias suicidas àquela professora. Mas a fala que ela proferiu me fez tomar uma aguda consciência de um viés anti-humanista que se embute em determinadas correntes ambientalistas.


A face política oculta em certa militância ambientalista


Este mesmo viés anti-humanista leva certos extremistas do ambientalismo – que não são parte pequena do métier – a serem, simultaneamente, advogados do aborto (inclusive do aborto compulsório), do controle de natalidade estatal obrigatório, do fim da propriedade privada e das atividades econômicas lucrativas. Tudo isto misturado com uma espiritualidade panteísta profundamente religiosa, profundamente pagã, que traz em si uma divinização do meio ambiente e da natureza. Uma religião desprovida de misericórdia. Como se sabe, o Deus cristão perdoa, mas a natureza não perdoa nunca. Que o demonstrem as grandes tragédias naturais e os tantos pesquisadores e militantes ambientalistas que foram mortos pelos animais que pesquisavam ou cultuavam.

Por outro lado, a religião cristã é vista a partir de sua vertente pós-renascentista, pós-reforma e pós-iluminista, em que pensadores de origem cristã como Francis Bacon, Descartes, Galileo e Newton pregaram a necessidade de domínio e exploração da natureza pela tecnologia científica. Faz-se a crítica do cristianismo, então, como uma religião que não somente permitiu, mas também promoveu o apoderamento da natureza pela ciência e pela economia, promovendo a degradação do meio ambiente em favor da ambição humana.

Curiosamente, o mesmo louvor ao “espírito capitalista protestante” (nas palavras de Max Weber) que serviu para desqualificar a Igreja Católica como atrasada, empobrecedora de países e inimiga do progresso serve agora, em alguns círculos, para descartá-la, junto com o restante do cristianismo, como coadjutora da degradação ambiental contemporânea.

Trata-se, portanto, de um cenário que, se não se pode dizer simplesmente que está dominado , pode-se afirmar sem medo que está impregnado de um amálgama infeliz de marxismo, anti-humanismo, libertarianismo sexual, promoção de autoritarismo estatal, anticristianismo e panteísmo autojustificante.


A Encíclica como sopro de esperança


Neste contexto, a nova Encíclica do Papa Francisco, “Laudato Si”, é uma lufada de vento fresco e despoluído. Forte no seu conteúdo profético, ela resgata uma postura verdadeiramente cristã na relação entre o ser humano e o meio ambiente, navegando com destemor através das correntes que se apoderaram do discurso ambiental para promover suas próprias causas panteístas, marxistas ou anti-humanistas. O Papa esclarece, denuncia e propõe, sempre com coragem, aquilo que deve ser a postura de um verdadeiro cristão frente ao desequilíbrio ambiental que vivemos.

É certo que há um sério risco de que a encíclica “ambiental” seja sequestrada por movimentos muito pouco aconselháveis. Já há quem proclame por aí que o Papa está promovendo mudanças tais na Igreja Católica que, no fundo, o Papa está transformando a Igreja em alguma coisa que já não é a Igreja Católica. Já perdi a conta das mensagens e notícias que recebi, nas redes sociais, com falsas citações atribuídas a ele, de que todas as religiões são iguais, de que qualquer expressão de sexualidade deve ser tida como “amor”, e assim por diante. Para muitos, o Papa é uma espécie de “Dalai Lama” do Ocidente, ou de “Paulo Coelho” de batina branca.


Os princípios para a leitura da Encíclica


Por tudo isto, a Encíclica do Papa deve ser lida com atenção a alguns princípios fundamentais. Em atenção à técnica jesuítica do papa, vou enumerar três, que considero essenciais.

primeiro princípio é o de que o Papa, embora de fato seja Papa para servir à humanidade inteira, é católico. Portanto, quando ele fala, está falando a partir da mesma Cátedra estabelecida por Jesus para Pedro há dois mil anos. Não se deve esperar, nem é necessário, que ele reafirme em cada documento toda a doutrina católica – ela é pressuposta nos seus escritos.

O Papa é católico. Isto parece tão óbvio que tem uma tendência a ser esquecido. Portanto, não se pode usar o “argumento do silêncio” contra o Papa: aquilo que ele eventualmente silencia não está, digamos, “implicitamente revogado”. Está, isto sim, implicitamente considerado, ou seja subentendido. E nesta Encíclica ele tem um cuidado extremo de resgatar longamente a Doutrina Social da Igreja como estabelecida pelos seus antecessores – a verdadeira doutrina Social da Igreja, não aquela que foi sequestrada pelos teólogos marxistas para seus próprios fins.

Segundo princípio: o da “criaturalidade”. O filósofo alemão Josef Pieper resgatou, em 1977, o conceito de “Kreatürlichkeit”, ou criaturalidade, para dentro do debate filosófico, acusando a filosofia pós-iluminista de tê-lo esquecido em prol de uma “divinização do ser humano” - e mais recentemente, de uma divinização da natureza. Mas o Papa insiste, fortemente, na Encíclica, no princípio da criaturalidade. E o faz a partir de um enfoque fortemente bíblico e apoiando-se de maneira sólida no magistério dos seus antecessores.

O resgate da criaturalidade, em matéria ambiental, traz consigo o resgate do verdadeiro humanismo, que reconhece a centralidade do ser humano, imagem e semelhança de Deus, frente à criação, que encontra nele o seu sentido último: não em qualquer projeto humano, mas naquele que tem sua medida em Jesus, conforme explica a Gaudium et Spes, 22. A raiz de uma atuação ambiental equilibrada, sem influências marxistas, sem panteísmos e sem anti-humanismos, está no capítulo II da Encíclica, em que o Papa põe cuidadosamente estes princípios cristãos que devem pautar a atuação frente à questão ambiental.

O último princípio, o terceiro, é o da responsabilidade. Somos cristãos, estamos no mundo, agir no mundo nos obriga. Não há desculpas para não agirmos, na questão ambiental, em razão dos grandes desvios existentes na militância ambientalista, que apontei acima. Os panteístas, os marxistas, os anti-humanistas, eles não têm o monopólio do assunto; aliás, como a Encíclica demonstra muito bem, eles sequer têm as melhores posições sobre o assunto. A verdadeira ciência, que o Papa Francisco resgata com muita atenção, nos pertence – toda verdade, venha de onde vier, é cristã, já dizia Clemente de Alexandria nos primórdios do cristianismo.

Que alguns usem o ativismo ambiental para promover suas próprias agendas econômicas, anti-humanitárias ou panteístas; isto não torna a luta pelo meio ambiente alguma coisa em si mesmo anticristã. Exatamente o contrário, nos diz o papa – isto torna ainda mais necessário devolver a esta luta sua verdadeira face humana. O abuso não tolhe o uso, diziam os antigos romanos.

A verdadeira preocupação ambiental é amor à criação, não desculpa para promover aborto, raiva à espécie humana, desagregação familiar e combate à propriedade privada dos meios de produção. E a única maneira de fazermos o que devemos é nos engajando nesta luta, firme e destemidamente, com os fundamentos que o Papa agora nos dá.




Fonte: http://www.zenit.org/pt/articles/a-enciclica-laudato-si-e-a-defesa-do-meio-ambiente