7 de junho de 2015

Caritas in Veritate: Excerto sobre as relações entre o homem e o meio ambiente

Aproveitando o tempo de espera pela nova encíclica do Papa Francisco e lendo a Caritas in Veritate do Papa Bento XVI, me deparei com um trecho que trata de forma belíssima as relações entre o homem e o meio ambiente.

Assim como a caridade não pode ser confundida com a simples filantropia, nossas ações em prol da Criação não podem ser rasas ou baseadas em "greenwashing" (coloquialmente: "maquiagem verde").

Boa leitura!

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CARTA ENCÍCLICA
CARITAS IN VERITATE

DO SUMO PONTÍFICE
BENTO XVI
AOS BISPOS
AOS PRESBÍTEROS E DIÁCONOS
ÀS PESSOAS CONSAGRADAS
AOS FIÉIS LEIGOS
E A TODOS OS HOMENS
DE BOA VONTADE
SOBRE O DESENVOLVIMENTO
HUMANO INTEGRAL
NA CARIDADE E NA VERDADE


DESENVOLVIMENTO DOS POVOS, DIREITOS E DEVERES, AMBIENTE


"[...] 48. O tema do desenvolvimento aparece, hoje, estreitamente associado também com os deveres que nascem do relacionamento do homem com o ambiente natural. Este foi dado por Deus a todos, constituindo o seu uso uma responsabilidade que temos para com os pobres, as gerações futuras e a humanidade inteira.

Quando a natureza, a começar pelo ser humano, é considerada como fruto do acaso ou do determinismo evolutivo, a noção da referida responsabilidade debilita-se nas consciências. Na natureza, o crente reconhece o resultado maravilhoso da intervenção criadora de Deus, de que o homem se pode responsavelmente servir para satisfazer as suas legítimas exigências — materiais e imateriais — no respeito dos equilíbrios intrínsecos da própria criação.

Se falta esta perspectiva, o homem acaba por considerar a natureza um tabu intocável ou, ao contrário, por abusar dela. Nem uma nem outra destas atitudes corresponde à visão cristã da natureza, fruto da criação de Deus.

A natureza é expressão de um desígnio de amor e de verdade. Precede-nos, tendo-nos sido dada por Deus como ambiente de vida. Fala-nos do Criador (cf. Rm 1, 20) e do seu amor pela humanidade. Está destinada, no fim dos tempos, a ser «instaurada» em Cristo (cf. Ef 1, 9-10; Col 1, 19-20). Por conseguinte, também ela é uma «vocação».

A natureza está à nossa disposição, não como «um monte de lixo espalhado ao acaso», mas como um dom do Criador que traçou os seus ordenamentos intrínsecos dos quais o homem há-de tirar as devidas orientações para a «guardar e cultivar» (Gn 2, 15). Mas é preciso sublinhar também que é contrário ao verdadeiro desenvolvimento considerar a natureza mais importante do que a própria pessoa humana.

Esta posição induz a comportamentos neopagãos ou a um novo panteísmo: só da natureza, entendida em sentido puramente naturalista, não pode derivar a salvação para o homem. Por outro lado, há que rejeitar também a posição oposta, que visa a sua completa tecnicização, porque o ambiente natural não é apenas matéria de que dispor a nosso bel-prazer, mas obra admirável do Criador, contendo nela uma «gramática» que indica finalidades e critérios para uma utilização sapiente, não instrumental nem arbitrária.

Advêm, hoje, muitos danos ao desenvolvimento precisamente destas concepções deformadas. Reduzir completamente a natureza a um conjunto de simples dados reais acaba por ser fonte de violência contra o ambiente e até por motivar ações desrespeitadoras da própria natureza do homem. Esta, constituída não só de matéria mas também de espírito e, como tal, rica de significados e de fins transcendentes a alcançar, tem um caráter normativo também para a cultura.

O homem interpreta e modela o ambiente natural através da cultura, a qual, por sua vez, é orientada por meio da liberdade responsável, atenta aos ditames da lei moral. Por isso, os projetos para um desenvolvimento humano integral não podem ignorar os vindouros, mas devem ser animados pela solidariedade e a justiça entre as gerações, tendo em conta os diversos âmbitos: ecológico, jurídico, econômico, político, cultural.

49. Hoje, as questões relacionadas com o cuidado e a preservação do ambiente devem ter na devida consideração as problemáticas energéticas. De fato, o açambarcamento dos recursos energéticos não renováveis por parte de alguns Estados, grupos de poder e empresas constitui um grave impedimento para o desenvolvimento dos países pobres.

Estes não têm os meios econômicos para chegar às fontes energéticas não renováveis que existem, nem para financiar a pesquisa de fontes novas e alternativas. A monopolização dos recursos naturais, que em muitos casos se encontram precisamente nos países pobres, gera exploração e frequentes conflitos entre as nações e dentro das mesmas.

E muitas vezes estes conflitos são travados precisamente no território de tais países, com um pesado balanço em termos de mortes, destruições e maior degradação. A comunidade internacional tem o imperioso dever de encontrar as vias institucionais para regular a exploração dos recursos não renováveis, com a participação também dos países pobres, de modo a planificar em conjunto o futuro.

Também sobre este aspecto, há urgente necessidade moral de uma renovada solidariedade, especialmente nas relações entre os países em vias de desenvolvimento e os países altamente industrializados. As sociedades tecnicamente avançadas podem e devem diminuir o consumo energético seja porque as atividades manufatureiras evoluem, seja porque entre os seus cidadãos reina maior sensibilidade ecológica.

Além disso, há que acrescentar que, atualmente, é possível melhorar a eficiência energética e fazer avançar a pesquisa de energias alternativas; mas é necessária também uma redistribuição mundial dos recursos energéticos, de modo que os próprios países desprovidos possam ter acesso aos mesmos. O seu destino não pode ser deixado nas mãos do primeiro a chegar nem estar sujeito à lógica do mais forte.

Trata-se de problemas relevantes que, para ser enfrentados de modo adequado, requerem da parte de todos uma responsável tomada de consciência das consequências que recairão sobre as novas gerações, principalmente sobre a imensidade de jovens presentes nos povos pobres, que «reclamam a sua parte ativa na construção de um mundo melhor».

50. Esta responsabilidade é global, porque não diz respeito somente à energia, mas a toda a criação, que não devemos deixar às novas gerações depauperada dos seus recursos. É lícito ao homem exercer um governo responsável sobre a natureza para a guardar, fazer frutificar e cultivar inclusive com formas novas e tecnologias avançadas, para que possa acolher e alimentar condignamente a população que a habita.

Há espaço para todos nesta nossa terra: aqui a família humana inteira deve encontrar os recursos necessários para viver decorosamente, com a ajuda da própria natureza, dom de Deus aos seus filhos, e com o empenho do seu próprio trabalho e inventiva. Devemos, porém, sentir como gravíssimo o dever de entregar a terra às novas gerações num estado tal que também elas possam dignamente habitá-la e continuar a cultivá-la.

Isto implica «o empenho de decidir juntos depois de ter ponderado responsavelmente qual a estrada a percorrer, com o objetivo de reforçar aquela aliança entre ser humano e ambiente que deve ser espelho do amor criador de Deus, de Quem provimos e para Quem estamos a caminho». É desejável que a comunidade internacional e os diversos governos saibam contrastar, de maneira eficaz, as modalidades de utilização do ambiente que sejam danosas para o mesmo.

É igualmente forçoso que se empreendam, por parte das autoridades competentes, todos os esforços necessários para que os custos econômicos e sociais derivados do uso dos recursos ambientais comuns sejam reconhecidos de maneira transparente e plenamente suportados por quem deles usufrui e não por outras populações nem pelas gerações futuras: a proteção do ambiente, dos recursos e do clima requer que todos os responsáveis internacionais atuem conjuntamente e se demonstrem prontos a agir de boa fé, no respeito da lei e da solidariedade para com as regiões mais débeis da terra.

Uma das maiores tarefas da economia é precisamente um uso mais eficiente dos recursos, não o abuso, tendo sempre presente que a noção de eficiência não é axiologicamente neutra.

51. As modalidades com que o homem trata o ambiente influem sobre as modalidades com que se trata a si mesmo, e vice-versa. Isto chama a sociedade actual a uma séria revisão do seu estilo de vida que, em muitas partes do mundo, pende para o hedonismo e o consumismo, sem olhar aos danos que daí derivam.

É necessária uma real mudança de mentalidade que nos induza a adoptar novos estilos de vida, «nos quais a busca do verdadeiro, do belo e do bom e a comunhão com os outros homens para um crescimento comum sejam os elementos que determinam as opções dos consumos, das poupanças e dos investimentos».

Toda a lesão da solidariedade e da amizade cívica provoca danos ambientais, assim como a degradação ambiental por sua vez gera insatisfação nas relações sociais. A natureza, especialmente no nosso tempo, está tão integrada nas dinâmicas sociais e culturais que quase já não constitui uma variável independente.

A desertificação e a penúria produtiva de algumas áreas agrícolas são fruto também do empobrecimento das populações que as habitam e do seu atraso. Incentivando o desenvolvimento econômico e cultural daquelas populações, tutela-se também a natureza. Além disso, quantos recursos naturais são devastados pela guerra! A paz dos povos e entre os povos permitiria também uma maior preservação da natureza.

O açambarcamento dos recursos, especialmente da água, pode provocar graves conflitos entre as populações envolvidas. Um acordo pacífico sobre o uso dos recursos pode salvaguardar a natureza e, simultaneamente, o bem-estar das sociedades interessadas.

A Igreja sente o seu peso de responsabilidade pela criação e deve fazer valer esta responsabilidade também em público. Ao fazê-lo, não tem apenas de defender a terra, a água e o ar como dons da criação que pertencem a todos, mas deve sobretudo proteger o homem da destruição de si mesmo. Requer-se uma espécie de ecologia do homem, entendida no justo sentido.

De fato, a degradação da natureza está estreitamente ligada à cultura que molda a convivência humana: quando a «ecologia humana» é respeitada dentro da sociedade, beneficia também a ecologia ambiental. Tal como as virtudes humanas são intercomunicantes, de modo que o enfraquecimento de uma põe em risco também as outras, assim também o sistema ecológico se rege sobre o respeito de um projeto que se refere tanto à sã convivência em sociedade como ao bom relacionamento com a natureza.

Para preservar a natureza não basta intervir com incentivos ou penalizações econômicas, nem é suficiente uma instrução adequada. Trata-se de instrumentos importantes, mas o problema decisivo é a solidez moral da sociedade em geral. Se não é respeitado o direito à vida e à morte natural, se se tornam artificiais a concepção, a gestação e o nascimento do homem, se são sacrificados embriões humanos na pesquisa, a consciência comum acaba por perder o conceito de ecologia humana e, com ele, o de ecologia ambiental.

É uma contradição pedir às novas gerações o respeito do ambiente natural, quando a educação e as leis não as ajudam a respeitar-se a si mesmas. O livro da natureza é uno e indivisível, tanto sobre a vertente do ambiente como sobre a vertente da vida, da sexualidade, do matrimônio, da família, das relações sociais, numa palavra, do desenvolvimento humano integral.

Os deveres que temos para com o ambiente estão ligados com os deveres que temos para com a pessoa considerada em si mesma e em relação com os outros; não se podem exigir uns e espezinhar os outros. Esta é uma grave antinomia da mentalidade e do costume atual, que avilta a pessoa, transtorna o ambiente e prejudica a sociedade.

52. A verdade e o amor que a mesma desvenda não se podem produzir, mas apenas acolher. A sua fonte última não é — nem pode ser — o homem, mas Deus, ou seja, Aquele que é Verdade e Amor.

Este princípio é muito importante para a sociedade e para o desenvolvimento, enquanto nem uma nem outro podem ser somente produtos humanos; a própria vocação ao desenvolvimento das pessoas e dos povos não se funda sobre a simples deliberação humana, mas está inscrita num plano que nos precede e constitui para todos nós um dever que há de ser livremente assumido.

Aquilo que nos precede e constitui — o Amor e a Verdade subsistentes — indica-nos o que é o bem e em que consiste a nossa felicidade. E, por conseguinte, aponta-nos o caminho para o verdadeiro desenvolvimento [...]".




6 de junho de 2015

Francisco: Encíclica sai em 18 de junho...


Rumores na internet afirmam que se chamará "Laudato sii", mas creio que seja mais correto suspeitar que seja denominada em latim e meu palpite é: "Laudatus sis". A suposta escolha do nome remonta a um trecho do "Cântico das Criaturas" de São Francisco de Assis, cujo texto no idioma original é:

"[...] Laudato si’, mi’ Signore, cum tucte le tue creature,
spetialmente messor lo frate sole,
lo qual è iorno, et allumini noi per lui [...]"

E em latim:

"[...] Laudatus sis, mi Domine, cum universa creatura tua,
principaliter cum domino fratre sole,
qui est dies, et illuminas nos per ipsum [...]".


Pesquisando pela internet vi que algumas fontes vinculam a expressão ao versículo encontrado em Tobias 8, 7 e este, segundo a Bíblia Ave Maria é: 

"[...] Tobias disse: Senhor Deus de nossos pais, bendigam-vos os céus, a terra, o mar,
as fontes e os rios, com todas as criaturas que neles existem [...]".

Mas na Bíblia de Jerusalém o texto é diverso e me parece complementar:

"[...] E agora, não é por prazer que tomo esta minha irmã, mas com reta intenção.
Digna-Te ter piedade de mim e dela e conduzir-nos juntos a uma idade avançada! [...]"

Pode ser "achismo" em demasiado, mas achei uma bela escolha... E não podemos esquecer o Salmo 148!

Abaixo, a notícia dada pelo portal ZENIT sobre a ação tomada para sanar as especulações pela rede.


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Para "evitar confusão devido à propagação de informações não confirmadas", a Sala de Imprensa da Santa Sé emitiu um comunicado confirmando que a data para a publicação da encíclica do Papa será dia 18 de junho. Além disso, informaram que a apresentação pública será comunicada na próxima semana.
 
Desta forma, o Vaticano esclareceu a notícia que começou a circular no último sábado sobre o possível título (Laudato Sii) e a data da publicação (16 de junho) da próxima encíclica do Papa, que abordará o tema da ecologia.
 
A notícia tornou-se pública quando o diretor da Libreria Editrice Vaticana (LEV), padre Giuseppe Costa, anunciou a novidade durante uma cerimônia de premiação realizada em Nápoles.
 

31 de maio de 2015

Saiu no "Testemunho de Fé" desta semana - 07.06.2015

O jornal "Testemunho de Fé" é um publicação semanal da Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro e a edição atual nos oferece uma bonita reflexão sobre o Dia internacional do Meio Ambiente, cuja celebração será na próxima sexta-feira.
 
Na edição, o Cônego Manuel Manangão, responsável pelo Vicariato Episcopal para a Caridade Social, exorta aos fiéis cariocas que "empenhem esforços na perspectiva de levar os governantes a tomarem, sempre, decisões para construir sustentabilidade e justiça, garantindo a vitalidade e a integridade da Terra e da vida que nela reside" (pág.18).
 
O texto integral, bem como o jornal poderão ser lidos on line através do site:
 
 
http://vp.virtualpaper.com.br/otestemunhodefe
 
 
Aguardemos a nova encíclica... Aposto que sai no dia 05 de junho (ou quem sabe no dia de Corpus Christi?). Boa leitura a todos!

28 de abril de 2015

Dom Sorondo: concluída Encíclica do Papa sobre meio ambiente

O chanceler da Pontifícia Academia das Ciências e da Pontifícia Academia das Ciências Sociais, Dom Marcelo Sánchez Sorondo, disse na manhã desta terça-feira, dia 28, estar pronta a encíclica do Papa Francisco dedicada a temas ambientais, cuja publicação sairá do final de maio a início de junho, assim que se concluir o trabalho de tradução em várias línguas. Entrevistado pela Rádio Vaticano, eis o que disse o prelado argentino:

Dom Marcelo Sánchez Sorondo:
“O Papa disse na manhã desta terça-feira que a Encíclica está pronta, que estão fazendo as traduções e que, provavelmente, a mesma será publicada no final de maio ou início de junho”.

RV:
“O secretário geral da ONU, Ban Ki-moon, que esta terça-feira participou – na sede da Pontifícia Academia das Ciências - do seminário sobre o tema “Proteger a terra, nobilitar a humanidade. As dimensões morais das mudanças climáticas e do desenvolvimento sustentável", teve um breve encontro privado com o Papa Francisco, e na ocasião expressou gratidão por essa contribuição”.

Dom Marcelo Sánchez Sorondo:
“Ban Ki-moon está muito contente, naturalmente. De fato, este encontro se realiza para apoiar a encíclica, oferecendo argumentos especificamente científicos que naturalmente a encíclica não poderá dar porque tem um estilo pastoral.

Há dois aspectos: um é o que vem da Bíblia, em que o homem é o custódio, no sentido que deve desenvolver a Criação num modo sustentável, como hoje dizemos. Isso já o dizia Paulo VI na “Populorum Progressio”. Isso significa inclusão social, significa, naturalmente, uma agricultura que responda às necessidades reais da alimentação do povo e significa muitas outras coisas.

Portanto, de um lado, o homem é custódio da Criação num modo sustentável e, de outro, a situação – não digo da Criação, porque não podemos intervir – no que tange à Terra, a situação da Terra, é descrita principalmente pelas ciências naturais e pelas ciências sociais. Cremos que a encíclica abordará esses dois temas”.

RV:
“Como disse Ban Ki-moon, ciência e religião são mais que aliadas...”

Dom Marcelo Sánchez Sorondo:
“Sim, naturalmente, como disse Ban Ki-moon, mas como é próprio do estilo de todos os papas, que colocam sempre fé e razão em quase todas as encíclicas, porque se não houver a razão, não se pode raciocinar. A fé é organizada em conceitos e, consequentemente, desde o início, fé e razão caminham juntas. Nesse caso, talvez, haja mais razão científica que razão filosófica, mas há sempre a razão”.

Fonte: http://www.news.va/pt/news/dom-sorondo-concluida-enciclica-do-papa-sobre-meio

9 de abril de 2015

Homilia de Francisco na Casa Santa Marta: Cuidar da criação não é só coisa dos ecologistas (09.02.15)

O cristão que não se preocupa com a criação não se preocupa com o trabalho de Deus
 
Na homilia da missa desta segunda-feira, o papa Francisco recordou que os cristãos são chamados a cuidar da criação e disse que Deus criou o universo, mas a criação não terminou: “Ele continuamente sustenta o que criou”. O papa falou também da 'segunda criação', realizada por Jesus ao 'recriar' o que tinha sido abalado pelo pecado.
 
Partindo da primeira leitura, que narra a criação do universo, o papa observou que "o Evangelho mostra 'a outra criação de Deus', a de Jesus, que recria o que o pecado tinha afetado. Quando as pessoas tocavam nele, eram salvas: isto é 'a recriação', que é 'mais maravilhosa do que a primeira'. Quanto ao trabalho da 'perseverança na fé', ele é sustentado pelo Espírito Santo".
 
“Deus trabalha, continua trabalhando; e nós podemos nos perguntar como é que temos de responder a esta criação de Deus, que nasceu do amor, porque Ele trabalha por amor. À ‘primeira criação’, temos que responder com a responsabilidade que nosso Senhor nos dá: ‘a Terra é vossa, submetei-a, fazei-a crescer’. Temos a responsabilidade de fazer a Terra crescer, de fazer a criação crescer, de cuidar dela e de fazê-la crescer de acordo com as suas leis. Nós somos senhores da criação, não donos”.
 
A este respeito, o papa declarou que precisamos ter “o cuidado de não nos apossarmos da criação, mas de fazê-la ir adiante, fiéis às suas leis. Esta é a primeira resposta ao trabalho de Deus: trabalhar para cuidar da criação”.
 
“Quando ouvimos falar de reuniões para pensar em como cuidar da criação, podemos dizer: ‘São os ecologistas!’. Não, não são os ecologistas! Isto é cristão! É a nossa resposta à ‘primeira criação’ de Deus. É nossa responsabilidade. Um cristão que não cuida da criação, que não a faz crescer, é um cristão que não se importa com o trabalho de Deus, com esse trabalho do amor de Deus para conosco. E esta é a primeira resposta à primeira criação: cuidar da criação, fazê-la crescer”.
 
E como respondemos 'à segunda criação'? O papa recordou: "São Paulo nos exorta a nos deixarmos “reconciliar com Deus”, ou seja, a “seguir o caminho da reconciliação interior, da reconciliação comunitária, porque a reconciliação é o trabalho de Cristo”. De novo, retomando as palavras do apóstolo, Francisco recordou que não devemos afligir o Espírito Santo que está em nós, que está dentro de nós e trabalha dentro de nós. “Cremos em um Deus pessoal”, que “é pessoa Pai, pessoa Filho e pessoa Espírito Santo”. E os três estão envolvidos nesta criação, nesta recriação, nesta perseverança na recriação.
 
“Aos três, nós respondemos: cuidar e fazer a criação crescer; deixar-nos reconciliar com Jesus, com Deus em Jesus, em Cristo, todos os dias; e não afligir o Espírito Santo, não expulsá-lo: Ele é o hóspede do nosso coração, aquele que nos acompanha, que nos faz crescer”.
 
Ao encerrar, o papa pediu que “Nosso Senhor nos dê a graça de entender que Ele trabalha e a graça de responder justamente a este trabalho de amor”.

 

1 de abril de 2015

Desenvolvimento dos povos, direitos e deveres, ambiente (Excerto da Carta Encíclica do Santo Padre Bento XVI, "Caritas in Veritate")

"[...]
 
Capítulo III
Fraternidade, desenvolvimento econômico e sociedade civil
 
48. O tema do desenvolvimento aparece, hoje, estreitamente associado também com os deveres que nascem do relacionamento do homem com o ambiente natural. Este foi dado por Deus a todos, constituindo o seu uso uma responsabilidade que temos para com os pobres, as gerações futuras e a humanidade inteira. Quando a natureza, a começar pelo ser humano, é considerada como fruto do acaso ou do determinismo evolutivo, a noção da referida responsabilidade debilita-se nas consciências.
 
Na natureza, o crente reconhece o resultado maravilhoso da intervenção criadora de Deus, de que o homem se pode responsavelmente servir para satisfazer as suas legítimas exigências — materiais e imateriais — no respeito dos equilíbrios intrínsecos da própria criação. Se falta esta perspectiva, o homem acaba por considerar a natureza um tabu intocável ou, ao contrário, por abusar dela. Nem uma nem outra destas atitudes corresponde à visão cristã da natureza, fruto da criação de Deus.
 
A natureza é expressão de um desígnio de amor e de verdade. Precede-nos, tendo-nos sido dada por Deus como ambiente de vida. Fala-nos do Criador (cf. Rm 1, 20) e do seu amor pela humanidade. Está destinada, no fim dos tempos, a ser «instaurada» em Cristo (cf. Ef 1, 9-10; Col 1, 19-20). Por conseguinte, também ela é uma «vocação». A natureza está à nossa disposição, não como «um monte de lixo espalhado ao acaso», mas como um dom do Criador que traçou os seus ordenamentos intrínsecos dos quais o homem há-de tirar as devidas orientações para a «guardar e cultivar» (Gn 2, 15). Mas é preciso sublinhar também que é contrário ao verdadeiro desenvolvimento considerar a natureza mais importante do que a própria pessoa humana.
 
Esta posição induz a comportamentos neopagãos ou a um novo panteísmo: só da natureza, entendida em sentido puramente naturalista, não pode derivar a salvação para o homem. Por outro lado, há que rejeitar também a posição oposta, que visa a sua completa tecnicização, porque o ambiente natural não é apenas matéria de que dispor a nosso bel-prazer, mas obra admirável do Criador, contendo nela uma «gramática» que indica finalidades e critérios para uma utilização sapiente, não instrumental nem arbitrária.
 
Advêm, hoje, muitos danos ao desenvolvimento precisamente destas concepções deformadas. Reduzir completamente a natureza a um conjunto de simples dados reais acaba por ser fonte de violência contra o ambiente e até por motivar ações desrespeitadoras da própria natureza do homem. Esta, constituída não só de matéria mas também de espírito e, como tal, rica de significados e de fins transcendentes a alcançar, tem um caráter normativo também para a cultura.
 
O homem interpreta e modela o ambiente natural através da cultura, a qual, por sua vez, é orientada por meio da liberdade responsável, atenta aos ditames da lei moral. Por isso, os projetos para um desenvolvimento humano integral não podem ignorar os vindouros, mas devem ser animados pela solidariedade e a justiça entre as gerações, tendo em conta os diversos âmbitos: ecológico, jurídico, econômico, político, cultural.
 
49. Hoje, as questões relacionadas com o cuidado e a preservação do ambiente devem ter na devida consideração as problemáticas energéticas. De fato, o açambarcamento dos recursos energéticos não renováveis por parte de alguns Estados, grupos de poder e empresas constitui um grave impedimento para o desenvolvimento dos países pobres. Estes não têm os meios econômicos para chegar às fontes energéticas não renováveis que existem, nem para financiar a pesquisa de fontes novas e alternativas.
 
A monopolização dos recursos naturais, que em muitos casos se encontram precisamente nos países pobres, gera exploração e frequentes conflitos entre as nações e dentro das mesmas. E muitas vezes estes conflitos são travados precisamente no território de tais países, com um pesado balanço em termos de mortes, destruições e maior degradação. A comunidade internacional tem o imperioso dever de encontrar as vias institucionais para regular a exploração dos recursos não renováveis, com a participação também dos países pobres, de modo a planificar em conjunto o futuro.
 
Também sobre este aspecto, há urgente necessidade moral de uma renovada solidariedade, especialmente nas relações entre os países em vias de desenvolvimento e os países altamente industrializados. As sociedades tecnicamente avançadas podem e devem diminuir o consumo energético seja porque as atividades manufatureiras evoluem, seja porque entre os seus cidadãos reina maior sensibilidade ecológica.
 
Além disso há que acrescentar que, atualmente, é possível melhorar a eficiência energética e fazer avançar a pesquisa de energias alternativas; mas é necessária também uma redistribuição mundial dos recursos energéticos, de modo que os próprios países desprovidos possam ter acesso aos mesmos. O seu destino não pode ser deixado nas mãos do primeiro a chegar nem estar sujeito à lógica do mais forte.
 
Trata-se de problemas relevantes que, para ser enfrentados de modo adequado, requerem da parte de todos uma responsável tomada de consciência das consequências que recairão sobre as novas gerações, principalmente sobre a imensidade de jovens presentes nos povos pobres, que «reclamam a sua parte ativa na construção de um mundo melhor».
 
50. Esta responsabilidade é global, porque não diz respeito somente à energia, mas a toda a criação, que não devemos deixar às novas gerações depauperada dos seus recursos. É lícito ao homem exercer um governo responsável sobre a natureza para a guardar, fazer frutificar e cultivar inclusive com formas novas e tecnologias avançadas, para que possa acolher e alimentar condignamente a população que a habita. Há espaço para todos nesta nossa terra: aqui a família humana inteira deve encontrar os recursos necessários para viver decorosamente, com a ajuda da própria natureza, dom de Deus aos seus filhos, e com o empenho do seu próprio trabalho e inventiva.
 
Devemos, porém, sentir como gravíssimo o dever de entregar a terra às novas gerações num estado tal que também elas possam dignamente habitá-la e continuar a cultivá-la. Isto implica «o empenho de decidir juntos depois de ter ponderado responsavelmente qual a estrada a percorrer, com o objetivo de reforçar aquela aliança entre ser humano e ambiente que deve ser espelho do amor criador de Deus, de Quem provimos e para Quem estamos a caminho». É desejável que a comunidade internacional e os diversos governos saibam contrastar, de maneira eficaz, as modalidades de utilização do ambiente que sejam danosas para o mesmo.
 
É igualmente forçoso que se empreendam, por parte das autoridades competentes, todos os esforços necessários para que os custos econômicos e sociais derivados do uso dos recursos ambientais comuns sejam reconhecidos de maneira transparente e plenamente suportados por quem deles usufrui e não por outras populações nem pelas gerações futuras: a proteção do ambiente, dos recursos e do clima requer que todos os responsáveis internacionais atuem conjuntamente e se demonstrem prontos a agir de boa fé, no respeito da lei e da solidariedade para com as regiões mais débeis da terra. Uma das maiores tarefas da economia é precisamente um uso mais eficiente dos recursos, não o abuso, tendo sempre presente que a noção de eficiência não é axiologicamente neutra.
 
51. As modalidades com que o homem trata o ambiente influem sobre as modalidades com que se trata a si mesmo, e vice-versa. Isto chama a sociedade atual a uma séria revisão do seu estilo de vida que, em muitas partes do mundo, pende para o hedonismo e o consumismo, sem olhar aos danos que daí derivam. É necessária uma real mudança de mentalidade que nos induza a adotar novos estilos de vida, «nos quais a busca do verdadeiro, do belo e do bom e a comunhão com os outros homens para um crescimento comum sejam os elementos que determinam as opções dos consumos, das poupanças e dos investimentos».
 
Toda a lesão da solidariedade e da amizade cívica provoca danos ambientais, assim como a degradação ambiental por sua vez gera insatisfação nas relações sociais. A natureza, especialmente no nosso tempo, está tão integrada nas dinâmicas sociais e culturais que quase já não constitui uma variável independente. A desertificação e a penúria produtiva de algumas áreas agrícolas são fruto também do empobrecimento das populações que as habitam e do seu atraso. Incentivando o desenvolvimento econômico e cultural daquelas populações, tutela-se também a natureza.
 
Além disso, quantos recursos naturais são devastados pela guerra! A paz dos povos e entre os povos permitiria também uma maior preservação da natureza. O açambarcamento dos recursos, especialmente da água, pode provocar graves conflitos entre as populações envolvidas. Um acordo pacífico sobre o uso dos recursos pode salvaguardar a natureza e, simultaneamente, o bem-estar das sociedades interessadas.
 
A Igreja sente o seu peso de responsabilidade pela criação e deve fazer valer esta responsabilidade também em público. Ao fazê-lo, não tem apenas de defender a terra, a água e o ar como dons da criação que pertencem a todos, mas deve sobretudo proteger o homem da destruição de si mesmo. Requer-se uma espécie de ecologia do homem, entendida no justo sentido.
 
De fato, a degradação da natureza está estreitamente ligada à cultura que molda a convivência humana: quando a «ecologia humana» é respeitada dentro da sociedade, beneficia também a ecologia ambiental. Tal como as virtudes humanas são intercomunicantes, de modo que o enfraquecimento de uma põe em risco também as outras, assim também o sistema ecológico se rege sobre o respeito de um projeto que se refere tanto à sã convivência em sociedade como ao bom relacionamento com a natureza.
 
Para preservar a natureza não basta intervir com incentivos ou penalizações econômicas, nem é suficiente uma instrução adequada. Trata-se de instrumentos importantes, mas o problema decisivo é a solidez moral da sociedade em geral. Se não é respeitado o direito à vida e à morte natural, se se tornam artificiais a concepção, a gestação e o nascimento do homem, se são sacrificados embriões humanos na pesquisa, a consciência comum acaba por perder o conceito de ecologia humana e, com ele, o de ecologia ambiental.
 
É uma contradição pedir às novas gerações o respeito do ambiente natural, quando a educação e as leis não as ajudam a respeitar-se a si mesmas. O livro da natureza é uno e indivisível, tanto sobre a vertente do ambiente como sobre a vertente da vida, da sexualidade, do matrimônio, da família, das relações sociais, numa palavra, do desenvolvimento humano integral.
 
Os deveres que temos para com o ambiente estão ligados com os deveres que temos para com a pessoa considerada em si mesma e em relação com os outros; não se podem exigir uns e espezinhar os outros. Esta é uma grave antinomia da mentalidade e do costume atual, que avilta a pessoa, transtorna o ambiente e prejudica a sociedade.
 
52. A verdade e o amor que a mesma desvenda não se podem produzir, mas apenas acolher. A sua fonte última não é — nem pode ser — o homem, mas Deus, ou seja, Aquele que é Verdade e Amor.
 
Este princípio é muito importante para a sociedade e para o desenvolvimento, enquanto nem uma nem outro podem ser somente produtos humanos; a própria vocação ao desenvolvimento das pessoas e dos povos não se funda sobre a simples deliberação humana, mas está inscrita num plano que nos precede e constitui para todos nós um dever que há-de ser livremente assumido.
 
Aquilo que nos precede e constitui — o Amor e a Verdade subsistentes — indica-nos o que é o bem e em que consiste a nossa felicidade. E, por conseguinte, aponta-nos o caminho para o verdadeiro desenvolvimento.
 
[...]"
 

27 de fevereiro de 2015

Ecologia: É necessário ir além das discussões politizadas

Entrevista com o Padre Robert Gahl - professor de ética na Universidade Pontifícia da Santa Cruz em Roma - sobre a futura encíclica papal, publicada no portal ZENIT em 24.02.2015.

Boa leitura!

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O Santo Padre Francisco anunciou repetidamente que este ano publicará sua segunda Encíclica e o tema abordado será a ecologia. Uma questão até agora não muito discutida na Igreja, mas é cada vez mais evidente que deve nos preocupar, como cidadãos, mas também como cristãos, porque o meio ambiente é um dom que Deus deu ao homem para que fosse cuidado.

Zenit: Por que agora a Igreja está mais preocupada com a ecologia?
 
É um ano particularmente importante por ocasião da Conferência das Nações Unidas Sobre as Mudanças Climáticas que acontecerá em Paris de 30 de novembro a 11 de dezembro de 2015. Muitos acham que a Encíclica ajudará a reflexão neste encontro. Mas esta é uma razão circunstancial, pontual. 
 
Será a primeira encíclica papal sobre o tema da ecologia e por que o Papa quer isso? Quer ensinar a todos - e não apenas os católicos - a cuidar mais do meio ambiente. Temos que lembrar que abordará questões mais recentes e aparentemente exóticas tais como lixo espacial, satélites em órbita... 
 
É importante entender porque o Papa quer abordar todas estas preocupações. Principalmente, porque Deus colocou toda a Criação nas mãos dos seres humanos e temos essa responsabilidade recebida por Deus. Nós exercemos o domínio de Deus sobre a Criação. Desta forma, especialmente os batizados podem viver esta tarefa de governar pelo "sacerdócio real".
 
Há uma outra razão. O Papa está muito preocupado com a periferia e a pobreza e percebe que estes sofrem especialmente por desastres ecológicos. No entanto, o progresso tecnológico está nas mãos das pessoas mais ricas.
 
Ao mesmo tempo, o Papa está preocupado porque viu na América Latina, a exploração da natureza por parte de grandes empresas multinacionais com objetivo de maximizar os lucros a qualquer custo.
 
É preciso prestar atenção porque muitos tentaram politizar esta questão e outros tentaram minimizar o teor da Encíclica. Por isso, é importante ir além das discussões politizadas. O Santo Padre, com sua autoridade moral, quer convidar a todos a serem criativos na forma de gerenciar isso e a avançarem em novos projetos.
 
Zenit: Recentemente, o Papa disse em uma homilia que se preocupar com o meio ambiente não é apenas uma questão de "verde". Por que é importante que os católicos também se preocupem com a ecologia?
 
Estou lembrando do discurso de Bento XVI no Bundestag, quando também falou do "verde". Ele disse que não havia mais "verde" como tal, porque todos os partidos estavam conscientes e comprometidos com o meio ambiente. E o Papa Francisco quer estar em continuidade com seu antecessor, também nisso.
 
Em alguns países, o “verde” foi associado ao anticlericalismo e é interessante o porquê disso. A Igreja é naturalmente favorável à ecologia, mas há correntes de neo-paganismo que estão ligadas ao movimento ecológico. Mas não quer dizer que os católicos não estão comprometidos com a defesa do meio ambiente. 
 
Temos mais motivos para defender o meio ambiente, não porque "adoramos" o ambiente como se a Mãe Terra fosse uma deusa, mas porque é um dom de Deus e devemos deixa-la para os outros e temos a responsabilidade diante de Deus de cuidar deste lugar que Ele criou.
 
Um problema do movimento ecologista é quando se coloca o ambiente acima do homem, o homem deve servir a natureza. Mas de acordo com o cristianismo, o homem se preocupa com o meio ambiente. Devemos ver o meio ambiente como um jardim para cuidar, cultivar, semear e fazer frutificar.
 
Zenit: Um tema complexo e muito discutido relacionado ao cuidado do meio ambiente é o aquecimento global. Por que falta formação a este respeito?
 
Em parte, porque é altamente politizado. Na maioria das vezes é usado como slogan político para punir as nações, para conter a inovação. Também porque há muito dinheiro que depende das decisões políticas que são tomadas. Outra razão é a política populacional que pretende limitar os nascimentos nos países em desenvolvimento, que continuam com projetos neo-malthusianos, condenados pelo Papa.
 
Não se trata de acreditar ou não nas mudanças climáticas e no aquecimento global, é um fato científico. O que nos diz o magistério é que devemos cuidar do meio ambiente e temos de ser cautelosos, também diante das ideologias políticas anti pessoas humanas que aproveitam desses perigos para promover programas contra a família e a vida humana.
 
Zenit: Este ano teremos a Encíclica do Papa Francisco sobre a ecologia, mas o que os outros documentos do Magistério falam sobre esta problemática?
 
Dos documentos sobre a Doutrina Social da Igreja me parece importante a Caritas in Veritate. Também a Centesimus Annus faz referência. Há também um documento do Pontifício Conselho para a Cultura e do Pontifício Conselho para o Diálogo Inter-religioso, que trata sobre interpretações espiritualistas neo-pagãs e da Nova Era e aborda especificamente a questão da água. Mas este será o primeiro documento pontifício dedicado inteiramente ao meio ambiente.
 
Zenit: Por que você acha que a ecologia não foi uma questão de grande preocupação para a Igreja?
 
Do ponto de vista filosófico e científico, apenas após a Segunda Guerra Mundial se começou a refletir sobre a relação entre o homem e o ambiente. 

Há um pensador muito importante chamado Hans Jonas, que escreveu um livro sobre o princípio da responsabilidade. Esta obra foi usada por muitos ambientalistas como linha guia metodológica, mas para a Igreja o foco é visto como um pouco exagerado, embora tenha ideias interessantes e profundas. 
 
O princípio da responsabilidade diz que não devemos fazer se não podemos provar que o que fazemos não terá um impacto muito negativo sobre o mundo. Este tipo de ‘prudência’ é muito conservadora e retarda a iniciativa, o empreendedorismo e a criatividade. Sem dúvidas, a Igreja tende a ver o homem de uma forma mais positiva, é verdade que existe o pecado, os riscos da tecnologia; mas a tecnologia também é uma fonte de iniciativas criativas e bem-estar para os homens. O progresso é positivo, mas deve ser bem utilizado. É importante pensar sobre questões como a reciclagem... 
 
A Igreja deve se preocupar com a formação da consciência moral das pessoas. Maltratar o meio ambiente é uma ofensa a Deus, porque Ele criou tudo isso, e também uma ofensa ao próximo.



 
Fonte: http://www.zenit.org/pt/articles/ecologia-e-necessario-ir-alem-das-discussoes-politizadas

17 de fevereiro de 2015

Sobre a nova encíclica papal a ser publicada em 2015

A nova encíclica papal abordará os cuidados com a criação e, possivelmente, estará disponível em meados de 2015, conforme podemos ler no trecho da entrevista publicada abaixo.
 
Não tenho cuidado muito do blog, mas as visitas continuam e agradeço a curiosidade dos que aqui "migram". Uma das maiores doenças espirituais me pegou "em cheio" - uma preguiça triste de quase quatro anos. Essa condição também reflete um pouco o posicionamento de muitos católicos que adoram postergar ações de conversão e resiliência às coisas do mundo, focando em Deus e no que nos solicita. Sem a Sua armadura (Ef 6, 11) ninguém resiste...

Minhas sinceras desculpas pelo hiato. E boas leituras!
 
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VIAGEM APOSTÓLICA DO PAPA FRANCISCO
AO SRI LANKA E ÀS FILIPINAS

(12-19 DE JANEIRO DE 2015)
ENCONTRO DO SANTO PADRE COM OS JORNALISTAS
DURANTE O VOO PARA MANILA
Quinta-feira, 15 de Janeiro de 2015

"[...] 
(Padre Lombardi)
 
"Obrigado. Então agora passemos às perguntas, para as quais se inscreveram os nossos colegas. O primeiro é Jerry O'Connell de America Magazine, que o Santo Padre conhece bem. A ele, a palavra".
 
(Jerry O'Connell)
 
"Antes de mais nada, concordo com o Padre Lombardi e dou-lhe os parabéns, Santo Padre, pelo sucesso da visita ao Sri Lanka. Apresento uma pergunta em nome do grupo inglês; pusemo-nos de acordo para lhe pôr uma questão-ponte, que ligue a visita ao Sri Lanka e a visita às Filipinas. No Sri Lanka, vimos a beleza da natureza, mas também a vulnerabilidade daquela ilha: desde as alterações climáticas até ao mar, etc. Estamos voando para as Filipinas e o Santo Padre visitará a área já atingida. Há mais de um ano que está a estudar a questão da ecologia e do cuidado da criação. Por isso, a minha pergunta prevê três aspectos. Primeiro: a alteração climática deve-se, principalmente, à obra do homem, à sua falta de cuidado pela natureza? Segundo: a sua Encíclica, quando sairá? Terceiro: o Santo Padre insiste muito, como vimos no Sri Lanka, sobre a cooperação entre religiões; porventura tem intenção de convidar as outras religiões a unirem-se para enfrentar este problema? Obrigado".

(Papa Francisco)
 
"Quanto à primeira pergunta, o senhor disse uma palavra – «principalmente» – que me poupa de fazer um esclarecimento. Totalmente, não sei; mas principalmente, em grande medida, é o homem que maltrata a natureza, continuamente. De certo modo assenhoreamo-nos da natureza, da irmã terra, da mãe terra. Lembro-me – já ouvistes isto – daquilo que um velho agricultor me disse uma vez: «Deus perdoa sempre, nós – os homens – algumas vezes, a natureza nunca». Se a maltratas, ela faz-to pagar. Creio que explorámos demasiadamente a natureza; as desflorestações, por exemplo. 
 
Recordo a Conferência da Aparecida: naquele tempo, eu não compreendia bem este problema e, quando ouvia os bispos brasileiros falar da desflorestação da Amazônia, não os conseguia entender bem. A Amazônia é um pulmão do mundo. Depois, há cinco anos, com uma comissão dos direitos humanos, fiz um recurso para o Supremo Tribunal da Argentina a fim de se suspender, no norte do país – na área norte de Salta, Tartagal –, pelo menos temporariamente, uma terrível desflorestação. 
 
Este é um aspecto; outro são as monoculturas. Por exemplo, os agricultores sabem que se pode cultivar o milho durante três anos, depois tem-se que parar e fazer outra cultura um ou dois anos para nitrogenizar a terra, senão a terra não faz crescer. Na Argentina, por exemplo, cultiva-se apenas soja e mais soja até a terra se esgotar. Nem todos fazem isto, mas é um exemplo entre muitos outros. 
 
Creio que o homem foi longe demais. Hoje, graças a Deus, levantam-se vozes, tantas, tantas que falam disto; neste momento, quero recordar o meu amado irmão Bartolomeu, que há anos prega sobre isto. Li muitas coisas dele para preparar esta Encíclica. Podia falar mais sobre isto, mas não quero alongar-me. 
 
Digo só isto! Guardini tem uma frase bastante esclarecedora. Diz ele: «a segunda forma de incultura, é a má. A primeira é a incultura em que recebemos a criação com a ordem de a tornar cultura; mas, quando o homem se assenhoreia em demasia e exorbita, esta cultura vira-se contra o homem». Pensemos em Hiroshima. Cria-se uma incultura, ou seja, a segunda.
 
Quanto à Encíclica: o primeiro projeto fê-lo o Cardeal Turkson com a sua equipe. Depois eu, com a ajuda de alguns, peguei e trabalhei nele. Em seguida, com alguns teólogos, fiz um terceiro projeto, enviando cópia à Congregação para a Doutrina da Fé, à Segunda Seção da Secretaria de Estado e ao Teólogo da Casa Pontifícia, pedindo que o estudassem bem para eu não dizer «tolices». Há três semanas, recebi as respostas, algumas muito longas, mas todas construtivas. E agora vou reservar uma semana inteira de março para a concluir. Creio que, no final de março, estará concluída, passando-se às traduções. 
 
Penso que, se o trabalho de tradução correr bem – Mons. Becciu está a ouvir-me; ele tem que contribuir para isso –, se tudo correr bem, em junho/julho poderá sair. Importante é que transcorra um pouco de tempo entre a saída da Encíclica e o encontro de Paris, para que lhe sirva de contribuição. O encontro do Peru não foi de grande valor. Fiquei desiludido com a falta de coragem: chegados a determinado ponto, pararam. Esperemos que em Paris os representantes sejam mais corajosos para avançar sobre este assunto.
 
Quanto à terceira pergunta, creio que o diálogo entre as religiões é importante a propósito disto. As outras religiões têm uma boa perspectiva. Inclusive sobre este ponto, há um acordo para se ter o mesmo ponto de vista. Ainda não aparece na Encíclica. Na realidade, falei com algumas pessoas doutras religiões sobre o tema e sei que o Cardeal Turkson também o fez, e o mesmo fizeram pelo menos dois teólogos: este é o caminho feito. A Encíclica não será uma declaração conjunta. Os encontros virão depois".
 
(Padre Lombardi)
 

29 de agosto de 2014

Nômades? Não, refugiados e precisando de nossa ajuda material e espiritual.

Tenho acompanhado apreensiva as notícias que nos chegam a todo momento pela internet sobre perseguições e massacres de cristãos. Me dói o silêncio tácito das redes de jornalismo e o que mais me assusta é o fato de que a imensa massa de pessoas não-cristãs que professam credos diferentes dos nossos, mas que se auto-intitulam como "pessoas de bem", não se sensibilizam. "De bem" para quem?

Também é verdade que a indignação deveria ser visceral, daquela de sentir nos ossos, por todos irmãos na fé. Me dói muito mais o silêncio covarde de muitos cristãos que não sofrem na pele qualquer perseguição e nem se comovem além das bonitas frases de efeito nas redes sociais.

Nossas "armas" serão o protesto pelas redes sociais (se já não nos restam as ruas), a doação de verbas como auxílio à rede de solidariedade montada e orações, muitas orações. E se você não orar pelo irmão que sofre longe, não reclame se acontecer o mesmo quando chegar sua vez. 

Quem desejar doar verbas - para auxiliar às seguintes instituições católicas presentes no Iraque - bastará procurar o banner específico no menu à direita:

  •  a Caritas Internationalis (informar a ajuda para a Caritas Iraq);
  •  a Fundação de Direito Pontifício "Ajuda à Igreja que Sofre - AIS";
  •  a Catholic Relief Services - CRS (membro da Caritas Internationalis);

Um afetuoso "Muito obrigada" a todos e que Deus os abençoe!

WE ARE CHRISTIANS!
(and I'm proud to be one of His lambs)

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O Papa telefona para um sacerdote iraquiano do campo de refugiados de Ankawa, Iraque.


"Uma carta de lágrimas" - este foi o título que o Pe. Behnam Benoka deu à carta que escreveu ao Papa Francisco. O sacerdote explicou a ZENIT que aproveitou a presença do amigo jornalista Alan Holdren, no voo pontifício de volta da Coreia do Sul, para enviar a carta ao papa através do Viber, um aplicativo de mensagens para telefones celulares inteligentes. O jornalista transcreveu a carta em papel e o entregou ao Santo Padre.

 
No texto, o sacerdote se dirige ao papa dizendo: 

 
"Ao Santo Padre, nosso pastor misericordioso,

Meu nome é Behnam Benoka, sacerdote de Bartella, uma pequena cidade cristã perto de Mossul. Sou vice-reitor do seminário católico de Ankawa. Mas hoje estou em uma barraca que montamos junto com uma equipe de médicos e voluntários para dar assistência médica aos nossos irmãos que estão desabrigados por causa da perseguição.
Santidade, a situação das suas ovelhas é miserável. Eles morrem e têm fome. Seus pequenos têm medo e não aguentam mais. Nós, sacerdotes, religiosos e religiosas, somos poucos e tememos não conseguir responder às exigências físicas e psíquicas dos filhos deles, que também são nossos.
Quero lhe agradecer muito, muitíssimo mesmo, por nos manter sempre no seu coração. Coloque-nos no altar em que celebra a missa para que Deus cancele os nossos pecados e tenha misericórdia de nós, e, talvez, afaste de nós este cálice.
Escrevo com as minhas lágrimas, porque estamos em um vale escuro no meio de uma grande alcateia de lobos ferozes. Santidade, tenho medo de perder os seus pequenos, em especial os recém-nascidos que, a cada dia, se cansam e se debilitam mais; temo que a morte leve embora alguns deles. 
Mande-nos a sua bênção para termos a força de seguir em frente e, quem sabe, resistir ainda mais. 
 
Com profundo amor, 
 
Behnam Benoka"

A resposta do Papa Francisco não demorou. De volta à Itália, na manhã do dia 19 de agosto, o papa telefonou para o Pe. Behnam expressando a sua profunda comoção com a carta recebida. Conforme as declarações do sacerdote, o papa lhe manifestou a sua profunda gratidão pelo trabalho dos voluntários nos campos de refugiados.
 
Na conversa telefônica, o Papa Francisco confirmou o seu pleno apoio e a sua proximidade dos cristãos perseguidos, prometendo que continuará fazendo todo o possível para dar alívio ao sofrimento deles. Ao se despedir, o Santo Padre deu a bênção apostólica e rogou que nosso Senhor dê a esses irmãos o dom da perseverança na fé.

18 de agosto de 2014

Papa Francisco - Excerto de homilia realizada em 26.07.2014 no Parque do Palácio Real de Caserta

"[...] Vós podereis perguntar-me: "Como se encontra o reino de Deus?". Cada um de nós tem um percurso particular, cada um de nós tem o próprio caminho na vida. Para alguns o encontro com Jesus é esperado, desejado, procurado por muito tempo, como demonstra a parábola do comerciante que viaja pelo mundo para encontrar algo de valor. 

Para outros acontece de repente, quase por acaso, como na parábola do agricultor. Isto recorda-nos que Deus se deixa encontrar seja como for, porque Ele é o primeiro que deseja encontrar-nos e procura encontrar-nos: veio para ser o «Deus conosco». E Jesus está entre nós, Ele está aqui hoje. Foi Ele quem o disse: "Quando estais reunidos em meu nome, Eu estou no meio de vós". 

O Senhor está aqui, está conosco, está no meio de nós! É Ele que nos procura, é Ele que se faz encontrar também por quem não o procura. Por vezes, Ele deixa-se encontrar nos lugares incomuns e em tempos inesperados. Quando encontramos Jesus ficamos fascinados, conquistados, e é uma alegria deixar o nosso habitual modo de viver, muitas vezes árido e apático, para abraçar o Evangelho, para nos deixarmos guiar pela lógica nova do amor e pelo serviço humilde e desinteressado. A Palavra de Jesus, o Evangelho. 

Faço-vos uma pergunta, mas não quero que respondais: "Quantos de vós leem um trecho do Evangelho todos os dias? Mas quantos, talvez, se apressam para terminar o trabalho para não perder a telenovela"... Ter o Evangelho nas mãos, ter o Evangelho na bolsa, ter o Evangelho no bolso e abri-lo para ler a Palavra de Jesus: assim vem o reino de Deus. O contato com a Palavra de Jesus aproxima-nos do reino de Deus. Pensai bem: um Evangelho pequeno sempre à mão, abre-se numa página qualquer e lê-se o que diz Jesus, e Jesus está ali.

"O que é necessário fazer para possuir o reino de Deus?"

Sobre este ponto Jesus é muito explícito: não é suficiente o entusiasmo, a alegria da descoberta. É preciso antepor a pérola preciosa do reino a qualquer outro bem terreno; é necessário colocar Deus em primeiro lugar na nossa vida, preferi-lo antes de tudo. Dar a primazia a Deus significa ter a coragem de dizer não ao mal, não à violência, não às vexações, para levar uma vida de serviço aos outros e a favor da legalidade e do bem comum. 

Quando uma pessoa descobre Deus, o verdadeiro tesouro, abandona um estilo de vida egoísta e procura compartilhar com o próximo a caridade que vem de Deus. Quem se torna amigo de Deus, ama os irmãos, compromete-se para salvaguardar a sua vida e a sua saúde, respeitando o meio ambiente e a natureza. 

Sei que vós sofreis por causa disto. Hoje, quando cheguei, um de vós aproximou-se e disse-me: "Padre, dê-nos a esperança". Mas eu não posso dar-vos a esperança, eu posso dizer-vos que onde está Jesus ali está a esperança; onde está Jesus os irmãos amam-se, as pessoas comprometem-se para preservar a sua vida e a sua saúde, respeitando também o meio ambiente e a natureza. 

Esta é a esperança que nunca desilude, aquela que dá Jesus! Isto é particularmente importante nesta vossa bela terra, que deve ser tutelada e preservada, que exige a coragem de dizer não a qualquer forma de corrupção e de ilegalidade — todos sabemos o nome destas formas de corrupção e de ilegalidade — exige que todos sejam servidores da verdade e adquiram em todas as situações o estilo de vida evangélico, que se manifesta no dom de si e na atenção ao pobre e ao excluído. 

Acolher o pobre e o excluído! A Bíblia está cheia destas exortações. O Senhor diz: "Vós fazeis isto e aquilo, não me importa, a mim interessa que o órfão esteja seguro, que a viúva seja curada, que o excluído seja acolhido, que a criação seja preservada". Este é o reino de Deus! [...]".